quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Walter Medeiros: Noite de Raposas e Manhã de Carcarás


Ilustração de Joba Tridente: Noite de Raposas e Manhã de Carcarás - Falas ao Acaso

Hoje é o Dia do Saci Pererê e, para homenagear o fantástico na literatura brasileira, trago o realismo mágico do Cordelista Walter Medeiros em Noite de Raposas e Manhã de Carcarás, de 2002. Em um texto breve, sobre esta arte poética, publicado em seu site Poemas de Cordel, o autor diz que: O Cordel pode ser considerado como uma poesia narrativa, impressa e popular, conforme definem alguns estudiosos. Trata-se de uma poesia que só se manifesta através da escrita. Até porque sua característica mais prática e popular está na forma de expor - que lhe deu o próprio nome – folhetos pendurados em cordéis. Existem rimas feitas de improviso que se assemelham aos poemas de cordel, porém aí já ganham outra conotação: a embolada e outros repentes são exemplos. Desde o Século XV há registros de folhetos na Alemanha, no Século XVII na Holanda e Portugal, em forma de “folhas volantes” ou “folhas soltas”. Os estudiosos apresentam comprovações desta origem para o Cordel. Ele tem uma importância muito grande para a nossa cultura, pois estimula o dom natural daqueles que fazem rimas populares.



Noite de Raposas e Manhã de Carcarás (2002)
Walter Medeiros

Nas estradas do Nordeste,
temos muito o que ver:
d’aurora ao anoitecer,
é um verdadeiro teste,
que temos que enfrentar,
pra poder nos deslocar,
desde o sertão ao agreste.

Basta que agora lhe conte
uma recente viagem,
feita por estas paragens
de tão lindo horizonte:
pra você ter uma ideia,
quem viajou na boleia
diz que foi estronteante.

Com destino a Fortaleza,
Voltavam de Caicó:
Uma alegria só,
era tudo uma beleza.
De repente, começou
aquilo que se tornou
numa estranha surpresa.

Coisa que só via em lousa,
Um Doutor apreciou,
quando bem perto passou
uma enorme raposa.
Ele até se esquivou,
mas firme aguentou
tão surpreendente coisa.

Depois veio logo outra
e mais outras, outras tais,
ele nem ligava mais,
dizia que era marota
mas todos naquele carro
em estado tão bizarro
diziam “tá com a gôta”.

De repente aliviou
e as raposas sumiram
nenhum mais eles viram
quando algo clareou
aí veio a novidade
em meio à claridade
que ao grupo impressionou

Pela estrada a deslizar,
seguia o rumo traçado
quase meio desligados,
para o Céu foram olhar;
que cena estranha viram
quando a vista subiram:
a nuvem de carcará.

Lembraram de Hitchcock,
naquele seu filme lindo,
com os pássaros seguindo
quem desse o menor toque;
Mas, com seus conhecimentos
o grupo teve momentos
de diferentes enfoques.

O medo de virarem presas
criou uma mente só;
os carcarás não tinham dó,
no rumo de Fortaleza,
seguiam o carro pertinho
e todo mundo juntinho
testavam a natureza.

Uns achavam engraçado,
outros tinham apreensão,
era tanta emoção,
tinha até doutor calado;
mas parecia eterno,
diziam que era um inferno
aquele trecho enfrentado.

Raposas a carcarás
chamaram tanta atenção,
que o grupo com emoção
só falava sobre paz:
respirando muito fundo,
pensaram por um segundo:
─ outra dessas, nunca mais.

Tanto que nem mais lembravam
o dia anterior,
onde no interior
tiveram uma agenda brava,
Mas isso é outra história
que vai ficar na memória
de viagem cheia de favas.

Por aqui vou encerrar,
quero que tenham gostado
do que foi aqui narrado
e tenho que homenagear;
senão, não tinha histórias,
pois aqui quem tem as glórias
é raposa e carcará.


