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domingo, 20 de março de 2022

Menotti Del Picchia: Quatro Poemas Encadeados


MENOTTI DEL PICCHIA

Quatro Poemas Encadeados 

Quem costuma visitar o Falas ao Acaso sabe que, por aqui, as postagens nem sempre acompanham as datas comemorativas..., aquelas redondinhas de vida e ou de morte de algum(a) escritor(a) de verso e prosa. E também deve ter percebido que, de 2019 a 2021, diminui o número de postagens..., ocupado que estava com outros projetos. Espero tornar mais frequentes as publicações em 2022..., mas não garanto. Selecionar poemas, buscar dados biográficos e fazer ilustrações é um processo demorado. 


Na inconstância dos dias, além dos autores que já tenho selecionado para publicar, sempre resolvo por alguma postagem “inusitada” (e de última hora) como esta do polêmico escritor Menotti Del Picchia (1892-1988), nome importante na ebulição de ideias da Semana de Arte Moderna de 1922..., que já vinha ensaiando há algum tempo e agora, digamos, se junta a de Raul Bopp: Mãe-Preta; África; Favela nº. 3; Manuel Bandeira: Os Sapos; Mario de Andrade: O Poeta Come Amendoim; Acalanto do Seringueiro; Rito do Irmão Pequeno... 

Num ano ainda pandêmico, que marca os 130 anos de nascimento de Menotti Del Picchia e os 100 da Semana de Arte Moderna, selecionei quatro poemas que encadeiam-se perfeitamente..., e cuja pertinência há de arrepiar a alma de quem ainda a conserva cálida nesses dias tão difíceis e de tanta maleficência no Brasil e no mundo: Noite; O Anjo; O Cadáver do Anjo; A Paz. Ilustrações: Fotos e Fotomontagens de Joba Tridente. Abertura: Fotos do Portal Casa Menotti.


                 


N O I T E

Menotti Del Picchia

 

As casas fecham as pálpebras das janelas e dormem.

Todos os rumores são postos em surdina,
todas as luzes se apagam.

 

Há um grande aparato de câmara funerária
na paisagem do mundo.

 

Os homens ficam rígidos,
tomam a posição horizontal
e ensaiam o próprio cadáver.

 

Cada leito é a maquete de um túmulo.
Cada sono em ensaio de morte.

 

No cemitério da treva
tudo morre provisoriamente.

(O Deus sem rosto, 1968)

 

                                            


O  A N J O

Menotti Del Picchia

 

Terrível presença de asas.

 

Surges evocado pela angústia

do negado consolo.

 

No erro irresgatado

fica um rumor de rêmiges.

 

Revolta? Remorso? Esperança?

 

Largados sem perdão

– inútil Anjo –

apenas trazes mais viva

a certeza do impossível resgate.

 

Deixa-nos em paz, ó Anjo,

implacável evocador do destino.

 

És nossa frustração

a parte gorada de nós mesmos.

 

Quem nos redimirá

se apenas confirmas a certeza

do paraíso perdido?

(O Deus sem rosto, 1968)

 

               


O  CADÁVER  DO  ANJO

Menotti Del Picchia

 

Sob os destroços do avião estava esmagado o anjo.

 

Os homens de Canaveral

concluíram que era um habitante de um planeta morto.

 

As asas de penas e a estrutura de pássaro

eram porém de uma ave monstro

com o rosto de um jovem lindo

de olhos tão azuis como a poeira celeste

que envolvia seu fluido cadáver.

 

Os sábios se orgulhavam de haver destroçado o céu

e feito debandar os anjos.

 

Este, porém, viera protestar contra a invasão do seu

reino

e denunciar que os homens estavam assassinando

mitos e sonhos.

 

Batera na asa do jato supersônico que frechava para a

lua

 

e ambos

o Ícaro bélico e o Mensageiro dos deuses

rolaram no espaço

e se espatifaram na lama.

(O Deus sem rosto, 1968)

 

                                            


A  P A Z

Menotti Del Pichia

 

A alva pomba da paz voou aos céus serenos.

Embaixo homens se agitavam

entre gritos e tiros.

Paquidermes mecânicos

sulcavam fossos

rasgando trincheiras.

Cansada de librar-se nas alturas

a pomba da paz

buscou na terra um pouso

e flechou

num vôo reto

rumo a uma coisa imóvel

hirta e muda no raso campo verde.

