domingo, 14 de outubro de 2018

Franz Kafka: Cinco Aforismos


Em novembro de 2012 publiquei, aqui no Falas ao Acaso, dois Aforismos de Franz Kafka, no original e em tradução do escritor catarinense Silveira de Souza para o português brasileiro. Dia desses, relendo o material em arquivo, decidi publicar mais cinco Aforismos de Kafka. Agora, além do original e das traduções do escritor e tradutor catarinense Silveira Souza, posto também as traduções feitas pelo filósofo, ensaísta e tradutor espanhol José Rafael Hernández Arias, publicadas em Franz Kafka - Aforismos, visiones y sueños (Lectulandia, 1998).



Cinco Aforismos de Franz Kafka

01. Der wahre Weg geht über ein Seil, das nicht in der Höhe gespannt ist, sondern knapp über dem Boden. Es scheint mehr bestimmt stolpern zu machen, als begangen zu werden.

01. O caminho verdadeiro segue por sobre uma corda, que não está esticada no alto, mas se estende quase rente ao chão. Parece mais determinado a fazer tropeçar, do que a ser transitável.

01. El camino verdadero transcurre sobre una cuerda que no ha sido tendida en las alturas, sino apenas a escasa distancia del suelo. Parece haber sido dispuesta para tropezar antes que para pasar sobre ella.

***

05. Von einem gewissen Punkt an gibt es keine Rückkehr mehr. Dieser Punkt ist zu erreichen.

05. A partir de um certo ponto não há mais retorno. Esse é o ponto que deve ser alcançado.

05. Si se llega a un punto determinado, ya no hay regreso posible. Hay que
alcanzar ese punto.

*** 

15. Wie ein Weg im Herbst: kaum ist er rein gekehrt, bedeckt er sich wieder mit den trockenen Blättern.

15. Como um caminho no outono: mal é varrido para limpeza, cobre-se de novo de folhas secas.

15. Como un camino en otoño: tan pronto como se barre, vuelve a cubrirse de hojas secas.

***

36. Früher begriff ich nicht, warum ich auf meine Frage keine Antwort bekam, heute begreife ich nicht, wie ich glauben konnte fragen zu können. Aber ich glaubte já gar nicht, ich fragte nur.

36. No passado eu não compreendia porque não encontrava respostas às minhas perguntas; hoje não compreendo como podia acreditar que pudesse perguntar. Entretanto, eu não acreditava, perguntava somente.

36. Antes no entendía por qué no recibía ninguna respuesta a mi pregunta, hoy no comprendo cómo pude creer que podía preguntar. Pero antes no creía en absoluto, sólo preguntaba.

 ***

47Es wurde ihnen die Wahl gestellt Könige oder der Könige Kuriere zu werden. Nach Art der Kinder wollten alle Kuriere sein. Deshalb gibt es lauter Kuriere, sie jagen durch die Welt und rufen, da es keine Könige gibt, einander selbst die sinnlos gewordenen Meldungen zu. Gerne würden sie ihrem elenden Leben ein Ende machen, aber sie wagen es nicht wegen des Diensteides.

47. Foi dada a eles a escolha de se tornarem reis ou mensageiros de reis. Com a ingenuidade das crianças todos escolheram ser mensageiros. Eis porque só existem mensageiros, que correm pelo mundo e, como não há mais reis, gritam uns para os outros mensagens que não têm mais sentido.

47. Se les concedió la facultad de elegir entre ser reyes o mensajeros de los reyes. Como los niños, eligieron ser mensajeros. Por esta causa hay mensajeros vocingleros que recorren el mundo y, como ya no hay reyes, intercambian entre ellos mismos las noticias carentes de sentido. Con placer pondrían fin a sus vidas miserables, pero no osan hacerlo por el juramento profesional.


