terça-feira, 9 de abril de 2013

Clarice Lispector: Era uma vez


Este texto de Clarice Lispector me acompanha..., me estremece há muito tempo. Sei que muita gente o conhece e, se também não o resiste..., o reexiste.


Era uma vez (*)

Respondi que gostaria mesmo era de poder um dia afinal escrever uma história que começasse assim: "era uma vez...". Para crianças? perguntaram. Não, para adultos mesmo, respondi já distraída, ocupada em me lembrar de minhas primeiras histórias aos sete anos, todas começando com "era uma vez"; eu as enviava para a página infantil das quintas-feiras do jornal de Recife, e nenhuma, mas nenhuma, foi jamais publicada. E era fácil de ver por quê. Nenhuma contava propriamente uma história com os fatos necessários a uma história. Eu lia as que eles publicavam, e todas relatavam um acontecimento. Mas se eles eram teimosos, eu também.

Mas desde então eu havia mudado tanto, quem sabe eu agora já estava pronta para o verdadeiro "era uma vez". Perguntei-me em seguida: e por que não começo? agora mesmo? Seria simples, senti eu.

E comecei. Ao ter escrito a primeira frase, vi imediatamente que ainda me era impossível. Eu havia escrito:

"Era uma vez um pássaro, meu Deus".


*
Ilustração de Joba Tridente - 2013


Clarice Lispector (1920 - 1977), a voz feminina mais intensa e triste da literatura brasileira, transitava com a mesma beleza e melancolia pela literatura acessível ao leitor infantojuvenil: O mistério do coelho pensante (1967), A mulher que matou os peixes (1968), A vida íntima de Laura (1974), Quase de verdade (1978), Como nasceram as estrelas (1987) e ou adulto: Perto do Coração Selvagem (1943), O Lustre (1946), A Cidade Sitiada (1949), Alguns contos (1952), Laços de família (1960), A Maçã no Escuro (1961), A Paixão segundo G.H. (1964), A legião estrangeira (1964), Uma Aprendizagem ou Livro dos Prazeres (1969), Felicidade clandestina (1971), Água Viva (1973), A imitação da rosa (1973), A via crucis do corpo (1974), Onde estivestes de noite? (1974), A hora da estrela (1977), Um Sopro de Vida - Pulsações (1978), A bela e a fera (1979).

(*) in Para não esquecer - 5ª ed. - Siciliano - São Paulo, 1992.

2 comentários:

  1. q delícia ler Clarice falando de sua vontade de escrever histórias infantis... :)

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