E pousou

calma e triste

sobre as mãos cruzadas de um cadáver.

(site Menotti Del Picchia)

 

Paulo MENOTTI DEL PICCHIA (São Paulo-SP: 20/03/1892 - 23/08/1988): poeta, jornalista, político, romancista, contista, cronista e ensaísta. Fez os estudos ginasiais em Campinas-SP, e diplomou-se em Ciências e Letras em Pouso Alegre-MG. Cursou depois a Faculdade de Direito de São Paulo, publicando durante o curso seu primeiro livro de poesias, Poemas do vício e da virtude, em 1913. Foi agricultor e advogado em Itapira, onde dirigiu o jornal Cidade de Itapira e fundou o jornal político O Grito. Lá escreveu os poemas Moisés e Juca Mulato, ambos publicados em 1917. Passou a residir em São Paulo, onde foi redator em diversos jornais, entre os quais A Gazeta e o Correio Paulistano. Fundou o jornal A Noite e dirigiu, com Cassiano Ricardo, os mensários São Paulo e Brasil Novo. Colaborou assiduamente no Diário da Noite, onde por muitos anos manteve uma seção diária sob o pseudônimo de Hélios, seção que ele criara, em 1922, no Correio Paulistano, através da qual divulgou as notícias do movimento modernista. Com Graça Aranha, Oswald de Andrade, Mário de Andrade e outros, foi um dos arautos do movimento, participando da Semana de Arte Moderna, de 11 a 18 de fevereiro de 1922. Com Cassiano Ricardo, Plínio Salgado e outros, realizou o movimento Verdamarelo; depois, com Cassiano Ricardo e Mota Filho, chefiou o Movimento Cultural da Bandeira.

Além de jornalista militante exerceu inúmeros cargos públicos. Foi o primeiro diretor do Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado de São Paulo; deputado estadual em duas legislaturas, membro da Constituinte do Estado e deputado federal pelo Estado de São Paulo em três legislaturas. Presidiu a Associação dos Escritores Brasileiros, seção de São Paulo. Embora tenha incursionado por vários gêneros literários, é a sua poesia que destaca o sentido nacionalista do modernismo, do qual foi considerado precursor o seu poema Juca Mulato. A sua origem estética, no entanto, ainda se prende ao Parnasianismo, o que se percebe em sua poesia pela grandiloquência e floreios verbais. Em 1982, foi proclamado Príncipe dos Poetas Brasileiros, o quarto e último deste título que pertenceu anteriormente a Olavo Bilac, Alberto de Oliveira e Olegário Mariano. Em 1984, recebeu o Prêmio Moinho Santista na categoria poesia. Eleito em 1º de abril de 1943, na sucessão de Xavier Marques e recebido pelo Acadêmico Cassiano Ricardo, em 20 de dezembro de 1943, Menotti del Picchia foi o terceiro ocupante da Cadeira 28, da Academia Brasileira de Letras e recebeu o Acadêmico Luís Viana Filho. Fonte: Academia Brasileira de Letras - ABL.

Para saber mais: Portal: Casa Menotti; Bibliografia; AUN - Agência Universitária de Notícias: O contraditório Menotti Del Picchia e sua influência para o Modernismo Brasileiro; Flan - O Jornal da Semana (1953): Menotti Del Picchia Renega a Arte Moderna; Antonio Miranda: Paulo Menotti Del Picchia; Travessia: Menotti Del Picchia - Auto Retrato; PEPSIC: Paulo Menotti Del Picchia: sob um soslaio da psicanálise; Gilson Leandro Queluz: O Romance Cummunká, de Menotti del Picchia: Utopia e Modernismo Conservador; Daniela Spinelli: Considerações sobre a República 3000, de Menotti Del Picchia; Vanessa Konopczyk Amaral Ribeiro: Lealdade, ambivalência e rebeldia: as estratégias de relacionamento de Oswald de Andrade e Menotti del Picchia na construção de suas redes de sociabilidade; Nei Duclós: Menotti Del Picchia: As Muitas Faces do Poeta.; Wikipédia: Menotti Del Picchia.

