quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Isaac Zita: Os Molwenes



Não sou muito ligado a datas. Para mim todo dia é dia de todo dia e do que e de quem quiser o dia. Como havia prometido publicar algo da Literatura Africana, achei apropriado aproveitar a Semana da Consciência Negra, para começar. Assim, a cada dia (até 24 de novembro de 2012) postarei um conto, um poema... 



Os Molwenes

Com a mão estendida e bem aberta, a cega está sentada no chão de cimento e move sem descanso as pálpebras desprovidas de pestanas, pondo a descoberto, deliberadamente, as cicatrizes vermelhas que figuram no lugar dos olhos.

Um homem idoso para à frente dela, olha para as horríveis orbitas e mete uma mão no bolso de onde extrai uma moeda de prata.

A seguir, fica alguns instantes a contemplá-la, indeciso, talvez pensando na alegria que com os seis bolos comprados com aquela moeda, poderia proporcionar aos netos quando chegasse a casa.

Uma voz interior segreda-lhe que deve dar a moeda de prata porque é uma boa ação e lá no Céu, Deus-Todo-Poderoso, além de aumentar os seus dias de vida, irá perdoar todos os pecados que cometeu, até mesmo aqueles que já tinham esquecido; outra voz, entretanto, diz-lhe que o melhor será comprar os bolos e fazer essa surpresa aos netos, que por essas e por outras, cada vez o adorarão mais.

Por fim, evitando olhar para os olhos da cega, estende a mão e entrega-lhe uma moeda que ela, sofregamente, se apressa a guardar na capulana rota e suja, com uma rapidez inesperada numa invisual.

Fascinado, o homem de idade permanece de mão estendida e agora vazia, comovendo-se quando a ouve balbuciar um doce "Obrigado", ecoando como o som cristalino da água a deslizar num regato celestial.

Quando o homem se refaz do encantamento, já a cega estende de novo a mão e diz um novo - "Bom dia", continuando sempre a bater com as pálpebras sem pestanejar.

O homem idoso recomeça a caminhar, pressentindo uma lágrima de emoção a querer soltar-se dos olhos e a voz de Deus-Todo-Poderoso a confirmar que os seus pecados já tinham sido absolvidos e prometendo, se ele continuasse a ser assim bonzinho, enviar mais cedo ou mais tarde, uma pomba direita ao seu coração.

...

- Avô - consegui interromper eu, finalmente - Porque é que Deus é sempre branco e Satanás, sempre negro? É assim que o padreca ensina...

O avô mostrou-se pela primeira vez perturbado e limitou-se talvez por isso, a olhar alternadamente para a pele negra que cobria os nossos rostos e mãos. Depois, levantando-se ruidosamente, apenas disse:

Já vai alta a noite. Vamos dormir, meu filho...

*

Isaac Mario Manuel Zita (1961 - 1983) nasceu em Maputo, Moçambique. Lecionou por 2 anos e frequentava o curso de Professores de Português, para as 7ª, 8ª e 9ª classe, quando morreu, com apenas 22 anos. Sua obra mais conhecida é Os Molwenes. No site Memória da África constam, também: A Decisão; A visita; Diário de um professor estagiário; Gurué maravilhoso planalto : crónica de uma viagem; O fugitivo.

Ilustração de Joba Tridente

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