Walter Medeiros (1953) é escritor (prosa e verso) e jornalista. Trabalhou em diversos veículos de comunicação, entre eles a Folha de S. Paulo, o Estado de S. Paulo, Rádios Cabugi e Planalto, TV Cabugi, Tribuna do Norte e Dois Pontos, tendo colaborado no jornal Movimento. Foi um dos fundadores do jornal cultural Galo, da Fundação José Augusto. Participou do jornal O Letreiro, do curso de Letras da UFRN (1976) e do fanzine poético A Margem. Em 1990 publicou Abelardo, O Alcoólatra, que trata do o dia-a-dia de uma clínica de recuperação de dependentes químicos. Fonte: Poemas de Cordel.

Ilustração de Joba Tridente.2012

domingo, 28 de outubro de 2012

Oscar Wilde: Três Aforismos sobre Artes Plásticas


Ilustração de Joba Tridente: OCA - Oscar Wilde - Falas ao Acaso

Oscar Wilde: 3 Aforismos sobre Artes Plásticas

um - A obra de arte deve dominar o público. Não cabe ao público dominar a obra de arte.

dois - Os quadros modernos são certamente muito agradáveis de se verem. Pelo menos, muitos deles. Mas é impossível conviver com eles; são intelectuais demais, intrometidos demais. O significado deles é demasiado óbvio, a técnica demasiado precisa. Em muito pouco tempo descobrimos tudo aquilo que eles têm a dizer, e então tornam-se tão enfadonhos quanto os parentes.

três - Não há uma verdade na arte. Na arte é verdadeiro até o contrário da verdade.


Oscar Wilde (16/10/1854 - 30/11/1900), mestre do sarcasmo inglês: A única pessoa no mundo que gostaria de conhecer profundamente sou eu mesmo, mas por enquanto não vejo a menor possibilidade de isso acontecer.

Estes Aforismos têm como base, entre outras fontes, o livro Oscar Wilde - Aforismos, com tradução de Mario Fondelli para Clássicos Econômicos Newton.

ilustração  de Joba Tridente.2012

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Alberto Ribeiro: Cachorro Vira-lata


Cachorro Vira-Lata - ilustração de Joba Tridente - Falas ao Acaso

Eu me lembro da música Cachorro Vira-lata, samba-choro de Alberto Ribeiro (1937), na voz de Ney Matogrosso, mas sei que foi um clássico na voz de Carmen Miranda. Deu vontade de postar em homenagem a todos os vira-latas do mundo!


Cachorro Vira-lata

Eu gosto muito de cachorro vagabundo
Que anda sozinho no mundo
Sem coleira e sem patrão
Gosto de cachorro de sarjeta
Que quando escuta a corneta
Sai atrás do batalhão

E por falar em cachorro
Sei que existe lá no morro
Um exemplar
Que muito embora não sambe
Os pés dos malandros lambe
Quando eles vão sambar
E quando o samba está findo
Vira-lata esta latindo a soluçar
Saudoso da batucada
Fica até de madrugada
Cheirando o pó do lugar

E até mesmo entre os caninos
Diferentes os destinos
Costumam ser
Uns têm jantar e almoço
E outros nem sequer um osso
De lambuja pra roer
E quando passa a carrocinha
A gente logo adivinha a conclusão
O vira-lata, coitado
Que não foi matriculado
Desta vez "virou"... sabão


Alberto Ribeiro da Vinha (1902 - 1971): compositor e cantor, parceiro de João de Barro (Braguinha). Entre seus sucesso se destacam, ainda: Sonho de Papel (1935), Yes, Nós Temos Banana (1938), Touradas em Madrid (1938), Copacabana, Princesinha do Mar (1946), Tem Gato na Tuba (1948), Chiquita Bacana (1949), O Balão Vai Subindo (1957), Capelinha de Melão (1957).

Certa noite, Carmen Miranda saindo da Rádio Tupi deparou-se com um cachorro abandonado, causando-lhe pena. Seu acompanhante sugeriu-lhe que o adotasse, já que gostava tanto cães, o que ela prontamente aceitou. Dias depois, encontrando o amigo, Carmen informou-lhe que o cão fugira no dia seguinte: -Abandonou-me para viver sozinho no mundo... um cachorro de caráter! Este episódio motivou Alberto Ribeiro a compor Cachorro vira-lata e presentear à Carmen.

