quinta-feira, 30 de maio de 2013

Literatura Latino-Americana: Jorge Timossi


Certa manhã, há muitos e muitos sábados, encontrei na ponta de estoque de uma livraria de Curitiba o encantador livro Continhos e outras alterações, de Jorge Timossi, com ilustrações de Quino. Uma joia rara. Até onde sei, o único livro do autor lançado no Brasil. A edição é de 1997 e saiu pela Casa Jorge Editorial, com tradução de Sieni Marcia Campos. Após a recente publicação de três Hai-Kais que tratam da passagem do tempo, pensei em postar algo mais lúdico, mais leve, e me lembrei da fascinante obra de Jorge Timossi. Escolhi cinco Continhos. Entre eles, o antológico A Aranha, que já postei anteriormente.



O Peixinho

Nesse domingo, Néstor Brasal foi pescar, feliz e plácido, na famosa lagoa conhecida como As Águas do Olvido, usou como isca um pouco de memória que lhe restava, lançou o anzol e, pouco depois, puxou um peixinho dourado, muito bonito e reluzente, que contemplou durante alguns minutos e, a seguir, tomando precauções para que ninguém visse, devolveu ao seu meio natural, atirando-o com cuidado, mas também com certa dose de nostalgia que lhe durou o resto daquele dia em que, por mais paciência e tenacidade que tivesse, não conseguiu fisgar nada mais, nem sequer uma sardinha de lembrança. (p.67)


Melodrama
para I. Dávila e M. Rojas

Apagou a tela da televisão, olhou ao redor e se convenceu de que o que agora estava vendo era algum outro capítulo mal alinhavado daquela mesma novela. (p.23)


Teoria

O camelo tentou de tudo para passar pelo buraco de uma agulha, mas, quando se convenceu de que era impossível, teve a ideia de contornar um lado dessa maldita agulha e colocar-se, assim, do outro lado, como quem cumpriu da mesma forma aquela sagrada missão de que o haviam encarregado. (p.13)



A Aranha

Ficou tão bonita minha teia que já não desejo que caia em sua fúlgida trama nenhuma outra vítima além de mim mesma. (p.9)


Imigração
para Miguel Barnet

O funcionário da alfândega abriu a maleta de couro gasto, comprovou que aquele imigrante levava apenas sua pesada tragédia pessoal, fechou-a com muito cuidado e murmurou, como se não se referisse a ninguém em particular: “Passe, de qualquer maneira acho que não vai lhe ser de nenhuma utilidade”. (p.53)


*
ilustrações e fotomontagem de Joba Tridente


Jorge Timossi Corbani (Buenos Aires, 1936 - Havana, 2011) - escritor, cronista, ensaista e jornalista argentino-cubano. Correspondente em diversos países, inclusive no Brasil (1959 e 1960), cofundador da Agência Prensa Latina, foi agraciado, entre outros, com o Prêmio da Organização Internacional de Jornalistas (1979); Ordem Félix Varela (1996); Prêmio Nacional de Jornalismo José Martí (1999). Timossi, que inspirou o personagem Felipe, do genial criador de Mafalda, é autor de: Poesia Actual de Buenos Aires (1964); El Desafio Cubano (1968); Grandes Alamedas, el Combate del Presidente Allende (1974); Poemas de un Corresponsal (1981); Palmeras (1982); Um perfume para Lam (1988); Las cosas como son (1991); Cuentecillos y otras alteraciones (1995); Crónicas casi reales (1995); Los consejos del abuelo conejo (1999); Juego de Apariencias (?); Juan Pablo II en Cuba (coautor con el fotógrafo Korda y Jorge Luna (?); Palabras sin fronteras (2001).


