quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Carolina Maria de Jesus: Atualidades

Carolina Maria de Jesus - Acervo Ultima Hora
Assim como a um pintor acadêmico é praticamente impossível pintar como um artista primitivista (naif), por lhe faltar a espontaneidade técnica alheia às perspectivas das regras do pincel..., a um escritor de muitas graduações é praticamente impossível relatar vivências de miserabilidade que não viveu..., por lhe faltar a veracidade periférica do carvão.

Carolina de Jesus, de catadora de papel à escritora à catadora de papel, uma vida permeada por conceitos do mundo ao seu redor e de preconceitos do mundo ao seu redor. Mulher. Negra. Favelada. Mãe solteira de três filhos. Cada dia um dia a menos ou a mais na conta do seu destino incerto na boa lida das palavras escritas com dor e catarse do desabafo. Carolina frequentou por dois anos a escola primária, tempo suficiente apenas para aprender a escrever e a ler. Conhecimento mínimo, porém, primordial para lhe servir de guia na fuga do círculo vicioso de miséria que a perseguia. Catou papel, revistas e cadernos..., para vender, aprender e registrar a sua história. Conjugações verbais mais que presente na sua pertinência de mudar de vida, garantindo o alimento para o corpo, o cérebro e o espírito guerreiro.

Carolina Maria de Jesus - Acervo Ultima Hora
A descoberta casual da escritora (de prosa e verso) Carolina Maria de Jesus se deu em abril de 1958, quando o jornalista Audálio Dantas, ao fazer a cobertura de inauguração de um Parque Municipal, na periferia de São Paulo, conheceu Carolina e seus 35 Cadernos de Anotações. Dantas, extasiado com o que leu, escreveu um artigo para o jornal Folha da Noite. Em 1959, ele publicou trechos dos relatos de Carolina, na revista O Cruzeiro, e se empenhou na publicação de Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, lançado em 1960. O livro fez enorme sucesso no Brasil e, traduzido em quinze línguas, virou best-seller no exterior. Carolina recebeu diversas homenagens e prêmios e gravou um disco homônimo, cantando as próprias composições, que você pode ouvir na íntegra na Radio Batuta. Com o dinheiro da venda de Quarto de Despejo, se mudou da favela do Canindé, para uma casa de alvenaria e continuou na sua lida literária, mas sem alcançar o mesmo sucesso. Carolina Maria de Jesus morreu pobre e esquecida em 1977. Todavia, a sua obra, ainda hoje é motivo de teses, estudos, projetos cinematográficos e teatrais, HQs em diversas partes do mundo.

Muitos a conhecem apenas pelas narrativas, por isso a minha homenagem à Carolina Maria de Jesus se dá com uma seleção de cinco poemas presente na Antologia Pessoal, organizada por José Carlos Sebe Bom Meihy, publicada postumamente pela Editora UFRJ (1996). Nesta antologia, com poemas ao estilo tudo junto e misturado, ainda que vestimenta seja outra, a poeta se desvela numa carência afetiva muito grande, bem como apego à fé, ao patriotismo e aos desassistidos socialmente. Uma poesia urbana, popular, capaz de fazer ecoar o menosprezo social de ontem no preconceito racial hoje. A ordem dos substantivos não faz diferença...

Link do poema anterior: O Pequenino.



ATUALIDADES
Carolina Maria de Jesus

Encontrei-me com uma senhora
De fisionomia abatida
Perguntei-lhe por que chora?
Já estou exausta e vencida.

Não mais dá gosto em viver
Que luta! Que aflição
Oh! Deus que hei de fazer
Dá-me tua proteção.

Trabalho o ano inteiro
Nem um dia posso perder
Luto e não tenho dinheiro
E nem pão para comer.

Tenho medo de enlouquecer
Oh! Existência oprimida
Não sei quem é que vai deter
O alto custo da vida.

Não sei por que estou vivendo
Se me falta até a ilusão
É uma forma de ir morrendo
Lentamente, à prestação.

Vivo falando sozinha
Extravasando a minha dor
Recordando a época que eu tinha
Tranquilidade interior.

Não mais posso trabalhar
Pungente é a minha condição
E se eu for mendigar?
Ameaçam-me com a prisão.

Não percebem as autoridades
Que já estou aprisionada
Com estas dificuldades
Que sou uma desgraçada?

A velha rota e revoltada
Tudo que sofreu narrou-se.
Vivo ao léu sem ter morada
O mundo do pobre acabou-se.

Deus é a única esperança
Desta classe sem apoio certo
Luta e sobre por fim se cansa
Igual o viajante no deserto.

