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quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Max Ritvo: Dois Poemas


MAX RITVO: Dois Poemas 


Em maio de 2019 publiquei aqui, no Falas ao Acaso, três poemas originais do escritor Max Ritvo (1990-2016), em tradução do jornalista e escritor Marcílio Farias, para o português, e do escritor e tradutor colombiano Armando Ibarra, para o espanhol. Outros afazeres têm me impedido de postar com maior frequência. Hoje, “mais tranquilo”, ao abrir um arquivo de autores, dei de cara com o nome do jovem escritor norte-americano Max Ritvo, numa pasta com sobras da última postagem, e selecionei dois poemas: Poem to My Litter (Poema para Minha Ninhada / Poema para mis crías) e Dawn of Man (Aurora do Homem). O texto de apresentação de Ritvo e o que comenta os poemas são de Marcílio..., eles acompanhavam as suas traduções (sem compromisso) compartilhadas com alguns amigos no Facebook. A tradução de Ibarra encontrei portal Clave - Revista de Poesia, dirigido por ele, que disponibiliza mais traduções de Max Ritvo. 

Max Joseph Ritvo nasceu em 1990, em Los Angeles. Só publicou um livro, AEONS, que ele mesmo imprimiu, encadernou e distribuiu, e pelo qual recebeu (2014) o prêmio de melhor livro do ano da Poetry Society of America. Max faleceu hoje, 23 de agosto de 2016, aos 25 anos de idade, após batalhar a morte desde os 16, quando médicos descobriram corpos estranhos crescendo no seu corpo (com o nome de Sarcoma de Ewig). Apesar da quimioterapia pesada, estudou em Yale e Columbia. Foi editor assistente da revista literária Parnassus. “V” é sua esposa desde agosto de 2015..., a psicóloga inglesa Victoria Jackson-Hanen, que ele conheceu no hospital. Max escreveu até ontem à tarde, quando, exausto, disse à mãe e à mulher: “Chega. Cansei de escrever.” Hoje pela manhã estava morto. Cedo demais. New Orleans, Agosto de 2016. 

Poem to My Litter (Poema para Minha Ninhada / Poema para mis crías) é um dos últimos Poemas escritos por Max (Max Joseph Ritvo), uma das vozes poéticas mais poderosas dos últimos dez anos na Poesia Norte-Americana (tive a honra de conhece-lo há dez anos e ele e sua Arte me conquistaram de um pancadão só.) O Poema (publicado no New Yorker) está incluído na segunda coletânea (Four Incantations) a ser lançada postumamente neste mês de Outubro. Max morreu o mês passado em Nova Iorque aos 25 anos de idade. Seu primeiro livro, AEONS, recebeu o Prêmio de Melhor Livro do Ano (2004) da Poetry Society of America. Recentemente traduzi dois poemas seus: Paraíso é a gente junto sendo uma flor e Aurora do Homem (um dos seus Poemas de que mais gosto). New Orleans, Setembro de 2016. Marcilio Farias. 




    POEM TO MY LITTER
    Max Ritvo 

My genes are in mice, and not in the banal way
that Man’s old genes are in the Beasts. 

My doctors split my tumors up and scattered them
into the bones of twelve mice. We give 

the mice poisons I might, in the future, want
for myself. We watch each mouse like a crystal ball. 

I wish it was perfect, but sometimes the death we see
doesn’t happen when we try it again in my body. 

My tumors are old, older than mice can be.
They first grew in my flank, a decade ago. 

Then they went to my lungs, and down my femurs,
and into the hives in my throat that hatch white cells. 

The mice only have a tumor each, in the leg.
Their tumors have never grown up. Uprooted 

and moved. Learned to sleep in any bed
the vast body turns down. Before the tumors can spread, 

they bust open the legs of the mice. Who bleed to death.
Next time the doctors plan to cut off the legs 

in the nick of time so the tumors will spread.
But I still have both my legs. To complicate things further, 

mouse bodies fight off my tumors. We have to give
the mice aids so they’ll harbor my genes. 

I want my mice to be just like me. I don’t have any children.
I named them all Max. First they were Max 1, Max 2, 

but now they’re all just Max. No playing favorites.
They don’t know they’re named, of course. 

They’re like children you’ve traumatized
and tortured so they won’t let you visit. 

I hope, Maxes, some good in you is of me.
Even my suffering is good, in part. Sure, I swell 

with rage, fear—the stuff that makes you see your tail
as a bar on the cage. But then the feelings pass. 