ilustração: desenho original de Franz Kafka


Franz Kafka (Praga-República Checa: 03.07.1883 - Klosterneuburg-Áustria: 03.08.1924), com formação em direito e trabalhando em uma companhia de seguros, começou a escrever em suas horas vagas, que reclamava serem poucas para se dedicar ao “seu chamado literário”. Kafka, que é considerado um dos mais influentes autores do séc. XX, cresceu sob as influências das culturas judia, tcheca e alemã, publicou A Metamorfose (1915), Carta a meu Pai (1919), Na Colônia Penal (1919), Um Médico Rural (1919), Um Artista da Fome (1922)..., sem muita repercussão. A fama veio logo após a sua morte, com o patrocínio de seu amigo Max Brod para o lançamento de O Processo (1925); O Castelo (1926); O Desaparecido (1927); A Grande Muralha da China (1931). Para saber muito mais: Wikipédia: Franz Kafka; El País: Franz Kafka;  Almanaque Folha.UOL: Franz Kafka; Cultura Genial: Livro A Metamorfose de Franz Kafka; CULT: Franz Kafka; Revista Bula: Meus Encontros com Kafka; Scielo: Kafka, Benjamin: o natural e o sobrenatural; Revista Serrote: Os Aforismos reunidos de Franz Kafka; Revista Terceira Margem: Quatro glosas a Kafka; Revista USP: Franz Kafka: Raízes; NCBI: Franz Kafka (1883-1924); Biblioteca Digital de Teses e Dissertações: As múltiplas religiosidades na literatura de Franz Kafka; Periódicos UFPB: Franz Kafka; Guimarães Rosa; Sociedade do Controle Integrado; France Culture: Franz Kafka (1883 - 1924): l'étrange étranger.

João Paulo Silveira de Souza (Florianópolis-SC, 27.07.1933) é jornalista, tradutor e escritor brasileiro. Entre outras atividades educacionais e culturais, foi diretor do mensário de literatura e arte Roteiro; diretor da Divisão de Informação e Divulgação do Departamento de Extensão Cultural da UFSC e coordenador das seguintes Edições FCC da Fundação Catarinense de Cultura: Boi-de-Mamão (79 a 81); Cadernos da Cultura Catarinense (84-85) e Escritores Catarinenses (90-91); Dirigiu o grupo teatral TESC (Teatro Experimental de SC); Integrante do Círculo de Arte Moderna conhecido como Grupo O Sul, movimento literário e artístico Modernista, Silveira de Souza, escritor eleito para a cadeira 33 da Academia Catarinense de Letras, é autor de O Vigia e a Cidade (1960); Uma Voz na Praça (1962); Rumor de Folhas (1966); Quatro Alamedas (1976); Os Pequenos Desencontros (1977); O Cavalo em Chamas (1981); Canário de Assobio (1985); Ybris (1989); Um ônibus e Quatro Destinos (1984); Relatos Escolhidos (1998); Trololó para Flauta e Cavaquinho (1999); Contas de Vidro (2002); Janela de Varrer (2006); Ecos no porão: contos selecionados pelo autor (2010-2011). Para saber mais: Ecos no Porão, obra maior de Silveira de Souza; Contista Silveira de Souza lança duas obras pela editora da UFSC.

José Rafael Hernández Arias é advogado, filósofo, ensaísta e tradutor espanhol. Autor de inúmeros artigos sobre a cultura alemã e anglo-saxã, é tradutor, entre outros de Friedrich Nietzsche, Arthur Schopenhauer, Max Stirner, Franz Kafka, Thomas de Quincey, Jean Gebser, GK Chesterton, Gustav Meyrink, E.T.A Hoffman, Hanns Heinz Ewers, Kar Hans Strobl, F. Adolph Knigge, Georg Christoph Lichtenberg, Georg Simmel, Oscar Wilde, Paul Creswick, Herman Melville. Infelizmente não encontrei outras informações além destas na web, sobre o tradutor Caso saiba de algo mais, entre em contato.

domingo, 9 de setembro de 2018

Augusto Monterroso: El decálogo del escritor


Hoje, no Falas ao Acaso, o espaço é muito bem preenchido pela excelência e humor de El decálogo del escritor (que, em vez de 10, traz 12 conselhos, com a sugestão de que o escritor elimine dois, a seu critério), do genial autor hondurenho Augusto Monterroso (1921-2003)..., o mestre de minificções (onde não faltam ironia, nonsense e humor negro) como o antológico Dinossauro: Quando acordou o dinossauro ainda estava lá (de Obras Completas (y otros cuentos), 1959), que mereceu inúmeras traduções, presença garantida nas mais importantes antologias internacionais de contos curtos e também análise crítica do pesquisador e ensaísta mexicano Lauro Zavala em El dinosaurio anotado (2002).