*
ilustração de Joba Tridente.2015



Carolina Maria de Jesus. Fotógrafo: (?)
Carolina Maria de Jesus (1914-1977), escritora brasileira de prosa e verso. O seu aclamado Quarto de Despejo – Diário de uma favelada (1960) foi traduzido para quinze línguas (alemão, catalão, dinamarquês, espanhol, francês, holandês, húngaro, inglês, iraniano, italiano, japonês, polonês, romeno, tcheco, turco). O merecido sucesso dos diários de Carolina acabou servindo também a “interesses” da esquerda e da direita brasileiras e das elites festivas. Passado o calor dos aplausos, que foram rareando com o lançamento de Casa de Alvenaria - Diário de uma ex-favelada (1961), Pedaços da Fome (1963) e Provérbios (1963), a escritora (sensação negra!) foi sendo alijada do burburinho intelectual branco. Postumamente foram lançados Diário de Bitita, primeiramente na França (1982) e depois no Brasil (1986), Meu estranho diário (1996), Antologia Pessoal (1996) e diversos textos outros em revistas.

Nem sempre o material disponibilizado na web traz a sua grafia original, com erros ortográficos e gramaticais. Pode facilitar a leitura, mas lhe tira a originalidade. Para saber mais, indico os links: Templo Cultural Delfos; Radio Batuta; Revista Palmares; Livres Pensadores; Arquivo Fotográfico Carolina Maria de Jesus; Enciclopédia Itaú Cultural; animação: Quarto de Despejo.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Carolina Maria de Jesus: O Pequenino

Carolina Maria de Jesus - Acervo Última Hora (?)
Assim como a um pintor acadêmico é praticamente impossível pintar como um artista primitivista (naif), por lhe faltar a espontaneidade técnica alheia às perspectivas das regras do pincel..., a um escritor de muitas graduações é praticamente impossível relatar vivências de miserabilidade que não viveu..., por lhe faltar a veracidade periférica do carvão.

Carolina de Jesus, de catadora de papel à escritora à catadora de papel, uma vida permeada por conceitos do mundo ao seu redor e de preconceitos do mundo ao seu redor. Mulher. Negra. Favelada. Mãe solteira de três filhos. Cada dia um dia a menos ou a mais na conta do seu destino incerto na boa lida das palavras escritas com dor e catarse do desabafo. Carolina frequentou por dois anos a escola primária, tempo suficiente apenas para aprender a escrever e a ler. Conhecimento mínimo, porém, primordial para lhe servir de guia na fuga do círculo vicioso de miséria que a perseguia. Catou papel, revistas e cadernos..., para vender, aprender e registrar a sua história. Conjugações verbais mais que presente na sua pertinência de mudar de vida, garantindo o alimento para o corpo, o cérebro e o espírito guerreiro.

Carolina Maria de Jesus e Audálio Dantas - Acervo Última Hora
A descoberta casual da escritora (de prosa e verso) Carolina Maria de Jesus se deu em abril de 1958, quando o jornalista Audálio Dantas, ao fazer a cobertura de inauguração de um Parque Municipal, na periferia de São Paulo, conheceu Carolina e seus 35 Cadernos de Anotações. Dantas, extasiado com o que leu, escreveu um artigo para o jornal Folha da Noite. Em 1959, ele publicou trechos dos relatos de Carolina, na revista O Cruzeiro, e se empenhou na publicação de Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, lançado em 1960. O livro fez enorme sucesso no Brasil e, traduzido em quinze línguas, virou best-seller no exterior. Carolina recebeu diversas homenagens e prêmios e gravou um disco homônimo, cantando as próprias composições, que você pode ouvir na íntegra na Radio Batuta. Com o dinheiro da venda de Quarto de Despejo, se mudou da favela do Canindé, para uma casa de alvenaria e continuou na sua lida literária, mas sem alcançar o mesmo sucesso. Carolina Maria de Jesus morreu pobre e esquecida em 1977. Todavia, a sua obra, ainda hoje é motivo de teses, estudos, projetos cinematográficos e teatrais, HQs em diversas partes do mundo.

Muitos a conhecem apenas pelas narrativas, por isso a minha homenagem à Carolina Maria de Jesus se dá com uma seleção de cinco poemas presente na Antologia Pessoal, organizada por José Carlos Sebe Bom Meihy, publicada postumamente pela Editora UFRJ (1996). Nesta antologia, com poemas ao estilo tudo junto e misturado, ainda que vestimenta seja outra, a poeta se desvela numa carência afetiva muito grande, bem como apego à fé, ao patriotismo e aos desassistidos socialmente. Uma poesia urbana, popular, capaz de fazer ecoar o menosprezo social de ontem no preconceito racial hoje. A ordem dos substantivos não faz diferença...



O PEQUENINO
Carolina Maria de Jesus

Encontrei um pequenino
Vagando ao léu sem destino
Sem ter onde descansar
Talvez lhe falte um amigo
Tem o aspecto de um mendigo
O infeliz não tem lar.

Quando souber meditar
Entristece e vai chorar
Tudo é sombrio ao seu redor
É uma haste abandonada
E por não ser cultivada
Não tem viço. Não dá flor.

