quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Augusto dos Anjos: Ricordanza della mia gioventú

Augusto dos Anjos (1884-1914) é, sem dúvida, o mais original e inclassificável escritor brasileiro. Simbolista? Parnasiano? Pré-modernista? “Descoberto” primeiramente pelo público leitor e “tardiamente” pela crítica, sua obra, literalmente única, EU, lançada em 1912, ainda hoje provoca comoção e acirra ânimos dos teóricos da classificação literária. Dado a um grande leque de interpretações, seus poemas, por vezes amargos, líricos, mórbidos, científicos, soturnos, filosóficos..., podem (também) ser lidos como profunda crítica à sociedade de sua época, com respingos na de hoje.

Faz um tempinho que ando ensaiando uma publicação com os poemas de Augusto dos Anjos. A hora me apareceu agora, em oito postagens. Comecei com o clássico Versos Íntimos, segui com o emocionante A Árvore da Serra e o visionário poema Idealização da Humanidade Futura. Hoje, um mea-culpa Ricordanza della mia gioventú.

Abaixo, após a biografia de Augusto dos Anjos, há uma série de links com sugestões de artigos sobre este autor de versos avassaladores, tão complexos quanto ternos, em sua angústia infinda, e cuja passagem pelo mundo foi meteórica..., porém profícua.


ricordanza  della  mia  gioventú
Augusto dos Anjos

A minha ama-de-leite Guilhermina
Furtava as moedas que o Doutor me dava.
Sinhá-Mocinha, minha Mãe, ralhava...
Via naquilo a minha própria ruína!

Minha ama, então, hipócrita, afetava
Susceptibilidade de menina:
“- Não, não fora ela! -“ E maldizia a sina,
Que ela absolutamente não furtava.

Vejo, entretanto, agora, em minha cama,
Que a mim somente cabe o furto feito...
Tu só furtaste a moeda, o ouro que brilha.

Furtaste a moeda só, mas eu, minha ama,
Eu furtei mais, porque furtei o peito
Que dava leite para a tua filha!

*
foto de Joba Tridente - 2016
Projeto Imagem Aleatória em Pintura Aleatória


AUGUSTO de Carvalho Rodrigues DOS ANJOS (Engenho Pau D’Arco-PB, 1884 – Leopoldina-MG, 1914), bacharel em Direito, pela Faculdade de Direito do Recife, em 1907, se dedicou ao magistério, trabalhando no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, mais precisamente em Leopoldina, onde veio a falecer, em 1914, aos 30 anos, em consequência de pneumonia. Embora veiculasse seus poemas em diversos periódicos, desde 1900, só em 1912 publicou seu primeiro e único livro: EU.  Posteriormente o dramaturgo Órris Soares lançou a edição Eu e Outras Poesias, reunindo alguns poemas inéditos do amigo. Para os estudiosos a sua obra teria influência de Herbert Spencer, Ernst Haeckel, Arthur Schopenhauer, Edgar Allan-Poe... Se quiser conhecer melhor a poesia deste grande e melancólico autor brasileiro, sugiro um passeio pela internet, onde há muita análise e controvérsia sobre ele e sua fascinante e inigualável obra.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...