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sábado, 11 de abril de 2020

Joba Tridente: Pão de Milho



pão de milho
joba tridente

me ouvindo destrancar a porta, a vizinha destrancou rapidamente também a sua e me perguntou o quê tanto Eu fazia fora de casa em tempos de isolamento social. levei um susto porque não sabia que Eu não parava em casa, com tantas recomendações. disse que teria uma séria conversa e Eu iria entender, de uma vez por todas, que não devia sair de casa descontroladamente. sair só quando necessário. agradeci a prestimosa vizinha, entrei em casa, fechei as três trancas, para o coronavírus não entrar, e comecei a falar. Eu não estava nem aí. ouvia por um ouvido e liberava pelo outro. ameacei até ficar com seu quarteto de chaves e nada. cansado de reclamar, de esbravejar, como se brigasse comigo mesmo, me calei. aí Eu disse: sabe que não conseguia achar fubá de milho em lugar algum? saía não achava. pesquisava e não achava. por fim encontrei na Quitanda do Zé, onde nunca tinha posto o pé (gracejou). gostou do Pão de Milho que fiz especialmente para aquecer a quarentena e degustar com uma xícara de chá de hortelã com erva-doce? emocionado, não soube o que responder. abracei Eu. beijei Eu. agradeci por Eu estar sempre comigo..., zelando por mim, nesses dias tão difíceis em que pipocam vírus fatais, sociais, políticos, religiosos, por tudo quanto é via...

joba.tridente.crônica.ilustração.10.04.2020


Joba Tridente, um livre pensador livre. artesão de imagens e de palavras em Verso: 25 Poemas Experimentais (1999); Quase Hai-Kai (1997, 1998 e 2004); em Antologias: Hiperconexões: Realidade Expandida – Sangue e Titânio (2017); Hiperconexões: Realidade Expandida (2015); 101 Poetas Paranaenses (2014); Ipê Amarelo, 26 Haicais; Ce que je vois de ma fenêtre – O que eu vejo da minha janela (2014); Ebulição da Escrivatura – 13 Poetas Impossíveis (1978); em Prosa: Fragmentos da História Antropofágica e Estapafúrdia de Um Índio Polaco da Tribo dos Stankienambás (2000); Cidades Minguantes (2001); O Vazio no Olho do Dragão (2001). Contos, poemas e artigos culturais publicados em diversos veículos de comunicação: Correio Braziliense, Jornal Nicolau, Gazeta do Povo, Revista Planeta, entre outros.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Joba Tridente: de aranhas e de formigas

..., enquanto envelhecemos, rememoramos. jovem-adulto, morei em Brasília. tempos difíceis. dividi casa e apartamento. também morei só no distrito federal brasileiro, cercado do belíssimo cerrado. nem sempre tão só, como relembro nesta crônica poética, subtraída de uma carta à minha mãe Maria Augusta, escrita em 1985: de aranhas e de formigas (..., e alguns cacos de vidro).

       

de aranhas e de formigas
(..., e alguns cacos de vidro)
joba tridente

um dia...,
já faz um bom tempo...,
vi uma aranha de pernas longas, na janela do banheiro.
pensei que fosse bom ela tecer ali a sua teia,
assim não permitiria a entrada de pernilongos.
algum tempo depois encontrei a aranha desmaiada,
sobre a pia,
tentei (re)animá-la, mas não consegui...,
ela faleceu.

semanas depois, percebi
cadáveres de formigas em um ou outro ponto do estúdio.
estranhei aqueles exoesqueletinhos aqui e ali,
que raramente uso inseticida e, sempre,
botava farelo de bolacha no caminho ou na porta das suas tocas,
um pouco distante de onde jaziam.
com o passar do tempo descobri que eram mortas
por outras aranhas de pernas longas que “apareceram” na sala,
vindas não sei de onde.
fiquei chateado, a princípio,
: “umas formiguinhas tão piquenitiquinhas!”.
mas compreendi ser, esta, uma Lei Natural.
também, não eram tantas as formigas, assim,
que desencarnavam,
talvez, mesmo, as mais fracas...

descobri, ainda,
que estas formigas não trabalhavam aos domingos.
se dava comida para elas,
não era de bom grado que a recolhiam nesse dia.
talvez o Deus delas tenha descansado no domingo,
após criar o seu (delas) mundo.

de outra feita, um acidente com uma prateleira
quebrou vários vidros com ervas para chá
e voou e ficou caco para tudo quanto é lado e,
principalmente, no meio das esteiras.
limpei e bati as esteiras e varri os cantos
e passei pano molhado no chão.
no dia seguinte, embaixo da lixeira,
por onde caíram os vidros e eu havia limpado,
havia um montinho de cacos mínimos e perigosos de vidro...,
como se tivessem sido amontoados, ali, cuidadosamente.
talvez fosse trabalho das formigas.
talvez fosse trabalho das aranhas.

anos depois, ainda tenho duvidas,
se obra das formigas a quem eu “dava marmita
ou das aranhas que comiam as “gordinhas formigas
que guardavam o sétimo dia.