O infeliz não vai à escola
Passa os dias pedindo esmola
E não aprende uma profissão
Quando este infausto crescer
- O que vai ser?
***************************
Um hóspede da prisão.

*
ilustração de Joba Tridente.2015



Carolina Maria de Jesus - Acervo Última Hora (?)

Carolina Maria de Jesus (1914-1977), escritora brasileira de prosa e verso. O seu aclamado Quarto de Despejo – Diário de uma favelada (1960) foi traduzido para quinze línguas (alemão, catalão, dinamarquês, espanhol, francês, holandês, húngaro, inglês, iraniano, italiano, japonês, polonês, romeno, tcheco, turco). O merecido sucesso dos diários de Carolina acabou servindo também a “interesses” da esquerda e da direita brasileiras e das elites festivas. Passado o calor dos aplausos, que foram rareando com o lançamento de Casa de Alvenaria - Diário de uma ex-favelada (1961), Pedaços da Fome (1963) e Provérbios (1963), a escritora (sensação negra!) foi sendo alijada do burburinho intelectual branco. Postumamente foram lançados Diário de Bitita, primeiramente na França (1982) e depois no Brasil (1986), Meu estranho diário (1996), Antologia Pessoal (1996) e diversos textos outros em revistas.

Nem sempre o material disponibilizado na web traz a sua grafia original, com erros ortográficos e gramaticais. Pode facilitar a leitura, mas lhe tira a originalidade. Para saber mais, indico os links: Templo Cultural Delfos; Radio Batuta; Revista Palmares; Livres Pensadores; Arquivo Fotográfico Carolina Maria de Jesus; Enciclopédia Itaú Cultural; animação: Quarto de Despejo.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Cora Coralina: Meu Epitáfio

A escritora brasileira Cora Coralina, natural da bucólica Goiás Velho, no estado de Goiás, é mais um exemplo de talento literário reconhecido tardiamente. Embora haja registro de publicação de seus textos em jornais e revistas desde 1905 (com a crônica A Tua Volta, dedicada ao poeta Luiz do Couto), foi apenas aos 75 anos que publicou o seu primeiro livro: Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais. A notoriedade veio com a sua segunda edição, de 1978, que, ao merecer entusiasmados elogios do escritor Carlos Drummond de Andrade: “Se há livros comovedores este é um deles!”, chamou a atenção da crítica literária e de leitores em todo o país.

No Brasil, “intelectuais” preconceituosos, que “confundem” simplicidade com ignorância, invejosos do talento nato alheio, desdenham de escritores marcantes como Cora Coralina, Patativa do Assaré, ou mesmo Carolina de Jesus (que tem momentos de rara beleza) por julgá-los semialfabetizados. Coralina frequentou a escola por quatro anos (com a Mestra Silvina), Assaré, por um e Carolina de Jesus por dois. Todavia, se essa gente metida a besta, com suas pós-imbecilidades, se dessem ao “trabalho” de pesquisar, de fato, os autores e suas obras (que possivelmente “conhecem” só de ouvir falar), iriam fazer urgentemente um mea-culpa. Cada um dos três autores, ao seu modo, canta a sua aldeia: velha cidade, sertão e favela..., desnudando-se diante da palavra em verso ou prosa.

Há farto material biográfico e inúmeras teses defendidas por brasileiros e estrangeiros sobre os três autores e suas obras, inclusive na internet. Um dos trabalhos mais interessantes sobre Cora Coralina é El Discurso Poético y las Condiciones de su Producción: una lectura comparada de la Poesís de Rosalía de Castro y de Cora Coralina - Tesis Doctoral de Consuelo Brito de Freitas (Universidad Complutense de Madrid - Facultad de Filología - 2004).

A poética de Cora lembra o modernismo e o ritmo poético de Drummond. Conheça, em quatro postagens, um mínimo da obra máxima de Cora Coralina. Comecei com Antiguidades, segui com Minha Cidade, e continuei com Todas as Vidas, para encerrar com Meu Epitáfio, presente em Meu Livro de Cordel.



MEU EPITÁFIO
Cora Coralina

Morta... serei árvore
Serei tronco, serei fronde
E minhas raízes
Enlaçadas às pedras de meu berço
São as cordas que brotam de uma lira

Enfeitei de folhas verdes
A pedra de meu túmulo
Num simbolismo
De vida vegetal

Não morre aquele
Que deixou na terra
A melodia de seu canto
Na música de seus versos.