Youtube: TV Cultura: Menotti Del Picchia; Baú da TV: Menotti Del Picchia fala da Semana de Arte Moderna (1959); Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/USP: Menotti Del Picchia, O Gedeão do Modernismo nas Crônicas do Correio Paulistano; Elaine Kutcher: Menotti Del Picchia; TV Cultura: Menotti Del Picchia.

 

sexta-feira, 11 de março de 2022

Joba Tridente: g.u.e.l.r.a.s

 

..., a significativa fala: “É melhor morrer em pé do que viver de joelhos!” é atribuída ao líder revolucionário mexicano Emiliano Zapata (1879-1919), que lutou contra a ditadura de Porfirio Diaz (1830-1915). Sendo ou não de Zapata, o recado correu mundo e hoje é manifestado por todos os povos subjugados por regimes autoritários e que não se cansam de lutar para readquirir seus direitos e sua cidadania. ..., o poema g.u.e.l.r.a.s foi escrito num momento em que a ganância política e econômica só faz crescer no mundo, sob o comando de déspotas odiosos, e que a guerra da vez (na mídia) é a da Rússia contra a Ucrânia. ..., dependendo do país opressor, só nota de rodapé. ..., g.u.e.l.r.a.s veio assim, a propósito (também) de um termo recém-criado (?): russofobia..., ódio à magnífica cultura russa. ..., gente idiotizada buscando penalizar a todos os intelectuais, a todos os artistas russos (da música, do cinema, do teatro, da literatura, do balé, da ópera), pelos atos tresloucados do ambicioso ditador daquele país. ..., poema e ilustrações de joba tridente: 10.03.2022. 


              

g.u.e.l.r.a.s

joba.tridente 

I

GENOCIDAS dormem

tranquilos

pesadelos TORTURAM

a população

que não se sabe viva

NA MANHÃ

 

II

explodem b a r r i g a s

explodem f     i   l   h      o       s

explodem mães

f e i t o  f o g o s  d e  a r t i f í c i o

no céu vermelho grená 

 

III

ao executar o Concerto para Piano nº.2 op.18

o sangue rubro dos dedos decepados do pianista

embebe a partitura de Rachmaninoff

 

IV

ruem hospitais e bibliotecas e teatros

 esmagando Tchekhov

 no proscênio

ruem escolas e creches  e orfanatos

 soterrando Tchaikovsky

 e os cisnes no lago

ruem conservatórios e óperas e cinemas

 engolindo Stravinsky e Prokofiev

 e Moussorgsky em línguas de fogo

 abrasando Eisenstein e Tarkóvski e Vertov

 e Gaidai e Sokurov e Bekmambetov 

 em latas enferrujadas

ruem portos e alfândegas e estações

 murando PushkinDostoiévski e Tolstói

 e GógolGorki e Nabokov

 e Tsvetáieva e Maiakovski e Pasternak

ruem torres e igrejas e bares

          entre um tiro e outro

 gargalhas e cantorias

          strogonoff e vodka

 : mata, mata, mata,

   mata, mata, mata,

   mata, mata, mata,

   ..., M.A.T.O.U!

 

 Joba Tridente, um livre pensador livre. artesão de imagens e de palavras em Verso: 25 Poemas Experimentais (1999); Quase Hai-Kai (1997, 1998 e 2004); em Antologias: Hiperconexões: Realidade Expandida – Sangue e Titânio (2017); Hiperconexões: Realidade Expandida (2015); 101 Poetas Paranaenses (2014); Ipê Amarelo, 26 Haicais; Ce que je vois de ma fenêtre – O que eu vejo da minha janela (2014); Ebulição da Escrivatura – 13 Poetas Impossíveis (1978); em Prosa: Fragmentos da História Antropofágica e Estapafúrdia de Um Índio Polaco da Tribo dos Stankienambás (2000); Cidades Minguantes (2001); O Vazio no Olho do Dragão (2001). Contos, poemas e artigos culturais publicados em diversos veículos de comunicação: Correio Braziliense, Jornal Nicolau, Gazeta do Povo, Revista Planeta, Humanidades, entre outros. 


terça-feira, 8 de março de 2022

Marília Kubota: Poemas e Crônicas


MARÍLIA  KUBOTA

poemas  e  crônicas 

Em 2021 a escritora brasileira Marília Kubota lançou três obras literárias: velas ao vento, livro de poemas dividido em três partes / capítulos: velas ao vento, micrópolis, girassóis de fukushima; série Bicicletas Caiçaras - 16 Cartões Postais Poéticos, estampados com poesias e imagens de bicicletas, em parceria com o fotógrafo Lauro Borges; Eu Também sou Brasileira, livro composto de 35 crônicas. Para mais esta postagem de obras da escritora no Falas ao Acaso, selecionei três poemas do capítulo girassóis de fukushima, do livro velas ao vento; um poema da série Cartões Postais Poéticos e a última crônica do livro Eu Também Sou Brasileira: Tempos Selvagens. Faça uma ótima leitura. Ilustrações de Joba Tridente (2021).


