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quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Monteiro Lobato: Negrinha



NEGRINHA (1927)

Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados.

Nascera na senzala, de mãe escrava, e seus primeiros anos vivera-os pelos cantos escuros da cozinha, sobre velha esteira e trapos imundos. Sempre escondida, que a patroa não gostava de crianças.

Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, amimada dos padres, com lugar certo na igreja e camarote de luxo reservado no céu. Entaladas as banhas no trono (uma cadeira de balanço na sala de jantar), ali bordava, recebia as amigas e o vigário, dando audiências, discutindo o tempo. Uma virtuosa senhora em suma — “dama de grandes virtudes apostólicas, esteio da religião e da moral”, dizia o reverendo.

Ótima, a dona Inácia.

Mas não admitia choro de criança. Ai! Punha-lhe os nervos em carne viva. Viúva sem filhos, não a calejara o choro da carne de sua carne, e por isso não suportava o choro da carne alheia. Assim, mal vagia, longe, na cozinha, a triste criança, gritava logo nervosa:

- Quem é a peste que está chorando aí?

Quem havia de ser? A pia de lavar pratos? O pilão? O forno? A mãe da criminosa abafava a boquinha da filha e afastava-se com ela para os fundos do quintal, torcendo-lhe em caminho beliscões de desespero.

- Cale a boca, diabo!

No entanto, aquele choro nunca vinha sem razão. Fome quase sempre, ou frio, desses que entanguem pés e mãos e fazem-nos doer…

Assim cresceu Negrinha - magra, atrofiada, com os olhos eternamente assustados. Órfã aos quatro anos, por ali ficou feito gato sem dono, levada a pontapés. Não compreendia a idéia dos grandes. Batiam-lhe sempre, por ação ou omissão. A mesma coisa, o mesmo ato, a mesma palavra provocava ora risadas, ora castigos. Aprendeu a andar, mas quase não andava. Com pretextos de que às soltas reinaria no quintal, estragando as plantas, a boa senhora punha-a na sala, ao pé de si, num desvão da porta.

- Sentadinha aí, e bico, hein?

Negrinha imobilizava-se no canto, horas e horas.

- Braços cruzados, já, diabo!

Cruzava os bracinhos a tremer, sempre com o susto nos olhos. E o tempo corria. E o relógio batia uma, duas, três, quatro, cinco horas - um cuco tão engraçadinho! Era seu divertimento vê-lo abrir a janela e cantar as horas com a bocarra vermelha, arrufando as asas. Sorria-se então por dentro, feliz um instante.

Puseram-na depois a fazer crochê, e as horas se lhe iam a espichar trancinhas sem fim.

Que idéia faria de si essa criança que nunca ouvira uma palavra de carinho? Pestinha, diabo, coruja, barata descascada, bruxa, pata-choca, pinto gorado, mosca-morta, sujeira, bisca, trapo, cachorrinha, coisa-ruim, lixo - não tinha conta o número de apelidos com que a mimoseavam. Tempo houve em que foi a bubônica. A epidemia andava na berra, como a grande novidade, e Negrinha viu-se logo apelidada assim - por sinal que achou linda a palavra. Perceberam-no e suprimiram-na da lista. Estava escrito que não teria um gostinho só na vida - nem esse de personalizar a peste…

O corpo de Negrinha era tatuado de sinais, cicatrizes, vergões. Batiam nele os da casa todos os dias, houvesse ou não houvesse motivo. Sua pobre carne exercia para os cascudos, cocres e beliscões a mesma atração que o ímã exerce para o aço. Mãos em cujos nós de dedos comichasse um cocre, era mão que se descarregaria dos fluidos em sua cabeça. De passagem. Coisa de rir e ver a careta…

A excelente dona Inácia era mestra na arte de judiar de crianças. Vinha da escravidão, fora senhora de escravos - e daquelas ferozes, amigas de ouvir cantar o bolo e estalar o bacalhau. Nunca se afizera ao regime novo - essa indecência de negro igual a branco e qualquer coisinha: a polícia! “Qualquer coisinha”: uma mucama assada ao forno porque se engraçou dela o senhor; uma novena de relho porque disse: “Como é ruim, a sinhá!”…

O 13 de Maio tirou-lhe das mãos o azorrague, mas não lhe tirou da alma a gana. Conservava Negrinha em casa como remédio para os frenesis. Inocente derivativo:

- Ai! Como alivia a gente uma boa roda de cocres bem fincados!…

Tinha de contentar-se com isso, judiaria miúda, os níqueis da crueldade. Cocres: mão fechada com raiva e nós de dedos que cantam no coco do paciente. Puxões de orelha: o torcido, de despegar a concha (bom! bom! bom! gostoso de dar) e o a duas mãos, o sacudido. A gama inteira dos beliscões: do miudinho, com a ponta da unha, à torcida do umbigo, equivalente ao puxão de orelha. A esfregadela: roda de tapas, cascudos, pontapés e safanões a uma - divertidíssimo! A vara de marmelo, flexível, cortante: para “doer fino” nada melhor!