*
ilustração de Joba Tridente


CORA CORALINA (Goiás Velho, 20.08.1889 - Cidade de Goiás, 10.04.1985), escritora de prosa (poética) e verso (em prosa) e doceira. Cora nasceu Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas: “Comecei a escrever aos 14 de idade, numa idade em que não tinha leitura, não tinha cultura e não tinha vivência. Mal tinha deixado a escola primária e escrevia o que eu chamo hoje “os meus escritinhos”. Mas eu me enchia de muita vaidade e para escrever me servia apenas do meu imaginário, nada mais. Tentei o verso, mas, enquanto a poesia esteve determinada pela rima e pela métrica, nunca consegui armar uma quadra. De modo que passei para a prosa, mas diziam em Goiás, naquele tempo, que eu escrevia a poesia em prosa e nessa ocasião procurei o meu pseudônimo porque me chamo Anna e, sendo Sant’Ana a padroeira da cidade, tinha muita Ana naquele tempo e eu tinha medo que a minha glória literária fosse atribuída a outra Ana. Procurei então, um nome que na cidade eu não tivesse xará, achei Cora. Cora só … não chegava, encontrei Coralina. Juntei os dois e hoje me identifico...”  Em sua Árvore Genealógica, Cora traz parentesco com o poeta Olavo Bilac (1865-1918), por parte do pai Francisco de Paula Lins dos Guimarães Peixoto, e com o poeta Luis do Couto (1884-1948), por parte da mãe Jacyntha Luiza do Couto Brandão.

Após os inesperados elogios de Drummond e o reconhecimento nacional, Cora Coralina recebeu, em 1983, o título Doutor Honoris Causa da UFG e o Prêmio Juca Pato, da União Brasileira dos Escritores. Livros de poesia: Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais (1965, 1978 e 1980); Meu Livro de Cordel (1976); Vintém de Cobre - Meias confissões de Aninha (1983). Livro de contoEstórias da Casa Velha da Ponte (1985). Livros póstumos: Meninos Verdes (infantil, 1986); Tesouro da Casa Velha (poesia, 1996); A Moeda de Ouro que o Pato Engoliu (infantil, 1999); Vila Boa de Goiás (poesia, 2001); O Prato Azul-Pombinho (infantil, 2001).

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Cora Coralina: Todas as Vidas

A escritora brasileira Cora Coralina, natural da bucólica Goiás Velho, no estado de Goiás, é mais um exemplo de talento literário reconhecido tardiamente. Embora haja registro de publicação de seus textos em jornais e revistas desde 1905 (com a crônica A Tua Volta, dedicada ao poeta Luiz do Couto), foi apenas aos 75 anos que publicou o seu primeiro livro: Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais. A notoriedade veio com a sua segunda edição, de 1978, que, ao merecer entusiasmados elogios do escritor Carlos Drummond de Andrade: “Se há livros comovedores este é um deles!”, chamou a atenção da crítica literária e de leitores em todo o país.

No Brasil, “intelectuais” preconceituosos, que “confundem” simplicidade com ignorância, invejosos do talento nato alheio, desdenham de escritores marcantes como Cora Coralina, Patativa do Assaré, ou mesmo Carolina de Jesus (que tem momentos de rara beleza) por julgá-los semialfabetizados. Coralina frequentou a escola por quatro anos (com a Mestra Silvina), Assaré, por um e Carolina de Jesus por dois. Todavia, se essa gente metida a besta, com suas pós-imbecilidades, se dessem ao “trabalho” de pesquisar, de fato, os autores e suas obras (que possivelmente “conhecem” só de ouvir falar), iriam fazer urgentemente um mea-culpa. Cada um dos três autores, ao seu modo, canta a sua aldeia: velha cidade, sertão e favela..., desnudando-se diante da palavra em verso ou prosa.

Há farto material biográfico e inúmeras teses defendidas por brasileiros e estrangeiros sobre os três autores e suas obras, inclusive na internet. Um dos trabalhos mais interessantes sobre Cora Coralina é El Discurso Poético y las Condiciones de su Producción: una lectura comparada de la Poesís de Rosalía de Castro y de Cora Coralina - Tesis Doctoral de Consuelo Brito de Freitas (Universidad Complutense de Madrid - Facultad de Filología - 2004).

A poética de Cora lembra o modernismo e o ritmo poético de Drummond. Conheça, em quatro postagens, um mínimo da obra máxima de Cora Coralina. Comecei com Antiguidades, segui com Minha Cidade e continuo com Todas as Vidas, do livro Poema dos Becos e Goiás e Estórias Mais.



TODAS AS VIDAS
Cora Coralina

Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando para o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...

Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.

Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.

Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.

Vive dentro de mim
a mulher roceira.
- Enxerto de terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
Seus vinte netos.

Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo ser alegre seu triste fado.

Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida -
a vida mera das obscuras. 