Cachorro Vira-Lata foi gravada originalmente na Odeon em 1937 por Carmen Miranda, acompanhada pelo Conjunto Regional de Benedito Lacerda, lançada como samba-choro em discos 78 rpm. Outras gravações conhecidas são as de Francisco Scarambone (piano, 1940), Ademilde Fonseca, Carolina Cardoso de Menezes (piano), Baby Consuelo, Ney Matogrosso (1979), Glória Rios (1981), entre outras. Fonte: Ao Chiado Brasileiro.

Ilustração de Joba Tridente. 2012

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Wenceslau de Moraes: O Cavalo Branco de Nanko



O Cavalo Branco de Nanko *
Wenceslau de Moraes

a Carlos Campos

Isto aconteceu há cerca de mil anos, em terras japonesas: um cavalo, que o grande artista Kanaoka desenhara num biombo do templo de Ninnadji, perto de Kioto, era uma tão bela criação, cheia de verdade e palpitante de vida, que todas as noites se escapava do papel para ir galopar pelos campos em roda, culturas fora, devastando a esmo as sementeiras; e o caso dava-se, claramente, com magno espanto e raiva dos campônios, que o perseguiam à pedrada. Estes campônios, impressionados pelas formas incomparáveis do animal, persuadiram-se por fim de que ele não podia ser outro senão o cavalo de Kanaoka; e a persuasão converteu-se um dia em certeza absoluta, quando viram na pintura as patas do travesso, úmidas ainda da lama fresca dos caminhos. Sem mais cerimônias, arremeteram contra a tela e furaram-lhe os olhos; e consta que nunca mais houve queixas de estragos nas fazendas.
Ainda outro cavalo de Kanaoka, que era mestre no gênero, cavalo desenhado numa parede interior do palácio imperial, tinha o vezo de ir devorar pelos jardins as flores tenras do açafrão; e só cessou a brincadeira quando alguém se lembrou de retocar a obra, amarrando o patife à parede com um pedaço de corda pintada para o efeito. 


Ora bem. De muitas maravilhas é sem duvida capaz a mão inspirada de um artista!... Esses dois cavalos de Kanaoka, nascidos de uma gota de tinta e de algumas curvas humorísticas de pincel, mas em todo o caso ungidos do sopro sublime do exímio mestre, animavam-se por momentos, soltavam-se da tela, e aí iam eles!... Felizes boêmios eram e felizes tempos eram. Arte criadora, arte radiosa das épocas passadas, porque não vais tu regendo, ainda e sempre, os destinos de todas as coisas deste mundo?...
Nestes dias que correm, deslavados e tristes, mesmo no Japão, e não cessando de divagar no mesmo assunto de cavalos, confesso francamente a quem me ler, que nada me mortifica tanto como o espetáculo dos cavalos sagrados dos Templos Xintoístas. Ora aqui estão umas cavalgaduras bem autênticas, bem vivas, bem reais, de carne e osso; e que, se fossem lidas em coisas de arte antiga nacional - mas não são, - por certo muito invejariam as simples criações no papel da mão de Kanaoka. Neste país japonês, onde parece que os seres, homens e bichos, nasceram e vivem num banho perene de sorrisos, mais desoladora se afigura ainda a condição dos pobres brutos, que um dia inspiraram estas linhas melancólicas que escrevo.

