Ao jornalista, escritor e tradutor (sem compromisso) Marcílio Farias devo o conhecimento da
vigorosa poesia do jovem escritor Max
Ritvo, expoente da novíssima geração norte-americana, que nos deixou
recentemente. É do próprio Marcílio as duas emocionantes apresentações que
acompanham a postagem.
Max Joseph
Ritvo nasceu em 1990, em Los Angeles. Só publicou um livro, AEONS, que ele mesmo imprimiu, encadernou e distribuiu, e pelo qual recebeu
(2014) o prêmio de melhor livro do ano da Poetry Society of America. Max
faleceu hoje, 23 de agosto de 2016, aos 25 anos de idade, após batalhar a morte
desde os 16, quando médicos descobriram corpos estranhos crescendo no seu corpo
(com o nome de Sarcoma de Ewig). Apesar da quimioterapia pesada, estudou em
Yale e Columbia. Foi editor assistente da revista literária Parnassus. “V” é
sua esposa desde agosto de 2015..., a psicóloga inglesa Victoria Jackson-Hanen,
que ele conheceu no hospital. Max escreveu até ontem à tarde, quando, exausto,
disse à mãe e à mulher: “Chega. Cansei de escrever.” Hoje pela manhã estava morto. Cedo demais. New Orleans, Agosto de 2016.
O texto acompanha a tradução para o português do
Brasil do poema Heaven is us being a
flower together (Paraiso é a gente
junto sendo uma flor), que ele disponibilizou para alguns amigos no FB. O segundo
texto, que acompanha as traduções de Radiation
in New Jersey, Convalescence in New York (Radiação em New Jersey, Recuperação em New York) e The Senses (Os Sentidos), você lê abaixo.
Sempre que possível, procuro compartilhar traduções
das mesmas obras originais para outras línguas, dando também oportunidade a
quem não domina o português brasileiro usufruir da leitura. Assim, enriquecendo
ainda mais esta postagem, publico as traduções em espanhol do escritor e
tradutor colombiano Armando Ibarra Racines para Heaven is us being a flower together (El cielo es una floración
mutua); Radiation in New Jersey,
Convalescence in New York (Radiación en Nueva Jersey, Convalecencia en
Nueva York) e The Senses (Los
Sentidos)..., que encontrei no ótimo portal Clave -
Revista de Poesia, dirigido por ele, que disponibiliza mais traduções de Max
Ritvo, entre outros escritores estrangeiros.

HEAVEN IS US BEING A FLOWER TOGETHER
Max Ritvo
for V
I think death comes at blindness.
I think pupils are sails,
and death is when the wind goes slack.
Winter, by being so white,
it is trying to talk to me—
closing communicated to one who sees death
as white worms
riddling the apple of the eye.
You think death comes at the cessation of touch.
You are a flower bulb
which can feel even in the winter earth:
coldness as its body
of sensation.
The cold is a line that will not bend,
drawn through you foot to head.
Heat is a planet
fleeing its own cold line,
its primary chill.
I have written this poem inside of you.
I am clutched in with your mother blood,
feeling your bends in the dark,
becoming a soft bend in your body.
I feel a circle grow in your stomach.
We are becoming a bulb
in the ground of the living,
in the winter of being alive.
PARAISO É A GENTE JUNTO SENDO UMA FLOR
Max Ritvo
tradução: Marcílio Farias
para V.
Eu acho que a morte vem como cegueira.
Pupilas como velas,
E a Morte é quando o vento cessa.
Inverno, sendo tão branco,
Tenta falar comigo –
Comunicação intima para alguém que enxerga a morte
Como vermes brancos
Devorando a maçã dos meus olhos.
Você pensa que a
morte vem quando o toque cessa
E você torna-se um botão de flor
Que germina até mesmo no inverno desse solo:
Sentimento do frio
enquanto
Corpo dos sentidos.
O Frio é uma linha
reta que não dobra,
Desenhada dos pés à cabeça.
O calor é o planeta
Que foge desse limite gélido,
Dessa friagem primitiva.
Esse poema eu
escrevi de dentro de seu coração
E do sangue da minha mãe que
Sente as quinas desse quarto no escuro
E torna-se então uma quina suave no meu corpo
E um aperto crescente no teu estomago.
Nós nos tornamos
então um broto de rosa
No solo dos que vivem
Nesse inverno em que ainda estou vivo.