No Brasil há pouquíssima informação sobre Jorge Timossi. Vasculhando na web encontrei uma matéria bacana (link): Jorge Timossi em mi memoria, de José dos Santos, para revista de cultura cubana (link) La Jiribilla. Se encontrar Continhos e outras alterações em alguma livraria, compre!..., vale cada palavra.

sábado, 25 de maio de 2013

Joba Tridente: Telefonema



Telefonema


trrrrriiiiimmmmmnnnnn
..............................................
na madrugada
quando trote...
xinga-se por ser trote
quando notícia ruim...
xinga-se por não ser trote



*
ilustração de Joba Tridente: arte sobre ding anos 50



Nota: Às vezes mexo em velhos poemas. Às vezes não. Neste eu (re)mexi. Ausentei uma palavra.


quinta-feira, 23 de maio de 2013

Beldemónio: Bebê, o Pensador



Ah, a arte de observar! Bebê, o Pensador é uma deliciosa crônica (ou conto) do escritor português Beldemónio (1857 - 1893). Eu a encontrei no Almanach Illustrado do Brasil-Portugal para o Anno de 1900, edição Brasiliana Digital-USP. Para facilitar a leitura, atualizei a grafia..., mas deixei algumas palavritas. A foto que a ilustra encontrei na web, infelizmente sem autoria. Apesar de bastante partilhada, apenas pela sua graça, ela me pareceu mais que pertinente para este texto cinematográfico. 


Bebê, o Pensador

Zumbem duas moscas em cima do pires em que Bebê acaba de almoçar o seu leite com sopas de pão de ló. Restam migalhas no fundo escorregadio, em que a colher não pega; e as duas moscas, como que julgando mal guardado esse festim luxuoso, aproximam-se em círculos concêntricos, cada vez mais estreitos, enquanto que Bebê olha a cena com uma curiosidade que lhe põe dois vincos refletidos na fronte habitualmente serena. Os seus grandes olhos claros, a sua boca entreaberta que descobre os primeiros dentinhos, a sua altitude cheia de concentração, com a colher suspensa a meio caminho dos lábios, — revelam o trabalho cerebral de um pensador que se esforça por compreender o que vê. Desapareceu-lhe da fisionomia a tranquilidade, ao zumbir daqueles dois animaizinhos que no seu voo passam e tornam a passar por dentro de um raio de sol, tomando e abandonando logo a aparência de insetos feitos com lascas espelhentas de mica: — duas aves de rapina à espreita de uma presa!... E as suas pernas, imóveis, à dependura da alta cadeira, dão a ideia culminante da sua atenção: — por coisa nenhuma d'este mundo Bebê estaria quieto, a não ser pelo empenho na solução de um problema que certamente continha triunfos extraordinários para o seu bem-estar, para o sabor dos seus almoços futuros, talvez para o progresso da humanidade. — Porque Bebê, insensivelmente, espera descobrir no manejo daqueles adventícios, cobiçosos do resto do seu almoço, a maneira de poder ainda aproveitar as migalhas doiradas que nadam na alvura do leite... — Mas acode-lhe então uma ideia que o faz sorrir com desdém das duas moscas, como se assistisse a um esforço eminentemente ridículo de pretensão: — é claro que aquelas duas criaturitas insignificantes, muito mais pequenas do que a presa a empolgar, nunca poderão conseguir o que ele não conseguira, armado com a sua colher e podendo inclinar em todos os sentidos o pires: Bebê encolhe ligeiramente os ombros; e esse gesto traduz o pensamento informe do seu pequeno cérebro que principia a raciocinar um pouco:
— Coitadas! nem ao menos têm uma colher ! ...