Wenceslau José de Sousa de Moraes (1854-1929) nasceu em Lisboa e faleceu em Tocushima, Japão. Frequentou a Escola Naval, tendo feito várias viagens como oficial da Marinha de Guerra pela América, África e Ásia. Fixa-se em Macau em 1891, depois de nomeado imediato da capitania do porto, inspector do ópio e professor, convivendo com Camilo Pessanha, seu amigo. É nomeado, em 1899, cônsul no Japão. Após a morte da gueixa com que passou a viver, pede exoneração do cargo (1913) e radica-se definitivamente em Tocushima, entregando-se aí à atividade literária e convertendo-se ao budismo. É um dos mais importantes autores portugueses que trataram literariamente assuntos ligados ao Oriente, em especial o Japão. Obras: Traços do Extremo Oriente - Sião, China e Japão (Lisboa, 1895), Dai-Nippon (Lisboa, 1897), Serões no Japão (Lisboa, 1905), Os Mistérios de um Telhado, O Culto do Chã (Kobe, 1905), Paisagens da China e do Japão (Lisboa, 1906), O Bon-Odori em Tocushima (Lisboa, 1916), Ó-Yoné e Ko-Haru (Porto, 1923), Relance da História do Japão (Porto, 1924), Os Serões no Japão (Lisboa, 1925), Relance da Alma Japonesa (Lisboa, 1926), Cartas Íntimas (1944), Notícias do Exílio Nipónico (Macau, 1994). Fonte: Projeto Vercial.

* Publicado em Paisagens da China e do Japão – Lisboa – 1906: Livraria Editora Viuva Tavares Cardoso. Disponibilizado pelo Projeto Gutemberg aqui.

Ilustração: Zhima - Macao. Em vez de fazer uma ilustração própria decidi procurar a obra relacionada de Kanaoka. Encontrei esta gravura chinesa no site Arte Comentada e, pela descrição de A-Line, acredito que ela tem tudo a ver com a lenda: “... algumas gravuras são feitas especialmente para serem queimadas, a fim de atrair a boa-sorte (essas são conhecidas como zhima, ou “cavalos de papel”).

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Oscar Wilde: O Artista



Oscar Wilde (16/10/1854 - 30/11/1900), mestre do sarcasmo inglês: A única pessoa no mundo que gostaria de conhecer profundamente sou eu mesmo, mas por enquanto não vejo a menor possibilidade de isso acontecer.

Estes Aforismos têm como base, entre outras fontes, o livro Oscar Wilde - Aforismos, com tradução de Mario Fondelli para Clássicos Econômicos Newton.

arte: Joba Tridente 

domingo, 21 de outubro de 2012

Joba Tridente: Quero minhas horas de volta


Ilustração de Joba Tridente - Quero Minhas Horas de Volta - Falas ao Acaso

quero minhas horas de volta

odeio o horário de verão
quero minhas horas de volta
furtadas a cada manhã

quero minhas horas de volta
minhas horas infantis
que não conheceram os segundos
minhas horas juvenis
que não viveram seus minutos

quero minhas horas de volta
levadas por um calhorda
que se apropriou do tempo

quero minhas horas de volta
quero minhas horas comigo
não vagando por aí

quero minhas horas de volta
odeio o horário de verão

Poesia e Ilustração
de Joba Tridente: 21.10.2012



terça-feira, 16 de outubro de 2012

Manuel Bandeira: Trem de Ferro


Em 13 de Outubro de 1968 morria o modernista Manuel Bandeira. Há 44 anos. Antes tarde do que nunca, a minha homenagem com um dos mais melodiosos poemas da literatura brasileira, a obra-prima: Trem de Ferro.

Trem de ferro

Café com pão
Café com pão
Café com pão

Virge Maria que foi isso maquinista?

Agora sim
Café com pão
Agora sim
Voa, fumaça
Corre, cerca
Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força
(trem de ferro, trem de ferro)

Oô...
Foge, bicho
Foge, povo
Passa ponte
Passa poste
Passa pasto
Passa boi
Passa boiada
Passa galho
Da ingazeira
Debruçada
No riacho
Que vontade
De cantar!
Oô...
(café com pão é muito bom)

Quando me prendero
No canaviá
Cada pé de cana
Era um oficiá
Oô...
Menina bonita
Do vestido verde
Me dá tua boca
Pra matar minha sede
Oô...
Vou mimbora vou mimbora
Não gosto daqui
Nasci no sertão
Sou de Ouricuri
Oô...

