segunda-feira, 9 de julho de 2012

Uma Avenida Que Não É Brasil



Amigos Blogueiros e Amantes da Cultura e do Esporte, este é um texto para uma reflexão conjunta. Não se trata de “apelo regionalista”, mas percebo uma falta de equilíbrio nas ações e posturas, que nos permitam respeitar efetivamente a diversidade. Nada mais do que isso.  Alfredo Bertini


Uma Avenida Que Não É Brasil
Uma Reflexão da Realidade Televisiva através das Novelas e do Futebol

Alfredo Bertini

Que a novela “Avenida Brasil” tem sido mais uma prova de conhecimento tecnológico e de domínio de produção da Rede Globo, isso é um fato concreto e para mim digno de todos os elogios. Nesse campo, não consigo me desvencilhar do empreendedorismo e da competência profissional, elementos que projetam a Globo como uma referência mundial, em termos de indústria audiovisual. De fato, tudo é mesmo realizado com muito esmero, algo bem disseminado pelo chamado padrão Globo de qualidade.  E em matéria de produção de novelas, não há nada igual, que possa ser visto com esse mesmo padrão, na televisão que se difunde e se vê pelo mundo. No entanto, a questão que mereceria uma reflexão mais atenta, inclusive da parte da própria emissora, diz respeito a um velho tema associado ao conteúdo de exibição. Não intenciono aqui inserir qualquer discussão política sobre o raro espaço da produção independente. O propósito não é esse. Prefiro expor outra questão sobre o conteúdo, agora oriunda de algumas referências do próprio “padrão Globo de qualidade”.  Para isso, a atual novela das 9 horas, “Avenida Brasil”, pode-me servir de parâmetro, apenas para o que pretendo aqui por em discussão.

Numa primeira percepção sobre o que pode induzir o título da novela, a questão a destacar é que a denominação “Brasil” poderia - num primeiro momento - dá uma conotação da “realidade brasileira”, uma espécie de extrato social segmentado, dado esse universo plural que é a “cara do Brasil”. Contudo, apesar da trama muito bem elaborada e que prende a atenção do espectador, a novela repete a singularidade das inúmeras “produções da casa”, que insiste em enxergar a “realidade carioca” como se esta pudesse ser uma bela amostragem desse caleidoscópio chamado Brasil. Ou seja, a “avenida” que poderia mesmo expressar uma face bem mais brasileira, não esconde mesmo sua intenção de mostrar o “carioca way of life”.  E mesmo que a temática traga o interessante aspecto dos emergentes, da recente ascensão social das classes C e D, o fato é que a essência é típica e unicamente carioca. Não há como esconder essa realidade. Até mesmo em outras produções passadas, quando se via uma associação ao modus vivnedi da classe média, o retrato era o da Zona Sul do Rio, captado através das lentes do Leblon, de Ipanema ou da Barra.  E por mais que a trama fosse típica da classe média, o certo é que essa realidade carioca não poderia ter sido extrapolada para bairros e/ou comunidades semelhantes, em metrópoles como Porto Alegre, Belo Horizonte ou Recife. O viés cultural é outro, absolutamente diferente em cada metrópole.

É evidente que não há como negar a importância dos valores culturais “desse jeito carioca de ser”. Afinal, o Rio de Janeiro representa um traço marcante da própria cultura do país. O que me incomoda, particularmente, é esse “esforço” de universalizar os padrões culturais, como se fosse possível fazer com que todos pudessem “calçar apenas o número 40”.  Naturalmente, que não só os pés de cada um são desiguais, pois ainda bem que, na essência, somos cidadãos bastante diferentes, com hábitos e costumes de enorme variedade. Mesmo que sustentado por uma unidade lingüística fabulosa, temos que reconhecer nossas diferenças como uma riqueza ímpar, capaz de invejar quem não as têm.

Diante dessa configuração, seria natural se buscar fórmulas e modelos que permitissem preservar esse valor, que se expressa num patrimônio imaterial que como diz a campanha de certo cartão de crédito: não tem preço. Portanto, uma novela com a aceitação e o reconhecimento de “Avenida Brasil”, poderia contar com um conceito ainda mais ampliado, caso levasse em conta toda diversidade desses valores. Não me parece um fato louvável constatar que muitos dos seus personagens entoam vozes e exercitam hábitos que são exageradamente cariocas, em vez de se buscar posturas um pouco mais equilibradas, diria que “universais”, para que pudessem ser refletidas em qualquer cidadão brasileiro, em qualquer grande cidade. Assim, a música, os prazeres gastronômicos, as preferências pelos clubes de futebol, tudo é desencadeado como se o Rio de Janeiro fosse uma “amostra perfeita do Brasil”. Essa falha está tão gritante, que até mesmo personagens imigrantes esquecem seus sotaques convencionais. Basta ver o “palavreado” da “boliviana periguete” da própria novela “Avenida Brasil”, que parece ter assimilado rapidamente a maneira carioca de se falar, em pleno subúrbio.  Numa outra perspectiva, em plena ficção da releitura televisiva de “Gabriela” – e justo na Bahia de Amado – e estranho acompanhar o “turco Nacib” num palavreado “meio carioca de ser”, que nada tem a ver. Nem com o sotaque turco. Nem com o sotaque da “boa terra”.


Se extrapolarmos essa abordagem para o aspecto cultural do futebol, por exemplo, o assunto ganha uma dimensão muito maior e muito mais preocupante. Não são apenas os personagens das novelas os que exprimem suas preferências, notórias com o trajar das camisas, o falar ou o posicionamento estratégico em cena, de bandeiras ou outros objetos dessa paixão de torcedor. Até fora da ficção, dentro da própria programação jornalística, cansamos de assistir “cenas explícitas” de preferências tendenciosas. Pode-se chegar a casos de fanatismo ou ufanismo, fora de qualquer consideração e respeito às demais torcidas. Se já não bastasse a injusta forma de distribuição dos recursos da própria televisão, enquanto maior fonte de recursos injetados no futebol, ainda ter que tolerar “excessos” sutilmente colocados no bojo de toda programação, termina sendo uma afronta. Recentemente, num dos portais mais demandados do país, uma matéria expôs que num levantamento feito pelo controle de qualidade da concorrência, no dia seguinte ao da conquista do Corinthians, foi dedicado pela Globo algo como 48% da sua programação, apenas para repercutir o fato.

Em suma: na ficção, excessos na forma de personagens-torcedores que incorporam seus momentos de paixão carioca, quase sempre na condição de flamenguistas. No jornalismo: excesso de jornadas esportivas, com transmissões quase exclusivas de cubes cariocas e paulistas, numa demonstração subliminar de efetivação de um poder de domínio destes clubes sobre o “mercado”. Às culturas regionais, representadas pelos “torcedores periféricos”, só lhes restam o caminho do cadafalso.

Essa maneira de se enxergar o Brasil somente pelas lentes do eixo penso que seja a preocupação maior expressa diariamente pelo conteúdo televisivo. O nosso país é muito grande e tão diferenciado, que tratá-lo nessa essência é um verdadeiro atentado cultural. Um fenômeno que pode  ser mortal, pois pode nos levar a perder os tantos sentidos de uma identidade cultural tão valiosa.

Alfredo Bertini é economista, produtor cultural e desportista.

ilustração: Bola Murcha -  Joba Tridente
foto: Avenida Brasil - (?) web


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