cada
um tem a sua própria noção e/ou visão do natal. para uns, é uma data cristã.
para outros, é uma data comercial. os 4
Poemas Natalinos que publico aqui, no Falas
ao Acaso, foram escritos em momentos distintos. concebidos num instante
e/ou versificados ao longo de dias ou meses: no tal natal (2020), pretérito (2021), ao gosto natalino (2021), • n • a • t •
a • l • (2019-2021).
o tempo não conta. o que fica é o registro da reflexão. o registro da
indignação social. ilustrações: joba tridente.

no tal natal
joba tridente
I
da minha janela
ano a ano a ano a ano
nosedifíciosquemecercam
janelas desnatalizadas
não mais um pi*ri*lam*pe*jar
aqui! acolá! ali! adiante!
não mais um duelo de luzes
azuis* verdes* vermelhas*
amarelas* brancas* lilases*
de janela a janela e prédio a prédio
não mais piscadeiras noite adentro
nos pinheirinhos artificiais
nos cantos habituais das salas e sacadas
com seus enfeites de terras outras
com sua neve de estações outras..., de longe...,
lonnge..., lonnnge..., lonnnnge...,
que não daqui
ano a ano a ano a ano
desnatalizando sentimentos
a primavera cede ao verão
dias loooooooooongos
chuvas loooooooooongas
noites estreladas
..., de ver planetas distantes
..., da lua mudar de cor
..., de ainda ouvir algum sabiá solitário
o silêncio urra sua mágoa
em tempo de pandemia viral
a solidão das janelas é maior
a dor não tem luminescência
o deus menino é natimorto
II
: uma criança de ontem
monta seu Matinho de
Natal
com laminado de maço
de cigarros
as
florezinhas amareladas
as
pequenas bolotas prateadas
os fiapos
coloridos do celofane
das cestas de Natal
caixinhas e pedrinhas embrulhadas
com
papel de bala de fruta
com páginas coloridas de revistas
..., dão cor à fantasia infantil
gravetos são gentes e animais
ao pé do Matinho de Natal
ali rente à cerca
no caminho de formigas
e de minhocas e de tatuzinhos bola
talvez uma borboleta pouse de
ponteira
talvez os vaga-lumes pousem de pisca-pisca
: amanhã a brincadeira será outra
catar pedras entre as
vigas da linha do trem
e montar o presépio
sobre a estante azul
do rádio
bem ali na passagem da sala
para o corredor
bem ali
sobre a estante azul
forrada
com papel imitando pedra
o
presépio
a gruta de pedras
com seus personagens de louça lascada
e uma
pequena árvore de natal
coberta
de bolas coloridas e pisca-pisca
sobre
um chão de terra
com laguinho de espelho
caminho
de pastores e de animais
entre
a plantação de arroz
que cresce dia a dia
até ser jogada fora
..., no Dia de Santos Reis
III
duas janelas
um olhar que dilui no passado
um olhar que não compõe o presente
em tempos de pandemia
há uma piscadela no fim do túnel
as janelas estão abertas
jt.16.12.2020
pretérito
joba tridente
à noite
em meio ao grito desesperado das sirenes
das ambulâncias recheadas de infectados
que cruzam com motoqueiros imbecilizados
e motoristas sem rumo e ciclistas sem rumo
..., in delivery covid
pisca que
pisca
nas janelas
que avizinham
à minha
frente e ao meu lado
o
pisca-pisca nas árvores natalinas
vestidas à toa para um natal
paralisado
no calendário
da
agenda jamais preenchida
ainda
montada no canto da sala
com suas
bolas coloridas
refletindo o
tino dos dias
pestilentos
e nefastos
piscam que
piscam
nas janelas
que me avizinham
filigranas
da memória natalina
de um não-ontem
de um
talvez-amanhã
incertas do
brilho cadencioso
na
ambulância no pinheirinho no camburão
na sirene no
sino..., que tilinta pequenino
até o de
novo a outra vez da data
a se comemorar os sobreviventes
a se lamentar os mortos
a se abominar os imprudentes
à frente e à
esquerda de mim
piscam e
piscam lamuriosas luzinhas
nos
pinheirinhos de ráfia
notívagas
conversas luzindo
nas noites e
noites de verão
sonâmbulos
balbucios luzindo
nas noites e
noites de outono
piscam que piscam
entre si
iluminando o
silêncio na sala vazia
em colorida balburdia
ali e aqui
e ali e aqui
e
ali
verde branco vermelho azul
amarelo
lilás
sinais
atravessando a noite
atravessando as paredes
lilás amarelo
azul vermelho
branco
verde
......................................................,
piscam que piscam entre si
talvez a promessa pela cura
do pestilento coronavírus
piscam que piscam entre si
talvez a memória de quem se foi
piscam que piscam entre si
talvez a dor de quem ficou
piscam que piscam entre si
na sua conversa insone
talvez da gana assassina
do genocida da nação
e sua quadrilha descerebrada
.........................................................