*
ilustração de Joba Tridente.2017


Joba Tridente, artesão de imagens e palavras em Verso: 25 Poemas Experimentais (1999); Quase Hai-Kai (1997, 1998 e 2004); em Antologias: Hiperconexões: Realidade Expandida (2015); 101 Poetas Paranaenses (2014); Ipê Amarelo, 26 Haicais; Ce que je vois de ma fenêtre - O que eu vejo da minha janela (2014); Ebulição da Escrivatura – 13 Poetas Impossíveis (1978); em Prosa: Fragmentos da História Antropofágica e Estapafúrdia de Um Índio Polaco da Tribo dos Stankienambás (2000); Cidades Minguantes (2001); O Vazio no Olho do Dragão (2001). Contos, poemas e artigos culturais publicados em diversos veículos de comunicação: Correio Braziliense, Jornal Nicolau, Gazeta do Povo, Revista Planeta, entre outros.

domingo, 16 de outubro de 2016

Joba Tridente: Esperanças Pisoteadas


Na infância, aprendi a chamar Gafanhoto de “Cavalinho de Deus” (por causa das patinhas postas) ou de “Esperança” (por causa da cor verde). Adulto, aprendi sobre a sua natureza. Esperanças Pisoteadas é uma crônica publicada em 1997.


Esperanças Pisoteadas
Joba Tridente

Sábado. Manhã iluminada de primavera. No teatro: As Quatro Estações de Vivaldi. Grátis! A fila é enorme. Às portas fechadas, estranhos conversam com estranhos. Feito velhos amigos. Troco ideias acaloradas com um casal que jamais vi na vida. Então..., do nada..., uma criança pergunta:

Como será que elas nascem?
Elas, quem?
Elas, as “esperanças”!

Olho e vejo, confundida no gramado verde, a “esperança” da menina. Ali, tão pertinho. Tão ao alcance de um toque de mão. Tão “cavalinho de deus”. Tão atenta à inquietação pública do público afoito. Medi as palavras:

Elas devem nascer na esperança do amor entre duas “esperanças”. Igual a gente, acho!
Ah, não! Gente, a gente vê sempre. Mas, “esperança” é meio difícil.
É, “esperança” não é coisa fácil de se ver. Ou de se ter.

Conjugava outra esperança.  Conversava atravessado. O povo chegava. Mais e mais. Se achegava. Mais e mais. A “esperança” voava. Esvoaçava entre as pessoas. Se encostava à parede. Procurava uma fresta. Poucos a percebiam. Poucos a perceberam sumir. Pensei tê-la visto por entre pernas apressadas que venciam a porta de entrada em busca de melhores lugares lá dentro do teatro. Não tenho certeza. As “esperanças” são fugidias...

Na segunda feira, andando pelo calçadão, vi muitas “esperanças” pisoteadas por passantes compradores e vendedores de esperanças outras, que não gafanhotam as flores das jardineiras públicas. Pensava sobre aquele “esperançacídio” quando vi, ali, linda, peluda, felpuda, desfilar uma taturana. Ouvi um esmiuçar. A taturana-fogo já era. Borboleta, jamais! Mariposa, jamais! Bruxinha, jamais! Grudada no chão e na sola de um “sapato cego”, logo seria menos que pó. Seria nada.

Há tempos não vejo “esperanças”. Foram todas pisoteadas? E as borboletas, por onde voam?