Era pouco, mas antes isso do que nada. Lá de quando em quando vinha um castigo maior para desobstruir o fígado e matar as saudades do bom tempo. Foi assim com aquela história do ovo quente.

Não sabem! Ora! Uma criada nova furtara do prato de Negrinha - coisa de rir - um pedacinho de carne que ela vinha guardando para o fim. A criança não sofreou a revolta - atirou-lhe um dos nomes com que a mimoseavam todos os dias.

- “Peste?” Espere aí! Você vai ver quem é peste - e foi contar o caso à patroa.

Dona Inácia estava azeda, necessitadíssima de derivativos. Sua cara iluminou-se.

- Eu curo ela! - disse, e desentalando do trono as banhas foi para a cozinha, qual perua choca, a rufar as saias.

- Traga um ovo.

Veio o ovo. Dona Inácia mesmo pô-lo na água a ferver; e de mãos à cinta, gozando-se na prelibação da tortura, ficou de pé uns minutos, à espera. Seus olhos contentes envolviam a mísera criança que, encolhidinha a um canto, aguardava trêmula alguma coisa de nunca visto. Quando o ovo chegou a ponto, a boa senhora chamou:

- Venha cá!

Negrinha aproximou-se.

- Abra a boca!

Negrinha abriu aboca, como o cuco, e fechou os olhos. A patroa, então, com uma colher, tirou da água “pulando” o ovo e zás! na boca da pequena. E antes que o urro de dor saísse, suas mãos amordaçaram-na até que o ovo arrefecesse. Negrinha urrou surdamente, pelo nariz. Esperneou. Mas só. Nem os vizinhos chegaram a perceber aquilo. Depois:

- Diga nomes feios aos mais velhos outra vez, ouviu, peste?

E a virtuosa dama voltou contente da vida para o trono, a fim de receber o vigário que chegava.

- Ah, monsenhor! Não se pode ser boa nesta vida… Estou criando aquela pobre órfã, filha da Cesária - mas que trabalheira me dá!

- A caridade é a mais bela das virtudes cristas, minha senhora - murmurou o padre.

- Sim, mas cansa…

- Quem dá aos pobres empresta a Deus.

A boa senhora suspirou resignadamente.

- Inda é o que vale…

Certo dezembro vieram passar as férias com Santa Inácia duas sobrinhas suas, pequenotas, lindas meninas louras, ricas, nascidas e criadas em ninho de plumas.

Do seu canto na sala do trono, Negrinha viu-as irromperem pela casa como dois anjos do céu - alegres, pulando e rindo com a vivacidade de cachorrinhos novos. Negrinha olhou imediatamente para a senhora, certa de vê-la armada para desferir contra os anjos invasores o raio dum castigo tremendo.

Mas abriu a boca: a sinhá ria-se também… Quê? Pois não era crime brincar? Estaria tudo mudado - e findo o seu inferno - e aberto o céu? No enlevo da doce ilusão, Negrinha levantou-se e veio para a festa infantil, fascinada pela alegria dos anjos.

Mas a dura lição da desigualdade humana lhe chicoteou a alma. Beliscão no umbigo, e nos ouvidos, o som cruel de todos os dias: “Já para o seu lugar, pestinha! Não se enxerga”?

Com lágrimas dolorosas, menos de dor física que de angústia moral - sofrimento novo que se vinha acrescer aos já conhecidos - a triste criança encorujou-se no cantinho de sempre.

- Quem é, titia? — perguntou uma das meninas, curiosa.

- Quem há de ser? — disse a tia, num suspiro de vítima. - Uma caridade minha. Não me corrijo, vivo criando essas pobres de Deus… Uma órfã. Mas brinquem, filhinhas, a casa é grande, brinquem por aí afora.

- Brinquem! Brincar! Como seria bom brincar! - refletiu com suas lágrimas, no canto, a dolorosa martirzinha, que até ali só brincara em imaginação com o cuco.

Chegaram as malas e logo:

- Meus brinquedos! - reclamaram as duas meninas.
Uma criada abriu-as e tirou os brinquedos.