El decálogo del escritor, que trouxe do site La Tinta Invisible, editado pelo escritor venezuelano José Gregorio González Márquez, foi publicado originalmente na novela Lo demás es silencio (O resto é silêncio, 1978), de Augusto Monterroso, como dica do personagem/escritor Eduardo Torres. Uma vez que o espanhol me pareceu facilmente compreensível, optei por não traduzir e ou buscar alguma tradução para o português.



El decálogo del escritor
Augusto Monterroso

Primero
Cuando tengas algo que decir, dilo; cuando no, también. Escribe siempre.

Segundo
No escribas nunca para tus contemporáneos, ni mucho menos, como hacen tantos, para tus antepasados. Hazlo para la posteridad, en la cual sin duda serás famoso, pues es bien sabido que la posteridad siempre hace justicia.

Tercero
En ninguna circunstancia olvides el célebre díctum: “En literatura no hay nada escrito”.

Cuarto
Lo que puedas decir con cien palabras dilo con cien palabras; lo que con una, con una. No emplees nunca el término medio; así, jamás escribas nada con cincuenta palabras.

Quinto
Aunque no lo parezca, escribir es un arte; ser escritor es ser un artista, como el artista del trapecio, o el luchador por antonomasia, que es el que lucha con el lenguaje; para esta lucha ejercítate de día y de noche.

Sexto
Aprovecha todas las desventajas, como el insomnio, la prisión, o la pobreza; el primero hizo a Baudelaire, la segunda a Pellico y la tercera a todos tus amigos escritores; evita pues, dormir como Homero, la vida tranquila de un Byron, o ganar tanto como Bloy.

Séptimo
No persigas el éxito. El éxito acabó con Cervantes, tan buen novelista hasta el Quijote. Aunque el éxito es siempre inevitable, procúrate un buen fracaso de vez en cuando para que tus amigos se entristezcan.

Octavo
Fórmate un público inteligente, que se consigue más entre los ricos y los poderosos. De esta manera no te faltarán ni la comprensión ni el estímulo que emana de estas dos únicas fuentes.

Noveno
Cree en ti, pero no tanto; duda de ti, pero no tanto. Cuando sientas duda, cree; cuando creas, duda. En esto estriba la única verdadera sabiduría que puede acompañar a un escritor.

Décimo
Trata de decir las cosas de manera que el lector sienta siempre que en el fondo es tanto o más inteligente que tú. De vez en cuando procura que efectivamente lo sea; pero para lograr eso tendrás que ser más inteligente que él.

Undécimo
No olvides los sentimientos de los lectores. Por lo general es lo mejor que tienen; no como tú, que careces de ellos, pues de otro modo no intentarías meterte en este oficio.

Duodécimo
Otra vez el lector. Entre mejor escribas más lectores tendrás; mientras les des obras cada vez más refinadas, un número cada vez mayor apetecerá tus creaciones; si escribes cosas para el montón nunca serás popular y nadie tratará de tocarte el saco en la calle, ni te señalará con el dedo en el supermercado.

Nota Final
El autor da la opción al escritor de descartar dos de estos enunciados y quedarse con los restantes diez.