piscam que
piscam sem se saber
um e outro
um do outro
além do brilho fátuo
os
pisca-piscas em seus pretéritos
natais
jt.14.04.2021
ao gosto natalino
joba tridente
I
agosto ainda pelo meio
pandemia arrefecendo
nas notícias de obituário
entre máscaras e termômetros e álcool-gel
lojas armam-se de árvores de natal
tão cedo e tão crentes
a mirar nos desejos consumidores
nos arredores
longe dos piscas-piscas
e enfeites multicoloridos
à sombra das notícias capitais
brasileiros famintos
chafurdam caçambas de lixo
escalam depósitos de rejeitos
antes dos porcos de abate
garimpando pelancas e ossos e restos
escorrendo sangue de esgoto
de quaisquer (outros) animais
descartados pelos açougues
e matadouros vinte e quatro horas
de matança irracional
feito zumbis em fuga
protegendo seus salvados
e que refletidos disformes
nas bolas brilhantes da árvore de artifício
coberta de flocos de neve de algodão
não se reconhecem humanos
não se reconhecem filhos da mesma mãe gentil
protetora de políticos e assemelhados
II
chuva e frio nos dias de primavera-invernal
que adentram setembro e outubro
e novembram sextas-feiras negras
nas semanas torpes de velhos enfeites
do ano passado do passado ano
de antes da pandemia que da China
de outra crença chegaram nas cores
e nos brilhos da ideia coca-cola natalina
de papais e mamães e filhos Noel
ao redor de renas e de mulas e presépios
que no lusco-fusco enternece o mendigo
que sem teto e sem panetone
reza ao brinquedo que dança e dança
e o saúda e o abençoa em ho! ho! ho!
em frente à loja de quinquilharias
por um prato de comida
e um emprego depois
antes que a droga lhe dê mais
uma rasteira no crack e no álcool
um anjo voa capenga na ponta
de um verde galho da árvore
disfarçada de pinheiro americano
enquanto luzes piscam e piscam
no mesmo tom da canção de Assis Valente
a lembrar que nem todo mundo
é filho do tal Papai Noel
ou tem pai ou tem mãe ou tem deus
- tio*tia*senhor*senhora*
me*dá*um*troco*
cinquenta*centavo*um*real*cinco*real*
pra*comida*pra*bebida*pro*crack*
- tó*não*tenho*procura*assistência*social*
......................................................................,
o deus*te*abençoe*
soa como praga
da frase que enfeita a mendicância
escoaaaaaaannnnnnndooo atrás
do bon*do*so*blém*blim*blom*
escoaaaaaaannnnnnndooo atrás
do mal*do*so*blim*blom*blém*
no badalo vivo da graça
no badalo seco do aflito
..., céu e inferno na porta
da loja de
bugigangas
jt.14/11/2021
• n • a • t • a • l •
joba tridente
01
: há alguns anos
não mais
p*e*r*i*l*a*m*p*e*j*a*m
em casas
em
apartamentos
em redor
luzetas coloridas
prenunciando árvores de natal
nevadas de algodão
..., e de melancolia
na memória
piscam e piscam
coloridas lembranças
infantis
de quando o natal
era coisa de dezembro
assim como a manga
que vai perdendo o sabor
durante o
ano
inteiro
02
na ânsia capital
do
presente
o natal que começa
entre abóboras e caldeirões
na confusão
das bruxas de outubro
invocadas em setembro
vira-rá-rá e vira-lá-lá guirlanda-dá-dá
no grito de carnaval
no distraído
janeiro
..., de reis
jt.2019/2021
Joba Tridente,
um livre pensador livre. artesão de imagens e de palavras em Verso: 25 Poemas Experimentais (1999); Quase Hai-Kai (1997, 1998 e 2004); em
Antologias: Hiperconexões: Realidade
Expandida – Sangue e Titânio (2017); Hiperconexões:
Realidade Expandida (2015); 101
Poetas Paranaenses (2014); Ipê
Amarelo, 26 Haicais; Ce que je vois
de ma fenêtre – O que eu vejo da minha janela (2014); Ebulição da Escrivatura – 13 Poetas Impossíveis (1978); em Prosa: Fragmentos da História
Antropofágica e Estapafúrdia de Um Índio Polaco da Tribo dos
Stankienambás (2000); Cidades
Minguantes (2001); O Vazio no Olho
do Dragão (2001). Contos, poemas e artigos
culturais publicados em diversos veículos de comunicação: Correio Braziliense, Jornal
Nicolau, Gazeta do Povo,
Revista Planeta,
Humanidades, entre outros.