sábado, 18 de abril de 2015

Silvio Romero: Oração, Reza, Benzimentos

Uma das postagens de mais leitura, aqui no Falas ao Acaso, foi Sylvio Roméro: Orações, publicada em 2013. Havia me prometido fazer um complemento, mas não conseguia tempo para retomar o assunto que considero por demais curioso.

Como disse anteriormente: “Quando criança, a minha nona (vó) Páscoa benzia toda a família, e quem mais quisesse, com ramos de alecrim e de hortelã”. Não entendia muito o que minha nona calabresa falava..., mas adorava o cheiro que exalava do alecrim e da hortelã. Sempre que tinha nada pra fazer inventava um quebranto ou dor qualquer e ia lá, sentava na cadeira e viajava nas suas rezas inebriantes de alecrim e hortelã.

Duas ruas abaixo de casa havia o Seu Zé Benzedor, um negro velho, de cabelo branco, que também atendia a muita gente. Homem bom. Seu altar era repleto de santos e a sua pequena casa exalava o cheiro de parafina das velas sempre acesas. Seu Zé também benzia tudo, até espinhela caída..., que só vim saber o que era ao ler o fascinante material sobre orações, benzimentos, crendices e superstições, recolhido por Silvio Romero e publicado na edição digital de Contribuições para o Estudo do Folk-lore Brazileiro: Estudos Sobre A Poesia Popular do Brazil - 1879-1880, - Rio de Janeiro - 1888. Na postagem de 2013 conservei a grafia original, inclusive nas notas. Agora atualizei (apenas) a grafia.

Confira no Brazil de ontem os reflexos no Brasil de hoje na primeira de duas interessantes postagens: Orações, Rezas e Benzimentos.



Orações, Rezas e Benzimentos
Silvio Romero

p.22/24 (...) A propósito de moléstias revelam-se algumas muito interessantes. Quase todas as doenças para o povo vêm a ser: a espinhela caída, o flato e o feitiço.
Curam todas com benzeduras, ou promessas a santos.
A espinhela caída é um incômodo do estômago ou da parte posterior do esterno, que o povo conhece e descreve. O modo de a curar é sujeitar-se o paciente a que um curandeiro o benza com as seguintes palavras que pude obter não sem dificuldade:

“Espinhela caída,
Portas para o mar;
Arcas, espinhelas,
Em teu lugar!...
Assim como Cristo,
Senhor Nosso, andou
Pelo mundo, arcas,
Espinhelas levantou.”

Fazem-se cruzes nos pulsos, estômago e costelas.
O flato são fenômenos nervosos também curados com rezas. O feitiço é coisa que dizem ser feita por alguém.
Para fazer sair uma espinha da garganta, a reza é esta:

“Homem bom,
Mulher má,
Casa varrida,
Esteira rota;
Senhor São Braz
Disse a seu moço
Que subisse ou descesse
A espinha do pescoço.”

Para o soluço deve o paciente munir-se de um copo d'agua e perguntar:

“Que bebo?
Curandeiro Água de Cristo,
Que é bom pra isto.”

Três vezes se repete a pergunta e outras tantas a resposta.

Para o cobrelo (cobreiro chama-lhe o povo) estabelece-se entre o doente e o benzedor o seguinte dialogo:

“- Pedro, que tendes?
- Senhor, cobreiro.
- Pedro, curai.
- Senhor, com que?
- Águas das fontes,
Ervas dos montes.”

Quanto ao mal de baço proveniente de sezões, o povo costuma a cortar a dureza. O método consiste em colocar o doente um pé sobre uma folha de bananeira ou sobre o capim pé de galinha e o curandeiro ir com uma faca marcando a configuração do pé, e perguntando: “O que corto?” Ao que responde o doente: “Baço, dureza, obstrução.” Isto, três vezes, findo o que o capim ou o pedaço da folha de bananeira recortada na forma do pé é cozido em um breve, que é posto ao pescoço do enfermo. Quando a folha secar, desaparecerá a dureza.
Também acreditam no mau olhado e quebranto. Certas moléstias da cabeça dizem ser o sol, a lua ou as estrelas que entraram na cabeça do padecente. O modo de as medicar é: colocar uma toalha dobrada sobre o crânio do indivíduo afetado e sobre a toalha um copo com água emborcado. A reza que acompanha esta operação, que para mim é uma reminiscência da trepanação pre-histórica, segundo a descreve Broca, é a seguinte: “Jesus Cristo nasceu, Jesus Cristo morreu, Jesus Cristo ressuscitou. Se estas três palavras são verdadeiras, vos farão sarar desta enfermidade.” Segue-se o credo. Repetem-se três vezes a oração e o credo.
Depois se oferece. O oferecimento é este: “Ofereço este benzimento à sagrada paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.” Depois repete-se o Bendito e o Em nome do Padre, do Filho e do Espirito Santo três vezes.
Para o veneno da cobra existe o fechamento do corpo, que é uma oração que se traz ao pescoço. Também serve para preservar de faca de ponta e tiro de bala.
Quando cai um argueiro no olho de alguém, reza-se:

“Corre, corre, cavaleiro
Vai na porta de São Pedro
Dizer a Santa Luzia
Que me mande seu lencinho
Para tirar este argueiro.”

           
*
Ilustração de Joba Tridente - 2015

           
Sylvio Vasconcelos da Silveira Ramos Roméro (Lagarto, 21.04.1851 -18.06.1914): escritor, ensaísta, crítico literário, professor, filósofo. Roméro foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras em 1897 e escreveu para diversos jornais.  Sylvio Roméro Silvio Romero) é autor de: A poesia contemporânea e a sua intuição naturalista (1869); Contos do fim do século (1878); A filosofia no Brasil (1878); A literatura brasileira e a crítica moderna (1880);  Cantos Populares do Brasil - vol. 1 e 2 (1883); Contos Populares do Brasil (1885); História da literatura brasileira, 2v. (1888); A poesia popular no Brasil (1880);  Compêndio da História da Literatura Brasileira (1906). Informações sobre a edição: Portal Brasiliana USP.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...