*
ilustração: Joba Tridente.2018


Augusto Monterroso Bonilla (Tegucigalpa, Honduras, 21.12.1921 - Cidade do México, 07.02.2003): escritor e ensaísta hondurenho nacionalizado guatemalteco. Mestre dos contos curtos (ou breves), Monterroso, que foi secretário particular de Pablo Neruda (1904-1973), começou a publicar seus escritos em 1959, no México, onde fixou morada em 1956, com Obras Completas (y otros cuentos)..., seguidos de La oveja negra y demás fábulas (1969); Movimiento perpetuo (contos, ensaios e aforismos, 1972); Lo demás es silencio (novela, 1978); Viaje al centro de la fabula (entrevistas, 1981); La palabra mágica (contos y ensaios, 1983); La letra e: fragmentos de un diário (1987); Los buscadores de oro (autobiografia, 1993); La vaca (ensaios, 1996); Pájaros de Hispanoamérica (antologia, 1998); Literatura y vida (contos y ensaios, 2001). Augusto Monterroso recebeu os seguintes prêmios: Magda Donato (1970); Prémio Xavier Villaurrutia, por Antologia Pessoal (1975); Águia Asteca , por contribuição à cultura do México; Premio FIL de Literatura em Línguas Românicas (México, 1996);  Premio Nacional de Literatura "Miguel Ángel Asturias" (1997), concedido pelo Ministério da Cultura e Esportes da Guatemala;  Premio Príncipe de Astúrias (2000), em reconhecimento a toda sua carreira. Para saber mais: Centro Virtual Cervantes: Augusto Monterroso - Biografia; Club de Lectores: Augusto Monterroso (1921-2003); gipuzkoakultura.net: Biografia de Augusto Monterroso; Revista Voos: El Cuento Corto: Augusto “Tito” Monterroso Bonilla; Literatura Guatemalteca: Monterroso;  El Mundo: Augusto Monterroso, maestro del cuento; Prensa Libre: Augusto Tito Monterroso: un escritor revolucionário; César Valencia Solanilla: Augusto Monterroso ensayista: la estética de la brevedad; Ramos Martínez, Yessenia Beatriz: Características del microrrelato en la cuentística de Augusto Monterroso; Joseph Wager: Notas desde la alegre complejidad: la ética del sistema literario de Augusto Monterroso; Berta Zabaleta Catón: La relación entre la vida y la producción literaria de Augusto Monterroso; Digestivo Cultural: O dinossauro de Augusto Monterroso.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Gabriela Mistral: Todas íamos ser rainhas


A escritora chilena Gabriela Mistral foi a primeira autora latino-americana a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, em 1945. Os escritores só começaram a compor a lista vinte e dois anos depois, com o guatemalteco Miguel Ángel Asturias (1899-1974), em 1967; o chileno Pablo Neruda (1904-1973), em 1971, o colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014), em 1982; o mexicano Octavio Paz (1914-1998), em 1990; o peruano Mario Vargas Llosa (1966), em 2010. Diplomata, feminista e pedagoga, Gabriela Mistral (1889-1957), cujo retrato ilustra a nota de cinco mil pesos chilenos, é dona de uma poesia pungente (mas sem perder o lirismo ao falar de amor e ou de dor) e de uma prosa incômoda e reflexiva (ao abordar temas relacionados à educação e ao papel da mulher e do índio na sociedade, principalmente na América Latina). Há um bom material, na internet, sobre a autora do premiado Sonetos de La Muerte, Tala e Desolación..., veja alguns links na sua biografia abaixo.

Para esta breve homenagem a Gabriela Mistral selecionei quatro poemas, que serão publicados (um a cada dia) ao longo da semana, no original espanhol e em tradução para o português. O primeiro foi Medo. O segundo foi A Terra. O terceiro foi Gotas de Fel. Encerro com o belíssimo poema-prosa Todas íbamos a ser reinas, ou Todas íamos ser rainhas, em tradução cativante da escritora brasileira Henriqueta Lisboa.., presente em Poemas escolhidos de Gabriela Mistral (Delta, 1969).


                  

Todas íbamos a ser reinas
Gabriela Mistral

Todas íbamos a ser reinas,
de cuatro reinos sobre el mar:
Rosalía con Efigenia
y Lucila con Soledad. 

En el valle de Elqui, ceñido
de cien montañas o de más,
que como ofrendas o tributos
arden en rojo y azafrán,

Lo decíamos embriagadas,
y lo tuvimos por verdad,
que seríamos todas reinas
y llegaríamos al mar.

Con las trenzas de los siete años,
y batas claras de percal,
persiguiendo tordos huidos
en la sombra del higueral,

De los cuatro reinos, decíamos,
indudables como el Korán,
que por grandes y por cabales
alcanzarían hasta el mar.

Cuatro esposos desposarían,
por el tiempo de desposar,
y eran reyes y cantadores
como David, rey de Judá.

Y de ser grandes nuestros reinos,
ellos tendrían, sin faltar,
mares verdes, mares de algas,
y el ave loca del faisán.

Y de tener todos los frutos,
árbol de leche, árbol del pan,
el guayacán no cortaríamos
ni morderíamos metal.

Todas íbamos a ser reinas,
y de verídico reinar;
pero ninguna ha sido reina
ni en Arauco ni en Copán. 

Rosalía besó marino
ya desposado en el mar,
y al besador, en las Guaitecas,
se lo comió la tempestad.

Soledad crió siete hermanos
y su sangre dejó en su pan,
y sus ojos quedaron negros
de no haber visto nunca el mar.

