sexta-feira, 5 de julho de 2013

Friedrich Schiller: A Luva - 2


A Luva, de Friedrich Schiller (1759-1805), é uma obra com muitas “versões”, a maioria abominável. Esta bela e intensa a tradução de Ary de Mesquita, encontrei no excelente portal espanhol de arte e literatura serieAlfa (1)..., acreditando que fosse de Daniel Innerarity, já que, infelizmente, não consta o crédito ao tradutor. O equívoco foi corrigido, agora, com o precioso comentário (abaixo) do ensaísta, poeta, editor e tradutor Wagner Shadeck (2). Esta tradução de Ary de Mesquita foi publicada na famosa coleção Clássicos da Jackson, V. XXXVIII, POESIA, 1º tomo, 1964.



A Luva
tradução de Ary de Mesquita 

No jardim dos leões, para assistir à luta,
O imperador galeia. Em derredor se escuta
A corte a sussurrar. Sob as mantas escuras,
Junto ao trono, reluz o arnês das armaduras,

Enquanto nos balcões, em volta, descortina
A seda de os dosséis a graça feminina.
O augusto imperador com os dedos fez sinal,
E, emperrado, a ranger nos gonzos, o portal
Lentamente se abriu, e, majestoso, assoma,
Abrindo a goela enorme e sacudindo a coma,
Um vulto silencioso. Agita-se a bancada,
Inquieta se debruça a corte entusiasmada,
E o fulvo caçador das selvas, o leão,
Com os olhos em fogo espreita a multidão.

Até que enfim descansa os músculos na arena.
Do trono, o imperador mais outra vez acena;
E um segundo portão se escancarando, em frente,
Deixa um tigre sair, aos saltos, de repente;
Ele fita rugindo o rei dos animais,
Lambe-lhe a rubra língua os dentes colossais,
E a cauda mosqueada e forte, que serpeia,
Açoita devagar a palidez da areia.
Rodeia enraivecido ao grande leão deitado,
E, engrolando um rugido, estira-se a seu lado.

Pela terceira vez o imperador acena;
Ao seu gesto recua uma grade pequena,
E a rugir e a saltar, pintalgados e pardos,
Lançam-se de uma vez da jaula dois leopardos.
Engrifam-se ante o tigre, e, arqueando o dorso hirsuto,
Aferventam, bufando, a cólera do bruto,
Que, encolhido nos rins, projeta-se e com a garra
Volteando no ar, veloz, os leopardos agarra.
E ruge o leão soerguendo o pescoço jubado,
Olhando os dois no chão do circo ensanguentado.
Nas bóbedas restruge em ecos o alarido
E entre as aclamações do povo erra pedido.
Aí, do peitoril florido de um balcão,
Uma luva caiu de encantadora mão,
E, como por querer, caiu exatamente
Entre o vulto do tigre e o do leão horrente.

E Cunegundes bela, a sorrir de ironia,
A um jovem vigoroso e esbelto lhe dizia:
"Se é verdade que é tão ardente e tão vibrante,
O amor que proclamais a todo e todo instante,
Cavalheiro Delorge, alevantai do chão
A luva que caiu a pouco desta mão."
A sentença fatal apenas ele ouvia
E já o podiam ver descendo a escadaria 

Que dava para o circo; e, sem voltar o rosto,
Sem olhar para trás, com o semblante composto,
Com as fidalgas feições serenas e severas,
Nos dedos levantou a luva junto às feras.
E, da mesma expressão indiferente e fria,
Escutava ao subir, de volta, a escadaria, 

Entre as damas gentis e os nobres de valor,
Um murmúrio correr de pasmo em seu louvor.
O sorriso da bela, amável, lhe assegura
Num próximo futuro a próxima ventura.
Mas Delorge, orgulhoso, antegozando a ofensa:
"Eu rejeito, senhora, a vossa recompensa".
Com um sombrio prazer nos olhos cintilantes,
Ia partir, porém, tardou ainda, e, antes
De deixar para sempre aquela que ele amara,
A luva lhe atirou, com força, em plena cara.

*
Ilustração de Joba Tridente - 2013



Der Handschuh

Vor seinem Löwengarten,
Das Kampfspiel zu erwarten,
Saß König Franz,
Und um ihn die Großen der Krone,
Und rings auf hohem Balkone
Die Damen in schönem Kranz.

Und wie er winkt mit dem Finger,
Auf tut sich der weite Zwinger,
Und hinein mit bedächtigem Schritt
Ein Löwe tritt,
Und sieht sich stumm
Rings um,
Mit langem Gähnen,
Und schüttelt die Mähnen,
Und streckt die Glieder,
Und legt sich nieder.