*
Mas aguarda os acontecimentos, por descargo de consciência. Pouco a pouco, sempre volteando, as duas moscas têm aproximado o voo do pires, zumbindo, zumbindo sempre. Em baixo os sobejos do almoço de Bebê devem parecer-lhes um arquipélago de rochas de ouro à flor de um oceano todo branco, onde vai raiar dentro em pouco, como um oriente, a flecha estreita do sol que roda de seu vagar sobre a mesa, semelhante a um ponteiro de luz. — Vai amanhecer ali, naquelas paragens dormentes ao fundo de um abismo de porcelana, como tardiamente amanhece num vale que altas montanhas rodeiam! — E Bebê espreita sempre aqueles dois piratas do ar, ansioso de ver como eles se tirarão de dificuldades. Vagarosamente, com um jeito de ladrão noturno, para não espantar as moscas, Bebê desencosta-se da mesa até onde o espaldar da sua cadeira lhe permite, — e olha. Ha então um momento em que elas ficam imóveis em cima do pires, sustentadas por uma vibração imperceptível das asas. Depois, uma delas desce, e a outra dá mais duas voltas a espionar 0 horizonte, como para se assegurar da impunidade. Bebê exagera a sua imobilidade; e cerra os olhos, enquanto que a mosca, subitamente parada no seu giro, parece fitá-lo desconfiada, agora sem um zumbido. Quando torna a abrir os olhos, as duas aves de presa estão pousadas na vertente do pires, mesmo à beira do leite, desta vez como duas aves ribeirinhas à beira-mar, tentando peneirar com a vista a imensidão das águas. Erguem-se ao longe as ilhotas de pão de ló, abeberadas de leite na base; e as duas moscas consultam-se, enquanto que Bebê, com o olhar arregalado, a respiração suspensa, prepara o assalto que arrebatará o resto de almoço das garras dos seus comensais. O raio de sol tem entretanto marchado, vai já na borda do pires... —É manhã, enfim! — Vê-se o fundo aquele imóvel oceano, de um branco ligeiramente azulado; faísca o sol na úmida porcelana. As duas moscas, como que despertando de um bom sono, espreguiçam as asas transparentes com as patitas, aproximam-se do inesperado almoço, mergulham o ferrão no leite, chupam com voluptuosidade cega. Bebê olha um momento aquelas mal educadas, compreendendo enfim; e de súbito, espantando-as com a voz e com o gesto, toma o pires às mãos ambas, e põe-se a lambê-lo sofregamente com a língua, abandonando a colher que lhe fora inútil. Sabe-lhe melhor esse resto; depois que o tem conquistado à pirataria pelo estudo, pela observação, pela astúcia, — pelo gênio, enfim. Sente-se engrandecido, ao cabo daquele conflito de onde a sua finura saiu vencedora. Agora que as duas moscas, afugentadas, andam de novo a esvoaçar longe do pires, como que atarantadas, ele julga ouvir nos seus zumbidos um clamor de derrota que se lamenta esterilmente; e esse clamor faz um coro delicioso ao seu triunfo. Sempre lambendo o fundo do pires, Bebê, sorri-se para elas, com um arzinho de escárnio.

*
Depois, tendo saboreado o seu leite e a sua vitória, Bebê descansa, como um trabalhador que tem ganho honestamente o seu dia. Distraindo, pousa uma das mãos á beira da mesa, esperando na passagem a lista de sol que continua a rodar, cismando vagamente se ela passará também sobre os seus dedos. Com efeito, ao cabo de três minutos em que Bebê tem fitando o sol, semicerrando as pálpebras, a sua mão é alcançada por ele, e adquire subitamente uma transparência rósea. Olha então os seus dedos, mira-os e remira-os; mas punge-o de repente um pensamento profundo: — qual será verdadeiramente o papel deles, uma vez que ainda há pouco acaba de verificar a sua perfeita inutilidade no conflito da existência, perante os simples ferrões de duas moscas? — Ergue o indicador, examina-o por todos os lados: — decididamente, esse dedito que os seus olhos veem translúcido do sol, deve servir para alguma coisa, deve ter um fim que o seu cérebro não alcança. — (A não ser que...) — Bebê sorri; principia-se a fazer luz no seu espirito. Continua a remirar o dedo, voltando, pondo-o diante dos olhos, aproximando-o e afastando-o, ora embebendo-o no sol ora passando-o para a sombra, como um joalheiro que analisa uma pedra preciosa. Adivinha que vai resolver o formidando problema; e redobra de atenção, com os seus dois olhos muito vivos sobre o dedo muito espetado. Súbito, Bebê sorri-se: — num rasgo de gênio, brusco e decisivo como o grito de Archimedes, descobre afinal para que ele serve. — E recostando-se, triunfante, — mete-o altivamente no nariz!


