domingo, 30 de março de 2014

Amadeu Amaral: Poesia da Viola - 3

Conheci o livro Poesia da Viola (Folclore Paulista), de Amadeu Amaral, lançado em 1921, vasculhando o fascinante arquivo digital do projeto Brasiliana USP. Trata-se de uma interessante “Conferência proferida em S. José do Rio Pardo, em 8 de Junho de 1921, a beneficio integral do Asilo de Inválidos «Padre Euclides Carneiro», daquela cidade, e mandada imprimir pela mesma instituição, ainda a seu beneficio.” Compilei três distintas modas, acompanhadas da análise de Amadeu Amaral.


A “Moda” Melancólica

A aparição de animais na moda caipira é frequentíssima. Ha inumeráveis composições, como a que acabo de citar, a eles inteiramente consagradas. São, como é bem de ver, quase sempre humorísticas, de um humorismo raso e liso, sem segundas intenções, sem refolhos. Contudo, em algumas - nota curiosa - se mistura ao riso um pouco de piedade e de melancolia.

O exemplo mais completo que possuo é uma canção ou moda - As queixas do Boi - notável pela doçura do sentimento, pelo seguido da narrativa, pela ausência de enxertos e de excrescências, pelo realismo vivo e pelo vigor de certos traços. Colhi-a em S. Sebastião da Grama, da boca de um cantador, e informou-me Pedro Saturnino que a ouviu, há muitos anos, em Minas, tendo-lhe ela feito tão profunda impressão, que mais tarde o poeta não pode eximir-se a dedicar um poema ao mesmo assunto - vicissitudes de um novilho, - poema que é um dos mais sentidos e mais fortes da sua lira tão boa quanto bela.  


As Queixas do Boi

Eu fui aquele bezerro
que nasci no mês de Maio.
Desde o dia em que nasci
começaram os meus trabaio.

Me trouxeram lá do campo,
me puseram no curral;
me amarraram com uma corda,
para o meu leite roubar.

Me amarraram com uma corda,
roubaram todo o meu leite.
Depois de eu garrote feito,
me caparam de macete.

De dois ano era bezerro,
de quatro eu era garrote.
Me caparam de macete
que eu sofri a dor da morte.

Me trouxeram lá do campo,
me deram tantos esbarros,
puseram tamanha canga
p'ra puxar tamanho carro.

Puseram tamanha canga,
tamanho tiradeirão;
tanta força que eu fazia,
inda tomava ferrão.

Eu mostrei minhas bondades
logo no primeiro dia:
me tiraram eu do meio,
me puseram lá na guia.

Eu fui aquele infeliz
que nasceu no mês de Maio,
me tiraram lá da guia,
puseram no cabeçaio.

Carreiro que me tocava
era um moço valentão ;
dei uma chifrada nele,
que varou no coração.

Meu senhor foi, me vendeu,
vendeu com grande despacho ;
me puseram na boiada
me tocaram serra abaixo.

Corri matas e capoeiras
p'ra fazer minha fugida :
vi que não tinha remédio,
entreguei a minha vida.

As carreiras que eu dei
lá no alto do capão!
Adonde eu tirava os pés
o cavalo punha as mão.

As carreiras que eu dei
lá no campo da amargura!
Saía tocha de fogo
do rompão das ferraduras.

Adeus, campo! adeus, terra!
adeus, serra de Goiais
Vou indo por aqui afora,
sei que cá não volto mais.

Eu passei esses trabalhos,
uns grandes e outros maior:
às quatro horas da tarde,
tive de casco p'ra o sor.

Corri meus olhos p'ra baixo,
p'ra ver meu sangue correr.
Adeus, campo! adeus, terra,
p'ra nunca mais eu te ver !

O carniceiro saiu,
avisando seus vizinhos ;
quando foi daqui um pouco,
fui saindo aos pedacinhos.

A velha pediu um pedaço,
eles deram o coração ;
também deram a barrigada,
p'ra a velha fazer sabão.

Do couro fizeram laço;
veio um ratinho, picou.
Coitado do Ramalhete!
até rato o aproveitou!

*
Ilustração de Joba Tridente - 2014


Amadeu Amaral (1875-1929), poeta, folclorista, filólogo e ensaísta. Autodidata (assistiu algumas aulas do Curso Anexo da Faculdade de Direito), ingressou no jornalismo trabalhando no Correio Paulistano, O Estado de S. Paulo, Gazeta de Notícias. No Brasil, foi o primeiro a estudar cientificamente um dialeto regional. Dialeto Caipira, publicado em 1920, escrito à luz da linguística, estuda o linguajar do caipira paulista da área do vale do rio Paraíba, analisando suas formas e esmiuçando-lhe o vocabulário. Poesia: Urzes (1899); Névoa (1902); Espumas (1917); Lâmpada Antiga (1924). Ensaios: Letras floridas (1920); O dialeto caipira (1920); A Poesia da Viola - Folclore Paulista (1921), O elogio da mediocridade (1924). Póstumo: Memorial de um passageiro de bonde (1931), Tradições populares (1948). Fonte: Academia Brasileira de Letras.

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