En las viñas de Montegrande,
con su puro seno candeal,
mece los hijos de otras reinas
y los suyos no mecerá.

Efigenia cruzó extranjero
en las rutas, y sin hablar,
le siguió, sin saberle nombre,
porque el hombre parece el mar.

Y Lucila, que hablaba a río,
a montaña y cañaveral,
en las lunas de la locura
recibió reino de verdad.

En las nubes contó diez hijos
y en los salares su reinar,
en los ríos ha visto esposos
y su manto en la tempestad.

Pero en el Valle de Elqui, donde
son cien montañas o son más,
cantan las otras que vinieron
y las que vienen cantarán:

?«En la tierra seremos reinas,
y de verídico reinar,
y siendo grandes nuestros reinos,
llegaremos todas al mar».



Todas íamos ser rainhas
Gabriela Mistral
tradução: Henriqueta Lisboa

Todas íamos ser rainhas
de quatro reinos sobe o mar:
Rosália com Efigênia
e Lucila com Soledade.

Lá no vale de Elqui, cingido
por cem montanhas, talvez mais,
que com dádivas ou tributos
ardem em rubro ou açafrão,

nós dizíamos embriagadas
com a convicção de uma verdade,
que havíamos de ser rainhas
e chegaríamos ao mar.

Com aquelas tranças de sete anos
e camisolas de percal,
perseguindo tordos fugidos
sob a sombra do figueiral,

dizíamos que nos nossos reinos,
dignos de fé como o Corão,
seriam tão perfeitos e amplos
que se entenderiam ao mar.

Quatro esposos desposaríamos
quando o tempo fosse chegado,
os quais seria reis e poetas
como David, rei de Judá.

E por serem grandes os reinos
eles teriam, por sinal,
mares verdes, repletos de algas
e a ave selvagem do faisão.

Por possuírem todos os frutos,
a árvore do leite e do pão,
o guaiaco não cortaríamos
nem morderíamos metal.

Todas íamos ser rainhas
e de verídicos reinar;
porém nenhuma foi rainha
nem no Arauco nem em Copásn…

Rosália beijou marinheiro
que já tinha esposado o mar,
e ao namorador nas Guaitecas
devorou-o a tempestade.

Sete irmãos criou Soledade
e seu sangue deixou no pão.
E seus olhos quedaram negros
de nunca terem visto o mar.

Nos vinhedos de Montegrande
ao puro seio de trigal,
nina os filhos de outras rainhas
porém os seus nunca, jamais.

Efigênia achou estrangeiro
no seu caminho e sem falar
seguiu-o sem saber-lhe o nome
pois o homem se assemelha ao mar.

Lucila que falava ao rio,
às montanhas e aos canaviais,
esta, nas luas da loucura
recebeu reino de verdade.

Entre as nuvens contou dez filhos,
fez nas salinas seu reinado,
viu nos rios os seus esposos
e seu manto na tempestade.

Porém lá no vale de Elqui,
onde há cem montanhas ou mais,
cantam as outras que já vieram,
como as que vieram cantarão:

Na terra seremos rainhas
e de verídico reinar,
e sendo grandes os nossos reinos,
chegaremos todas ao mar.