*
ilustração de Joba Tridente.2013


Joba Tridente, artesão de palavras e imagens em Verso: 25 Poemas Experimentais (1999); Quase Hai-Kai (1997, 1998 e 2004); em Antologias: Hiperconexões: Realidade Expandida (2015); 101 Poetas Paranaenses (2014); Ipê Amarelo, 26 Haicais; Ce que je vois de ma fenêtre - O que eu vejo da minha janela (2014); Ebulição da Escrivatura - 13 Poetas Impossíveis (1978); em Prosa: Fragmentos da História Antropofágica e Estapafúrdia de Um Índio Polaco da Tribo dos Stankienambás (2000); Cidades Minguantes (2001); O Vazio no Olho do Dragão (2001). Contos, poemas e artigos culturais publicados em diversos veículos de comunicação: Correio Braziliense, Jornal Nicolau, Gazeta do Povo, Revista Planeta, entre outros.

domingo, 9 de outubro de 2016

Joba Tridente: Três Cadernos


Três Cadernos
Joba Tridente
Crônica publicada na Gazeta do Povo em 27 de julho de 2003

Domingo de manhã. O maçudo jornal rodopia num lance contumaz. Encontra a soleira da porta e ali fica. O sol aquece amarelando a capa. Às vezes uma brisa fugidia roçando o jardim areja algumas páginas. O dia correndo e ninguém pra decifrar os signos de cada página. Noite chegando e os caracteres ainda virgens.

Segunda-feira abafada e duvidosa. Um vento Sul antecipando mudanças revira páginas incertas. Os cadernos se libertam do velho maço. A Cultura volteia entre a Cidade e a Política. Outros se prendem nos espinhos do jardim. O remoinho alcança a rua e páginas dançam livres entre os veículos. Ninguém se apercebe dos sinais impressos. Tinta muda abreviando verbos sem ecos. O ir e vir ao sabor dos passantes causam inevitáveis cortes. Daí pra queda é só uma questão de voragem. Tragédia de notícias quase anunciada. As páginas feridas se enroscam em para-brisas, retrovisores, para-choques. Gravitam no asfalto. São sugadas pelas rodas impacientes em chegar lá. Questão de segundos e os atropelos estraçalham a Cidade, a Cultura, a Política.

Sinal fechado. Na brisa que encerra a ventania, fragmentos, menos que serpentinas e quase confetes, dançam na rotina do asfalto e pousam em qualquer lugar.

*
Ilustração de Joba Tridente.2016


Joba Tridente em Verso: 25 Poemas Experimentais (1999); Quase Hai-Kai (1997, 1998 e 2004); em Antologias: Hiperconexões: Realidade Expandida (2015); 101 Poetas Paranaenses (2014); Ipê Amarelo, 26 Haicais; Ce que je vois de ma fenêtre - O que eu vejo da minha janela (2014); Ebulição da Escrivatura - 13 Poetas Impossíveis (1978); em Prosa: Fragmentos da História Antropofágica e Estapafúrdia de Um Índio Polaco da Tribo dos Stankienambás (2000); Cidades Minguantes (2001); O Vazio no Olho do Dragão (2001). Contos, poemas e artigos culturais publicados em diversos veículos de comunicação: Correio Braziliense, Jornal Nicolau, Gazeta do Povo, Revista Planeta, entre outros.

domingo, 3 de julho de 2016

Joba Tridente: Coisa de Criança

É mês de julho. É mês de férias, no Brasil. A criançada se espalha alvoroçada pra todo lugar. Para algumas delas, eu vou orientar Oficinas Culturais de Bonecos e Brinquedos feitos com Material Reciclável. Mas, antes, uma pausa para uma lembrança lúdica da minha própria infância. Três instantes fugazes..., Coisa de Criança.



Coisa  de  Criança
Joba Tridente

I
Criança, olhava o céu. O azul era redondo e circular. Rasgando essa calma um fio longo de fumaça. Um rastro deixado por um jato. Não era sinal de morte ou do fim do mundo. Eu sabia. Os adultos não. Temiam o apocalipse. Não esperavam por invasão extraterrestre. Não o sabiam. Eu sim. Tentava imaginar como seria viver na lua ou em planetas que acreditava habitados. Perguntava se em outros planetas os dias e semanas seriam os mesmos. Seriam os mesmos também os fins de semana? Pensava nos sábados e domingos em outros planetas.

II
Criança, olhava o céu azul. O azul era infinito. Ou quase, não fosse rasgado por um arco de fumaça. Um fio algo algodão desfiado cruzando o espaço. Parecia sem começo e sem fim quando atravessava nuvens branquelas. Fora delas, às vezes, um ponto prateado traçava o caminho. Outras vezes, era como se nascesse de um buraco invisível.