*
ilustração de Joba Tridente


CORA CORALINA (Goiás Velho, 20.08.1889 - Cidade de Goiás, 10.04.1985), escritora de prosa (poética) e verso (em prosa) e doceira. Cora nasceu Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas: “Comecei a escrever aos 14 de idade, numa idade em que não tinha leitura, não tinha cultura e não tinha vivência. Mal tinha deixado a escola primária e escrevia o que eu chamo hoje “os meus escritinhos”. Mas eu me enchia de muita vaidade e para escrever me servia apenas do meu imaginário, nada mais. Tentei o verso, mas, enquanto a poesia esteve determinada pela rima e pela métrica, nunca consegui armar uma quadra. De modo que passei para a prosa, mas diziam em Goiás, naquele tempo, que eu escrevia a poesia em prosa e nessa ocasião procurei o meu pseudônimo porque me chamo Anna e, sendo Sant’Ana a padroeira da cidade, tinha muita Ana naquele tempo e eu tinha medo que a minha glória literária fosse atribuída a outra Ana. Procurei então, um nome que na cidade eu não tivesse xará, achei Cora. Cora só … não chegava, encontrei Coralina. Juntei os dois e hoje me identifico...”  Em sua Árvore Genealógica, Cora traz parentesco com o poeta Olavo Bilac (1865-1918), por parte do pai Francisco de Paula Lins dos Guimarães Peixoto, e com o poeta Luis do Couto (1884-1948), por parte da mãe Jacyntha Luiza do Couto Brandão.

Após os inesperados elogios de Drummond e o reconhecimento nacional, Cora Coralina recebeu, em 1983, o título Doutor Honoris Causa da UFG e o Prêmio Juca Pato, da União Brasileira dos Escritores. Livros de poesia: Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais (1965, 1978 e 1980); Meu Livro de Cordel (1976); Vintém de Cobre - Meias confissões de Aninha (1983). Livro de contoEstórias da Casa Velha da Ponte (1985). Livros póstumos: Meninos Verdes (infantil, 1986); Tesouro da Casa Velha (poesia, 1996); A Moeda de Ouro que o Pato Engoliu (infantil, 1999); Vila Boa de Goiás (poesia, 2001); O Prato Azul-Pombinho (infantil, 2001).

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Cora Coralina: Minha Cidade

A escritora brasileira Cora Coralina, natural da bucólica Goiás Velho, no estado de Goiás, é mais um exemplo de talento literário reconhecido tardiamente. Embora haja registro de publicação de seus textos em jornais e revistas desde 1905 (com a crônica A Tua Volta, dedicada ao poeta Luiz do Couto), foi apenas aos 75 anos que publicou o seu primeiro livro: Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais. A notoriedade veio com a sua segunda edição, de 1978, que, ao merecer entusiasmados elogios do escritor Carlos Drummond de Andrade: “Se há livros comovedores este é um deles!”, chamou a atenção da crítica literária e de leitores em todo o país.

No Brasil, “intelectuais” preconceituosos, que “confundem” simplicidade com ignorância, invejosos do talento nato alheio, desdenham de escritores marcantes como Cora Coralina, Patativa do Assaré, ou mesmo Carolina de Jesus (que tem momentos de rara beleza) por julgá-los semialfabetizados. Coralina frequentou a escola por quatro anos (com a Mestra Silvina), Assaré, por um e Carolina de Jesus por dois. Todavia, se essa gente metida a besta, com suas pós-imbecilidades, se dessem ao “trabalho” de pesquisar, de fato, os autores e suas obras (que possivelmente “conhecem” só de ouvir falar), iriam fazer urgentemente um mea-culpa. Cada um dos três autores, ao seu modo, canta a sua aldeia: velha cidade, sertão e favela..., desnudando-se diante da palavra em verso ou prosa.

Há farto material biográfico e inúmeras teses defendidas por brasileiros e estrangeiros sobre os três escritores e suas obras, inclusive na internet. Um dos trabalhos mais interessantes sobre Cora Coralina é El Discurso Poético y las Condiciones de su Producción: una lectura comparada de la Poesís de Rosalía de Castro y de Cora Coralina - Tesis Doctoral de Consuelo Brito de Freitas (Universidad Complutense de Madrid - Facultad de Filología - 2004).

A poética de Cora lembra o modernismo e o ritmo poético de Drummond. Conheça, em quatro postagens, um mínimo da obra máxima de Cora Coralina. Comecei com Antiguidades. Sigo com Minha Cidade, do livro Poema dos Becos e Goiás e Estórias Mais.


                             

MINHA CIDADE
Cora Coralina

Goiás, minha cidade...
Eu sou aquela amorosa
de tuas ruas estreitas,
curtas,
indecisas,
entrando,
saindo
uma das outras.
Eu sou aquela menina feia da ponte da Lapa.
Eu sou Aninha.

Eu sou aquela mulher
que ficou velha,
esquecida,
nos teus larguinhos e nos teus becos tristes,
contando estórias,
fazendo adivinhação.
Cantando teu passado.
Cantando teu futuro.
Eu vivo nas tuas igrejas
e sobrados
e telhados
e paredes.

Eu sou aquele teu velho muro
verde de avencas
onde se debruça
um antigo jasmineiro,
cheiroso
na ruinha pobre e suja.
Eu sou estas casas
encostadas
cochichando umas com as outras.
Eu sou a ramada
dessas árvores,
sem nome e sem valia,
sem flores e sem frutos,
de que gostam
a gente cansada e os pássaros vadios.