BELDEMÓNIO, pseudônimo de Eduardo Lobo Correia de Barros (Gouveia, 10 de Dezembro de 1857 - Lisboa, 18 de Dezembro de 1893), foi cronista, contista, jornalista e tradutor. Trabalhou no Jornal da Manhã, O Comércio Português, Diário Ilustrado. Lançou as revistas As Vespas, A Má-Língua e A Cega-Rega; e os jornais O Mandarim e O Arauto. Colaborou com diversos periódicos: O Primeiro de Janeiro, O Dez de Março, A Actualidade, A Folha Nova. Traduziu Alphonse Daudet, Zola, Guy de Maupassant, Balzac. É autor de: Viagens no Chiado (1887); Do Chiado a S. Bento (1890); A Musa Loira (1890); Contos Imorais (1890). Beldemónio faleceu com apenas 36 anos de idade. No seu funeral, apenas a mulher, o irmão, e alguns poucos, amigos. O silêncio que envolveu o cronista só foi quebrado em 1902, com a edição póstuma de um terceiro livro de crónicas políticas e outras, intitulado A Volta do Chiado, e em 1917, através da publicação conjunta dos seus livros de contos A Musa Loira - Contos Imorais, com um importantíssimo prefácio de Albino Forjaz de Sampaio. Em 1942, Carlos Sombrio publicou a biografia de Beldemónio e, em 2008, Jorge Costa Lopes organizou uma Antologia do Autor, intitulada Jornal de um Artista. Fonte: Wikipédia.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Cultura: Dicionário de crianças colombianas surpreende adultos


Li esta fascinante matéria no blog Livros Só Mudam as Pessoas, não resisti e partilhei diretamente do site BBC Brasil.


Dicionário de crianças colombianas surpreende adultos
Arturo Wallace - BBC Mundo em Bogotá
18 de maio, 2013

São definições cheia de poesia e sabedoria, apesar da pouca idade de seus autores. Ou talvez por isso mesmo.

Vão desde A de adulto ("Pessoa que em toda coisa que fala, fala primeiro de si", segundo Andrés Felipe Bedoya, de 8 anos), até V de violência ("A parte ruim da paz", na definição de Sara Martínez, de 7 anos).

O dicionário está no livro "Casa das estrelas: o universo contado pelas crianças", uma obra que surpreendeu ao se tornar o maior sucesso da Feira Internacional do Livro de Bogotá, no final do mês de abril. A surpresa aconteceu especialmente porque o livro foi publicado pela primeira vez na Colômbia em 1999 e reeditado no início desse ano.

"Isso me faz pensar que o livro continua revelando, continua falando sobre as pequenas coisas", disse à BBC Mundo Javier Naranjo, que compilou as definições feitas por crianças colombianas.

"Eles têm uma lógica diferente, outra maneira de entender o mundo, outra maneira de habitar a realidade e de nos revelar muitas coisas que esquecemos", diz.

É assim que, no peculiar dicionário, a água é uma "transparência que se pode tomar", um camponês "não tem casa, nem dinheiro. Somente seus filhos" e a Colômbia é "uma partida de futebol".

Além disso, uma das definições de Deus passa a ser "o amor com cabelo grande e poderes", a escuridão "é como o frescor da noite" e a solidão é a "tristeza que a pessoa tem às vezes".

 
Crianças produziram cerca de 500 definições,
que viraram livro de sucesso

'Outra visão do mundo'

As definições - quase 500, para um total de 133 palavras diferentes - foram compiladas durante um período "entre oito e dez anos", enquanto Naranjo trabalhava como professor em diversas escolas rurais do Estado de Antioquía, no leste do país.

"Na criação literária fazíamos jogos de palavras, inventávamos histórias. E a gênese do livro é um dos exercícios que fazíamos", conta ele, que agora é diretor da biblioteca e centro comunitário rural Laboratório do Espírito.