III
Criança, olhava um arco de fumaça contornando o céu. Um arco de fumaça se desmanchando no céu. Nas pontas eu imaginava se teriam surpresas. Como no arco-íris. Talvez potes de prata. Sabia que antes que alguém ali chegasse o arco de fumaça já teria se misturado às nuvens ou desaparecido. E com ele todo e qualquer segredo. ..., Eu era criança.

*
JT - texto: 08.03.2000 e ilustração: 20.05.2011



Joba Tridente em Verso: 25 Poemas Experimentais (1999); Quase Hai-Kai (1997, 1998 e 2004); em Antologias: Hiperconexões: Realidade Expandida (2015); 101 Poetas Paranaenses (2014); Ipê Amarelo, 26 Haicais; Ce que je vois de ma fenêtre - O que eu vejo da minha janela (2014); Ebulição da Escrivatura - 13 Poetas Impossíveis (1978); em Prosa: Fragmentos da História Antropofágica e Estapafúrdia de Um Índio Polaco da Tribo dos Stankienambás (2000); Cidades Minguantes (2001); O Vazio no Olho do Dragão (2001). Contos, poemas e artigos culturais publicados em diversos veículos de comunicação: Correio Braziliense, Jornal Nicolau, Gazeta do Povo, Revista Planeta, entre outros.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Joba Tridente: Paz Cabisbaixa


PAZ Cabisbaixa
Joba Tridente

Criei o Projeto a Arte Anda, em 2012, um Projeto de Arte Sustentável visando reutilizar os ingressos plásticos, estampados com detalhes de obras de arte do Acervo da Caixa Econômica Federal, utilizado pelo Teatro da Caixa de Curitiba. A série é composta por temas que buscam leitura nas mais diversas analogias conceituais (que vão além da forma): A Arte Anda..., ou Nada! (peixe); A Arte Anda..., ou Desliza (cobra 1 e 2); A Arte Anda..., ou Dança! (boi de folia). As obras podem ser conferidas no blog Lixo Que Vira Arte, clicando nos links entre parênteses.

Bem, mas não é sobre o projeto que quero falar, mas especificamente sobre uma peça da série A Arte Anda..., ou Dança!, de 2015. Dos dez objetos articulados, apenas o que recebeu a estampa com o detalhe do quadro PAZ - Nações Unidas, de Gomes de Souza, embora, como os outros Bois de Folia, movimente a cabeça e o pescoço, mantém-se cabisbaixo.

É claro que, em sendo objetos articulados artesanais, cada peça não é idêntica à outra e até mesmo o encaixe varia..., uma pode ficar com o pescoço parado e a cabeça levantada e outra não. O curioso é que esta, ainda que articulada, é a única que fica com a cabeça abaixada e não tem o que a faça alinhar-se ao pescoço. Um Boi de Melancólica Folia. Uma PAZ Cabisbaixa.


Decidi não vender a peça e refletir sobre a alegoria.  2015 tombando ladeira abaixo e 2016 subindo claudicante. A intolerância social, racial, política, religiosa..., crescendo célere com a mente desenfreada das pessoas obtusas no Brasil e no mundo. Vidas migrantes. Vidas mirradas. Vidas ceifadas aleatoriamente na aldeia global a cada dia mais fragilizada com seus colossos sovando o barro humano. Não o barro primordial da sopa da iniciação. Mas o barro essencial à sopa da civilização. Pasteuriza-se o conhecimento contemporâneo implodindo a cultura milenar.

PAZ Cabisbaixa me faz pensar sobre o mundo onde a rapina ao intelecto e à matéria é uma constante e a surdez às súplicas das vítimas dos ambiciosos senhores do capital e da guerra é absurda. Nas mídias e redes sociais, nos parlamentos e tribunais predomina arrogância do EU. A maioria uniformizada não fala, grita. E grita tão alto que é incapaz de ouvir os próprios impropérios. Não ouve. Não dialoga. Monologa! Não importa se andamos à sombra e ou à luz..., o terror nos vigia, o horror nos persegue, o temor nos tira o sono. Perde-se a cabeça pela diferença, pelo pensamento e por nada. Ideologia virou pacto de imbecis. Não tarda e a intelligentsia não passará de insignificante substantivo grifado no dicionário. No horizonte o colapso da civilização parece iminente..., tamanha a barbárie que nos ronda.


Todavia, numa Terra devastada por credos, a PAZ Cabisbaixa também me faz meditar que resistir à malta é preciso, ainda que nadar contra a violência da maré seja impreciso. Afinal, se a Arte é Sustentável..., a Paz também pode ser!