And since I do absolutely nothing (my pride, like my fur,
all gone) nothing happens to me. And if a whole lot 

of nothing happens to you, Maxes, that’s peace.
Which is what we want. Trust me. 



    POEMA PARA A MINHA NINHADA
    Max Ritvo 
    tradução Marcílio Farias 

Meus genes estão agora em ratos, mas não da forma corriqueira 
como os genes humanos existem nos animais selvagens. 

Meus médicos cortaram meus tumores e os
Espalharam pelos ossos de doze ratinhos. E os alimentam 

Com venenos que, talvez no futuro, eu possa
Utilizar também. Então observamos (eu e eles, os médicos) 

Cada rato como se fosse
Uma bola de cristal 

Que gostaria fosse perfeita. Mas as vezes a morte que
Vemos neles não se repete quando visita o meu corpo. 

Meu destino é antigo. Mais antigo que o dos ratos.
Destino que começou a crescer nas minhas costas há 10 anos. 

E depois passou para os meus pulmões, para minhas pernas, 
para as colmeias da minha garganta que fabricam células brancas. 

Os ratos carregam um pedaço desse destino em cada perna. 
Mas seus destinos nunca crescem como os meus que, sem raízes 

Percorrem livres o meu corpo que já se acostumou a dormir 
em qualquer cama que me deixe dormir de bruços. 

Antes que os tumores dos ratos possam se espalhar
Os médicos cortam-lhes as pernas e eles sangram até morrer. 

E o plano é cortar as pernas no último minuto
Para ver como os tumores nos ratos se movem. 

Mas eu continuo com as minhas duas pernas intactas. 
E ainda há uma complicação extra: os ratos recusam tumores 
que meu corpo não consegue. 

E o plano é dar aos ratos AIDS para ver se eles
Acolhem os meus genes e me entendem. 

Eu que quero que meus ratos sejam exatamente como eu.
No início, batizei-os de Max 1 e Max 2, 

Mas agora são apenas Max, sem favoritismo. Eles são 
como essas crianças que os pais traumatizam e torturam e nunca são vistas. 

Eu espero que um pouco do Bem que existe neles venha de mim, 
porque estou aprendendo que meu sofrimento é Bom, 
pelo menos em parte. 

Claro que explodo e me dissolvo em ódio, raiva, medo, e tudo o mais
 que faz com que alguém se sinta inútil e acuado como fera na jaula. 

Mas esse sentimento passa, e como não há mais nada a fazer (não
 tenho mais Orgulho, nem pelo e nem pele) nada acontece comigo. 

E digo para meus ratos, “se nada acontece com vocês também, 
isso é uma forma de Paz, não é? E Paz é tudo que queremos. 
É tudo que eu quero.” 



    POEMA PARA MIS CRÍAS 
    Max Ritvo 
    traducción: Armando Ibarra Racines 

Insertaron mis genes en ratones, y no del modo inútil
como los genes antiguos del hombre reposan en las Bestias. 

Los doctores fraccionaron mis tumores y los insertaron
en los huesos de doce ratones. Les administramos 

a los ratones una pócima venenosa, que yo podría necesitar en el futuro.
Vigilamos a cada ratón como si fuera una bola de cristal. 

Deseaba que fuera perfecto, pero a veces la muerte del experimento
no funcionaba cuando la volvíamos a ensayar en mi cuerpo. 

Mis tumores llegaron a una edad avanzada, más avanzada que la de cualquier ratón. 
Tuve el primer tumor en el costado, hace una década. 

Luego se propagó a los pulmones, y bajó a los fémures,
y entró a las colmenas de la garganta donde se incuban los glóbulos blancos. 

Cada ratón solo tiene un tumor, en la pata.
Sus tumores nunca han madurado. Los arrancan de raíz 

y los transplantan. Aprendieron a dormir en cualquier lecho
que el cuerpo enorme rechaza. Antes que los tumores se puedan propagar, 

abren y revientan las patas de los ratones. Que se desangran hasta morir.
La próxima vez los médicos planean amputarles las patas 

en el momento oportuno para que los tumores se propaguen.
Pero todavía tengo ambas piernas. Para enredar más las cosas, 

los cuerpos de los ratones rechazan mis tumores. Tenemos que contagiar
a los ratones con sida para que sirvan de albergue a mis genes. 