Ele diz que teve a ideia de pedir aos alunos uma definição do que era uma criança, em uma comemoração do dia das crianças.

"Me lembro de uma definição que era: 'uma criança é um amigo que tem o cabelo curtinho, não toma rum e vai dormir mais cedo'. Eu adorei, me pareceu perfeita."

"As crianças escolheram algumas palavras e eu também: palavras que me interessavam, sobre as quais eu me perguntava. Mas não fugi de nenhum", afirma Naranjo.

No dicionário aparecem temas do cotidiano da Colômbia, como guerra e "desplazado", pessoa que se desloca pelo país, geralmente fugindo de conflitos. Um dos alunos definiu a palavra criança como "um prejudicado pela violência".


Aprender a escutar

Para a publicação, Naranjo corrigiu a pontuação e a ortografia das definições escolhidas, mas afirma não ter tirado nenhuma das palavras por "questões ideológicas".

Por isso, o livro mantém a voz das crianças, com suas formas de explicar as coisas e construções gramaticais particulares. Bianca Yuli Henao, de 10 anos, define tranquilidade como "por exemplo quando seu pai diz que vai te bater e depois diz que não vai".

O ex-professor diz que o respeito à voz das crianças também é parte do sucesso do livro, que foi reeditado em 2005 e 2009 e inspirou obras semelhantes no México e na Venezuela.
As vendas do livro ajudaram a financiar as atividades da biblioteca atualmente dirigida por Naranjo, que continua convidando as crianças a deixar a imaginação voar com outras dinâmicas.

"Nós adultos somos condescendentes quando falamos com as crianças e deve ser o contrário. Mais que nos abaixarmos temos que ficar na altura deles. Estar à altura deles é nos inclinarmos para olhar as crianças nos olhos e falar com elas cara a cara. Escutar suas dúvidas, seus medos e seus desejos", diz.



Sabedoria infantil

Adulto: Pessoa que em toda coisa que fala, fala primeiro dela mesma (Andrés Felipe Bedoya, 8 anos)
Ancião: É um homem que fica sentado o dia todo (Maryluz Arbeláez, 9 anos)
Água: Transparência que se pode tomar (Tatiana Ramírez, 7 anos)
Branco: O branco é uma cor que não pinta (Jonathan Ramírez, 11 anos)
Camponês: Um camponês não tem casa, nem dinheiro. Somente seus filhos (Luis Alberto Ortiz, 8 anos)
Céu: De onde sai o dia (Duván Arnulfo Arango, 8 anos)
Colômbia: É uma partida de futebol (Diego Giraldo, 8 anos)
Dinheiro: Coisa de interesse para os outros com a qual se faz amigos e, sem ela, se faz inimigos (Ana María Noreña, 12 anos)
Deus: É o amor com cabelo grande e poderes (Ana Milena Hurtado, 5 anos)
Escuridão: É como o frescor da noite (Ana Cristina Henao, 8 anos)
Guerra: Gente que se mata por um pedaço de terra ou de paz (Juan Carlos Mejía, 11 anos)
Inveja: Atirar pedras nos amigos (Alejandro Tobón, 7 anos)
Igreja: Onde a pessoa vai perdoar Deus (Natalia Bueno, 7 anos)
Lua: É o que nos dá a noite (Leidy Johanna García, 8 anos)
Mãe: Mãe entende e depois vai dormir (Juan Alzate, 6 anos)
Paz: Quando a pessoa se perdoa (Juan Camilo Hurtado, 8 anos)
Sexo: É uma pessoa que se beija em cima da outra (Luisa Pates, 8 anos)
Solidão: Tristeza que dá na pessoa às vezes (Iván Darío López, 10 anos)
Tempo: Coisa que passa para lembrar (Jorge Armando, 8 anos)
Universo: Casa das estrelas (Carlos Gómez, 12 anos)
Violência: Parte ruim da paz (Sara Martínez, 7 anos)

Fonte: livro Casa das estrelas: o universo contado pelas crianças, de Javier Naranjo. Fotos do site da BBC.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Cultura de Almanaque: A Linguagem da Música



Lá nos tempos muito idos, um cronista sensível e observador de costumes, instrumentos musicais e sonoridades, enquanto assistia a um concerto, escreveu sobre os melodiosos sons ao seu redor.