*
ilustração: Bois de Folia
criação e fotos de Joba Tridente

Joba Tridente em Verso: 25 Poemas Experimentais (1999); Quase Hai-Kai (1997, 1998 e 2004); em Antologias: Hiperconexões: Realidade Expandida (2015); 101 Poetas Paranaenses (2014); Ipê Amarelo, 26 Haicais; Ce que je vois de ma fenêtre - O que eu vejo da minha janela (2014); Ebulição da Escrivatura – 13 Poetas Impossíveis (1978); em Prosa: Fragmentos da História Antropofágica e Estapafúrdia de Um Índio Polaco da Tribo dos Stankienambás (2000); Cidades Minguantes (2001); O Vazio no Olho do Dragão (2001). Contos, poemas e artigos culturais publicados em diversos veículos de comunicação: Correio Braziliense, Jornal Nicolau, Gazeta do Povo, Revista Planeta, entre outros.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Clarice Lispector: Das vantagens de ser bobo

A escritora Clarice Lispector nasceu em Tchetchelmik, Ucrânia, no dia 10 de dezembro de 1920. Hoje completaria 95 anos, não tivesse morrido há 38, no dia 09 de dezembro de 1977, na cidade do Rio de Janeiro, Brasil. Diva? Musa? Bruxa? Não importa o aglomerado, mas a essência, a substância da sua imortal obra literária. Das suas belas e saborosas crônicas, reunidas em títulos diversos: Para não esquecerA descoberta do mundo; Clarice na Cabeceira, selecionei duas. Ontem você leu sobre nascimento, vida e morte em as três experiências. A de hoje fala das vantagens de ser bobo.


Pintura de Clarice Lispector: Pássaro da Liberdade - 1975
das vantagens de ser bobo
Clarice Lispector
12 de setembro de 1969

O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir tocar no mundo.

O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo, estou pensando."

Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia.

O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não veem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os veem como simples pessoas humanas.

O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo parece nunca ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoiévski.

Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era que o aparelho estava tão estragado que o concerto seria caríssimo: mais vale comprar outro.

Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranquilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado.

O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu. Aviso: não confundir bobos com burros.

Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?"

Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!

Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.

O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação, os bobos ganham a vida.

Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.

Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas! Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

*

Clarice Lispector (1920 - 1977), a voz feminina mais intensa e triste da literatura brasileira, é autora de Romances: Perto do Coração Selvagem (1943); O Lustre (1946); A Cidade Sitiada (1949); A Maçã no Escuro (1961); A Paixão segundo G.H. (1964); Uma Aprendizagem ou Livro dos Prazeres (1969); Água Viva (1973); Um Sopro de Vida (1978)..., Novela: A hora da estrela (1977)..., Contos: Alguns contos (1952); Laços de família (1960); A legião estrangeira (1964); Felicidade clandestina (1971); A imitação da rosa (1973); A via crucis do corpo (1974); Onde estivestes de noite? (1974); A bela e a fera (1979)..., Crônicas: Visão do esplendor - Impressões leves (1975); Para não esquecer (1978); A descoberta do mundo (1984); Clarice na Cabeceira (2009)..., Literatura  infantil: O mistério do coelho pensante (1967); A mulher que matou os peixes (1968); A vida íntima de Laura (1974); Quase de verdade (1978); Como nasceram as estrelas (1987). Há vasto material sobre ela na web: Releituras ou Clarice Lispector ou Wikipédia, entre outros.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Clarice Lispector: As três experiências

A escritora Clarice Lispector nasceu em Tchetchelmik, Ucrânia, no dia 10 de dezembro de 1920. Amanhã completaria 95 anos, não tivesse morrido há 38, no dia 09 de dezembro de 1977, na cidade do Rio de Janeiro, Brasil. Diva? Musa? Bruxa? Não importa o aglomerado, mas a essência, a substância da sua imortal obra literária. Das suas intensas e saborosas crônicas, reunidas em títulos diversos: Para não esquecerA descoberta do mundo; Clarice na Cabeceira, selecionei duas. Leia hoje: as três experiências..., e amanhã, saiba das vantagens de ser bobo.


Pintura de Clarice Lispector: sem título - 1975 (?)
as três experiências
Clarice Lispector
11 de maio de 1968

Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O “amar os outros” é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.