Quiero que mis ratones se parezcan a mí. No tengo hijos.
A todos los bauticé como Max. Al principio eran Max 1, Max 2, 

pero ahora todos son simplemente Max. No tengo favoritos.
Ellos no saben que tienen nombre, por supuesto. 

Son como unos hijos que has traumatizado y torturado,
así que no dejan que los visites. 

Espero, Maxes, que haya depositado en ustedes algo bueno.
Hasta mi sufrimiento es bueno, parcialmente. Cierto, me lleno 

de odio, miedo: cosas que hacen que los Maxes confundan sus colas
con barrotes de jaula. Pero después la sensación pasa. 

Y como no hago absolutamente nada (mudé el orgullo,
como un pelaje) nada me sucede. Y si lo que les sucede 

es mucha nada, Maxes, es porque la nada calma.
Es lo que queremos. Confíen en mí. 





    DAWN OF MAN 
    Max Ritvo 

After the cocoon I was in a human body 
instead of a butterfly’s. All along my back 

there was great pain — I groped to my feet 
where I felt wings behind me, trying 

to tilt me back. They succeeded in doing so 
after a day of exertion. I called that time, 

overwhelmed with the ghosts of my wings, sleep. 
My thoughts remained those of a caterpillar —  

I took pleasure in climbing trees. I snuck food 
into all my pains. My mouth produced language 

which I attempted to spin over myself 
and rip through happier and healthier. 

I’d do this every few minutes. I’d think to myself 
What made me such a failure? 

It’s all a little touchingly pathetic. To live like this, 
a grown creature telling ghost stories, 

staring at pictures, paralyzed for hours. 
And even over dinner or in bed —  

still hearing the stories, seeing the pictures —  
an undertow sucking me back into myself. 

I’m told to set myself goals. But my mind 
doesn’t work that way. I, instead, have wishes 

for myself. Wishes aren’t afraid 
to take on their own color and life —  

like a boy who takes a razor from a high cabinet 
puffs out his cheeks and strips them bloody. 



    AURORA DO HOMEM
    Max Ritvo 
    tradução: Marcílio Farias 

Depois de sair do casulo eu me vi num corpo humano
Em vez de numa borboleta. E nas minhas costas 

Uma dor enorme – que me fazia agarrar os pés
Enquanto asas tentavam me derrubar, o que 

Conseguiram depois de um dia inteiro 
De esforço que, ao final de tudo e 

Assoberbado pelos fantasmas dessas asas,
Apelidei de “sono”. Meus pensamentos, porém, 

Permaneceram como os da lagarta que
Sente prazer em subir nas árvores mais altas 

E como ela senti prazer em sugar a seiva
Sobre a minha dor enquanto minha boca produzia linguagem 

Que eu tentava enrolar em meu corpo e
Rebentar a barreira do ser mais feliz e saudável. 

E eu fazia essa rotina regularmente. E pensava comigo mesmo
“o que provocou em mim essa falência? 

“Coisa tocantemente patética essa. Viver assim de
Adulto contanto histórias de fantasmas e 

"Olhando fotografias antigas por horas a fio
Mesmo durante o jantar ou na cama – 

"Ouvindo histórias contadas pelas fotografias — enquanto um rolo 
Compressor me empurrava para dentro de mim mesmo." 

Especialistas me dizem para ter em mente um objetivo, mas essa 
mente que tenho não funciona assim e tem desejos que 

Não tem medo de assumir formas ou cores
Ou vidas próprias — 

Como um garoto que apanha a navalha da gaveta mais alta
E arranca do seu rosto fatias sangrentas.

ilustrações:joba.tridente.2020 



Max Ritvo (19.12.1990 – 23.08.2016) foi um escritor norte-americano cujo primeiro e único livro, AEONS, mereceu o prêmio Poetry Society of America (2014). Admirado pela crítica especializada, como um dos grandes nomes de poesia contemporânea, Max Ritvo, professor universitário de língua inglesa, teve poemas publicado na Parnassus: Poetry in Review; Poetry: A Magazine of Verse; The New Yorker; Boston Review; Poem-a-day - Academy of American Poets. Logo após a sua morte foram lançados: Four Reincarnations (Edições Milkweed, 2016); The Final Voicemails: Poems (seleção de Louise Glück para Edições Milkweed, 2018); Letters from Max (coautoria de Sarah Ruhl - Edições Milkweed, 2018).
Saiba mais: Site Oficial: Max Ritvo; Wikipédia: Max Ritvo; Poetry Foundations: Max Ritvo; The New Yorker: Max Ritvo’s Enduring Lyricism; The Rumpus: A Legacy of Wisdom: The Final Voicemails by Max Ritvo; Clave Poesia: Max Ritvo; Poet’s Sampler: Max Ritvo; Boston Review: Max Ritvo.