Que maravilha! Um cavalo de pau!… Negrinha arregalava os olhos. Nunca imaginara coisa assim tão galante. Um cavalinho! E mais… Que é aquilo? Uma criancinha de cabelos amarelos… que falava “mamã”… que dormia…

Era de êxtase o olhar de Negrinha. Nunca vira uma boneca e nem sequer sabia o nome desse brinquedo. Mas compreendeu que era uma criança artificial.

- É feita?… - perguntou, extasiada.

E dominada pelo enlevo, num momento em que a senhora saiu da sala a providenciar sobre a arrumação das meninas, Negrinha esqueceu o beliscão,o ovo quente, tudo, e aproximou-se da criatura de louça. Olhou-a com assombrado encanto, sem jeito, sem ânimo de pegá-la.

As meninas admiraram-se daquilo.

- Nunca viu boneca?

- Boneca? - repetiu Negrinha. - Chama-se Boneca?

Riram-se as fidalgas de tanta ingenuidade.

- Como é boba! - disseram. - E você como se chama?

- Negrinha.

As meninas novamente torceram-se de riso; mas vendo que o êxtase da bobinha perdurava, disseram, apresentando-lhe a boneca:

- Pegue!

Negrinha olhou para os lados, ressabiada, como coração aos pinotes. Que ventura, santo Deus! Seria possível? Depois pegou a boneca. E muito sem jeito, como quem pega o Senhor menino, sorria para ela e para as meninas, com assustados relanços de olhos para a porta. Fora de si, literalmente… era como se penetrara no céu e os anjos a rodeassem, e um filhinho de anjo lhe tivesse vindo adormecer ao colo. Tamanho foi o seu enlevo que não viu chegar a patroa, já de volta. Dona Inácia entreparou, feroz, e esteve uns instantes assim, apreciando a cena.

Mas era tal a alegria das hóspedes ante a surpresa extática de Negrinha, e tão grande a força irradiante da felicidade desta, que o seu duro coração afinal bambeou. E pela primeira vez na vida foi mulher. Apiedou-se.

Ao percebê-la na sala Negrinha havia tremido, passando-lhe num relance pela cabeça a imagem do ovo quente e hipóteses de castigos ainda piores. E incoercíveis lágrimas de pavor assomaram-lhe aos olhos.

Falhou tudo isso, porém. O que sobreveio foi a coisa mais inesperada do mundo - estas palavras, as primeiras que ela ouviu, doces, na vida:

- Vão todas brincar no jardim, e vá você também, mas veja lá, hein?

Negrinha ergueu os olhos para a patroa, olhos ainda de susto e terror. Mas não viu mais a fera antiga. Compreendeu vagamente e sorriu.

Se alguma vez a gratidão sorriu na vida, foi naquela surrada carinha…

Varia a pele, a condição, mas a alma da criança é a mesma — na princesinha e na mendiga. E para ambos é a boneca o supremo enlevo. Dá a natureza dois momentos divinos à vida da mulher: o momento da boneca — preparatório —, e o momento dos filhos — definitivo. Depois disso, está extinta a mulher.

Negrinha, coisa humana, percebeu nesse dia da boneca que tinha uma alma. Divina eclosão! Surpresa maravilhosa do mundo que trazia em si e que desabrochava, afinal, como fulgurante flor de luz. Sentiu-se elevada à altura de ente humano. Cessara de ser coisa - e doravante ser-lhe-ia impossível viver a vida de coisa. Se não era coisa! Se sentia! Se vibrava!

Assim foi - e essa consciência a matou.

Terminadas as férias, partiram as meninas levando consigo a boneca, e a casa voltou ao ramerrão habitual. Só não voltou a si Negrinha. Sentia-se outra, inteiramente transformada.

Dona Inácia, pensativa, já a não atazanava tanto, e na cozinha uma criada nova, boa de coração, amenizava-lhe a vida.

Negrinha, não obstante, caíra numa tristeza infinita. Mal comia e perdera a expressão de susto que tinha nos olhos. Trazia-os agora nostálgicos, cismarentos.

Aquele dezembro de férias, luminosa rajada de céu trevas adentro do seu doloroso inferno, envenenara-a.

Brincara ao sol, no jardim. Brincara!… Acalentara, dias seguidos, a linda boneca loura, tão boa, tão quieta, a dizer mamã, a cerrar os olhos para dormir. Vivera realizando sonhos da imaginação. Desabrochara-se de alma.