Eu sou o caule
dessas trepadeiras sem classe,
nascidas na frincha das pedras:
Bravias.
Renitentes.
Indomáveis.
Cortadas.
Maltratadas.
Pisadas.
E renascendo.

Eu sou a dureza desses morros,
revestidos,
enflorados,
lascados a machado,
lanhados, lacerados.
Queimados pelo fogo.
Pastados.
Calcinados
e renascidos.
Minha vida,
meus sentidos,
minha estética,
todas as virações
de minha sensibilidade de mulher,
têm, aqui, suas raízes.

Eu sou a menina feia
da ponte da Lapa.
Eu sou Aninha. 

*
ilustração de Joba Tridente.2015


CORA CORALINA (Goiás Velho, 20.08.1889 - Cidade de Goiás, 10.04.1985), escritora de prosa (poética) e verso (em prosa) e doceira. Cora nasceu Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas: “Comecei a escrever aos 14 de idade, numa idade em que não tinha leitura, não tinha cultura e não tinha vivência. Mal tinha deixado a escola primária e escrevia o que eu chamo hoje “os meus escritinhos”. Mas eu me enchia de muita vaidade e para escrever me servia apenas do meu imaginário, nada mais. Tentei o verso, mas, enquanto a poesia esteve determinada pela rima e pela métrica, nunca consegui armar uma quadra. De modo que passei para a prosa, mas diziam em Goiás, naquele tempo, que eu escrevia a poesia em prosa e nessa ocasião procurei o meu pseudônimo porque me chamo Anna e, sendo Sant’Ana a padroeira da cidade, tinha muita Ana naquele tempo e eu tinha medo que a minha glória literária fosse atribuída a outra Ana. Procurei então, um nome que na cidade eu não tivesse xará, achei Cora. Cora só … não chegava, encontrei Coralina. Juntei os dois e hoje me identifico...”  Em sua Árvore Genealógica, Cora traz parentesco com o poeta Olavo Bilac (1865-1918), por parte do pai Francisco de Paula Lins dos Guimarães Peixoto, e com o poeta Luis do Couto (1884-1948), por parte da mãe Jacyntha Luiza do Couto Brandão.

Após os inesperados elogios de Drummond e o reconhecimento nacional, Cora Coralina recebeu, em 1983, o título Doutor Honoris Causa da UFG e o Prêmio Juca Pato, da União Brasileira dos Escritores. Livros de poesia: Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais (1965, 1978 e 1980); Meu Livro de Cordel (1976); Vintém de Cobre - Meias confissões de Aninha (1983). Livro de contoEstórias da Casa Velha da Ponte (1985). Livros póstumos: Meninos Verdes (infantil, 1986); Tesouro da Casa Velha (poesia, 1996); A Moeda de Ouro que o Pato Engoliu (infantil, 1999); Vila Boa de Goiás (poesia, 2001); O Prato Azul-Pombinho (infantil, 2001).

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Cora Coralina: Antiguidades

A escritora brasileira Cora Coralina, natural da bucólica Goiás Velho, no estado de Goiás, é mais um exemplo de talento literário reconhecido tardiamente. Embora haja registro de publicação de seus textos em jornais e revistas desde 1905 (com a crônica A Tua Volta, dedicada ao poeta Luiz do Couto), foi apenas aos 75 anos que publicou o seu primeiro livro: Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais. A notoriedade veio com a sua segunda edição, de 1978, que, ao merecer entusiasmados elogios do escritor Carlos Drummond de Andrade: “Se há livros comovedores este é um deles!”, chamou a atenção da crítica literária e de leitores em todo o país.

No Brasil, “intelectuais” preconceituosos, que “confundem” simplicidade com ignorância, invejosos do talento nato alheio, desdenham de escritores marcantes como Cora Coralina, Patativa do Assaré, ou mesmo Carolina de Jesus (que tem momentos de rara beleza) por julgá-los semialfabetizados. Coralina frequentou a escola por quatro anos (com a Mestra Silvina), Assaré, por um e Carolina de Jesus por dois. Todavia, se essa gente metida a besta, com suas pós-imbecilidades, se dessem ao “trabalho” de pesquisar, de fato, os autores e suas obras (que possivelmente “conhecem” só de ouvir falar), iriam fazer urgentemente um mea-culpa. Cada um dos três autores, ao seu modo, canta a sua aldeia: velha cidade, sertão e favela..., desnudando-se diante da palavra em verso ou prosa.

Há farto material biográfico e inúmeras teses defendidas por brasileiros e estrangeiros sobre os três escritores e suas obras, inclusive na internet. Um dos trabalhos mais interessantes sobre Cora Coralina é El Discurso Poético y las Condiciones de su Producción: una lectura comparada de la Poesís de Rosalía de Castro y de Cora Coralina - Tesis Doctoral de Consuelo Brito de Freitas (Universidad Complutense de Madrid - Facultad de Filología - 2004).

