quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Clarice Lispector: As três experiências

A escritora Clarice Lispector nasceu em Tchetchelmik, Ucrânia, no dia 10 de dezembro de 1920. Amanhã completaria 95 anos, não tivesse morrido há 38, no dia 09 de dezembro de 1977, na cidade do Rio de Janeiro, Brasil. Diva? Musa? Bruxa? Não importa o aglomerado, mas a essência, a substância da sua imortal obra literária. Das suas intensas e saborosas crônicas, reunidas em títulos diversos: Para não esquecerA descoberta do mundo; Clarice na Cabeceira, selecionei duas. Leia hoje: as três experiências..., e amanhã, saiba das vantagens de ser bobo.


Pintura de Clarice Lispector: sem título - 1975 (?)
as três experiências
Clarice Lispector
11 de maio de 1968

Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O “amar os outros” é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.

E nasci para escrever. A palavra é meu domínio sobre o mundo. Eu tive desde a infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei por quê, foi esta que eu segui. Talvez porque para as outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E, para escrever, o único estudo é mesmo escrever. Adestrei-me desde os sete anos de idade para que um dia eu tivesse a língua em meu poder. E no entanto cada vez que eu vou escrever, é como se fosse a primeira vez. Cada livro meu é uma estreia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever.

Quanto aos meus filhos, o nascimento deles não foi casual. Eu quis ser mãe. Meus dois filhos foram gerados voluntariamente. Os dois meninos estão aqui, ao meu lado. Eu me orgulho deles, eu me renovo neles, eu acompanho seus sofrimentos e angústias, eu lhes dou o que é possível dar. Se eu não fosse mãe, seria sozinha no mundo. Mas tenho uma descendência, e para eles no futuro eu preparo meu nome dia a dia. Sei que um dia abrirão as asas para o voo necessário, e eu ficarei sozinha. É fatal, porque a gente não cria os filhos para a gente, nós os criamos para eles mesmos. Quando eu ficar sozinha, estarei seguindo o destino de todas as mulheres.

Sempre me restará amar. Escrever é alguma coisa extremamente forte mas que pode me trair e me abandonar: posso um dia sentir que já escrevi o que é meu lote neste mundo e que eu devo aprender também a parar. Em escrever eu não tenho nenhuma garantia.

Ao passo que amar eu posso até a hora de morrer. Amar não acaba. É como se o mundo estivesse à minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera.

Espero em Deus não viver do passado. Ter sempre o tempo presente e, mesmo ilusório, ter algo no futuro.

O tempo corre, o tempo é curto: preciso me apressar, mas ao mesmo tempo viver como se esta minha vida fosse eterna. E depois morrer vai ser o final de alguma coisa fulgurante: morrer será um dos atos mais importantes de minha vida. Eu tenho medo de morrer: não sei que nebulosas e vias-lácteas me esperam. Quero morrer dando ênfase à vida e à morte. Só peço uma coisa: na hora de morrer eu queria ter uma pessoa amada por mim ao meu lado para me segurar a mão. Então não terei medo, e estarei acompanhada quando atravessar a grande passagem. Eu queria que houvesse encarnação: que eu renascesse depois de morta e desse a minha alma viva para uma pessoa nova. Eu queria, no entanto, um aviso. Se é verdade que existe uma reencarnação, a vida que levo agora não é propriamente minha: uma alma me foi dada ao corpo.

Eu quero renascer sempre. E na próxima encarnação vou ler meus livros como uma leitora comum e interessada, e não saberei que nesta encarnação fui eu que os escrevi.

Está-me faltando um aviso, um sinal. Virá como intuição? Virá ao abrir um livro? Virá esse sinal quando eu estiver ouvindo música? Uma das coisas mais solitárias que eu conheço é não ter a premonição.

*

Clarice Lispector (1920 - 1977), a voz feminina mais intensa e triste da literatura brasileira, é autora de Romances: Perto do Coração Selvagem (1943); O Lustre (1946); A Cidade Sitiada (1949); A Maçã no Escuro (1961); A Paixão segundo G.H. (1964); Uma Aprendizagem ou Livro dos Prazeres (1969); Água Viva (1973); Um Sopro de Vida (1978)..., Novela: A hora da estrela (1977)..., Contos: Alguns contos (1952); Laços de família (1960); A legião estrangeira (1964); Felicidade clandestina (1971); A imitação da rosa (1973); A via crucis do corpo (1974); Onde estivestes de noite? (1974); A bela e a fera (1979)..., Crônicas: Visão do esplendor - Impressões leves (1975); Para não esquecer (1978); A descoberta do mundo (1984); Clarice na Cabeceira (2009)..., Literatura  infantil: O mistério do coelho pensante (1967); A mulher que matou os peixes (1968); A vida íntima de Laura (1974); Quase de verdade (1978); Como nasceram as estrelas (1987). Há vasto material sobre ela na web: Releituras ou Clarice Lispector ou Wikipédia, entre outros.

2 comentários:

  1. Lo mas inportante en la vida es ser madre y como tal tambien ser padre es enseñar a un ser vivo lo que es la vida, darle la vida ,eso lo podemos aprender nosotros y transmitirlo .respecto a la muerte nadie nos enseña como se muere,es algo que tenemos que aprender o mejor dicho intuir lo que puede ser ,de aqui,el miedo ,al no saver .y el deseo de que alguien nos acompañe,en el trayecto ,sabemos que hay que morir ,es ley de vida ,pero la forma es sorpresa que nos depara Dios ,yo me inclino que sera dulce , como un sueño largo ,y quiero pensar que hay otro lugar y alli me encontrare con mi amor ,qe me prometio hantes de irse ,que me esperaria y desde alli me acompañaria y me protejeria .

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    1. ..., grato, Paquita Costa, por sua leitura e observações!

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