A Linguagem da Música

O piano lembra bons amores burgueses: “flirts” passados nos salões, onde o luxo substitui a ausência da arte.

O violino lembra amores românticos, gemidos de amante apaixonado, cenas de delicioso amor que invoca os tipos de Julieta, de Beatriz, de Margarida.

A flauta lembra ciúmes de poeta pobre com mulher rica.

O violão recorda amores fáceis, com mulheres cujo coração é um quarto de estalagem.

A viola traz-nos à lembrança os amores puros da ingênua camponesa.

A gaita de foles lembra a paixão de italiano ausente da pátria.

A clarineta recorda amores de um palhaço com acrobata.

A ocarina recorda amores de um caixeiro com uma costureira.

O pistom lembra paixão de um soldado por uma cantineira.

O violoncelo traz a ideia amores de velho por uma rapariga nova.

A guitarra traz à lembrança a paixão de um português pela cachopa que deixou na terra natal.

O bandolim dá-nos a ideia da paixão voluptuosa de uma andaluza pelo seu “torero”.

O trombone lembra o amor de um genro pela sogra.

Finalmente, o bombardão dá perfeitamente a ideia dos amores dos velhos.

  
  
A Linguagem da Música é um delicioso texto publicado no Almanach de Porto Alegre - 1920 - Arquivo Digital Brasiliana USP. O lide é meu. Acho que aconteceu assim...

Ilustração: Serenata, pintura de Cândido Portinari (1903 - 1962), encontrada no site (link) Elfi Kürten Fenske

domingo, 12 de maio de 2013

Carlos Hecktheuer: Mães Más



Este texto circula há alguns anos pela web. Eu o recebi, por email, logo que apareceu. E, para variar, infelizmente, sem qualquer dado sobre o seu autor, além da profissão: Médico Psiquiatra. Há blogs que dizem que o Dr. Carlos Hecktheuer seria apenas o tradutor, mas também não revelam (se é que há!) a autoria original. Estou postando porque, além de bonito, continua mais atual que nunca!


MÃES MÁS
Dr. Carlos Hecktheuer
Médico Psiquiatra

Um dia, quando meus filhos forem crescidos o suficiente para entender a lógica que motiva os pais e as mães, eu hei de dizer-lhes:

Eu os amei o suficiente para ter perguntado aonde vão, com quem vão e a que horas regressarão. Eu os amei o suficiente para não ter ficado em silêncio e fazer com que vocês soubessem que aquele novo amigo não era boa companhia. Eu os amei o suficiente para os fazer pagar as balas que tiraram do supermercado ou revistas do jornaleiro, e os fazer dizer ao dono: "Nós pegamos isto ontem e queríamos pagar". Eu os amei o suficiente para ter ficado em pé junto de vocês, duas horas, enquanto limpavam seus quartos, tarefa que eu teria feito em 15 minutos. Eu os amei o suficiente para os deixar ver além do amor que eu sentia por vocês, o desapontamento e também as lágrimas nos meus olhos. Eu os amei o suficiente para os deixar assumir a responsabilidade das suas ações, mesmo quando as penalidades eram tão duras que me partiam o coração. Mais do que tudo, eu os amei o suficiente para dizer-lhes NÃO, quando eu sabia que vocês poderiam me odiar por isso (e em alguns momentos até me odiaram). Essas eram as mais difíceis batalhas de todas. Estou contente, venci... Porque no final vocês venceram também!