*
ilustração de Joba Tridente.2018


Gabriela Mistral (nasceu Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga em Vicuña/Chile: 07.04.1889 e morreu em Nova York/EUA: 10.01.1957) foi educadora, diplomata, feminista e escritora agraciada com o Nobel de Literatura de 1945. O pseudônimo Gabriela Mistral, em homenagem aos poetas Gabriele D’Annunzio (italiano) e Frédéric Mistral (francês), nasceu em 1914, ao ganhar o Concurso de Poesia Juegos Florais de Santiago com Sonetos de La Muerte. Em 1922 publicou seu primeiro livro de poesias, Desolación, ano em que foi convidada pelo Ministério da Educação do México a trabalhar nos Planos de Reforma Educacional, tornando-se referência em pedagogia. Gabriela foi Secretária do Instituto de Coperación Intelectual de la Sociedade de Naciones e Consulesa do Chile e também redatora da revista El Tiempo, de Bogotá e escreveu para o Jornal do Brasil. Viajou pela Europa, Estados e América Latina representando seu país e ou orientando conferências culturais. Seus poemas são pungentes e tematizam tanto o amor quanto a dor. A sua bibliografia traz os seguintes títulos: Desolación (1922); Lectura para mujeres (1924); Ternura (1924); Tala (1938); Lagar (1954); Recados contando a Chile (1957); Páginas en prosa (1962); Los motivos de San Francisco (1965); Poema de Chile (1967); Cartas de amor de GM (1978); Materias (1978); Gabriela piensa en...Santiago de Chile (1978); Prosa religiosa de GM (1978); GM en el "Repertorio Americano" (1978); Gabriela anda por el mundo (1978); Grandeza de los ofícios (1978); Croquis mexicanos (1979); Magisterio y niño (1979); Elogios de las cosas de la tierra (1979); Magistério y Niño (1982); Epistolario de G M y Eduardo Barrios (1988); G M y Joaquín García Monge (1989); Vendré olvidada o amada (1989); Italia caminada (1989); Poesías completas (1989); Memorias y correspondencia con G M y Jacques Marit (1989); Lagar II (1991); En batalla de sencillez (1993); Vuestra Gabriela (1995); Epistolario de G M e Isolina Barraza (1995); Dolor (2001). Para saber mais: Templo Cultural Delfos: Gabriela Mistral - uma viagem pela linguagem poética; Cultura UNAM: Gabriela Mistral – Poesia Moderna; Blog da Inês Büschel:  Gabriela Mistral - Prêmio Nobel de Literatura ; Poetry Foundation: Gabriela Mistral; Antonio Miranda: Gabriela Mistral;  PGL.gal: Gabriela Mistral: filme ‘A Gabriela’ e vários documentários; Vermelho: Gabriela Mistral, para ler à noite, perder o sono e ter pesadelos; Blog Oficial: Gabriela Mistral; Memória Chilena: Gabriela Mistral: A Cien Años de su Nascimiento; Chile para Niños: Gabriela Mistral - Vida y Pensamiento; Repositório Unicamp: Gabriela Mistral: das danças de roda de uma professora consulesa no Brasil; Poemas del Alma: Poemas de Gabriela Mistral; wlu.edu: Gabriela Mistral; My poetic Side: Gabriela Mistral Poems; Via Negativa: Mapping a different star: five poems by Gabriela Mistral; Numéro Cinq: Gabriela Mistral: The Archangel, The Wind; Kate Sharpley Library: Chilean Poet Gabriela Mistral and Anarchism.

Henriqueta Lisboa (Lambari/MG 1901 - Belo Horizonte/MG 1985) foi professora de Literatura Hispano-Americana na Universidade Católica de Minas Gerais e na Universidade Federal de Minas Gerais, escritora, ensaísta e tradutora. Por sua admirável literatura, transitando entre o simbolismo e o modernismo, Henriqueta Lisboa foi agraciada com diversos prêmios literários: Prêmio Olavo Bilac de Poesia (1929); Prêmio Othon Bezerra de Mello (1952); Prêmio de Poesia Pen Club do Brasil (1984); Prêmio Machado de Assis (1984). O seu primeiro livro, Fogo Fátuo, foi lançado em 1929, aos 21 anos. Seguiram-se a ele: Enternecimento (1929); Velário (1936); Prisioneira da noite (1941); O menino poeta (1943); A face lívida (1945); Flor da morte (1949); Madrinha Lua (1952); Azul profundo (1955); Lírica (1958); Montanha viva (1959); Além da imagem (1963); Nova Lírica (1971); Belo Horizonte bem querer (1972); O alvo humano (1973); Reverberações (1976); Miradouro e outros poemas (1976); Celebração dos elementos: água, ar, fogo, terra (1977); Pousada do ser (1982); Poesia Geral (1985). Henriqueta traduziu os Cantos, de Dante Alighieri (1969), e Poemas Escolhidos de Gabriela Mistral (1969). Para saber mais sobre a autora, que foi a primeira mulher eleita membro da Academia Mineira de Letras, em 1963, e entre 1961 e 1968 organizou a Antologia Poética Para a Infância e a Juventude e da Literatura Oral Para a Infância e Juventude: Antonio Miranda/Brazilian Poetry: Henriqueta Lisboa; Scripta/Ângela Vaz Leão: Henriqueta Lisboa: a poesia transcodificada; Nau Literária/Adriana Rodrigues Machado: Henriqueta Lisboa: a morte como florescimento do ser; Revista de Letras/Carla Francine da Silva Reis: Henriqueta Lisboa e a Educação Estética da Criança; Scripta/Reinaldo Marques: Henriqueta Lisboa: tradução e mediação cultural; Templo Cultural Delfos: Henriqueta Lisboa - desbravadora de caminhos.


quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Gabriela Mistral: Gotas de Fel


A escritora chilena Gabriela Mistral foi a primeira autora latino-americana a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, em 1945. Os escritores só começaram a compor a lista vinte e dois anos depois, com o guatemalteco Miguel Ángel Asturias (1899-1974), em 1967; o chileno Pablo Neruda (1904-1973), em 1971, o colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014), em 1982; o mexicano Octavio Paz (1914-1998), em 1990; o peruano Mario Vargas Llosa (1966), em 2010. Diplomata, feminista e pedagoga, Gabriela Mistral (1889-1957), cujo retrato ilustra a nota de cinco mil pesos chilenos, é dona de uma poesia pungente (mas sem perder o lirismo ao falar de amor e ou de dor) e de uma prosa incômoda e reflexiva (ao abordar temas relacionados à educação e ao papel da mulher e do índio na sociedade, principalmente na América Latina). Há um bom material, na internet, sobre a autora do premiado Sonetos de La Muerte, Tala e Desolación..., veja alguns links na sua biografia abaixo.

Para esta breve homenagem a Gabriela Mistral selecionei quatro poemas, que serão publicados (um a cada dia) ao longo da semana, no original espanhol e em tradução para o português. O primeiro foi Medo. O segundo foi A Terra. Hoje é a vez de Gotas de Fel, em tradução de Ruth Sylvia de Miranda Sales, presente em Gabriela Mistral e Cecília Meireles - Gabriela Mistral y Cecília Meireles (Academia Brasileira de Letras e Academia Chilena de La Lengua, 2003).


                  

GOTAS DE HIEL
Gabriela Mistral

No me cantes: siempre queda
a tu lengua apegado
un canto: el que debió ser entregado.

No beses: siempre queda,
por maldición extraña,
el beso al que no alcanzan las entrañas.

Reza, reza que es dulce: pero sabe
que no acierta a decir tu lengua avara
el sólo Padre Nuestro que salvara.

Y no llames la muerte por clemente,
pues en las carnes de blancura inmensa,
un jirón vivo quedará que siente
la piedra que te ahoga
y el gusano voraz que te destrenza.



GOTAS DE FEL
Gabriela Mistral
Tradução: Ruth Sylvia de Miranda Salles
  
Não cantes: sempre fica
à tua língua apegado
um canto: o que faltou ser enviado.

Não beijes: sempre fica,
por maldição estranha,
o beijo a que não chegam as entranhas.

Reza, reza que é bom; mas reconhece
que não sabes, com tua língua avara,
dizer um só Pai Nosso que salvara.

E não chames a morte de clemente,
porque, na carne que a brancura alcança,
uma beirada viva fica e sente
a pedra que te afoga
e o verme voraz que te destrança.

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ilustração: Joba Tridente.2018