Marcílio Farias é formado e pós-graduado pela Universidade de Brasília em Jornalismo, Cinema e Filosofia. Nos anos 70/80 trabalhou para a UNICEF/Brasil, USIS - Brasil e WHO, como consultor e assessor de assuntos públicos e culturais. Atuou como secretário particular do escultor Rubem Valentim, professor visitante da Universidade de Brasília e da Fundação Nacional de Teatro, editor assistente do Jornal de Brasília, colaborador do Jornal do Brasil, Correio Braziliense, Última Hora, Jornal do Unicef e The Brazilians (NY). Em 1974, integrou a equipe vencedora do Prêmio Esso para Melhor Contribuição à Edição Jornalística - Jornal de Brasília. No final da década de 80, escreveu e dirigiu o curta-metragem "Digitais" hors-concours em Lausanne e no Festival de Salvador, vetado pelo Concine logo em seguida. Em 1989 emigrou legalmente para os Estados Unidos. Foi assessor cultural e adido cultural ad hoc do Consulado Geral do Brasil, em Boston, de 1993 a 2003; Professor Visitante da Universidade de Massachusetts - Boston; Conferencista convidado do David Rockefeller Center for Latin American Studies (Harvard University) e Sloan School of Management (MIT); Professor de Comunicação Impressa e de História da Cultura na Universidade de Phoenix, AZ, EUA; Membro Honorário da American Academy of Poets (Owing Mills, MD), da International Society of Poets (Washington, DC) e da Society of Friends of The Longfellow House (Cambridge, MA). Vive e trabalha entre Natal (Brasil) e Phoenix-Miami-Boston (EUA). 
Traduções publicadas no Falas ao Acaso: Ashraf Fayadh; Youssef Rakha; Thomas Merton I e II, III e IV; Hermann Hesse; Jean Arthur Rimbaud; Navajo John-Com-O-Sol-No-Peito; Seamus Heaney; George Seferis; Guillaume Apollinaire; Paul Celan; Frederic Manning. Poemas seus publicados no Falas ao Acaso: Moebius; Mandala; Passado incômodo; (John); Diálogo visto de longe na Praça de Sé; George Seferis; Thucydides. Marcílio Farias é autor de: Visual Field (1996), Watermark Press, MD, EUA; O Livro Cor de Triângulo Cor-de-Rosa (2007), e Rito para Ressuscitar um Elefante (2010), ambos pela Scortecci Editora, São Paulo, Brasil.

Armando Ibarra Racines (Cali, Colômbia: 1956), escritor, tradutor e economista, começou a escrever poemas na juventude. O reconhecimento veio com as breves considerações do notável escritor Helcías Martán Góngora (1920-1984) em El País de Cali e a publicação de alguns poemas na revista Acuarimántima de Medellín. Ibarra vem se dedicando exclusivamente à poesia e traduções desde o ano 2000. Em 2007, ganhou o IV Prêmio Nacional de Poesia José Manuel Arango del Carmen de Viboral, com o livro Crónica de los deshielos. Armando Ibarra, que também é graduado em Tradução Literária e Ciências Humanas, pela Universidade de Antioquia, colabora com a revista literária Cali, dirige e faz traduções para a revista digital Clave, é autor de Extravio en lo Cotintiano. Can y Antorcha (Bogotá, 1989); Crônica dos degelos (Universidad del Valle, 2007); University Station (New Man, 2009); Insônia nas fontes (Versería, 2010); Poemas del Metro de Medellín (Com Jaques Jouet e Rub Comfama, 2011). 

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Prece Navajo: Que envolto em Beleza caminhes

Em mais um momento iluminado, aqui no Falas ao Acaso, extasie-se com Que envolto em Beleza caminhes, uma Prece Navajo traduzida pelo escritor Marcílio Farias, que já nos presenteou com suas antológicas traduções de Thomas Merton e Ashraf Fayadh. A Prece Navajo, inédita em português, que Marcílio recebeu de seu Amigo Navajo John-Com-O-Sol-No-Peito..., que o ajudou na tradução e lhe disse que é a sua cara..., é recitada antes do sol nascer, nos Dias de Visão, pelos mais jovens Navajos de Tucson, Arizona, EUA.