 ***************

..., trecho da apresentação de Micheliny Verunschk para o livro velas ao vento: “Poderia começar a falar sobre a poesia de Marília Kubota ligando-a a certa tradição da poesia oriental da qual sua poética é tributária. A simplicidade elegante do haicai, a fugacidade daquilo que é observado, o manejo entre a contenção e a explosão são recursos os quais Marília utiliza com competência sob várias formas, entretanto há que se notar uma extrapolação desse dado, digamos, originário, que faz parte do DNA de sua escrita. Há em sua poesia um outro elemento, uma capacidade de tradução do objeto poético em registros singulares, simultaneamente leves e como que comprimidos pela densidade do mundo. As velas ao vento que o título desse seu novo livro evocam e aliam esse duplo de força e leveza.

 

      


GIRASSÓIS DE FUKUSHIMA

marília kubota

 

adolescência

fria demais para o primeiro beijo, mas perdeu a

vergonha: grudou os lábios na estátua virgem.

 

inocência

         

guardava o revólver na gaveta do criado-mudo -

não pensou que o caçula o pegaria para brincar

de bang-bang.

 

de repente

 

só teve tempo de apertar o papel de bala na mão

antes de ser engolida pelo tsunami.

 

        ***************

     

BICICLETAS CAIÇARAS

marília kubota e lauro borges

 

Eu e a bicicleta

mais unha e carne

que cachorro e osso

 

Eu e a bicicleta

remo no vento

canoa com rodas

 

Eu e a bicicleta

velhos companheiros

no bar e no futebol

 

Eu e a bicicleta

mais unha e carne

que barco e mar

 

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..., trecho da apresentação de Marília Kubota para o livro Eu Também Sou Brasileira: “Neste livro, apesar do título e da crônica que o inicia, eu falo muito sobre a cultura e arte japonesas, além de meus ancestrais. (...) Só a partir da comemoração dos cem anos da imigração japonesa ao Brasil comecei a reivindicar a identidade brasileira. (...) Minhas memórias ainda têm vínculo com a cultura japonesa, por causa da família e dos amigos. Quando apresentada a estranhos, nunca falo que sou japonesa, e sim brasileira, me atendo à nacionalidade e não à etnia.

 

       


EU TAMBÉM SOU BRASILEIRA

marília kubota

 

tempos selvagens

 

Primeiro veio uma esperança. As gatas a apontaram num canto da parede. Encurralada, saltou até atingir a mesa de jantar.

Dias depois, ao tentar voltar para casa, num caminho desconhecido, encontrei um gafanhoto. Vacilante pela rua nova, avistei um santuário no nicho de uma casa, mostrando estátuas de Nossa Senhora Aparecida e outros santos. Olhei para a casa: havia uma mesa com gatos deitados sobre ela. A seguir, olhando para o chão, vi o gafanhoto.

Eu ia para casa, não ia fotografá-lo. Me deu um ímpeto e fotografei. Pesquisei na internet. Soube que gafanhotos são insetos que dão sorte. Por que em seu significado simbólico, ajudam a saltar obstáculos.

Há pouco, enquanto escrevia, ouvi um barulho na janela. Fui investigar e encontrei uma mariposa enroscada na cortina. Tenho medo de mariposas. Quando eu tinha 10 anos, ia tomar aula de piano, de manhã cedo. Avistava mariposas nos postes de iluminação. Elas me amedrontavam. A rua era deserta. Um dia, um pescador de olhos verdes me abordou. Fugi dele e nunca mais fui para a aula de piano.

Os insetos me perseguem. Não só os habituais no ambiente doméstico: pulgas, formigas, aranhas, mosquitos, moscas, baratas, traças.

