terça-feira, 7 de março de 2017

Adalgisa Nery: Fragmento

“A poesia de Adalgisa Nery acusa um extraordinário poder de convicção e é sempre um largo gesto de solidariedade humana. Mesmo quando se está procurando a si mesma, Adalgisa Nery tem o pensamento na humanidade, palavra que exprime também (e principalmente) algo que é seu, que faz parte de seu ser. A arte de Adalgisa Nery, se bem que cheia de feminilidade e doçura, se impõe pela força da sua angustia, verdadeiramente apocalíptica em certos momentos. Em Adalgisa Nery não importa tanto a fôrma, a adequação artística dos seus grandes temas, mas a própria substância da sua poesia, os seus temas mesmos. Não estamos assim relegando a sua técnica tão equilibrada, apenas valorizamos o sentido da sua obra tão carregada de sofrimento.” em Antologia da Moderna Poesia Brasileira.

O poema Fragmento (1938), de Adalgisa Nery se encontra em Antologia da Moderna Poesia Brasileira - Revista Acadêmica, de 1939, do acervo Brasiliana USP Digital. 


                
F R A G M E N T O
Adalgisa Nery

Se a escuridão do ventre materno
Não tivesse fecundado nos meus olhos
A angústia eterna,
As minhas carnes seriam inundadas pelo espírito
                                                             [resplandecente
Da primeira estrela que brotou
E eu poderia correr de um lado para outro do firmamento
Com a mesma brandura dos ventos refrescantes e suaves.
Eu poderia cantar bem alto sem temor
E esperar que o eco enroscasse em meus ouvidos os sons
                                                          [da minha garganta livre
Porque os meus pecados não estariam guardados em segredo.
Eu seria como o orvalho que chega antes do sol
E brotaria do meu corpo o acre perfume da açucena plantada
                                                                    em terra negra e úmida.
A minha alegria seria como a raiz que rompe o solo para
                                                                              [receber a luz
E a minha sabedoria instruiria as mulheres por sonho
E os homens por visões!
Se a escuridão do ventre materno não me tivesse acompanhado.
As minhas mãos poderiam rasgar em dois pedaços os corações
E lavá-los em regatos de terras não imaginadas
Para que perdessem a memória do seu lado esquerdo.
As nascentes que mitigassem as bocas impiedosas
Seriam sacadas em seu veio apenas com o toque do meu dedo.
Eu teria braços como fogo, devorando com as chamas
                                                [as árvores que abrigassem
Os que não compreendem e os que não perdoam.
Eu desceria como as nuvens das madrugadas sobre as cabeças
                                                                                       [em desespero
E atrás das minhas pálpebras estariam escondidas todas as
                                                                                    [consolações.
Não haveria ventres estéreis e seios secos
Errando entre as nações.
Eu me transformaria em ar, atravessaria as grades das prisões
E penetraria nas narinas ofegantes dos condenados.
Eu estaria esquecida dos profetas
Que me representam em múltiplas figuras.
Se a escuridão do ventre materno
Não houvesse fecundado nos meus olhos a angústia eterna
E esperado o meu Princípio me reduzindo a um momento
Eu seria então a GRANDEZA ABSOLUTA
E não um FRAGMENTO!
  
*
ilustração: foto de Joba Tridente.2017


Adalgisa Nery (Rio de Janeiro, 29.10.1905 - Rio de Janeiro, 07.06.1980). Jornalista e escritora modernista de prosa e verso. Publicou Poesia: Poemas (1937); A Mulher Ausente (1940); Ar do Deserto (1943); Cantos da Angústia (1948); As Fronteiras da Quarta Dimensão (1952); Mundos Oscilantes (1962); Erosão (1973); Contos: Og (1943) e 22 menos 1 (1972); Romance: A Imaginária (1959) e Neblina (1972); Crônicas: Retrato sem Retoque (1966). Numa próxima postagem falo um pouco mais desta grande autora, que foi casada com o artista plástico Ismael Nery (1900-1934) e com o jornalista Lourival Fontes (1899-1967), e da sua militância política.

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