quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Joba Tridente: é nóis na sela - anexins de açougue

..., do raiar do dia ao cair da noite dos últimos anos o Brasil claudica com uma crise sociopolítica e econômica sem precedentes na sua história. ..., com a baixa credibilidade dos poderes constituídos, não há túnel que chegue ao fim e muito menos luz que ilumine o caminho da saída. ..., ao serviço de costura política e gastura governamental servidos pelas mídias, não há antiácido que dê jeito.  ..., recentemente, os biliardários “irmãos friboi” protagonizaram o padrasto de todos os escândalos envolvendo “autoridades” e saindo ilesos. ..., ou quase! ..., assim que a boiada “passou” e a poeira baixou o prêmio da delação foi retirado e a dupla (Joesley e Wesley) Batista foi parar na cadeia. ..., no afã da notícia, um antigo jornal até se engasgou, trocando a palavra “cela” (de prisão) por “sela” (de cavalo).

..., como meu desespero literário varia com a ironia poética, decidi proverbiar com os fatos em ebulição e criei sete máximas totalmente sem compromisso (ou quase): é nóis na sela – anexins de açougue (2017). ..., o título é uma “brincadeira” com dois erros gramaticais: “sela” (do jornal) e “nóis num vai ser preso” (discordância verbal nos diálogos matutos de Joesley).  

                 
é nóis na sela - anexins de açougue
de Joba Tridente

I - língua
brother freeboy:
- nóis foi preso porque nóis não sabe conjugar verbo?
federal:
- não..., porque sabem conjugar verba!

II - peito
cascos ruminando:
- riqueza e esperteza nem sempre
caminham juntas...

pé de boi direito:
- ou se tem berço d’ouro
anda nas nuvens
nina com “brilha, brilha estrelinha”
em lençóis finos e travesseiro de penas de ganso...

pé de boi esquerdo:
- ou se tem cama de palha
pisa na bosta de vaca
dorme com “boi da cara preta”
em lençóis de chita e travesseiro de paina...

pé de boi direito:
- quem pode se ajeita sob o mosquiteiro.

pé de boi esquerdo:
- quem não pode abana as varejeiras.

III - rabo
mosca da carne:
 - quando não se herda
a riqueza que vem certa por caminhos tortos
ou que vem torta por caminhos incertos
o sortudo esperta a grana,
afofa a grama e toma conta do curral.
na questão do dinheiro
quanto mais se sonha grande,
mais se conhece boiadeiro
mais se tem companheiro
que a(ssa)ssinam tudo por uma rima
pois parelha
é de político, bandido ou eleitor.

IV - lombo
músculo:
 - Maquiavel não é para iniciantes
e maquiavelices já não
se embrulham com jornal de ontem.
ao maquiavelhaco
a ignorância econômica
move cifras no tabuleiro sobre o banco.
o que a mesa determina
é o mesmo chiclete velho sob o tampão
que de boca em boca pode perder o sabor
mas continua elástico...,
toda via de valor
porém, a goma
uma hora arrebenta.

V - estômago
tripa:
- não importa se a grana veio da corte
ou se a grama veio do corte
em mão ligeiras e boca mansa
o tutu traçará outro erário...,
a carne só é fraca
se posta a mesa
o corpo é todo gula.

VI - olhos
orelha esquerda:
- o falastrão açougueiro
morre pela boca ou pelo verbo.
o açougueiro professor
que não conjuga mais é co-julgado menos.

orelha direita:
- falhas de grave ação: o up! virou ôpa!
na cartilha digital
do pobre menino rico
que recorreu ao rosário
e mediu terço à Aparecida Padroeira
e mediu terço ao Raimundo Nonato dos Mulundus
e mediu terço ao freguês oculto
pra socorrer o aflito
nessa hora de grades
e de iminente perigo.
a fé amolada cega qualquer faca.
é de dar nó nas intrigas!

orelha esquerda:
tanto arroubo
tanta carne fedida
tanto sangue de barata
chega dar dó das tripas.

VII - cupim
brother freeboy I:
- nóis robamo mas nóis entregô
quem nóis pagô...,
e quem nóis encheu as burra lá deles
catapultô nóis da sela pra cela.

brother freeboy II:
- nóis é muito burro mesmo
querendo ensiná fazê mortadela e coxinha
pros professor de cozinha.

brother freeboy I:
- que país é esse que não respeita
os empresário que de mamada
em mamata se deu bem nas parada?

rato pretérito:
- é como diz aquele carrapacto de sangue
saltando de califa em califa:
de friboi a freeboy a cowboy a boi de aparate
aquele que desdenha a origem, dorme na fuligem !