E, em qualquer dia, quando meus netos forem crescidos o suficiente para entender a lógica que motiva os pais e as mães, quando eles lhes perguntarem se sua mãe era má, meus filhos vão lhes dizer:

Sim, nossa mãe era má. Era a mãe mais má do mundo... As outras crianças comiam doces no café e nós tínhamos de comer cereais, ovos e torradas. As outras crianças bebiam refrigerante e comiam batatas fritas e sorvete no almoço e nós tínhamos de comer arroz, feijão, carne, legumes e frutas. E ela nos obrigava a jantar à mesa, bem diferente das outras mães que deixavam seus filhos comerem vendo televisão. Ela insistia em saber onde estávamos a toda hora (tocava nosso celular de madrugada e "fuçava" nos nossos e-mails). Era quase uma prisão. Mamãe tinha que saber quem eram nossos amigos e o que nós fazíamos com eles. Insistia que lhe disséssemos com quem íamos sair, mesmo que demorássemos apenas uma hora ou menos. Nós tínhamos vergonha de admitir, mas ela "violava as leis do trabalho infantil". Nós tínhamos de tirar a louça da mesa, arrumar nossas bagunças, esvaziar o lixo e fazer todo esse tipo de trabalho que achávamos cruéis. Eu acho que ela nem dormia à noite, pensando em coisas para nos mandar fazer. Ela insistia sempre conosco para que lhe disséssemos sempre a verdade e apenas a verdade. E quando éramos adolescentes, ela conseguia até ler os nossos pensamentos. A nossa vida era mesmo chata. Ela não deixava os nossos amigos tocarem a buzina para que saíssemos, tinham que subir, bater à porta, para ela os conhecer. Enquanto todos podiam voltar tarde à noite, com 12 anos, nós tivemos de esperar pelos 16 para chegar um pouco mais tarde, e aquela chata levantava para saber se a festa foi boa (só para ver como estávamos ao voltar). Por causa de nossa mãe, nós perdemos imensas experiências na adolescência: nenhum de nós esteve envolvido com drogas ou roubo; em atos de vandalismo; em violação de propriedade; nem fomos presos por nenhum crime. FOI TUDO POR CAUSA DELA. Agora que já somos adultos, honestos e educados, estamos a fazer o nosso melhor para sermos "PAIS MAUS", como nossa mãe foi.

EU ACHO QUE ESTE É UM DOS MALES DO MUNDO DE HOJE: NÃO HÁ SUFICIENTES MÃES MÁS.

sábado, 11 de maio de 2013

Cultura Zen: Tudo Morre



Há alguns anos baixei uma seleção de 175 Koans (narrativas, parábolas que propiciam a iluminação aos discípulos zen-budista) e Contos Zen, infelizmente sem a origem e ou autoria das traduções. A sutileza e o humor são incomparáveis. Destes, fiz uma seleção nada fácil de sete, que estou postando nesta semana outonal de maio.


Tudo Morre

Quando era jovem, o então monge Ikkyu e seu irmão estavam arrumando o quarto de seu mestre, e num acidente o irmão quebrou a tigela da cerimônia do chá favorita do sábio professor. Ambos ficaram assustados, pois a tigela era muito estimada pelo mestre, pois foi um presente do imperador. Entretanto, Ikkyu disse ao irmão:
"Não se preocupe. Sei como abordar a questão com nosso mestre!"
Juntou os pedaços de cerâmica, escondeu-os no manto, saiu para o jardim do templo e sentou-se a esperar pelo velho sábio. Quando este se aproximou, Ikkyu propôs-lhe um Mondo (uma sequência de perguntas e respostas):
"Mestre, é dito que todos os seres e todas as coisas no Universo estão fadadas a morrer?"
"Sim," respondeu o Mestre, "o próprio Buddha assim afirmou, e tal conceito é inegável: todas as coisas têm de perecer."
"Sendo assim, devemos compreender a natureza da impermanência, e superar o sofrimento ignorante pelas perdas que são, afinal, relativas e inevitáveis."
"Com certeza, tal compreensão faz parte do caminho correto!" disse o mestre feliz pela sagacidade de seu jovem discípulo.
Neste momento, Ikkyu retirou os cacos de sua manga, pousou-os à frente do mestre e disse:
"Mestre, sua querida xícara de chá morreu..."
E saiu ligeiro da presença do surpreso sábio...