Gabriela Mistral (nasceu Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga em Vicuña/Chile: 07.04.1889 e morreu em Nova York/EUA: 10.01.1957) foi educadora, diplomata, feminista e escritora agraciada com o Nobel de Literatura de 1945. O pseudônimo Gabriela Mistral, em homenagem aos poetas Gabriele D’Annunzio (italiano) e Frédéric Mistral (francês), nasceu em 1914, ao ganhar o Concurso de Poesia Juegos Florais de Santiago com Sonetos de La Muerte. Em 1922 publicou seu primeiro livro de poesias, Desolación, ano em que foi convidada pelo Ministério da Educação do México a trabalhar nos Planos de Reforma Educacional, tornando-se referência em pedagogia. Gabriela foi Secretária do Instituto de Coperación Intelectual de la Sociedade de Naciones e Consulesa do Chile e também redatora da revista El Tiempo, de Bogotá e escreveu para o Jornal do Brasil. Viajou pela Europa, Estados e América Latina representando seu país e ou orientando conferências culturais. Seus poemas são pungentes e tematizam tanto o amor quanto a dor. A sua bibliografia traz os seguintes títulos: Desolación (1922); Lectura para mujeres (1924); Ternura (1924); Tala (1938); Lagar (1954); Recados contando a Chile (1957); Páginas en prosa (1962); Los motivos de San Francisco (1965); Poema de Chile (1967); Cartas de amor de GM (1978); Materias (1978); Gabriela piensa en...Santiago de Chile (1978); Prosa religiosa de GM (1978); GM en el "Repertorio Americano" (1978); Gabriela anda por el mundo (1978); Grandeza de los ofícios (1978); Croquis mexicanos (1979); Magisterio y niño (1979); Elogios de las cosas de la tierra (1979); Magistério y Niño (1982); Epistolario de G M y Eduardo Barrios (1988); G M y Joaquín García Monge (1989); Vendré olvidada o amada (1989); Italia caminada (1989); Poesías completas (1989); Memorias y correspondencia con G M y Jacques Marit (1989); Lagar II (1991); En batalla de sencillez (1993); Vuestra Gabriela (1995); Epistolario de G M e Isolina Barraza (1995); Dolor (2001). Para saber mais: Templo Cultural Delfos: Gabriela Mistral - uma viagem pela linguagem poética; Cultura UNAM: Gabriela Mistral – Poesia Moderna; Blog da Inês Büschel:  Gabriela Mistral - Prêmio Nobel de Literatura ; Poetry Foundation: Gabriela Mistral; Antonio Miranda: Gabriela Mistral;  PGL.gal: Gabriela Mistral: filme ‘A Gabriela’ e vários documentários; Vermelho: Gabriela Mistral, para ler à noite, perder o sono e ter pesadelos; Blog Oficial: Gabriela Mistral; Memória Chilena: Gabriela Mistral: A Cien Años de su Nascimiento; Chile para Niños: Gabriela Mistral - Vida y Pensamiento; Repositório Unicamp: Gabriela Mistral: das danças de roda de uma professora consulesa no Brasil; Poemas del Alma: Poemas de Gabriela Mistral; wlu.edu: Gabriela Mistral; My poetic Side: Gabriela Mistral Poems; Via Negativa: Mapping a different star: five poems by Gabriela Mistral; Numéro Cinq: Gabriela Mistral: The Archangel, The Wind; Kate Sharpley Library: Chilean Poet Gabriela Mistral and Anarchism.

Ruth Sylvia de Miranda Salles (14.03.1928) é escritora, dramaturga e tradutora brasileira. Ruth Sylvia é autora de poesia: Pastoral (1954); Parcéis (1961); Sem Símbolos Nenhuns (1982); A Criação (1982); As Quatro Árvores (1982); Aprendendo com Poesia (2003); As Aventuras da Gotinha d’Água (História em versos baseada no conto de Walther Pollatschek, 2014); de prosa: Vamos, Maninha, Vamos (memórias de infância, 2008); O Telefone está só regando as Plantas, e outras crônicas/memórias (2010); Do Mulungu ao Manacá - conversando sobre a flora do Brasil (2016); de teatro: Teatro na Escola (64 peças de teatro infantojuvenil, distribuídas em cinco volumes, 2007); de tradução: Gabriela Mistral e Cecília Meireles (tradução de 32 poemas de Gabriela Mistral, 2003); Lendas da Infância de Jesus - de Jakob Streit (2006); A Vinda da Família Real Portuguesa para o Brasil - de Thomas O’Neil (tradução do diário de bordo do tenente fuzileiro inglês, 2007); Os Seis Exercícios Complementares – e o Coração Etérico, de Rudolf Steiner (2008); A desejada Fé - de Joaquim Nabuco (escrito em francês, 2010). Foi agraciada com o Prêmio Club de Poesia (Jocs Florals de la Lengua Catalana), dividido com João Cabral de Melo Neto, pela Antologia de traduções para o português de poemas catalães (1954); Prêmio Olavo Bilac (SEEC do Estado da Guanabara), dividido com Walmir Ayala, pelo livro de poemas Parcéis (1960); Prêmio de Poesia “Governador do Estado” (Comissão Estadual de Literatura - Conselho Estadual de Cultura de São Paulo, 1961), pelo livro Parcéis (1961). Para saber mais: Arte Social: Curriculum de Ruth Sylvia de Miranda Salles; Academia Brasileira de Letras: Revista Brasileira nº 40.

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