Que envolto em Beleza caminhes, cuja autoria foi incorporada pela Natureza das Estações, foi escrita há mais de trezentos anos e prazerosamente recitada por Marcílio Faria em sua recente viagem aos Navajos!



Prece Navajo
Que envolto em Beleza caminhes
tradução de Marcílio Farias

Que envolto em Beleza caminhes
O dia inteiro dessa vida
Sem intervalo entre estações o
Ano inteiro

Que a Beleza sempre te
Possua corpo e alma
Mais os pássaros que tu vês
E as borboletas que te cercam ou

O caminho de flores e pólen onde andas
Com gafanhotos de ouro aos teus pés
Ou o orvalho nos teus braços
Ou a Beleza pela frente, por trás, por cima e todos os lados

Que a Beleza te cerque na juventude
Na velhice e em qualquer outra
Rota que persigas, que comeces,
Acabes, e recomeces sempre envolto em Beleza.

*
ilustração (foto e montagem) de Joba Tridente.2016


Marcílio Farias é formado e pós-graduado pela UnB (Universidade de Brasília) em Jornalismo, Cinema e Filosofia. Em 1989 emigrou para os Estados Unidos. Vive e trabalha entre Natal (Brasil) e Phoenix-Miami-Boston (EUA). Obras publicadas/poesia: Visual Field (1996), Watermark Press, MD, EUA; O Livro Cor de Triângulo Cor-de-Rosa (2007), e Rito para Ressuscitar um Elefante (2010), ambos pela Scortecci Editora, São Paulo, Brasil. Link: Currículo completo. Poemas publicados no Falas ao Acaso: Moebius; Mandala; Passado incômodo; (John); Diálogo visto de longe na Praça de Sé.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Thomas Merton: Deus é Bom

Quando publiquei o fascinante poema Paisagem com Criança (Landscape), de Thomas Merton (1915-1968), em belíssima tradução (livre) do escritor Marcílio Farias, esperava publicar, em breve, uma boa seleção de poemas do monge trapista. Continuei recebendo as excelentes traduções (livres) de Farias, mas ando meio sem tempo para ilustrar a todas. Por isso, fique com esta primeira leva de cinco maravilhas para cinco dias de reflexões sobre o ser humano.

Comecei com Primeira Lição Sobre o Homem (First lesson about Man) e segui com o tenso Três Epigramas (Three epigrams), continuei com o melancólico Desalentados e Criminosos (Sensation Time at the home) e após A Queda (The Fall), concluo: O Deus é Bom (The Lord is Good).


                           

O DEUS É BOM
(Variação em torno do Salmo 71)
um poema de Thomas Merton
em tradução de Marcílio Farias*
para Maria Coeli Almeida Vasconcelos

Ah o deus é bom
É bom para o homem equilibrado
É bom para
O homem pacífico.
O pior é que eu tropecei, tropecei na minha mente e
Caí sobre o equilibrado e o pacífico
Sem conseguir entendê-los
Tão ricos e abastados que são
Com seus caríssimos charutos na mão
Dirigindo seus caros carros lustrosos
Sem uma preocupação qualquer
E sem conhecer a punhalada da Dor.
Eu não entendo esses homens de Guerra
Fortes e orgulhosos
Ricos e abastados
E quanto mais têm mais odeiam
E quanto mais odeiam mais ódio escorre
De suas peles
Como se fosse suor.
Eles nunca choram.
Eu tropecei, tropecei na minha mente e caí sobre
Esses homens de Guerra
Cheios de Poder
Cheios de Riquezas e Gordura
Que quanto mais tem mais odeiam e guerreiam
E desprezam e cospem na
Cara do meu Povo
Enquanto refocilam na própria gordura
Enquanto ameaçam o meu Povo
Sempre com medo
Desses homens de Guerra
Cujo ódio respinga de suas peles
Como gotas de suor e sangue.
E então meu coração gritou
Ao ver o sucesso da arrogância:
"O deus nos esqueceu e
não olha mais para nós nesse lugar odioso?"
Ah esse deus que me fascina
E faz tropeçar e cair
Sobre o homem Pacifico, sobre o homem Seguro e
Sobre o homem de Guerra.
E eu nem notei que enquanto reclamava,
O deus desconhecido me
Mostrava que tal qual fantasma
Lentamente a névoa da história
Os devorava e dissolvia.

