sábado, 15 de dezembro de 2012

Patativa do Assaré: A Triste Partida


Nasci a 5 de março de 1909. Perdi a vista direita, no período da dentição, em consequência da moléstia vulgarmente conhecida por Dor-d’olhos. Desde que comecei a trabalhar na agricultura, até hoje, nunca passei um ano sem botar a minha roçazinha, só não plantei roça, no ano em que fui ao Pará. - Patativa do Assaré in Autobiografia, publicada em Cante Lá Que Eu Canto Cá, 1978.


A triste partida
Patativa do Assaré

Setembro passou, com oitubro e novembro
Já tamo em dezembro.
Meu Deus, que é de nós?
Assim fala o pobre do seco Nordeste,
Com medo da peste,
Da fome feroz.

A treze do mês ele fez a experiença,
Perdeu sua crença
Nas pedra de sá.
Mas nôta experiença com gosto se agarra,
Pensando na barra
Do alegre Natá.

Rompeu-se o Natá, porém barra não veio,
O só, bem vermeio,
Nasceu munto além.
Na copa da mata, buzina a cigarra,
Ninguém vê a barra,
Pois barra não tem.

Sem chuva na terra descamba janêro,
Depois, feverêro,
E o mêrmo verão
Entonce o rocêro, pensando consigo,
Diz: isso é castigo!
Não chove mais não!

Apela pra maço, que é o mês preferido
Do Santo querido,
Senhô São José.
Mas nada de chuva! tá tudo sem jeito,
Lhe foge do peito
O resto da fé.

Agora pensando segui ôtra tria,
Chamando a famia
Começa a dizê:
Eu vendo meu burro, meu jegue e o cavalo,
Nós vamo a São Palo
Vivê ou morrê.

Nós vamo a São Palo, que a coisa tá feia;
Por terras aleia
Nós vamo vagá.
Se o nosso destino não fô tão mesquinho,
Pro mêrmo cantinho
Nós torna a vortá.

E vende o seu burro, o jumento e o cavalo,
Inté mêrmo o galo
Vendêro também,
Pois logo aparece feliz fazendêro,
Por pôco dinhêro
Lhe compra o que tem.

Em riba do carro se junta a famia;
Chegou o triste dia,
Já vai viajá.
A seca terrive, que tudo devora,
Lhe bota pra fora
Da terra natá.

O carro já corre no topo da serra.
Oiando pra terra,
Seu berço, seu lá,
Aquele nortista, partido de pena,
De longe inda acena:
Adeus, Ceará!

No dia seguinte, já tudo enfadado,
E o carro embalado,
Veloz a corrê,
Tão triste, o coitado, falando saudoso,
Um fio choroso
Escrama, a dizê:

- De pena e sodade, papai, sei que morro!
Meu pobre cachorro,
Quem dá de comê?
Já ôto pergunta: - Mãezinha, e meu gato?
Com fome, sem trato,
Mimi vai morrê!

E a linda pequena, tremendo de medo:
- Mamãe, meus brinquedo!
Meu pé de fulô!
Meu pé de rosêra, coitado, ele seca!
E a minha boneca
Também lá ficou.

E assim vão dexando, com choro e gemido,
Do berço querido
O céu lindo e azu.
Os pai, pesaroso, nos fio pensando,
E o carro rodando
Na estrada do Su.

Chegaro em São Paulo - sem cobre, quebrado.
O pobre, acanhado,
Percura um patrão.
Só vê cara estranha, da mais feia gente,
Tudo é diferente
Do caro torrão.

Trabaia dois ano, três ano e mais ano,
E sempre no prano
De um dia inda vim.
Mas nunca ele pode, só veve devendo,
E assim vai sofrendo
Tormento sem fim.

Se arguma notícia das banda do Norte
Tem ele por sorte
O gosto de uvi,
Lhe bate no peito sodade de móio,
E as água dos óio
Começa a caí.

Do mundo afastado, sofrendo desprezo,
Ali veve preso,
Devendo ao patrão.
O tempo rolando, vai dia vem dia,
E aquela famia
Não vorta mais não!

Distante da terra tão seca mas boa,
Exposto à garoa,
À lama e ao paú,
Faz pena o nortista, tão forte, tão bravo,
Vivê como escravo
Nas terra do su.


Patativa do Assaré, poeta do “sertão sofredor”, tem uma inesgotável capacidade de comunhão e simpatia pelos que sofrem, pelos que vivem humilde e pobremente, pelos fracos, pela gente simples do nosso povo.  Seu canto não é de protesto, nem de revolta, mas de compaixão, na verdadeira acepção da palavra. Ele é sensível à dor e às labutas dos que pelejam duramente. Sua visão da realidade, contudo, não é fatalista. Ele sabe muito bem indigitar as causas humanas desses males, sem atribuí-los erroneamente a uma má sorte dada por Deus. (...) Patativa, poeta compassivo, adentra-se na compreensão da fragilidade humana, tendo como ponto de partida o panorama situacional do caboclo nordestino. Francisco Salatiel de Alencar na Apresentação de Cante Lá Que Eu Canto Cá - Filosofia de um trovador nordestino - Editora Vozes, 1978.

Patativa do Assaré nasceu Antônio Gonçalves da Silva, em Assaré, no dia 5 de março de 1909, e ali morreu, em 8 de julho de 2002. O filho de Pedro Gonçalves da Silva e Maria Pereira da Silva, agricultores pobres, foi atropelado pela miséria ainda na infância. Aos oito anos já trabalhava na roça para ajudar no sustento dos irmãos mais novos. Frequentou uma única escola apenas quatro meses. Apaixonado por poesia começou a “fazer versinhos” aos treze anos. Com dezesseis conseguiu comprar uma viola, indispensável para cantar de improviso. A partir dos vinte a sua estrela de poeta foi ganhando brilho cada vez maior no mundo. Seu belo trabalho se encontra publicado em jornais, revistas, cordel e diversas coletâneas. O seu primeiro livro, Inspiração Nordestina, saiu em 1956. A segunda edição, com o título Cantos do Patativa, foi lançada em 1967. Cante Lá Que Eu Canto Cá foi publicado em 1978; Ispinho e Fulô, em 1988; Aqui tem coisa, em 1994.

Ilustração de Joba Tridente - 2012

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