Morreu na esteirinha rota, abandonada de todos, como um gato sem dono. Jamais, entretanto, ninguém morreu com maior beleza. O delírio rodeou-a de bonecas, todas louras, de olhos azuis. E de anjos… E bonecas e anjos remoinhavam-lhe em torno, numa farândola do céu. Sentia-se agarrada por aquelas mãozinhas de louça — abraçada, rodopiada.

Veio a tontura; uma névoa envolveu tudo. E tudo regirou em seguida, confusamente, num disco. Ressoaram vozes apagadas, longe, e pela última vez o cuco lhe apareceu de boca aberta.

Mas, imóvel, sem rufar as asas.

Foi-se apagando. O vermelho da goela desmaiou…
E tudo se esvaiu em trevas.

Depois, vala comum. A terra papou com indiferença aquela carnezinha de terceira - uma miséria, trinta quilos mal pesados…

E de Negrinha ficaram no mundo apenas duas impressões. Uma cômica, na memória das meninas ricas.

- “Lembras-te daquela bobinha da titia, que nunca vira boneca?”

Outra de saudade, no nó dos dedos de dona Inácia.

- “Como era boa para um cocre!…”


Carta Aberta ao MEC - livro Negrinha


foto: web

Carta Aberta ao MEC - livro Negrinha, de Monteiro Lobato

 CARTA ABERTA à Secretaria de Educação Básica (SEB) do Ministério da Educação (MEC), especialmente à COGEAM e às demais pessoas e instituições envolvidas no Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE):

Sou professora de Literatura Brasileira da Universidade Federal do Paraná, tenho atividade docente e produção bibliográfica na área de formação de leitores, dentre as quais alguns materiais didáticos produzidos para o MEC: sou coautora do livro Histórias e histórias: Guia do usuário do Programa Nacional Biblioteca da Escola (SEB/MEC, 2001), do fascículo Organização e uso da biblioteca escolar e das salas de leitura (MEC, 2005) e do artigo “Experiências de leitura no contexto escolar”, da coleção Explorando o Ensino (Literatura: Ensino Fundamental, SEB/MEC, 2010). E, também, sou autora e orientadora de pesquisas relevantes sobre a obra de Monteiro Lobato.

Considero da maior importância cultural e social os programas para formação de leitores e de acervos desenvolvidos pelo MEC e só posso esperar que programas desse gênero tenham continuidade, força política e crédito social.

Escrevo esta carta aberta porque estou consternada com a representação recentemente apresentada contra o livro Negrinha, de Monteiro Lobato, livro que não é racista, nem tampouco sexista. O conto que dá nome ao livro desperta um sentimento de angústia diante do sofrimento vivido por Negrinha, e desperta também uma forte reação contra práticas racistas, discriminatórias e violentas. Hoje dei duas entrevistas a esse respeito na mídia. Mas as condições de debate na mídia não têm sido as mais adequadas para desenvolvimento aprofundado de ideias.

Peço licença para apresentar algumas considerações sobre um pequeno trecho do edital do PNBE (citado pelos senhores Costa Neto, Domingues e Santos Júnior), que a meu ver mereceria uma discussão interna na SEB com vistas à sua reescrita. E, dada a repercussão na mídia, creio que mereceria também uma manifestação pública. O trecho a que me refiro é este, que copio do edital do PNBE-2013: “Não serão selecionadas obras que apresentem moralismos, preconceitos, estereótipos ou discriminação de qualquer ordem.” (Destaquei palavras que pretendo comentar.) Creio, pela minha experiência docente, especialmente no trabalho com formação de leitores, que a compreensão dessa frase pelos que estão envolvidos com o PNBE é diferente da sua compreensão pelos senhores que assinaram a representação.

Permitam-me dizer o que pode ser óbvio: a construção de personagens em obras ficcionais se faz muitas vezes por meio de estereótipos. Arrisco dizer que toda obra cômica faz isso. E também que boa parte dos personagens secundários, de obras boas e ruins, são construídos por meio de estereótipos, porque são personagens planos, sem densidade, apresentados por meio de poucos elementos, de traços rápidos. Estereótipos não são um elemento negativo de uma obra. São, sim, elemento constitutivo da produção ficcional. Creio que os responsáveis pelo PNBE também pensem assim e por isso tenham selecionado (nas diferentes edições do programa) obras que contêm, sim, personagens construídas por meio de estereótipos, sem que isso signifique demérito para as obras, nem tampouco flexibilidade no julgamento da equipe que seleciona os livros.