E vêm os mais selvagens.

Talvez seus predadores estejam sendo exterminados e eles resolvam invadir o território dos semelhantes. Mas pode ser um aviso. Aviso de que em breve a selva chegará ao nosso ambiente doméstico.

Borboletas pousarão no varal de roupas. Esquilos subirão nas cortinas. Macacos roubarão bananas da cesta de frutas. Lagartos se enfiarão entre livros da estante.

E virão onças, guaxinins, raposas.

Em breve soltarei urros para saudá-los. Límpidos, atávicos, compassivos.

Os caçadores escutarão e pensarão duas vezes antes de engatilhar as espingardas. 

 

***************

Marília Kubota (Paranaguá, 06/04/1964), é escritora (de verso e prosa), jornalista e mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná. Desde 2005 orienta oficinas de criação literária. Publicou os livros de poesia Velas ao Vento (2021); Bicicletas Caiçaras - 16 Cartões Postais Poéticos (em parceria com o fotógrafo Lauro Borges, 2021); Diário da vertigem (2016), micropolis (2014), Esperando as Bárbaras (2012); Selva de Sentidos (2008) e o livro de crônicas Eu Também sou Brasileira (2021). Organizou as antologias Retratos Japoneses no Brasil (2010); Blasfêmeas: Mulheres de Palavra (2016); Um Girassol nos teus Cabelos - Poemas para Marielle Franco (2018) e está presente de 18 antologias de poesia e prosa. Participou das exposições Bienal de Artes de Curitiba (2013), Poesia Agora, no Museu da Língua Portuguesa (2014); Guenzai, na Casa de Cultura Monsenhor Celso (2015) e Olhar InComum, no Museu Oscar Niemeyer (2016).

Leia mais no Falas ao Acaso: Marília Kubota: micrópolis; Marília Kubota: Rondó da Velha no Outono; Marília Kubota: como tudo funciona; Marília Kubota: que me perca; Marília Kubota: uma mulher jamais sofreu; Marília Kubota: um poema às cegas.

Saiba Mais: Marília Kubota: Diário de Poesia e Arte; Antonio Miranda: Marília Kubota; como eu escrevo: Como escreve Marília Kubota; Ruído Manifesto: Quatro poemas de Marília Kubota; Cândido - Cena Literária / Marília Kubota: Questão de gênero (mas não só); Ser Mulher Arte: A Poeta Marília Kubota - “Esperando as Bárbaras”; Potiguar Notícias: Marília Kubota: “Ainda existem barreiras para se divulgar livros de escritoras”; mallarmagens: 6 poemas de Marília Kubota; Revista Memai: Marília Kubota; Elson Froes: Marília Kubota - Fogo Branco; Escritoras Suicidas: Marília Kubota; Úrsula: Marília Kubota: “Tudo é possível na arte, por isto o encanto”; Poetas Siglo XXI: Marília Kubota (espanhol e português); Errancia: Marília Kubota (espanhol e português).

Vídeos: João Caetano conversa com Eugênia Correia e Marília Kubota; Vitrine: Marília Kubota; ame-se: Marília Kubota.


sábado, 26 de fevereiro de 2022

CARTOLA: Um poeta além do samba


Certa vez estava orientando a minha Oficina Literária Poesia Aleatória - Reciclando a Palavra Jogada Fora e uma oficinanda disse que não gostava de música e que não via poesia alguma nas letras de músicas. Foi o começo de uma boa discussão. Bem, obviamente nem toda letra de música é poética, principalmente hoje em dia, com as bobageiras “sertanejas” e outras tantas mediocridades impostas ao povão que se acostumou a consumir bagaça (de corno e de bebum) sem reclamar. 

Porém, há muitas letras de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Tom Jobim, Belchior, entre outros contemporâneos, que são maravilhas literárias. Quem não se lembra do alvoroço quando o compositor e cantor Bob Dylan foi laureado com o Nobel de Literatura, em 2016 (por “Ter criado novos modos de expressão poética no quadro da tradição da música americana.”)? E olha que, em 2008, o músico já havia recebido o Citações e Prêmios Especiais - Pulitzer Prize (por “Seu profundo impacto na música popular e na cultura americana, marcada por composições líricas de extraordinário poder poético.”). Não foi diferente com o Gilberto Gil, eleito para a Academia Brasileira de Letras, em 2021. Nesse embate, que pode vir a ser saudável, alguns poemas têm mais força na oralidade, na declamação, do que se musicada e vice-versa. Assim é, desde que o leitor e/ou ouvinte tenha sensibilidade para tanto. Se não, nada feito. 