Vou depressa
Vou correndo
Vou na toda
Que só levo
Pouca gente
Pouca gente
Pouca gente...
(trem de ferro, trem de ferro)

Manuel Bandeira in "Estrela da Manhã" 1936
Ilustração de Joba Tridente. 2012

Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho (Recife, 19 de Abril de 1886 - Rio de Janeiro, 13 de Outubro de 1968). Professor de literatura, escritor, cronista, crítico literário, tradutor. Manuel Bandeira é autor, entre outros de: A Cinza das Horas (1917); Carnaval (1919); Os Sapos (1922); O Ritmo Dissoluto (1924); Libertinagem (1930); Estrela da Manhã (1936); Lira dos Cinquent’anos (1940), O Bicho (1947); Belo, Belo (1948); Mafuá do Malungo (1948); Opus 10 (1952); Estrela da Tarde (960); Estrela da Vida Inteira (1966).

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Dia dos Professores: Piadas Escolares


Ilustração de Joba Tridente - Falas ao Acaso: Piadas Escolares

Dia desses, pesquisando no Arquivo Digital Brasiliana USP (que recomendo!), encontrei o Almanach de Porto Alegre - 1920. Eu não o conhecia. Sou do tempo do Almanaque (Biontônico) Fontoura, aquele do Jeca Tatu (dos anos 1960) e que foi criado e ilustrado por Monteiro Lobato (1882 - 1948) também em (acredite!) 1920. A premissa é a mesma: informações médicas, agrícolas, literatura, passatempo, humor... Bem, foi nele que encontrei, entre outras pérolas, estas três ingênuas piadas para animar o Dia dos Professores:

1
Desculpa naturalíssima.
O mestre escola: - Então Joaquim, porque não vieste ontem, à aula?
O Joaquim: - Estive com muita febre, e fiquei de cama.
- Sim? Pois a mim me disseram que perto do meio dia, ias, muito contente, a correr pela rua I.
O Joaquim (corando muito) - Perto do meio dia ? . . . Ah! Já me lembro! Era eu que me sentia muito mal, e ia chamar o medico!

2
- Dize-me, Carlinhos, quantos irmãos tens mais velhos do que tu?
- Tenho quatro, senhor professor.
- E quantos tens mais novos do que tu?
- Cinco.
- Ah! então são dez irmãos?
- Não, senhor; somos onze.
- Bem se vê que não sabes somar.
Quatro mais velhos e cinco mais novos, e depois, contando contigo, são dez. Pois não é isto?
- É, sim, senhor; mas nós somos onze. Tenho um mano da mesma idade que eu. Eu e ele somos gêmeos.

3
Um dia, um rapazito foi para a escola com as mãos sujas, e o mestre disse-lhe:
- Joannico, não me tornes a aparecer aqui, com as mãos sujas dessa maneira. O que é que dizia, se eu viesse para a escola com as mãos sujas assim?
- Não dizia nada, respondeu Joannico prontamente. A minha boa educação chegava até aí.

 Nota: A ficha completa e o download do Almanach de Porto Alegre - 1920 podem ser acessados aqui. O site é Brasiliana USP.

Ilustração de Joba Tridente. 2012



sábado, 13 de outubro de 2012

Zalina Rolim: O Cão e os Pássaros



Nesta Semana da Criança postei, a cada dia, um texto diferente, em prosa e ou em verso, de autor brasileiro e ou estrangeiro. Encerro com este poema que encontrei no Livro das Crianças, de Zalina Rolim, editado em 1896. Mais uma curiosidade que pincei no Portal da Unicamp. Muita coisa mudou no ensino e na literatura infantojuvenil, neste último século. E estou sempre fuçando, procurando entender as mudanças.


O Cão e os Pássaros

FEROZ é um velho cão de guarda. A gente,
Que o vê de longe, teme-lhe os olhares,
E examina a grossura da corrente
Férrea, que o liga ao muro dos seus lares.

Ninguém lhe amima o dorso largo e forte;
Ninguém procura o seu olhar profundo;
Do seu caminho fogem, de tal sorte
Que ele se vê sozinho neste mundo.