E nasci para escrever. A palavra é meu domínio sobre o mundo. Eu tive desde a infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei por quê, foi esta que eu segui. Talvez porque para as outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E, para escrever, o único estudo é mesmo escrever. Adestrei-me desde os sete anos de idade para que um dia eu tivesse a língua em meu poder. E no entanto cada vez que eu vou escrever, é como se fosse a primeira vez. Cada livro meu é uma estreia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever.

Quanto aos meus filhos, o nascimento deles não foi casual. Eu quis ser mãe. Meus dois filhos foram gerados voluntariamente. Os dois meninos estão aqui, ao meu lado. Eu me orgulho deles, eu me renovo neles, eu acompanho seus sofrimentos e angústias, eu lhes dou o que é possível dar. Se eu não fosse mãe, seria sozinha no mundo. Mas tenho uma descendência, e para eles no futuro eu preparo meu nome dia a dia. Sei que um dia abrirão as asas para o voo necessário, e eu ficarei sozinha. É fatal, porque a gente não cria os filhos para a gente, nós os criamos para eles mesmos. Quando eu ficar sozinha, estarei seguindo o destino de todas as mulheres.

Sempre me restará amar. Escrever é alguma coisa extremamente forte mas que pode me trair e me abandonar: posso um dia sentir que já escrevi o que é meu lote neste mundo e que eu devo aprender também a parar. Em escrever eu não tenho nenhuma garantia.

Ao passo que amar eu posso até a hora de morrer. Amar não acaba. É como se o mundo estivesse à minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera.

Espero em Deus não viver do passado. Ter sempre o tempo presente e, mesmo ilusório, ter algo no futuro.

O tempo corre, o tempo é curto: preciso me apressar, mas ao mesmo tempo viver como se esta minha vida fosse eterna. E depois morrer vai ser o final de alguma coisa fulgurante: morrer será um dos atos mais importantes de minha vida. Eu tenho medo de morrer: não sei que nebulosas e vias-lácteas me esperam. Quero morrer dando ênfase à vida e à morte. Só peço uma coisa: na hora de morrer eu queria ter uma pessoa amada por mim ao meu lado para me segurar a mão. Então não terei medo, e estarei acompanhada quando atravessar a grande passagem. Eu queria que houvesse encarnação: que eu renascesse depois de morta e desse a minha alma viva para uma pessoa nova. Eu queria, no entanto, um aviso. Se é verdade que existe uma reencarnação, a vida que levo agora não é propriamente minha: uma alma me foi dada ao corpo.

Eu quero renascer sempre. E na próxima encarnação vou ler meus livros como uma leitora comum e interessada, e não saberei que nesta encarnação fui eu que os escrevi.

Está-me faltando um aviso, um sinal. Virá como intuição? Virá ao abrir um livro? Virá esse sinal quando eu estiver ouvindo música? Uma das coisas mais solitárias que eu conheço é não ter a premonição.

*

Clarice Lispector (1920 - 1977), a voz feminina mais intensa e triste da literatura brasileira, é autora de Romances: Perto do Coração Selvagem (1943); O Lustre (1946); A Cidade Sitiada (1949); A Maçã no Escuro (1961); A Paixão segundo G.H. (1964); Uma Aprendizagem ou Livro dos Prazeres (1969); Água Viva (1973); Um Sopro de Vida (1978)..., Novela: A hora da estrela (1977)..., Contos: Alguns contos (1952); Laços de família (1960); A legião estrangeira (1964); Felicidade clandestina (1971); A imitação da rosa (1973); A via crucis do corpo (1974); Onde estivestes de noite? (1974); A bela e a fera (1979)..., Crônicas: Visão do esplendor - Impressões leves (1975); Para não esquecer (1978); A descoberta do mundo (1984); Clarice na Cabeceira (2009)..., Literatura  infantil: O mistério do coelho pensante (1967); A mulher que matou os peixes (1968); A vida íntima de Laura (1974); Quase de verdade (1978); Como nasceram as estrelas (1987). Há vasto material sobre ela na web: Releituras ou Clarice Lispector ou Wikipédia, entre outros.