A poética de Cora lembra o modernismo e o ritmo poético de Drummond. Conheça, em quatro postagens, um mínimo da obra máxima de Cora Coralina. Começo com Antiguidades, do livro Poema dos Becos e Goiás e Estórias Mais.



ANTIGUIDADES
Cora Coralina

Quando eu era menina
bem pequena, 
em nossa casa,
certos dias da semana
se fazia um bolo,
assado na panela
com um testo de borralho em cima.
Era um bolo econômico,
como tudo, antigamente.
Pesado, grosso, pastoso.
(Por sinal que muito ruim.)
Eu era menina em crescimento.
Gulosa,
abria os olhos para aquele bolo
que me parecia tão bom
e tão gostoso.
A gente mandona lá de casa
cortava aquele bolo
com importância.
Com atenção.
Seriamente.
Eu presente.
Com vontade de comer o bolo todo.
Era só olhos e boca e desejo
daquele bolo inteiro.

Minha irmã mais velha
governava. Regrava.
Me dava uma fatia,
tão fina, tão delgada...
E fatias iguais às outras manas.
E que ninguém pedisse mais!
E o bolo inteiro,
quase intangível,
se guardava bem guardado,
com cuidado,
num armário, alto, fechado,
impossível.
Era aquilo uma coisa de respeito.
Não pra ser comido
assim, sem mais nem menos.
Destinava-se às visitas da noite,
certas ou imprevistas.
Detestadas da meninada.
Criança, no meu tempo de criança,
não valia mesmo nada.
A gente grande da casa
usava e abusava
de pretensos direitos
de educação.
Por dá-cá-aquela-palha,
ralhos e beliscão.
Palmatória e chineladas
não faltavam.
Quando não,
sentada no canto de castigo
fazendo trancinhas,
amarrando abrolhos.
"Tomando propósito"
Expressão muito corrente e pedagógica.
Aquela gente antiga,
passadiça, era assim:
severa, ralhadeira.
Não poupava as crianças.
Mas, as visitas...
- Valha-me Deus!...
As visitas...
Como eram queridas,
recebidas, estimadas,
conceituadas, agradadas!
Era gente superenjoada.
Solene, empertigada.
De velhas conversas
que davam sono.
Antiguidades...
Até os nomes, que não se percam:
D. Aninha com Seu Quinquim.
D. Milécia, sempre às voltas
com receitas de bolo, assuntos
de licores e pudins.
D. Benedita com sua filha Lili.
D. Benedita - alta, magrinha.
Lili - baixota, gordinha.
Puxava de uma perna e fazia crochê.
E, diziam dela línguas viperinas:
“- Lili é a bengala de D. Benedita”.
Mestre Quina, D. Luisalves,
Saninha de Bili, Sá Mônica.
Gente do Cônego Padre Pio.
D. Joaquina Amâncio...
Dessa então me lembro bem.
Era amiga do peito de minha bisavó.
Aparecia em nossa casa
quando o relógio dos frades
tinha já marcado 9 horas
e a corneta do quartel, tocado silêncio.
E só se ia quando o galo cantava.
O pessoal da casa,
como era de bom-tom,
se revezava fazendo sala.
Rendidos de sono, davam o fora.
No fim, só ficava mesmo, firme,
minha bisavó.
D. Joaquina era uma velha
grossa, rombuda, aparatosa.
Esquisita.
Demorona.
Cega de um olho.
Gostava de flores e de vestido novo.
Tinha seu dinheiro de contado.
Grossas contas de ouro
no pescoço.
Anéis pelos dedos.
Bichas nas orelhas.
Pitava na palha.
Cheirava rapé.
E era de Paracatu.
O sobrinho que a acompanhava,
enquanto a tia conversava
contando “causos” infindáveis,
dormia estirado
no banco da varanda.
Eu fazia força de ficar acordada
esperando a descida certa
do bolo
encerrado no armário alto.
E quando este aparecia,
vencida pelo sono já dormia.

E sonhava com o imenso armário
cheio de grandes bolos
ao meu alcance.
De manhã cedo
quando acordava,
estremunhada,
com a boca amarga,
- ai de mim -
via com tristeza,
sobre a mesa:
xícaras sujas de café,
pontas queimadas de cigarro.
O prato vazio, onde esteve o bolo,
e um cheiro enjoado de rapé. 

