domingo, 11 de outubro de 2015

Hans Christian Andersen: A Gota de Água

Aproveitando a comemoração da Semana da Criança, no Brasil, como desculpa, estou publicando uma série de sete contos do grande escritor dinamarquês Hans Christian Andersen, que já apareceu por aqui, em setembro e outubro de 2014, com os emblemáticos O Livro MudoA Família Feliz e Só A Pura Verdade. A obra de Andersen, com sua rica alegoria, também (ou até mais) cala fundo na consciência do público adulto. As ilustrações de Edna F. Hart e de F. Reiß são das edições originais disponibilizadas pela Biblioteca Gutemberg e ou Agrupamento de Escolas de Rio de Mouro. Hoje é o dia d'A Gota de Água.



A GOTA DE ÁGUA
Hans Christian Andersen
ilustração de F. Reiß

Tu conheces, com certeza, uma lupa de aumentar, assim como uma lente redonda de óculos que torna tudo cem vezes maior do que é? Quando se pega nela e se a põe diante da vista e se observa uma gota de água do lago, veem-se milhares de animais estranhos, como nunca se veem na água, mas estão lá e isso é real. Parece quase como um prato cheio de camarões. Saltam uns entre os outros e são vorazes, arrancam braços e pernas, pontas e bicos uns aos outros e assim estão alegres e contentes, à sua maneira.

Pois era uma vez um velho homem a quem toda a gente conhecia como Comichão-Coceira, porque era assim que se chamava. Queria sempre tirar o maior proveito de qualquer coisa, e quando não o conseguia, obtinha-o por feitiço.

Estava um dia sentado, segurando a sua lupa de aumentar diante dos olhos, a observar uma gota de água que fora tirada de uma valeta. Oh! Que comichões e coceiras aí havia! Todos os milhares de animaizinhos pulavam e saltavam, puxavam uns pelos outros e comiam-se uns aos outros.

— Mas isto é horrível! — disse o velho Comichão-Coceira. — Não se consegue levá-los a viverem em paz e sossego e deixar a cada um o que é seu! — E pensou, e pensou, mas não dava resultado, e assim teve de fazer um feitiço. — Tenho de lhes dar cor para que se tornem mais distinguíveis! — disse ele. Então, verteu como que uma gota de vinho tinto na gota de água, mas que era sangue de bruxa, do mais fino, a dois xelins. E assim se tornaram todos os estranhos animais, rosados em todo o corpo. Parecia uma cidade de selvagens nus.

— Que tens tu aí? — perguntou um outro feiticeiro velho que não tinha nome, e era isso que o tornava fino.

— Se conseguires adivinhar o quê — disse o Comichão-Coceira —, dar-te-ei de presente. Mas não é fácil de descobrir, quando não se sabe.

E o feiticeiro que não tinha nome olhou através da lupa de aumentar. Parecia, verdadeiramente, como se fosse toda uma cidade, onde os homens andavam sem roupa! Era horrível mas ainda mais horrível, era ver como cada um empurrava e impelia o outro, como se beliscavam e se agarravam, se mordiam uns aos outros e se arrastavam uns aos outros. O que estava por baixo de tudo tinha de ir para cima de tudo e o que estava acima de tudo tinha de ir para baixo de tudo! Vede! Vede! A perna dele é maior do que a minha! Baf! Fora com ela! Está ali um que tem uma borbulhinha por detrás da orelha, uma borbulhinha inocente, mas tortura-o e assim a borbulha vai atormentá-lo mais! E cortaram nele e arrastaram-no e comeram-no por causa da borbulhinha. Está ali um, sentado tão sossegado, como uma donzela, e que só desejava paz e tranquilidade, mas a donzela teve de vir cá para fora e puxaram por ela e rasgaram-na e comeram-na!

— É extraordinariamente divertido! — disse o feiticeiro.

— Sim, mas que pensas tu que é? — perguntou o Comichão-Coceira. — És capaz de descobrir?

— É bem de ver! — disse o outro. — É com certeza Copenhague ou outra grande cidade, são parecidas todas umas com as outras. É uma grande cidade!

— É água do charco! — respondeu o Comichão-Coceira.


Hans Christian Andersen nasceu em Odense, 1805, e morreu em Copenhague, 1875. O notório escritor dinamarquês teve uma infância pobre, mas enriquecida com as histórias que seu pai, humilde lhe contava, encenando com bonecos. Após a morte do pai, fugiu de casa e aos 14 anos começou a trabalhar no Teatro Real, em Copenhague. Andersen foi ator, corista, bailarino e autor. A maior parte de seus estudo foram financiados pelo diretor de teatro Jonas Collin. Entre outras obras, publicou: O Improvisador (1835), Nada como um menestrel (1837), Livro de Imagens sem Imagens  (1840), O romance da minha vida (autobiografia em dois volumes, 1847). Ganhou renome com os contos (Histórias e Aventuras) para o público infantojuvenil, publicada de 1835 a 1872. Há farto material na web sobre o grande mestre.  

2 comentários:

  1. Muito bacana...Assim são todos os grupos humanos, cada qual observando sob a própria ótica mundos semelhante e ao mesmo tempo surpreendentes do ponto de vista da crítica equidistante. Difícil é enxergar o próprio umbigo...

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    1. ..., e tão contemporâneo em tempos de ebulição partidária, religiosa, migratória...

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