EL CIELO ES UNA
FLORACIÓN MUTUA
Max Ritvo
traducción: Armando Ibarra
Racines
para V
Creo que ceguera y
muerte se confunden.
Creo que las pupilas
son un velamen,
y el viento de la muerte las desinfla.
El invierno, es tan
blanco
que intenta hablarme
en la comunicación íntima de alguien
que piensa que la muerte son gusanos blancos
que carcomen la manzana del ojo.
Crees que la muerte
llega cuando cesa el tacto.
Eres un bulbo florecido
que hasta en la tierra invernal siente:
la frialdad convertida
en cuerpo de sensación terrena.
El frío es una
cuerda que no se doblará
y te alambra de los pies a la cabeza.
El calor es un
planeta
que evade su cuerda fría,
su helado primordial.
Escribí este poema
adentro de ti.
Me aferro a tu sangre maternal,
palpando tus curvas en el oscuridad,
convertido en un suave recodo de tu cuerpo.
Siento que un círculo crece en tu estómago.
Nos volvemos bulbos
florecidos
en tierra de vivos,
en el invierno de la existencia.
*
foto.ilustração:Joba
Tridente.2019
Para as duas traduções seguintes, Marcílio escreveu: Tradução livre de Two Poems by Max Ritvo,
publicados na edição de 23 de Setembro de 2015, da Boston Review, onze meses antes da morte do Poeta, em 23
de Agosto de 2016, aos 25 anos de idade. Estão entre os últimos Poemas escritos
por Max (Max Joseph Ritvo), uma das vozes poéticas mais poderosas dos últimos
dez anos na Poesia Norte-Americana (tive a honra de conhecê-lo há dez anos e
ele e sua Arte me conquistaram de um pancadão só. Impossível esquecer.) Seu
primeiro livro, AEONS, recebeu o Prêmio de Melhor Livro do Ano
(2004) da Poetry Society of America. Já traduzi vários Poemas seus nos últimos
anos. New Orleans, Agosto de 2018. Poemas estes que espero publicar em
algum próximo Falas ao Acaso.
Radiation in New
Jersey, Convalescence in New York
Max Ritvo
I come from the
place where the blender is the moon,
where the green bean
is the body and the sun,
where the zip-lock
bag prevents the lovers
from breathing the
same evening
as they lay on their
love-skin
of murdered animal.
I come from a place
where the water
is so barren that
when you drink it
the fish of the
throat die,
causing malignant
thirst.
What’s a dazzler
like you
doing in a dump like
my bed?
No bedtime story for
you tonight.
The telling of the
tale could kill you, little Jesus.
It’s a new, scary
Jesus I think I found.
And if I share it,
from that land
of harsh vinegars,
blue light,
then his voice will
be stronger than your voice.
I awoke on a table
with blue cylinder pressed to my neck.
From deep inside the
cylinder I heard a sound,
like a trembling man
opening the smallest
can of soup—
a can with only one
green bean in it.
Next to him a woman
is completely silent.
Feeding him the
green bean
becomes her only
thought,
even when he tries
to admire her beauty
or make her laugh.
She folds into the
bean’s mind,
a blinding, salty
emerald,
and nobody will
listen to his news.
The sound wasn’t a
gun.
It was a kiss.
It’s my mother—
I have to go.
Radiação em New Jersey, Recuperação em New York
Max Ritvo
tradução Marcílio Farias
Eu venho de um lugar onde a lua é um liquidificador,
Onde o meu corpo e o sol são um molho de feijão verde,
Onde um zip-lock hiper grande impede que amantes
Respirem compartilhem da mesma noite
Enquanto se deitam sobre a pele de um amor
Assassinado como um animal selvagem.
Eu venho de um lugar onde a água é
Tão árida que, ao bebê-la,
Os peixes na garganta morrem,
Provocando uma sede maligna e perversa.
O que um sonhador como você
Está fazendo numa lixeira como a minha cama?
Nenhuma lenda para dormir hoje à noite,
Pois a narrativa da lenda poderá matá-lo como um pequeno Jesus.
Mesmo esse Jesus assustador que vejo em torno,
E se falo dele para os outros, perdidos nessa terra de
Vinagres pesados, cheias de luzes azuis,
A voz dele tornar-se-á mais forte que minha voz.
