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segunda-feira, 20 de junho de 2016

Prece Navajo: Que envolto em Beleza caminhes

Em mais um momento iluminado, aqui no Falas ao Acaso, extasie-se com Que envolto em Beleza caminhes, uma Prece Navajo traduzida pelo escritor Marcílio Farias, que já nos presenteou com suas antológicas traduções de Thomas Merton e Ashraf Fayadh. A Prece Navajo, inédita em português, que Marcílio recebeu de seu Amigo Navajo John-Com-O-Sol-No-Peito..., que o ajudou na tradução e lhe disse que é a sua cara..., é recitada antes do sol nascer, nos Dias de Visão, pelos mais jovens Navajos de Tucson, Arizona, EUA.

Que envolto em Beleza caminhes, cuja autoria foi incorporada pela Natureza das Estações, foi escrita há mais de trezentos anos e prazerosamente recitada por Marcílio Faria em sua recente viagem aos Navajos!



Prece Navajo
Que envolto em Beleza caminhes
tradução de Marcílio Farias

Que envolto em Beleza caminhes
O dia inteiro dessa vida
Sem intervalo entre estações o
Ano inteiro

Que a Beleza sempre te
Possua corpo e alma
Mais os pássaros que tu vês
E as borboletas que te cercam ou

O caminho de flores e pólen onde andas
Com gafanhotos de ouro aos teus pés
Ou o orvalho nos teus braços
Ou a Beleza pela frente, por trás, por cima e todos os lados

Que a Beleza te cerque na juventude
Na velhice e em qualquer outra
Rota que persigas, que comeces,
Acabes, e recomeces sempre envolto em Beleza.

*
ilustração (foto e montagem) de Joba Tridente.2016


Marcílio Farias é formado e pós-graduado pela UnB (Universidade de Brasília) em Jornalismo, Cinema e Filosofia. Em 1989 emigrou para os Estados Unidos. Vive e trabalha entre Natal (Brasil) e Phoenix-Miami-Boston (EUA). Obras publicadas/poesia: Visual Field (1996), Watermark Press, MD, EUA; O Livro Cor de Triângulo Cor-de-Rosa (2007), e Rito para Ressuscitar um Elefante (2010), ambos pela Scortecci Editora, São Paulo, Brasil. Link: Currículo completo. Poemas publicados no Falas ao Acaso: Moebius; Mandala; Passado incômodo; (John); Diálogo visto de longe na Praça de Sé.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Helena Kolody - 100 Anos - 3



Muito religiosa, de não perder a missa e nem a comunhão do domingo: Deus é uma luz que está a iluminar a Humanidade inteira..., é quando se apega à fé que Helena Kolody se apequena humilde diante do Divino. Seus versos confessos tornam-se tristes e de uma candura arrebatadora. Como em Prece (1941) que, conforme declarou (em Sinfonia da Vida, 1997): Esse poema recebeu um “imprimatur” da Igreja e é lido como se fosse uma oração. Salvou uma linda jovem, porém depressiva, do suicídio. Antes do gesto trágico, resolveu ler o livro que eu lhe dera de presente. Abriu-o aleatoriamente, leu “Prece”, jogou o veneno fora e ganhou a vida. Veja só, eu tenho vários poemas depressivos, e se ela abrisse num deles? Depois disso, mudei minha própria maneira de ser. Meus últimos poemas se tornaram mais extrovertidos, abertos, mais otimistas. Devo isso àquela moça.

Prece (1941)

Concede-me, Senhor, a graça de ser boa,
De ser o coração singelo que perdoa,
A solícita mão que espalha, sem medidas,
Estrelas pela noite escura de outras vidas
E tira d’alma alheia o espinho que magoa.


Cheguei a Curitiba em 1990. Um dia, na redação do Nicolau, conheci Jamil Snege (1939 - 2003). Outro dia conheci um dos seus livros mais inquietantes: Senhor, editado em 1989. Ele é composto de 22 breves monólogos. A sua catarse sacra. Ao lembrar a Prece de Kolody, lembrei do texto 20 de Snege:

Toma a máquina do meu
corpo e nela
transporta socorro para
os teus aflitos.
É de pouca serventia,
sei – o coração me
arde, meus músculos
estão fracos – mas podes
usá-la à exaustão.
E quando não mais prestar,
Senhor, escolhe uma
Tíbia e faze uma flauta.

Foto de Joba Tridente: Cúpula da Igreja Ucraniana em Antonio Olinto-PR

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