domingo, 23 de agosto de 2015

Clarice Lispector: Perdoando Deus

Em As duas Clarices – entre a Europa e a América: leitura e tradução de obra de Clarice Lispector na França e no Quebec, lançado em 2014, pela Editora UFPR, a escritora e tradutora Lúcia Peixoto Cherem, faz uma análise interessante da crônica-conto Perdoando Deus, de Clarice Lispector (1920-1977) e do poema em prosa O Bolo, de Charles Baudelaire (1821-1867). Em provocação ao leitor, estou publicando os dois textos. Todavia, para não induzir a leitura do conto e do poema, cito apenas um breve trecho da analogia de Lucia Cherem: “O conto Perdoando Deus e um dos poemas em prosa de Charles Baudelaire, O bolo (Le gâteau), possuem a mesma estrutura narrativa, embora, a partir de um determinado momento, evoluam em direções diferentes. Os dois (...) possuem uma mesma visão romântica do mundo que vai, aos poucos sendo revista. (...) Os dois narradores partem de uma sensação de plenitude e enfrentam uma queda brusca, voltando ao mundo real. O que os diferencia, no entanto, é o rumo que cada um deles toma depois da sensação vivida. (...) Num estudo sobre Baudelaire, W. Benjamin, lembrando Paul Valéry, afirma que todo escritor, ao relatar uma emoção vivida, necessita trabalhar com a sua memória. É tentando lembrar-se do que aconteceu que poderá ou não tocar o leitor, no sentido de esse leitor reviver com o autor a mesma sensação.”



PERDOANDO DEUS
Clarice Lispector

Eu ia andando pela Avenida Copacabana e olhava distraída edifícios, nesga de mar, pessoas, sem pensar em nada. Ainda não percebera que na verdade não estava distraída, estava era de uma atenção sem esforço, estava sendo uma coisa muito rara: livre. Via tudo, e à toa. Pouco a pouco é que fui percebendo que estava percebendo as coisas. Minha liberdade então se intensificou um pouco mais, sem deixar de ser liberdade. Não era tour de propriétaire, nada daquilo era meu, nem eu queria. Mas parece-me que me sentia satisfeita com o que via.

Tive então um sentimento de que nunca ouvi falar. Por puro carinho, eu me senti a mãe de Deus, que era a Terra, o mundo. Por puro carinho, mesmo, sem nenhuma prepotência ou glória, sem o menor senso de superioridade ou igualdade, eu era por carinho a mãe do que existe. Soube também que se tudo isso "fosse mesmo" o que eu sentia - e não possivelmente um equívoco de sentimento - que Deus sem nenhum orgulho e nenhuma pequenez se deixaria acarinhar, e sem nenhum compromisso comigo. Ser-Lhe-ia aceitável a intimidade com que eu fazia carinho. O sentimento era novo para mim, mas muito certo, e não ocorrera antes apenas porque não tinha podido ser. Sei que se ama ao que é Deus. Com amor grave, amor solene, respeito, medo, e reverência. Mas nunca tinham me falado de carinho maternal por Ele. E assim como meu carinho por um filho não o reduz, até o alarga, assim ser mãe do mundo era o meu amor apenas livre.

E foi quando quase pisei num enorme rato morto. Em menos de um segundo estava eu eriçada pelo terror de viver, em menos de um segundo estilhaçava-me toda em pânico, e controlava como podia o meu mais profundo grito. Quase correndo de medo, cega entre as pessoas, terminei no outro quarteirão encostada a um poste, cerrando violentamente os olhos, que não queriam mais ver. Mas a imagem colava-se às pálpebras: um grande rato ruivo, de cauda enorme, com os pés esmagados, e morto, quieto, ruivo. O meu medo desmesurado de ratos.

Toda trêmula, consegui continuar a viver. Toda perplexa continuei a andar, com a boca infantilizada pela surpresa. Tentei cortar a conexão entre os dois fatos: o que eu sentira minutos antes e o rato. Mas era inútil. Pelo menos a contiguidade ligava-os. Os dois fatos tinham ilogicamente um nexo. Espantava-me que um rato tivesse sido o meu contraponto. E a revolta de súbito me tomou: então não podia eu me entregar desprevenida ao amor? De que estava Deus querendo me lembrar? Não sou pessoa que precise ser lembrada de que dentro de tudo há o sangue. Não só não esqueço o sangue de dentro como eu o admito e o quero, sou demais o sangue para esquecer o sangue, e para mim a palavra espiritual não tem sentido, e nem a palavra terrena tem sentido. Não era preciso ter jogado na minha cara tão nua um rato. Não naquele instante. Bem poderia ter sido levado em conta o pavor que desde pequena me alucina e persegue, os ratos já riram de mim, no passado do mundo os ratos já me devoraram com pressa e raiva. Então era assim?, eu andando pelo mundo sem pedir nada, sem precisar de nada, amando de puro amor inocente, e Deus a me mostrar o seu rato? A grosseria de Deus me feria e insultava-me. Deus era bruto. Andando com o coração fechado, minha decepção era tão inconsolável como só em criança fui decepcionada. Continuei andando, procurava esquecer. Mas só me ocorria a vingança. Mas que vingança poderia eu contra um Deus Todo-Poderoso, contra um Deus que até com um rato esmagado podia me esmagar? Minha vulnerabilidade de criatura só. Na minha vontade de vingança nem ao menos eu podia encará-Lo, pois eu não sabia onde é que Ele mais estava, qual seria a coisa onde Ele mais estava e que eu, olhando com raiva essa coisa, eu O visse? no rato? Naquela janela? nas pedras do chão? Em mim é que Ele não estava mais. Em mim é que eu não O via mais.