*
foto de Joba Tridente.2016


*Nota do tradutor: Tradução livre de Psalm 71 (The Lord is Good), um dos últimos poemas de Merton - escrito em 1966, mas nunca publicado, a não ser depois de sua morte. (O Monge Feliz teria sido queimado vivo se o fizesse, com certeza).

Thomas Merton  (1915-1968), escritor e monge trapista da Abadia de Getsêmani, Kentuchy, foi ativista social, pacifista e estudioso de religiões comparadas. Escreveu mais de setenta livros de prosa e verso, a maioria sobre espiritualidade. Em 1944 publicou Thirty Poems. O segundo livro, A Man in the Divided Sea, foi lançado em 1946. Entre suas obras de grande repercussão se destacam The Seven Storey Mountain (1948); No Man Is An Island (1955); The Way of Chuang Tzu (1965). Fontes: Wikipédia e Thomas Merton Center.

Marcílio Farias é formado e pós-graduado pela UnB (Universidade de Brasília) em Jornalismo, Cinema e Filosofia. Em 1989 emigrou para os Estados Unidos. Vive e trabalha entre Natal (Brasil) e Phoenix-Miami-Boston (EUA). Obras publicadas/poesia: Visual Field (1996), Watermark Press, MD, EUA; O Livro Cor de Triângulo Cor-de-Rosa (2007), e Rito para Ressuscitar um Elefante (2010), ambos pela Scortecci Editora, São Paulo, Brasil. Link: Currículo completo. Poemas publicados no Falas ao Acaso: Moebius; Mandala; Passado incômodo; (John); Diálogo visto de longe na Praça de Sé.

domingo, 1 de maio de 2016

Thomas Merton: A Queda

Quando publiquei o fascinante poema Paisagem com Criança (Landscape), de Thomas Merton (1915-1968), em belíssima tradução (livre) do escritor Marcílio Farias, esperava publicar, em breve, uma boa seleção de poemas do monge trapista. Continuei recebendo as excelentes traduções (livres) de Farias, mas ando meio sem tempo para ilustrar a todas. Por isso, fique com esta primeira leva de cinco maravilhas para cinco dias de reflexões sobre o ser humano.

Comecei com Primeira Lição Sobre o Homem (First lesson about Man) e segui com o tenso Três Epigramas (Three epigrams), continuei com o melancólico Desalentados e Criminosos (Sensation Time at the home), porque ao dia cabe A Queda (The Fall).











A QUEDA
um poema de Thomas Merton
em tradução de Marcílio Farias*

Não há qualquer “onde” ou Paradizzo intangível em você, Homem.
E lá
Não se entra a não ser com uma história.
Entrar em tal local é se tornar anônimo.
Quem quer que lá esteja vira sem-terra, pois não há portas ou
Identidades com as quais se possa entrar e sair impunemente.
E quem quer que esteja em lugar algum torna-se “ninguém” e em
Consequência só pode existir sem ter nascido,
Sem disfarce que lhe dê recompensas tangíveis.
Você então nem se acha nem se perde
Porque quem tem endereço está para sempre perdido.
Todos caem, caem nas calçadas, caem em apartamentos segurados pelo
                                                                                                              [Governo e
Fartamente mobiliados, bem estabelecidos
Caem nas ruas, autorizados oficialmente a
Ir de um lugar para outro
E documentados com nome próprio e tudo mais
Sabem até os nomes de amigos oficiais com
Telefones bonitos que de vez em quando tocam.
E se todos os telefones tocarem ao mesmo tempo, se todos os nomes forem
                                                                                                                [clamados de
Uma vez só e todos os carros colidirem na mesma encruzilhada em uníssono
E se todas as cidades explodirem por todas as direções em pó e cinza
Inda assim registros oficiais manterão ativos nomes e
Números para cada um.
E todos os cadáveres receberão um lugar de “descanso” e urnas em
Buracos bem construídos para abrigar as cinzas
Tudo comprado com o dinheiro do Seguro de Vida.
Quem se atreve a perambular por esse universo tão seguro?
Para falar a Verdade, só os anônimos se sentem em casa nele por ele e com ele.
E sempre anônimos carregam em si o centro desse nada
Onde a flor do vazio não brota.
Essa, então, é a arvore do paraíso. Que deve permanecer oculta até que
As palavras cessem de existir e os argumentos silenciem.