..., foto.de.joba.tridente.2017


Joba Tridente, artesão de palavras e imagens em Verso: 25 Poemas Experimentais (1999); Quase Hai-Kai (1997, 1998 e 2004); em Antologias: Hiperconexões: Realidade Expandida – Sangue e Titânio (2017); Hiperconexões: Realidade Expandida (2015); 101 Poetas Paranaenses (2014); Ipê Amarelo, 26 Haicais; Ce que je vois de ma fenêtre - O que eu vejo da minha janela (2014); Ebulição da Escrivatura - 13 Poetas Impossíveis (1978); em Prosa: Fragmentos da História Antropofágica e Estapafúrdia de Um Índio Polaco da Tribo dos Stankienambás (2000); Cidades Minguantes (2001); O Vazio no Olho do Dragão (2001). Contos, poemas e artigos culturais publicados em diversos veículos de comunicação: Correio Braziliense, Jornal Nicolau, Gazeta do Povo, Revista Planeta, entre outros.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Joba Tridente: Marginal Porque Se Não Nada É Bandido

É 7 de setembro, outra vez. No Brasil comemora-se o Dia da Independência em meio a uma crise política sem precedentes. Marginal Porque Se Não Nada É Bandido é um poema (já desesperado) escrito em 27.04.2010. É um poema atemporal que você pode ler do jeito que bem quiser e bem entender: vermelho e preto; vermelho ou preto, de cima para baixo ou de baixo para cima ou saltitando..., porque Bandido é Bandido em qualquer direção e ou situação! 



Marginal Porque Se Não Nada É Bandido
Joba Tridente.2010


MARGINAL

bandido
é sempre
civil ou não
é sempre
oficial ou não
é sempre
político ou não
é sempre
presidente ou não
é sempre
rei ou não
é sempre
bandido

PORQUE

bandido é
sempre bandido
civil ou não é
sempre bandido
oficial ou não é
sempre bandido
político ou não é
sempre bandido
presidente ou não é
sempre bandido
rei ou não é
sempre bandido
é bandido

SE NÃO

bandido é
sempre bandido
civil ou não é
sempre bandido
oficial ou não é
sempre bandido
político ou não é
sempre bandido
presidente ou não é
sempre bandido
rei ou não é
sempre bandido
é bandido

NADA É

bandido
é sempre bandido
civil ou não
é sempre bandido
oficial ou não
é sempre bandido
político ou não
é sempre bandido
presidente ou não
é sempre bandido
rei ou não
é sempre bandido
bandido

BANDIDO


*
ilustração de Joba Tridente.2010

  
Joba Tridente, artesão de palavras e imagens em Verso: 25 Poemas Experimentais (1999); Quase Hai-Kai (1997, 1998 e 2004); em Antologias: Hiperconexões: Realidade Expandida – Sangue e Titânio (2017); Hiperconexões: Realidade Expandida (2015); 101 Poetas Paranaenses (2014); Ipê Amarelo, 26 Haicais; Ce que je vois de ma fenêtre - O que eu vejo da minha janela (2014); Ebulição da Escrivatura - 13 Poetas Impossíveis (1978); em Prosa: Fragmentos da História Antropofágica e Estapafúrdia de Um Índio Polaco da Tribo dos Stankienambás (2000); Cidades Minguantes (2001); O Vazio no Olho do Dragão (2001). Contos, poemas e artigos culturais publicados em diversos veículos de comunicação: Correio Braziliense, Jornal Nicolau, Gazeta do Povo, Revista Planeta, entre outros.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Joba Tridente: auto.ri.dade

..., aturdido sigo eu também tentando decifrar a Esphinge Ignóbil que se assentou no país com seu séquito desvairado e cuja fome capital a faz devorar nossa ordem. ..., dormir e acordar com o mesmo palavreado chantagista é pesadelo sem fim. ..., regurgito minha catarse a cada insanidade sociopolítica e judicial que me estapeia. ..., nem sempre é fácil desembaraçar as palavras. ..., com auto.ri.dade, a primeira letra foi colocada em 29.06.2017 e a última em 15.08.2017.


                 
auto.ri.da.de
joba.tridente

você é alto e móvel
mas não é automóvel
por tanto que fez feder
enfia a chave
no teu orifício de particularidades
igniza-te e dê
marcha a ré
: marcha réu
desta garagem
insólita e sombria

: emburra
com a barrica
de cifras e regalias

: empurra
com a barriga
de impropérios
tua gene podre
pra gruta que te pariu

: chafurda
tua militância pateta
de curral em curral
..., enquanto a comédia não finda

: compartilha
a lavagem em cada instância
de barganha política
..., enquanto a tragédia não finda

: troça caro o arrego
na honra que jamais terá
..., no palco em que a retórica não para
        de girar

na hora do arrimo
o ponto gritará:
- teu nome vão
é o que te presta
importância?

na hora do arrocho
o coro gritará:
- teu nome vão
é o que te funesta!

na hora do arrimo
o ponto gritará:
- teu nome vão
é o que te empresta
importância?

na hora do arrocho
o coro gritará:
- teu sobrenome
é o que te trai
no mourão genealógico
da família que te apadrinha!