“poemas para a posteridade” 

fotos da internet: apenas esta com a xícara de café tem crédito: Ivan Klingen

Essa conversa toda é para dizer que, há alguns anos, eu não sabia que Cartola, o grande Mestre do Samba, escrevia poemas além das suas magníficas letras musicadas. Casualmente li um extrato de sete poemas, do livro Cartola: Os Tempos Idos, de Marília T. Barboza da Silva e Arthur L. de Oliveira Filho (Funarte, 1983), que encontrei na internet, gostei e pensei em pesquisar futuramente. Recentemente me deparei com uma edição ebook, com dez poemas e dados biográficos do autor, lançada gratuitamente na Ocupação Cartola, do Itaú Cultural (2016), que informa: “Durante uma entrevista exibida em 1979 pelo programa Vox Populi, da TV Cultura, Cartola comentou sua produção de poemas - poemas feitos para o papel, não para os discos - e disse que gostaria de reuni-los em um livro. “Quando eu tiver mais uma dúzia deles vou fazer um sacrifício [...] para que eu possa editar um livrozinho e deixá-lo para a posteridade.” Os manuscritos e os datiloscritos aqui reproduzidos são os poemas criados por Cartola e guardados por Nilcemar Nogueira, neta do artista e diretora do Museu do Samba, centro de referência localizado no Morro da Mangueira - comunidade carioca cuja história é indissociável à de Cartola.” 

É desta prazerosa edição da Ocupação Cartola que selecionei os cinco poemas deste artista singular para esta postagem: O Teu Pedido/O Meu Pedido; Obscuridade; Quero Mais Rugas nas Faces; Remorso; Mangueira. Ilustrações: Joba Tridente (2022). Fotos: Internet.

 

C  A  R  T  O  L  A

um poeta além do samba

 

                          

O  TEU  PEDIDO

CARTOLA

 

Em sonho fiz teu samba, coisa louca

Senti tamanha emoção em mim

Terminou rolando de boca em boca

Humilhado em gafieiras e botequins

E para tal não acontecer

Resolvi teu samba não escrever

 

Sabendo que és moça e bem prendada

E de família pobre mas honesta

Resolvi quebrar a cabeça em algumas quadras

Dando-te depois de prontas estas

Eu sei que são bem pobres as minhas rimas

Infeliz de mim tivesse mais cultivo

Rasgaria por completo estas rimas

A ti escreveria um grande livro

 

O  MEU  PEDIDO

CARTOLA

 

Bem vês que atendi o teu pedido

E assim forçou-me a fazer outro agora

Depois de leres, gostes ou não gostes

Por favor, rasga e põe fora.

 

Lidas na vertical de cima para baixo, as letras iniciais dos versos deste acróstico formam o nome de uma mulher - Esther Serdeira - com quem Cartola se envolveu nos anos 1930. O texto foi escrito a pedido da moça, que já era comprometida.


 

    

O B S C U R I D A D E

CARTOLA

 

Passei pelo mundo sem ser percebido,

Ouvindo a tudo

E a nada dando ouvido.

Segui pelo caminho que tinha à minha frente,

Mas não encontrei a estrada

Desejada em minha mente.

Nada fiz que aos outros tivesse interessado.

Tudo que fiz, foi por dever ou acovardado.

Por nada tive paixão,

Mas nada fiz por ódio,

Se ausência de sentimentos

Não significa maldade

Simplificando a história:

Vivi na obscuridade.


 

                       


QUERO MAIS RUGAS NAS FACES

CARTOLA

 

Raros os que não me chamam

De velho, velho baldado

Curvo a cabeça calado

Satisfeito com o que sou

 

Deixem que os dias se passem

Quero mais rugas nas faces

Quero que o corpo se incline

Com o peso de minha idade

 

Tive também mocidade

Mocidade de incertezas

Quantas vezes me faltaram

O pão sobre minha mesa

 

Há coisas que da memória

Não podem fugir jamais

Eram os tempos que os filhos

Dialogavam com os pais

 

Será senhor que é pecado

Ser velho assim como sou?