*
Ilustração de Joba Tridente: 2013

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Cultura Zen: Jardim Zen - A Beleza Natural



Há alguns anos baixei uma seleção de 175 Koans (narrativas, parábolas que propiciam a iluminação aos discípulos zen-budista) e Contos Zen, infelizmente sem a origem e ou autoria das traduções. A sutileza e o humor são incomparáveis. Destes, fiz uma seleção nada fácil de sete, que posto a partir de hoje e durante toda a semana.


Jardim Zen - A Beleza Natural

Um monge jovem era o responsável pelo jardim zen de um famoso templo Zen. Ele tinha conseguido o trabalho porque amava as flores, arbustos e árvores. Próximo ao templo havia um outro templo menor onde vivia apenas um velho mestre Zen. Um dia, quando o monge estava esperando a visita de importantes convidados, ele deu uma atenção extra ao cuidado do jardim. Ele tirou as ervas daninhas, podou os arbustos, cardou o musgo, e gastou muito tempo meticulosamente passando o ancinho e cuidadosamente tirando as folhas secas de outono. Enquanto ele trabalhava, o velho mestre observava com interesse de cima do muro que separava os templos.
Quando terminou, o monge afastou-se um pouco para admirar seu trabalho.
"Não está lindo?" ele perguntou, feliz, para o velho monge.
"Sim," replicou o ancião, "mas está faltando algo crucial. Me ajude a pular este muro e eu irei acertar as coisas para você."
Após certa hesitação, o monge levantou o velho por sobre o muro e pousou-o suavemente em seu lado. Vagarosamente, o mestre caminhou para a árvore mais próxima ao centro do jardim, segurou seu tronco e o sacudiu com força. Folhas desceram suavemente à brisa e caíram por sobre todo o jardim.
"Pronto!" disse o velho monge," agora você pode me levar de volta."


*
Ilustração de Joba Tridente: 2013


quinta-feira, 9 de maio de 2013

Cultura Zen: Sem Motivo



Há alguns anos baixei uma seleção de 175 Koans (narrativas, parábolas que propiciam a iluminação aos discípulos zen-budista) e Contos Zen, infelizmente sem a origem e ou autoria das traduções. A sutileza e o humor são incomparáveis. Destes, fiz uma seleção nada fácil de sete, que estou postando nesta semana outonal de maio.


Sem Motivo

Certo dia, três amigos passeavam e viram um homem no cume de um pequeno monte, sentado.
Curiosos sobre o que estaria o homem fazendo, foram até ele, usando a trilha na encosta. Chegando lá, o primeiro disse:
"Olá, está esperando um amigo?"
"Não..." - respondeu o outro. O segundo homem replicou:
"Então está respirando o ar puro!"
"Não..." - disse o estranho. O terceiro amigo disse:
"Já sei! Você estava passando e resolveu olhar este belo cenário."
"Não, na verdade..." - repetiu o homem. Os três amigos então exclamaram ao mesmo tempo, estupefatos:
"Mas então, o que faz aqui?!"
O homem disse com um suave sorriso:
"Apenas ESTOU aqui..."



Este Koan me lembra o seguinte Hai-Kai de Issa:


TADA OREBA ORU TOTE YUKI NO FURI NI KERI

Apenas estando aqui,
estou aqui,
e a neve cai.


*
Ilustrações de Joba Tridente; 2013


Kobayashi Issa (1763 - 1827), um dos grandes nomes do poema curto japonês. Para alguns pesquisadores, a melancolia dos seus belíssimos poemas traz resquícios de uma atribulada vida em família. Há alguns anos, quando pesquisava para uma Oficina, conheci esta pérola de Issa. Ao procurar (na web) o tradutor, encontrei na página online do Portal Caqui (dedicado ao hai-kai), um brevíssimo estudo sobre o autor, escrito pelo escritor e crítico literário Paulo Franchetti: Kobayashi Issa (link). Acredito ser dele a tradução.

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