sábado, 3 de fevereiro de 2018

Nicanor Parra: O Peregrino

No dia 23 de janeiro de 2018 o antipoeta chileno Nicanor Parra fez a sua antipassagem espiritual para o antimundo e, em sua memória, o Falas ao Acaso abre um pós-espaço para homenageá-lo. Em 2015, em aplauso aos seus 101 anos, publiquei Dos ChistesSe Canta Al MarAutorretratoCartas A Una Desconocida e Epitáfio, presentes na antologia digital bilíngue Nicanor Parra e Vinícius de Moraes (2009), com tradução e introdução de Carlos Nejar e Maximino Fernández, disponibilizada pela Academia Brasileira de Letras e a Academia Chilena de la Lengua.

Nesta nova série você acompanha a postagem de cinco antipoemas em espanhol e em traduções de Carlos Nejar e de João Carlos Martins. Você que anteriormente conheceu o Solo de Piano e Desordem No Céu e Madrigal e Santo Antônio, hoje fica com o último deles: O Peregrino (El Peregrino) do livro Poemas e Antipoemas (1954), em tradução de Carlos Nejar para a antologia Nicanor Parra e Vinícius de Moraes, da ABL/ACL.


     
EL PEREGRINO
Nicanor Parra

Atención, señoras y señores, un momento de atención:
volved un instante la cabeza hacia este lado de la república,
olvidad por una noche vuestros asuntos personales,
el placer y el dolor pueden aguardar a la puerta:
una voz se oye desde este lado de la república.
¡Atención, señoras y señores!, ¡un momento de atención!

Un alma que ha estado embotellada durante años
en una especie de abismo sexual e intelectual
alimentándose escasamente por la nariz
desea hacerse escuchar por ustedes.
Deseo que se me informe sobre algunas materias,
necesito un poco de luz, el jardín se cubre de moscas,
me encuentro en un desastroso estado mental,
razono a mi manera;
mientras digo estas cosas veo una bicicleta apoyada en un
     muro,
veo un puente
y un automóvil que desaparece entre los edificios.

Ustedes se peinan, es cierto, ustedes andan a pie por los
     jardines,
debajo de la piel ustedes tienen otra piel,
ustedes poseen un séptimo sentido
que les permite entrar y salir automáticamente.
Pero yo soy un niño que llama a su madre detrás de las
     rocas,
soy un peregrino que hace saltar las piedras a la altura de su
     nariz,
un árbol que pide a gritos se le cubra de hojas.



O PEREGRINO
Nicanor Parra
tradução: Carlos Nejar

Atenção, senhoras e senhores, um momento de atenção:
volvei um momento a cabeça para este lado da república,
esquecei por uma noite vossos assuntos pessoais,
o prazer e a dor podem aguardar à porta:
uma voz se ouve deste lado da república.
Atenção, senhoras e senhores!, um instante de atenção!

Uma alma que estava engarrafada durante anos
numa espécie de abismo sexual e intelectual
nutrindo-se escassamente pelo nariz
pretende fazer-se escutar por vocês.
Desejo que me informem sobre algumas matérias,
necessito um bocado de luz, o jardim se cobre de moscas,
encontro-me num desastroso estado mental,
raciocino à minha maneira;
enquanto digo estas coisas vejo minha bicicleta apoiada
     num muro,
vejo uma ponte
e um automóvel que desaparece entre os edifícios.

Vocês se penteiam, é certo, vocês andam a pé pelos
     jardins,
vocês debaixo da pele têm outra pele,
vocês possuem um sétimo sentido
que lhes permite entrar e sair automaticamente.
Porém, eu sou um menino que chama a sua mãe detrás das
     rochas,
sou um peregrino que faz saltar as pedras na altura de seu
     nariz,
uma árvore que pede aos gritos que se lhe cubra de folhas.
  
*
ilustração de Joba Tridente.2018



Nicanor Parra (San Fabián de Alico, Chile em 5 de setembro de 1914 - La Reina, Chile em 23 de janeiro de 2018). Formou-se em Matemática e Física no Instituto Pedagógico da Universidade do Chile. Estudou Mecânica avançada na Universidade de Brown, Rhode Island (1943-1945). Foi diretor interino da Escola de Engenharia da Universidade do Chile, discípulo do Cosmólogo E.A. Miner em Oxford e professor de Mecânica Teórica na Universidade do Chile. Nicanor Parra tinha grande afinidade com as obras de Federico Garcia Lorca e Walt Whitman e os seus antipoemas teriam sido influenciados por filmes de Charles Chaplin, e o surrealismo de autores como Franz Kafka, Thomas Stearns EliotEzra PoundJohn Donne e William Blake. O escritor chileno, que recebeu, em 2011, o Prêmio Cervantes, oferecido pelo Ministério da Cultura da Espanha, estreou na literatura com Cancioneiro sem Nome (1937). A publicação da obra que o consagrou deu-se em 1954, Poemas y Antipoemas. Em seguida vieram: La cueca larga (1958) e Versos de Salón (1962), Manifiesto (1963), Canciones rusas (1967), Obra gruesa (1969), Los professores (1971), Artefactos (1972), Sermones y prédicas del Cristo de Elqui (1977), Nuevos sermones y prédicas del Cristo de Elqui (1979), El anti-Lázaro (1981), Plaza Sésamo (1981), Poema y antipoema de Eduardo Frei (1982), Cachureos, ecopoemas, guatapiques, últimas prédicas (1983), Chistes para desorientar a la policía (1983), Coplas de Navidad (1983), Poesía política (1983), Hojas de Parra (1985), Poemas para combatir la calvície (1993), Páginas en blanco (2001), Lear Rey & Mendigo (2004), Obras completas I & algo + (2006), Discursos de Sobremesa (2006), Antiprosa (2015). Fontes: Wikipedia e Antologia de Nicanor Parra e Vinicius de Moraes - ABL/ACL.
Nota: O Portal da Universidad de Chile disponibiliza a obra de Nicanor Parra e de outros grandes nomes em Retablo de Literatura Chilena.

Carlos Nejar: Poeta, Ficcionista e Crítico. Pertence à Academia Brasileira de Letras e à Academia Brasileira de Filosofia. O premiado escritor e tradutor de Jorge Luis Borges, Pablo Neruda e Nicanor Parra, tem a sua significativa obra literária publicada no Brasil e no Exterior. Confira AQUI a sua biografia e AQUI a sua extensa bibliografia. 

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