Und der König winkt wieder,
Da öffnet sich behend
Ein zweites Tor,
Daraus rennt
Mit wildem Sprunge
Ein Tiger hervor,

Wie der den Löwen erschaut,
Brüllt er laut,
Schlägt mit dem Schweif
Einen furchtbaren Reif,
Und recket die Zunge,
Und im Kreise scheu
Umgeht er den Leu
Grimmig schnurrend;
Drauf streckt er sich murrend
Zur Seite nieder.

Und der König winkt wieder,
Da speit das doppelt geöffnete Haus
Zwei Leoparden auf einmal aus,
Die stürzen mit mutiger Kampfbegier
Auf das Tigertier,
Das packt sie mit seinen grimmigen Tatzen,
Und der Leu mit Gebrüll
Richtet sich auf, da wird's still,
Und herum im Kreis,
Von Mordsucht heiß,
Lagern die greulichen Katzen.
Da fällt von des Altans Rand
Ein Handschuh von schöner Hand
Zwischen den Tiger und den Leun
Mitten hinein.

Und zu Ritter Delorges spottenderweis
Wendet sich Fräulein Kunigund:
»Herr Ritter, ist Eure Lieb so heiß,
Wie Ihr mir's schwört zu jeder Stund,
Ei, so hebt mir den Handschuh auf.«

Und der Ritter in schnellem Lauf
Steigt hinab in den furchtbarn Zwinger
Mit festem Schritte,
Und aus der Ungeheuer Mitte
Nimmt er den Handschuh mit keckem Finger.

Und mit Erstaunen und mit Grauen
Sehen's die Ritter und Edelfrauen,
Und gelassen bringt er den Handschuh zurück.
Da schallt ihm sein Lob aus jedem Munde,
Aber mit zärtlichem Liebesblick –
Er verheißt ihm sein nahes Glück –
Empfängt ihn Fräulein Kunigunde.
Und er wirft ihr den Handschuh ins Gesicht:
»Den Dank, Dame, begehr ich nicht«,
Und verläßt sie zur selben Stunde.



Ary Mesquita (?) é tradutor. Infelizmente, na web, há raríssimas informações sobre as traduções feitas por ele. Esta citação é uma das mais relevantes: Revista Brasileira. Mas vou continuar procurando. 

Daniel Innerarity é  professor de filosofia política e social, pesquisador IKERBASQUE na Universidade do País Basco e diretor do Instituto de Governança Democrática. Atualmente é professor visitante no Centro Robert Schuman de Estudos Avançados do Instituto Europeu de Florença. Ph.D. Entre seus livros mais recentes estão: Un mundo de todos y de nadieLa democracia del conocimiento (Premio Euskadi de Ensayo 2012); La humanidad amenazada: gobernar los riesgos globales (con Javier Solana); El futuro y sus enemigosEl nuevo espacio públicoLa sociedad invisible (Premio Espasa de Ensayo 2004); La transformación de la política (III Premio de Ensayo Miguel de Unamuno y Premio Nacional de Literatura en la modalidad de Ensayo 2003); Ética de la hospitalidade (Premio de la Sociedad Alpina de Filosofía 2011).  É um colaborador regular de opinião dos jornais El País e El Correo/Diario Vasco, e da revista Claves de razón práctica. Fonte: Portal Daniel Innerarity

(2) Wagner Shadeck é o criador do belo site de traduções Poesia Universal.

4 comentários:

  1. Prezados senhor Joba Tridente, parabéns pelo blogue. Peço-lhe desculpas, no entanto, para indicar que essa tradução é de Ary de Mesquita, publicada no Clássicos da Jackson, V. XXXVIII, POESIA, 1º tomo, 1964, pp. 347-349.

    Atenciosamente,
    W.S.

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    Respostas
    1. ..., olá, Wagner Schadeck, grato pela visita ao Falas ao Acaso e gratíssimo pela informação de real autoria da tradução. ..., o meu equívoco foi ter confiado na informação de rodapé da página do Portal Alfa:"[Poesía filosófica. Traducció de Daniel Innerarity. Hiperión. Madrid 1991]"..., já que não constava a autoria na tradução para o português. Creio que tal nota se refira à tradução"El Paseo". Aproveitei, agora, para buscar informações biográficas/traduções de Ary de Mesquita e nada encontrei, infelizmente. Grande abraço e seja sempre bem-vindo!

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    2. Muito obrigado, caro Joga Tridente. Peço-lhe, por gentileza, que atualize o endereço do blogue: https://editoraanticitera.wordpress.com/

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    3. ..., já está atualizado, Wagner Schadeck!

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