Além disso, obras literárias de alta qualidade podem apresentar (e em geral apresentam) moralismos, preconceito e discriminação. As obras são filhas de seu tempo, são impregnadas pela ideologia e pelos valores da época em que foram escritas, e carregam esses valores de maneira explícita e implícita. Apresentam moralismos, preconceito e discriminação sob a forma de ideias de personagens, sobretudo. Apresentam, isto é, trazem em seu corpo, ideias diferentes das de hoje. Discutem essas ideias, solicitam do leitor um posicionamento, instigam o leitor a refletir. E refletir é o papel principal do leitor diante de um texto. Apresentar uma ideologia não significa (na minha compreensão do texto do edital) plantá-la como verdade nas mentes dos seus leitores. Significa trazê-la no texto, impregnada no modo como o narrador ou as personagens concebem o mundo, e, dessa forma, trazê-la para discussão, debate, reflexão. Uma obra apresenta moralismos quando coloca no diálogo entre personagens uma discussão sobre valores morais, ou religiosos, ou políticos. Suponho que o MEC não tenha sugerido que não fossem adotadas obras que discutissem ideias, mesmo quando elas fossem contrárias ao senso comum e aos valores de hoje. Suponho, isso sim, que o edital tenha tentado excluir do programa obras que fossem dogmáticas, que tivessem como primeiro objetivo a expressão de valores (morais, políticos, religiosos) e que apresentassem discussão desses valores por meio de uma trama ficcional ou de uma estrutura poética insustentáveis. Não me parece que tenha sido essa a compreensão dos senhores que assinaram a representação. Além de outros problemas de leitura (que me fazem supor que eles não tenham lido o conto inteiro, mas tenham pinçado pedaços que, fora do texto, podem parecer adequados aos seus propósitos), eles julgam que o conto “Negrinha” apresenta preconceito, e isso só é verdade no seguinte sentido: a personagem Inácia é preconceituosa. Para além disso, o conto não dissemina preconceito. Pelo contrário: ele denuncia a discriminação, os maus-tratos, a violência, a conivência da igreja, e luta contra tudo isso, ao estimular a identificação e o envolvimento emocional do leitor com a personagem principal. Inácia, por sua vez, é ridicularizada, clara e ostensivamente. Suas atitudes e suas ideias são desmerecidas também de maneira clara e ostensiva.

Uma certa leitura do edital (a que fizeram os reclamantes) entende que não poderia ser adquirida pelo programa nenhuma obra que contivesse qualquer moralismo ou estereótipo, ou que apresentasse, em sua trama, qualquer ideia racista, preconceituosa, qualquer violência, qualquer forma de discriminação. Por essa leitura, estariam excluídos todos os contos de fadas, por serem violentos e moralistas. Todas as fábulas: moralistas e dogmáticas. As cartas de viajantes e sermões de jesuítas: dogmáticos, política e religiosamente interessados. Estariam excluídas todas as obras realistas, porque, para denunciarem problemas sociais (dentre os quais diferentes formas de discriminação), elas antes os apresentam. Estariam excluídas todas as obras românticas, por apresentarem “estereótipos saturados” (outro termo do mesmo edital). Gregório de Matos, José de Alencar, Visconde de Taunay, Machado de Assis, Aluísio Azevedo, Euclides da Cunha, Lima Barreto, Mário de Andrade, Erico Verissimo, Antônio Callado, Rubem Fonseca, a lista é extensa. Não sei se ficaria um autor em pé. Infelizmente, parece-me que a compreensão estrita do edital permite essa interpretação.

Sugiro, por isso, que esse trecho seja reescrito, não para dirigir o trabalho dos especialistas, não para mudar as diretrizes do MEC, mas a fim de evitar ações que, fundadas numa compreensão equivocada dos efeitos da literatura sobre os leitores, ajam como censoras do que pode ou não pode ser integrado ao acervo das bibliotecas escolares, pretendendo inclusive substituir-se à avaliação de uma equipe da mais alta qualidade. Não creio, porém, que com a revisão do edital o MEC acabará com a celeuma, dentre outros motivos porque celeuma dá visibilidade, populariza os nomes das pessoas. Mas creio que tiraria das mãos dos reclamantes um texto legal que eles começaram a usar como argumento para sua ação. Talvez eu esteja dando valor demais para um ato de menor importância. Tomara que seja isso.

Tenho esperança de que nós, professores, teremos liberdade e acervo suficiente para continuarmos a discutir nas escolas e na sociedade obras literárias de qualidade, por meio das quais compreenderemos melhor nossa identidade, nossas contradições, nossos problemas históricos. Compreender problemas é condição para superá-los.

Atenciosamente,

Milena Ribeiro Martins
Curitiba, 27 de setembro de 2012

Leia o conto Negrinha

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