O próprio dono evita-lhe os afagos,
Olha-o receoso, e se aproxima a custo.
Do velho cão nos grandes olhos vagos,
Paira a tristeza de um castigo injusto.

Não compreende o terror por ele aceso;
Quer mostrar-se bondoso, e a cauda agita,
Mas o rumor dos ferros, que o têm preso,
Mais pavor nos corações excita.

E ele, sentindo assomos de revolta,
Tenta quebrar os elos da cadeia...
Mas, pouco a pouco, a placidez lhe volta,
E o louco instinto, devagar, sopeia.

Inclina o corpo e estende-se por terra,
Preso ao terror, que a própria força inspira;
E, silencioso, úmidos olhos cerra,
Sem mais vislumbre de despeito ou ira.

Velando à porta do casebre, sonha...
O campo é todo verde; o céu fulgura,
E erra no espaço, trêfega e risonha,
A azado vento a derramar frescura.

Nova agonia o coração lhe aperta,
Nostálgico, aspirando o fim de tudo...
Nisto, um ligeiro frêmito o desperta,
E ele abre os olhos, cauteloso e mudo.

São passaritos. Ei-los! Não têm medo
Vêm partilhar com ele o magro almoço.
E, compassivo, espera imóvel, quedo,
Que eles se vão, para roer um osso.

E o velho cão de pavoroso aspecto,
Que nunca teve a graça de uns carinhos,
Sentindo o peito a transbordar de afeto,
Trêmulo escuta a voz dos passarinhos.


Em seu prefácio o entusiasmado professor Gabriel Prestes diz: NÃO é de crítica este prefácio. É apenas uma advertência sobre o valor pedagógico do precioso livro escolar que a distinta poetisa e professora d. Zalina Rolim oferece às nossas escolas e que o governo do Estado, por indicação do Conselho Superior, em boa hora resolveu publicar, satisfazendo todas as condições estéticas exigíveis em trabalho desta natureza. (...) A leitura de uma das poesias de que o livro se compõe, tomada ao acaso, dispensa-me de qualquer apreciação sobre o seu mérito literário, o que, aliás, me levaria muito além dos limites a que tenho de me restringir. (...) Basta-me, pois, dizer que, quanto à impressão, o livro de d. Zalina Rolim será um primor de nitidez e elegância, quanto à composição, um modelo de singeleza e espontaneidade. (...) O "Livro das Crianças" vai ser de inapreciável valor para o ensino de nossas escolas. É mais do que um simples livro de leitura, é um modelo sugestivo para o ensino da linguagem oral e escrita. (...) Se, em uma frase apenas fosse possível resumir este prefácio, eu diria que o valor deste trabalho vai além do que indica o seu título: não é apenas um "Livro das Crianças", é também um livro para crianças e, mais do que isso, é um livro para os bons mestres.

Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo (1869 - 1961). Professora alfabetizadora, transferiu-se com a família para São Paulo em 1893. Educadora, entre 1896 e 1897, exerceu o cargo de vice-inspetora, do Jardim da Infância anexo à Escola Normal Caetano de Campos, em São Paulo. Escreveu para diversas revistas femininas e jornais como A MensageiraO ItapetiningaCorreio Paulistano e A Província de São Paulo. Obras: O coração (1893); Livro das Crianças (1897); - Livro da saudade - organizado nesta data para publicação póstuma - (1903). Referência: Portal Unicamp.

Ilustração de Joba Tridente. 2012

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Clarice Lispector : A Fruta Sem Nome


Nesta Semana da Criança estou postando, a cada dia, um texto diferente, em prosa e ou em verso, de autor brasileiro e ou estrangeiro. Hoje é sexta-feira, 12 de Outubro, Dia das Crianças e de Clarice Lispector. Pensei em postar a sua crônica Era uma vez, sobre a arte (ou sina?) de escrever. Mas então me lembrei de Como Nasceram As Estrelas - Doze Lendas Brasileiras (1987) e optei, é claro, pela lenda do mês de Outubro: A fruta sem nome. Sei que é uma lenda muito conhecida (com versão até de Monteiro Lobato em Histórias de Tia Nastácia: O Jabuti e a Fruta), mas também é perfeita para hoje.