*
foto de Joba Tridente.2016


*Nota do Tradutor: Tradução livre de The Fall, publicado em Emblems of a season of fury, livro de Merton editado pela New Directions em 1963. É um dos poemas do Monge Feliz que mais gosto.

Thomas Merton  (1915-1968), escritor e monge trapista da Abadia de Getsêmani, Kentuchy, foi ativista social, pacifista e estudioso de religiões comparadas. Escreveu mais de setenta livros de prosa e verso, a maioria sobre espiritualidade. Em 1944 publicou Thirty Poems. O segundo livro, A Man in the Divided Sea, foi lançado em 1946. Entre suas obras de grande repercussão se destacam The Seven Storey Mountain (1948); No Man Is An Island (1955); The Way of Chuang Tzu (1965). Fontes: Wikipédia e Thomas Merton Center.

Marcílio Farias é formado e pós-graduado pela UnB (Universidade de Brasília) em Jornalismo, Cinema e Filosofia. Em 1989 emigrou para os Estados Unidos. Vive e trabalha entre Natal (Brasil) e Phoenix-Miami-Boston (EUA). Obras publicadas/poesia: Visual Field (1996), Watermark Press, MD, EUA; O Livro Cor de Triângulo Cor-de-Rosa (2007), e Rito para Ressuscitar um Elefante (2010), ambos pela Scortecci Editora, São Paulo, Brasil. Link: Currículo completo. Poemas publicados no Falas ao Acaso: Moebius; Mandala; Passado incômodo; (John); Diálogo visto de longe na Praça de Sé.

sábado, 30 de abril de 2016

Thomas Merton: Desalentados e Criminosos

Quando publiquei o fascinante poema Paisagem com Criança (Landscape), de Thomas Merton (1915-1968), em belíssima tradução (livre) do escritor Marcílio Farias, esperava publicar, em breve, uma boa seleção de poemas do monge trapista. Continuei recebendo as excelentes traduções (livres) de Farias, mas ando meio sem tempo para ilustrar a todas. Por isso, fique com esta primeira leva de cinco maravilhas para cinco dias de reflexões sobre o ser humano.

Comecei com Primeira Lição Sobre o Homem (First lesson about Man) e segui com o tenso Três Epigramas (Three epigrams) e continuo com  o melancólico Desalentados e Criminosos (Sensation Time at the home).


                 

DESALENTADOS E CRIMINOSOS
um poema de Thomas Merton
em tradução de Marcílio Farias*

O Sol se põe acabrunhado
E os criminosos inventam jogos de
Guerra contra locatários inocentes
Tão encardidos a ponto de
Não reconhecerem a própria face num espelho.

Os locatários se queixam dos mísseis prontos para
Alcançar os céus de meio mundo
Ou reclamam da fúria de tempestades
Enquanto perdem a cabeça
No metrô de suas mínimas confusões letais.

Mas apesar de tudo sorriem amigáveis para todos os homens
Independente de raça, cor, ou etc etc
São amigáveis apesar de todos os et ceteras (a pesar).

Por outro lado, criminosos pouco amigáveis
Trabalham em salas de aula
Aprendem a estiolar razão e entendimento,
E vomitam poemas feitos de ciclones

Na mesma nota primam por uma incoerente elegância
Ou um desdém soberano sem
Desculpas
Zombando das lições mais fáceis de entender
Até que a noite se enche de
Carros de corrida estraçalhando janelas
E fazendo alarmes soarem alto.

Assim, a noite alucinada revive
Com o som de garrafas quebradas
E slogans para todos que
Estão se divertindo e soltando a franga
Até que os inocentes sejam encontrados
Na calçada sem roupa
Esparramados na primeira pagina
Dos jornais de Domingo.

*
foto de Joba Tridente.2016


*Nota do Tradutor: Apud Sensation Time at the home (1968), livro que Merton não chegou a revisar – morreu antes da publicação póstuma pela New Directions, em 1977.