E eu acordei numa mesa com um cilindro azul apertando meu pescoço
E lá de dentro do cilindro azul ouvi um ruído como
De um homem trêmulo tentando
Abrir uma lata de sopa minúscula—
Com um único grão de feijão verde no fundo.
Perto desse homem uma mulher no mais completo silêncio.
Alimentar o homem com o grão de feijão verde
Torna-se o seu único e principal pensamento,
Mesmo quando ele tenta admirar sua beleza ou
Fazê-la sorrir.
Ela então envolve o grão verde na
Esmeralda salgada e brilhante de seu desejo,
Para que ninguém escute o boletim médico.
E o som que ouço não era um tiro.
Era um beijo.
Minha mãe que chega—
E eu parto.
Radiación en Nueva
Jersey, convalecencia en Nueva York
Max Ritvo
traducción: Armando Ibarra
Racines
Vengo del lugar en
que la licuadora es la luna,
donde las habichuelas son el cuerpo y el sol,
donde la bolsa hermética impide a los amantes
respirar el mismo anochecer
porque reposan en la piel del amor
de animal asesinado.
Vengo de un lugar en
que el agua
es tan árida que cuando la bebes
los peces de la garganta fallecen,
produciendo una sed tóxica.
¿Qué hace una super
heroína como tú
en un basurero como mi cama?
Esta noche no te
leerán ningún cuento para dormir.
La narración podría matarte, pequeño Jesús.
Creo que encontré un
nuevo Jesús, aterrador.
Y si lo comparto, desde la tierra
de los vinagres ásperos, luz azul,
entonces su voz será más fuerte que la tuya.
Me despierto en una
mesa
con un cilindro azul apretado al pecho.
Bien adentro del cilindro oigo un sonido,
como un hombre trémulo
que abre la más minúscula lata de sopa:
un lata que contiene solo una habichuela.
A su lado, una mujer
en completo silencio.
Alimentarlo con la habichuela
se vuelve su único pensamiento,
incluso cuando él trata
de contemplar su belleza
o hacerla reír.
Ella dobla en la mente de la habichuela,
un esmeralda salada, deslumbrante,
y nadie escuchará sus noticias.
El sonido no era una
pistola.
Era un beso.
Era mi madre:
me tengo que ir.
*
foto.ilustração:Joba Tridente.2019
Max Ritvo
Everything feels so good to me:
my wool hat,
the cocoon of dryness in my throat.
The sound of burning vegetables
is like a quiet, clean man folding sheets.
But I keep having thoughts—
this thought always holding at bay the next thought
until it sours into yet
another picture of dissatisfaction,
that loves to be thought,
another pear, ugly
as the head
of a man who is thinking.
I thought my next thought would be a vision of my suffering;
I thought I would understand the yellow lightning in a painted storm—
the crucial way it disappears
when I imagine myself flung
head-long into the painting.
Instead I have this picture of dissatisfaction,
the thought not rising, but splitting in half
on the unanswered question of lightning,
my mind
like a black glove
that you mistake for a man
in the middle of a blizzard.
OS SENTIDOS
Max Ritvo
tradução: Marcílio Farias
Tudo me parece tão agradável
agora:
Meu chapéu de lã,
O casulo de secura em minha garganta
O som de vegetais
queimando
Como um homem silencioso e limpo dobrando lençóis.
Mas os pensamentos
persistem—
Um depois do outro mantendo o próximo ao largo até que
Ele coagule numa fotografia
Insatisfeita mas que
Adora ser reflexo de um pensamento
De uma pera hedionda
Como a cabeça
De qualquer homem que pensa.
E eu que pensava que
o próximo pensamento seria a visão do meu martírio;
E eu que pensava esperava entender o raio amarelo naquele quadro clássico da
tempestade—
O incrível jeito com que a imagem desaparecia
Quando me via pulando
De cabeça no meio da imagem.
Mas ao contrário, me
resta a visão insatisfeita de
Um pensamento que não desperta mas
Divide-se em dois como uma pergunta irrespondida
Sobre a natureza do relâmpago, e a
Minha mente
Como uma luva negra
Que você de longe confundiu com o Homem
Perdido no meio da tempestade.
LOS SENTIDOS
Max Ritvo
traducción: Armando Ibarra
Racines
Todo me parece tan agradable,
el gorro de lana,
el capullo de sequía en la garganta.
El crepitar de
vegetales que se queman
es como un hombre sobrio
y silencioso que dobla sábanas.