Será que esta juventude

Pensa que o tempo parou?

 

Oh poderosos, oh mestre

Iluminai as estradas

Para que cheguem ao final

Com a vida realizada.

 


     


R E M O R S O

CARTOLA

 

Se eu te encontrar um dia agonizante,

Morrendo em desespero de remorsos,

Pelo mal que me fazes a todo instante,

Eu rezarei por ti um pai-nosso.

 

E se pensares o quanto me ultrajaste

E me pedires perdão, eu dar-te posso

Em louvor a algum bem que me causaste

Eu rezarei por ti um pai-nosso.

 

E no último suspiro está previsto,

Não terás coragem para ser sincero.

Negarás tudo. “Eu não disse isto”.

 

Se te faltar forças, amigo, eu posso

Levar-te a última morada

E rezar por ti um pai-nosso.


 

                                  


M A N G U E I R A

CARTOLA

 

Quando à tarde

O sol descamba

Vem a lua pro terreiro

Lua em forma de pandeiro

Ritmando prateada

Mais distante as estrelas

Pequeninas, quase nada

Tem-se a impressão que Mangueira

Seja um conto de fada. 



*********

foto colorida: Walter Firmo

CARTOLA - registrado Angenor de Oliveira (Rio de Janeiro-RJ: 11/10/1908 - Rio de Janeiro-RJ: 30/11/1980): compositor, cantor, poeta, violonista..., um dos mais importantes sambistas brasileiros e autor e/ou coautor de clássicos como As rosas não falam, O mundo é um moinho, Corra e olha o céu, O sol nascerá, Alvorada, Tive sim, Acontece, Disfarça e chora, Acontece, Ao amanhecer, Não quero mais amar ninguém, Amor Proibido, Cordas de Aço..., entre outras. Tomou gosto pela música e pelo samba ainda menino e aprendeu com o pai a tocar violão. Quando a sua família se mudou para o morro da Mangueira, conheceu e fez amizade com Carlos Cachaça e outros bambas. Aos 15 anos, após a morte de sua mãe, abandonou os estudos - tendo terminado apenas o primário. Arranjou emprego de servente de obra e passou a usar um chapéu-coco para se proteger do cimento que caía de cima, ganhou dos colegas de trabalho o apelido “Cartola”. Junto com um grupo de amigos sambistas do morro, Cartola criou o Bloco dos Arengueiros, cujo núcleo em 1928 fundou a Estação Primeira de Mangueira. Ele compôs também o primeiro samba para a escola de samba, Chega de Demanda. Os sambas de Cartola se popularizaram na década de 1930, em vozes ilustres como Araci de Almeida, Carmen Miranda, Francisco Alves, Mário Reis e Sílvio Caldas. Em 1974, aos 66 anos, Cartola gravou o primeiro de seus quatro discos-solo e sua carreira tomou impulso de novo com clássicos instantâneos como As Rosas não FalamO Mundo É um MoinhoAcontece. No final da década de 1970, mudou-se da Mangueira para uma casa em Jacarepaguá, onde morou até a morte, em 1980. Fonte Wikipédia.

Saiba Mais: Wikipédia: Cartola; BDTD - Nilcemar Nogueira: De dentro da Cartola: a poética de Angenor de Oliveira; Antonio Miranda: Cartola - Angenor de Oliveira; Itaú Cultural: Ocupação Cartola; Multirio: Heróis e Heroínas do Rio - Cartola: samba e poesia em verde e rosa; Ronaldo Só Moutinho: A Obra de Cartola e o Novo da Rede; Carlos Drummond de Andrade: Cartola, no moinho do mundo; Esquina Cultural - Matheus Mans: As histórias por trás da vida e da música de Cartola; Jornalismo Júnior: Cartola, samba e lirismo; IMS - Pedro Paulo Malta: Cartola Inesquecível: Amigos relembram histórias do mestre nos 40 anos de sua morte; CemporcentoSamba - Fabio Silva: Cartola; Almanaque Folha UOL - Douglas Cometti: Cartola; Famosos Que Partiram: Cartola; Museu Afro Brasil: Cartola; Revista de História - Maurício Barros de Castro: Divino Cartola; Medium: Cartola - O gênio da Estação Primeira de Mangueira. 


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