*
ilustração de Joba Tridente.2015


CORA CORALINA (Goiás Velho, 20.08.1889 - Cidade de Goiás, 10.04.1985), escritora de prosa (poética) e verso (em prosa) e doceira. Cora nasceu Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas: “Comecei a escrever aos 14 de idade, numa idade em que não tinha leitura, não tinha cultura e não tinha vivência. Mal tinha deixado a escola primária e escrevia o que eu chamo hoje “os meus escritinhos”. Mas eu me enchia de muita vaidade e para escrever me servia apenas do meu imaginário, nada mais. Tentei o verso, mas, enquanto a poesia esteve determinada pela rima e pela métrica, nunca consegui armar uma quadra. De modo que passei para a prosa, mas diziam em Goiás, naquele tempo, que eu escrevia a poesia em prosa e nessa ocasião procurei o meu pseudônimo porque me chamo Anna e, sendo Sant’Ana a padroeira da cidade, tinha muita Ana naquele tempo e eu tinha medo que a minha glória literária fosse atribuída a outra Ana. Procurei então, um nome que na cidade eu não tivesse xará, achei Cora. Cora só … não chegava, encontrei Coralina. Juntei os dois e hoje me identifico...”  Em sua Árvore Genealógica, Cora traz parentesco com o poeta Olavo Bilac (1865-1918), por parte do pai Francisco de Paula Lins dos Guimarães Peixoto, e com o poeta Luis do Couto (1884-1948), por parte da mãe Jacyntha Luiza do Couto Brandão.

Após os inesperados elogios de Drummond e o reconhecimento nacional, Cora Coralina recebeu, em 1983, o título Doutor Honoris Causa da UFG e o Prêmio Juca Pato, da União Brasileira dos Escritores. Livros de poesia: Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais (1965, 1978 e 1980); Meu Livro de Cordel (1976); Vintém de Cobre - Meias confissões de Aninha (1983). Livro de contoEstórias da Casa Velha da Ponte (1985). Livros póstumos: Meninos Verdes (infantil, 1986); Tesouro da Casa Velha (poesia, 1996); A Moeda de Ouro que o Pato Engoliu (infantil, 1999); Vila Boa de Goiás (poesia, 2001); O Prato Azul-Pombinho (infantil, 2001).

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Joba Tridente: Puta Sentimento Quase IX e X

PUTA SENTIMENTO QUASE Haicai ou Tanka é um mergulho sem (des)culpa, às vésperas do natal, no universo de mulheres à margem da sociedade..., um tema que venho trabalhando ultimamente. Já publiquei a série Passeio Público, que foi parar no livro 101 Poetas Paranaenses (2014). Hoje, os dois últimos poemas curtos de uma breve seleção de dez exercícios amorais para cinco postagens: IX e X.



Puta Sentimento Quase
Haicai ou Tanka
joba tridente

IX
no presépio
confiando a última moeda
a puta temente reza


X
- tia, me dá um troco?
- puta, me dá uma trepada?
- não, o natal não me comove!

à meia-noite ela divide
um panetone com os mendigos

*
ilustração de joba tridente.2015



Joba Tridente em Verso: 25 Poemas Experimentais (1999); Quase Hai-Kai (1997, 1998 e 2004); em Antologias: Hiperconexões: Realidade Expandida (2015); 101 Poetas Paranaenses (2014); Ipê Amarelo, 26 Haicais; Ce que je vois de ma fenêtre - O que eu vejo da minha janela (2014); Ebulição da Escrivatura - 13 Poetas Impossíveis (1978); em Prosa: Fragmentos da História Antropofágica e Estapafúrdia de Um Índio Polaco da Tribo dos Stankienambás (2000); Cidades Minguantes (2001); O Vazio no Olho do Dragão (2001). Contos, poemas e artigos culturais publicados em diversos veículos de comunicação: Correio Braziliense, Jornal Nicolau, Gazeta do Povo, Revista Planeta, entre outros.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Joba Tridente: Puta Sentimento Quase VII e VIII

PUTA SENTIMENTO QUASE Haicai ou Tanka é um mergulho sem (des)culpa, às vésperas do natal, no universo de mulheres à margem da sociedade..., um tema que venho trabalhando ultimamente. Já publiquei a série Passeio Público, que foi parar no livro 101 Poetas Paranaenses (2014). Hoje, os poemas curtos VII e VIII, de uma breve seleção de dez exercícios amorais para cinco postagens:



Puta Sentimento Quase
Haicai ou Tanka
joba tridente

VII
belém belém belém
a um minuto do natal
a puta despe-se do cliente fortuito



VIII
a todo natal
a puta lembra dos filhos
que deixou para trás

a cada lixeira na rua
um arrepio e um suspiro

*
ilustração de joba tridente.2015



Joba Tridente em Verso: 25 Poemas Experimentais (1999); Quase Hai-Kai (1997, 1998 e 2004); em Antologias: Hiperconexões: Realidade Expandida (2015); 101 Poetas Paranaenses (2014); Ipê Amarelo, 26 Haicais; Ce que je vois de ma fenêtre - O que eu vejo da minha janela (2014); Ebulição da Escrivatura – 13 Poetas Impossíveis (1978); em Prosa: Fragmentos da História Antropofágica e Estapafúrdia de Um Índio Polaco da Tribo dos Stankienambás (2000); Cidades Minguantes (2001); O Vazio no Olho do Dragão (2001). Contos, poemas e artigos culturais publicados em diversos veículos de comunicação: Correio Braziliense, Jornal Nicolau, Gazeta do Povo, Revista Planeta, entre outros.

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