Thomas Merton  (1915-1968), escritor e monge trapista da Abadia de Getsêmani, Kentuchy, foi ativista social, pacifista e estudioso de religiões comparadas. Escreveu mais de setenta livros de prosa e verso, a maioria sobre espiritualidade. Em 1944 publicou Thirty Poems. O segundo livro, A Man in the Divided Sea, foi lançado em 1946. Entre suas obras de grande repercussão se destacam The Seven Storey Mountain (1948); No Man Is An Island (1955); The Way of Chuang Tzu (1965). Fontes: Wikipédia e Thomas Merton Center.

Marcílio Farias é formado e pós-graduado pela UnB (Universidade de Brasília) em Jornalismo, Cinema e Filosofia. Em 1989 emigrou para os Estados Unidos. Vive e trabalha entre Natal (Brasil) e Phoenix-Miami-Boston (EUA). Obras publicadas/poesia: Visual Field (1996), Watermark Press, MD, EUA; O Livro Cor de Triângulo Cor-de-Rosa (2007), e Rito para Ressuscitar um Elefante (2010), ambos pela Scortecci Editora, São Paulo, Brasil. Link: Currículo completo. Poemas publicados no Falas ao Acaso: Moebius; Mandala; Passado incômodo; (John); Diálogo visto de longe na Praça de Sé.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Thomas Merton: Três Epigramas

Quando publiquei o fascinante poema Paisagem com Criança (Landscape), de Thomas Merton (1915-1968), em belíssima tradução (livre) do escritor Marcílio Farias, esperava publicar, em breve, uma boa seleção de poemas do monge trapista. Continuei recebendo as excelentes traduções (livres) de Farias, mas ando meio sem tempo para ilustrar a todas. Por isso, fique com esta primeira leva de cinco maravilhas para cinco dias de reflexões sobre o ser humano.

Comecei com Primeira Lição Sobre o Homem (First lesson about Man) e sigo com o tenso Três Epigramas, (Three epigrams).  

                            

TRÊS EPIGRAMAS
um poema de Thomas Merton
em tradução de Marcílio Farias*

I
As sirenes soam subitamente alarmando a noite
Longa, longa, longamente numa
Série de gemidos miseráveis trazendo
Fogo numa ambulância branca dedicada à Morte
Indo e vindo pra cima e pra baixo nessa avenida
Cheia de edifícios onde o eco sobe, desce, sobe, desce
Cresce, cresce, sobe, cai ao mesmo tempo
Perto e longe em nascimento e putrefação.
E nem longe nem perto as sirenes do carro do Tirano
Passam na frente dos meus olhos.

II
Tiros rebentaram o silêncio ontem à noite
Passaram por cima do cemitério e ninguém
Sabe quem morreu ou foi assassinado.
Ninguém sabe de nada dos
Tiros de ontem à noite.
E isso é tudo.

III
Acordamos com revólveres duelando
Enquanto a aurora aparece
atrelada aos bombardeios
- parece uma revolução mas é
Apenas o aniversário do Tirano.

*
foto de Joba Tridente.2013


*Nota do Tradutor: Tradução de Three epigrams, Apud South, New Directions, 1963. O poema foi escrito pelo meu Cisterciense favorito em uma de suas viagens pela América Central. Foto anônima mostrando o Poeta e seu meio de transporte favorito.

Thomas Merton  (1915-1968), escritor e monge trapista da Abadia de Getsêmani, Kentuchy, foi ativista social, pacifista e estudioso de religiões comparadas. Escreveu mais de setenta livros de prosa e verso, a maioria sobre espiritualidade. Em 1944 publicou Thirty Poems. O segundo livro, A Man in the Divided Sea, foi lançado em 1946. Entre suas obras de grande repercussão se destacam The Seven Storey Mountain (1948); No Man Is An Island (1955); The Way of Chuang Tzu (1965). Fontes: Wikipédia e Thomas Merton Center.

Marcílio Farias é formado e pós-graduado pela UnB (Universidade de Brasília) em Jornalismo, Cinema e Filosofia. Em 1989 emigrou para os Estados Unidos. Vive e trabalha entre Natal (Brasil) e Phoenix-Miami-Boston (EUA). Obras publicadas/poesia: Visual Field (1996), Watermark Press, MD, EUA; O Livro Cor de Triângulo Cor-de-Rosa (2007), e Rito para Ressuscitar um Elefante (2010), ambos pela Scortecci Editora, São Paulo, Brasil. Link: Currículo completo. Poemas publicados no Falas ao Acaso: Moebius; Mandala; Passado incômodo; (John); Diálogo visto de longe na Praça de Sé.
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