Então a vingança dos fracos me ocorreu: ah, é assim? pois então não guardarei segredo, e vou contar. Sei que é ignóbil ter entrado na intimidade de Alguém, e depois contar os segredos, mas vou contar - não conte, só por carinho não conte, guarde para você mesma as vergonhas Dele - mas vou contar, sim, vou espalhar isso que me aconteceu, dessa vez não vai ficar por isso mesmo, vou contar o que Ele fez, vou estragar a Sua reputação.

...mas quem sabe, foi porque o mundo também é rato, e eu tinha pensado que já estava pronta para o rato também. Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil.

É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria - e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. É porque sou muito possessiva e então me foi perguntado com alguma ironia se eu também queria o rato para mim. É porque só poderei ser mãe das coisas quando puder pegar um rato na mão. Sei que nunca poderei pegar num rato sem morrer de minha pior morte. Então, pois, que eu use o magnificat que entoa às cegas sobre o que não se sabe nem vê. E que eu use o formalismo que me afasta. Porque o formalismo não tem ferido a minha simplicidade, e sim o meu orgulho, pois é pelo orgulho de ter nascido que me sinto tão íntima do mundo, mas este mundo que eu ainda extraí de mim de um grito mudo. Porque o rato existe tanto quanto eu, e talvez nem eu nem o rato sejamos para ser vistos por nós mesmos, a distância nos iguala. Talvez eu tenha que aceitar antes de mais nada esta minha natureza que quer a morte de um rato. Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente. Talvez eu não possa olhar o rato enquanto não olhar sem lividez esta minha alma que é apenas contida. Talvez eu tenha que chamar de "mundo" esse meu modo de ser um pouco de tudo. Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho de minha natureza? Enquanto eu imaginar que "Deus" é bom só porque eu sou ruim, não estarei amando a nada: será apenas o meu modo de me acusar. Eu, que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrário, e ao meu contrário quero chamar de Deus. Eu, que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse. Porque eu, que de mim só consegui foi me submeter a mim mesma, pois sou tão mais inexorável do que eu, eu estava querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu. Porque enquanto eu amar a um Deus só porque não me quero, serei um dado marcado, e o jogo de minha vida maior não se fará. Enquanto eu inventar Deus, Ele não existe.

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Ilustração de Joba Tridente.2015


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Clarice Lispector (1920 - 1977), a voz feminina mais intensa e triste da literatura brasileira, é autora de Romances: Perto do Coração Selvagem (1943); O Lustre (1946); A Cidade Sitiada (1949); A Maçã no Escuro (1961); A Paixão segundo G.H. (1964); Uma Aprendizagem ou Livro dos Prazeres (1969); Água Viva (1973); Um Sopro de Vida (1978)..., Novela: A hora da estrela (1977)..., Contos: Alguns contos (1952); Laços de família (1960); A legião estrangeira (1964); Felicidade clandestina (1971); A imitação da rosa (1973); A via crucis do corpo (1974); Onde estivestes de noite? (1974); A bela e a fera (1979)..., Crônicas: Visão do esplendor - Impressões leves (1975); Para não esquecer (1978); A descoberta do mundo (1984)..., Literatura  infantil: O mistério do coelho pensante (1967); A mulher que matou os peixes (1968); A vida íntima de Laura (1974); Quase de verdade (1978); Como nasceram as estrelas (1987). Há vasto material sobre ela na web: Releituras ou Clarice Lispector ou Wikipédia, entre outros. 

Nota: O conto Perdoando Deus, presente nas coletâneas Felicidade Clandestina (1971) e A Descoberta do Mundo (1984), foi publicado, em 19.09.1970, como crônica, no Jornal do Brasil.

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