O U T U B R O
A Fruta Sem Nome

Neste mês cai o Dia das Crianças. Além de brinquedos, por que não lhes contar sobre a fruta desconhecida?
No tempo de nossa tatatatataravó, simplesmente as árvores cresciam lindas mas sem dar frutas. Além do mais, não havia boas raízes para um repasto bom. Como se pode imaginar, a fome grassava entre os bichos.
Aí, como quem não quer nada, espalhou-se um boato: na floresta amazônica crescia uma árvore especial. Árvore com dom de encantamento.
- Dá fruta? perguntavam-se os bichos. A resposta veio da arara tagarela: dava fruta gostosa.
Havia, porém, um “mas”. Para colher a fruta era preciso conhecer antes o seu nome...
Os bichos pensaram, pensaram e pensaram. E resolveram perguntar o nome da árvore mágica a Tupã.
Este não se fez de rogado: — Olhem, é “muçá, muçá, muçá”.
A anta começou a repetir e a repetir o nome pelo caminho para não esquecer. Mas encontrou uma velha egoísta que queria comer sozinha todas as frutas.
- Anta, amiga minha, quer trazer para mim uma “mugá, mucungá, muculungá”?
A anta ficou pasma e atrapalhou-se quanto ao nome que vinha repetindo.
O jeito era outro bicho pedir a Tupã o nome da fruta. Mal pensaram e logo agiram, obtendo o quati o nome esquecido. Mas também encontrou a velha maluca e se atrapalhou para valer. Depois foi a vez do macaco que ameaçou a velha. Esta, contudo, disse um nome qualquer para a fruta - e adeus memória de macaco. O jacaré também caiu na cilada.
Chegou então a vez do jabuti que tem casco de tartaruga. Foi perguntar a Tupã o abençoado nome. Tupã quis desiludi-lo:
- Você não é de nada com sua vagareza, a velha te pega antes que você dê dois passos.
O jabuti, porém, não desanimou. Confiava na sua esperteza que era maior que sua lentidão. Além do mais, era bicho insistente. Aprendeu o nome e tocou a sua flautinha, repetindo o nome e depois a mesma melodia.
Aí a velha foi se achegando sabida e gritou:
- Filhinho, também quero uma “mugá, mucungá, muculungá”. Mas o jabuti continuou dizendo: “muçá, muçá, etc”. Quanto mais a velha queria atrapalhar, mais o jabuti repetia o nome certo. Fez-se de surdo e tocava a flautinha sem esquecer o que Tupã lhe ensinara...
A velha ficou danada da vida e começou a bater no seu casco. Mas embaixo do casco o jabuti cantava. Quem ficou atrapalhada foi a velha raivosa.
O jabuti é bicho bom e ensinou o segredo aos outros animais. A fruta era uma delícia e a comilança foi grande. E claro que o jabuti regalou-se. Mas tem uma coisa: ficou até hoje com o casco rachado por causa da surra que levou da velha.


Clarice Lispector (1920 - 1977), a voz feminina mais intensa e triste da literatura brasileira, transitava com a mesma beleza e melancolia pela literatura acessível ao leitor infantojuvenil: O mistério do coelho pensante (1967), A mulher que matou os peixes (1968), A vida íntima de Laura (1974), Quase de verdade (1978), Como nasceram as estrelas (1987) e ou adulto: Perto do Coração Selvagem (1943), O Lustre (1946), A Cidade Sitiada (1949), Alguns contos (1952), Laços de família (1960), A Maçã no Escuro (1961), A Paixão segundo G.H. (1964), A legião estrangeira (1964), Uma Aprendizagem ou Livro dos Prazeres (1969), Felicidade clandestina (1971), Água Viva (1973), A imitação da rosa (1973), A via crucis do corpo (1974), Onde estivestes de noite? (1974), A hora da estrela (1977), Um Sopro de Vida - Pulsações (1978), A bela e a fera (1979).

Ilustração de Joba Tridente. 2012



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