........................
: ver-te víbora,
    verter mentiras fendidas
    na infinitude da providencial cegueira
                                        do não sssssssssei

: ver-te verme,
    vermicular proselitismo
    na gastura de vomitivas farsas

neste brasil que rola feito barril
se tudo é burro  
     no teu cinismo prolixo
se tudo é carga   
     na tua cobiça maçante
     ..., só acendendo o pavio!

*
foto de joba tridente.2016



Joba Tridente, artesão de palavras e imagens em Verso: 25 Poemas Experimentais (1999); Quase Hai-Kai (1997, 1998 e 2004); em Antologias: Hiperconexões: Realidade Expandida – Sangue e Titânio (2017); Hiperconexões: Realidade Expandida (2015); 101 Poetas Paranaenses (2014); Ipê Amarelo, 26 Haicais; Ce que je vois de ma fenêtre - O que eu vejo da minha janela (2014); Ebulição da Escrivatura - 13 Poetas Impossíveis (1978); em Prosa: Fragmentos da História Antropofágica e Estapafúrdia de Um Índio Polaco da Tribo dos Stankienambás (2000); Cidades Minguantes (2001); O Vazio no Olho do Dragão (2001). Contos, poemas e artigos culturais publicados em diversos veículos de comunicação: Correio Braziliense, Jornal Nicolau, Gazeta do Povo, Revista Planeta, entre outros.

domingo, 13 de agosto de 2017

Joba Tridente - : da válvula ...

Neste ano de 2017 foram lançados mais dois volumes da antologia de poemas sobre o pós-humano da literatura brasileira: Hiperconexões: realidade expandida - Sangue & Titânio e Carbono & Silício, com organização do escritor Luiz Bras. Eu, que já estive no vol. 2, com três Orações de Um Cotidiano, agora participo com o poema : da válvula..., que estou republicando com a formatação final impressa. Os dois volumes de Hiperconexões: realidade expandida, reunindo 96 autores, foram editados pela Editora Patuá*.


Sangue & Titânio
apresentação de Luiz Bras

Duzentos anos atrás não existia o telefone a fotografia o rádio o cinema a tevê. Hoje brincamos de construir realidades virtuais. Daqui a duzentos anos o que haverá? Duzentos anos atrás não havia a anestesia geral a lâmpada o elevador elétrico o automóvel o avião o foguete o satélite a estação orbital. Hoje fazemos planos para colonizar Marte. Daqui a duzentos anos o que haverá? Duzentos anos atrás não sabíamos da existência dos micróbios. Não existia o antibiótico o transplante de órgãos. Não sabíamos da existência de outras galáxias e a pequena. Via Láctea era todo o universo Hoje observamos o infinito e aceleramos partículas pra saber de que é feito o universo. Daqui a duzentos anos o que haverá? O início do amanhã é agora. O futuro já começou e os poemas aqui reunidos tratam das maravilhas e tragédias que estão nos envolvendo nos abraçando cada vez mais forte. Poemas que podem ser lidos como se fossem um só. Uma odisseia coletiva.



       

: da válvula ...
joba tridente

... quando desatarraxaram a válvula
                        que prendia o coração
ouvi cair quicando longe a ruela e o parafuso de titânio
                       e logo o baque seco dos parafusos e ruelas 
e partes do corpo em liga de aço
                                        e diamante se amontoando atrás
                        e como se bailarino do ar
o cérebro talhado em prata com neurônios fiados em ouro
pousou leve
sobre        os         restos         de         tudo          que         fora
                                            e abrindo feito caixinha de música
                                            oriental
       deixou escapar a alma fugaz
                         das minhas parcas
                                                                            m.e.m.ó.r.i.a.s ...

                                                                 curitiba.19.10.2016.22h51


*
ilustração de Joba Tridente


* Você pode encontrar os três volumes de Hiperconexões - Realidade Expandida no site da Editora Pautá. O primeiro volume foi lançado no verão de 2013, reúne 30 poetas e pode ser lido também on-line: Hiperconexões: Realidade Expandida- I. Mais informações sobre as Hiperconexões.

Joba Tridente, artesão de palavras e imagens em Verso: 25 Poemas Experimentais (1999); Quase Hai-Kai (1997, 1998 e 2004); em Antologias: Hiperconexões: Realidade Expandida – Sangue e Titânio (2017); Hiperconexões: Realidade Expandida (2015); 101 Poetas Paranaenses (2014); Ipê Amarelo, 26 Haicais; Ce que je vois de ma fenêtre - O que eu vejo da minha janela (2014); Ebulição da Escrivatura - 13 Poetas Impossíveis (1978); em Prosa: Fragmentos da História Antropofágica e Estapafúrdia de Um Índio Polaco da Tribo dos Stankienambás (2000); Cidades Minguantes (2001); O Vazio no Olho do Dragão (2001). Contos, poemas e artigos culturais publicados em diversos veículos de comunicação: Correio Braziliense, Jornal Nicolau, Gazeta do Povo, Revista Planeta, entre outros.

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