Pero sigo teniendo
pensamientos:
que siempre acorralan al siguiente
hasta que se avinagran en una
imagen alterna de disgusto,
que goza cuando la piensan,
otra pera, horrenda
como la cabeza
de un hombre pensativo.
Creía que el
próximo pensamiento
sería un sueño de mi sufrimiento;
creía que comprendería
el rayo amarillo en la pintura de la tormenta:
el modo primario como desaparece
cuando me imagino tirándome
de cabeza en la pintura.
En cambio, tengo
esta imagen de disgusto,
el pensamiento no se levanta, pero se parte en dos
en la pregunta que el rayo no contesta,
mi mente
como un guante negro
que confundiste con un hombre negro
en medio de una ventisca.
*
foto.ilustração:Joba Tridente.2019
Max Ritvo (19.12.1990 – 23.08.2016) foi
um escritor norte-americano cujo primeiro e único livro, AEONS, mereceu o prêmio Poetry
Society of America (2014). Admirado pela crítica especializada, como um dos
grandes nomes de poesia contemporânea, Max Ritvo, professor universitário de
língua inglesa, teve poemas publicado na Parnassus:
Poetry in Review; Poetry: A Magazine
of Verse; The New Yorker; Boston Review; Poem-a-day - Academy of American Poets. Logo após a sua morte foram
lançados: Four Reincarnations
(Edições Milkweed, 2016); The Final
Voicemails: Poems (seleção de Louise Glück para Edições
Milkweed, 2018); Letters from Max (coautoria
de Sarah Ruhl - Edições Milkweed, 2018).
Marcílio
Farias é formado e pós-graduado pela Universidade de Brasília
em Jornalismo, Cinema e Filosofia. Nos anos 70/80 trabalhou para a
UNICEF/Brasil, USIS - Brasil e WHO, como consultor e assessor de assuntos
públicos e culturais. Atuou como secretário particular do escultor Rubem
Valentim, professor visitante da Universidade de Brasília e da Fundação
Nacional de Teatro, editor assistente do Jornal de Brasília, colaborador do
Jornal do Brasil, Correio Braziliense, Última Hora, Jornal do Unicef e The
Brazilians (NY). Em 1974, integrou a equipe vencedora do Prêmio Esso para Melhor Contribuição à Edição Jornalística - Jornal
de Brasília. No final da década de 80, escreveu e dirigiu o curta-metragem
"Digitais" hors-concours em
Lausanne e no Festival de Salvador, vetado pelo Concine logo em seguida. Em
1989 emigrou legalmente para os Estados Unidos. Foi assessor cultural e adido
cultural ad hoc do Consulado Geral do
Brasil, em Boston, de 1993 a 2003; Professor Visitante da Universidade de
Massachusetts - Boston; Conferencista convidado do David Rockefeller Center for
Latin American Studies (Harvard University) e Sloan School of Management (MIT);
Professor de Comunicação Impressa e de História da Cultura na Universidade de
Phoenix, AZ, EUA; Membro Honorário
da American Academy of Poets (Owing Mills, MD), da International Society of
Poets (Washington, DC) e da Society of Friends of The Longfellow House
(Cambridge, MA). Vive e trabalha entre Natal (Brasil) e
Phoenix-Miami-Boston (EUA).
Armando Ibarra Racines (Cali, Colômbia: 1956), escritor,
tradutor e economista, começou a escrever poemas na juventude. O reconhecimento
veio com as breves considerações do notável escritor Helcías Martán Góngora
(1920-1984) em El País de Cali e a
publicação de alguns poemas na revista Acuarimántima
de Medellín. Ibarra vem se dedicando exclusivamente à poesia e traduções desde
o ano 2000. Em 2007, ganhou o IV Prêmio Nacional
de Poesia José Manuel Arango del Carmen de Viboral, com o livro Crónica de los deshielos. Armando
Ibarra, que também é graduado em Tradução Literária e Ciências Humanas, pela
Universidade de Antioquia, colabora com a revista literária Cali, dirige e faz traduções para a
revista digital Clave, é autor de Extravio en lo Cotintiano. Can y Antorcha (Bogotá, 1989); Crônica dos degelos (Universidad del
Valle, 2007); University Station (New
Man, 2009); Insônia nas fontes (Versería,
2010); Poemas del Metro de Medellín (Com Jaques Jouet e Rub Comfama, 2011).