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terça-feira, 22 de março de 2016

Marilia Kubota: O Fantástico Mundo de Valêncio Xavier

Desde a primeira leitura desta excelente entrevista concedida pelo escritor e jornalista e cineasta Valêncio Xavier à escritora e jornalista Marilia Kubota, há alguns anos, ansiava pela oportunidade de também vê-la publicada no Falas ao Acaso. Admirador dos dois autores, solicitei e Marilia me concedeu a honra de publicá-la..., para o deleite do leitores que sabem que no acaso também se encontram falas da maior qualidade.


foto de João Wainer 
O FANTÁSTICO MUNDO DE VALÊNCIO XAVIER
Marilia Kubota

Valêncio Xavier Niculitcheff, como Carlitos, é um clochard ocupado em se virar pelo mundo. Nasceu em São Paulo, em 1933 e passou a juventude no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro. Em 1959, embarcou para a França, onde trabalhou como fotógrafo durante um ano em Paris. No começo dos anos 60, veio para Curitiba para inventar a TV do Paraná.

Em Curitiba, trabalhou como desenhista, cenógrafo, produtor, redator de teleteatro, humor, musicais e reportagens. Em 1966,  foi contratado pela  Globo, de São Paulo, onde ficou até 1969. A experiência na produção de programas policiais foi determinante em seu processo de criação literária, inspirado nos inquéritos investigativos.

Nos anos 80, fez pesquisa de imagens para os cineastas Silvio Tendler, Sylvio Back e Eduardo Escorel. Também foi o criador, com Francisco Alves dos Santos, do projeto da Cinemateca do Museu Guido Viaro de Curitiba, do qual foi diretor. Como cineasta, recebeu o prêmio de Melhor Filme de Ficção, pela produção de Caro Signore Feline, na IX Jornada Brasileira de Curta Metragem. Realizou, entre outros vídeos, O Pão Negro – Um Episódio da Colônia Cecília e Os 11 de Curitiba, Todos nós.

A produção literária começou com o livro Curitiba de nós, em 1975, biografia do pintor Poty Lazarotto. A seguir, surpreendeu a crítica com a novela gráfica O Mez da Grippe, em 1981. Passou a ser cultuado por críticos e escritores como Décio Pignatari, publicando livros artesanais, de baixa tiragem. Seguiram-se História de Curitiba em Quadrinhos (1981), Maciste no Inferno (1983), O Minotauro (1985), O Mistério da Prostituta Japonesa e A Propósito de Figurinhas (1986), antologia Sete de Amor e Violência (1986), Poty – Trilhos, Trilhas e Traços (1994) , A Guerra de Carlos Scliar (1995), Meu Sétimo Dia (1998).

Em 1998, a crítica Flora Sussekind o indicou para Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras, que reuniu num só volume os livros  O Mez da Grippe, O Minotauro, O Mistério da Prostituta Japonesa e 13 Mistérios + O Mistério da Porta Aberta. O livro recebeu, em 1999, o prêmio Jabuti de Melhor Produção Editorial. Em 2001 a mesma editora publicou Minha mãe morrendo e menino mentido, e a Publifolha, Crimes à Moda Antiga, em 2004.

A seguir, transcrevo uma entrevista que fiz por escrito com Valêncio Xavier (1933-2008), uma das últimas que ele deu, antes de ficar doente de Alzheimer:

foto (?): web

MARILIA KUBOTA - Como foi seu despertar para a literatura e o gosto pela arte da palavra?
VALÊNCIO XAVIER - Vou separar dois momentos, um na infância e outro mais tardio. Em criança eu já era louco por mágica, lia livros, assistia espetáculos de mágicos, comprava aparelhagem e fazia truques para impressionar a garotada. O truque que eu mais gostava de fazer era o do livro mágico: Eu mostrava um livro, folheava mostrando que ele tinha as páginas em branco. Folheava outra vez e apareciam somente palavras, mais uma folheada e apareciam somente desenhos, mais outra e se via apenas pautas musicais. Não vou aqui revelar o truque, é contra a ética dos mágicos, mas eu criança tinha inveja de não ter inventado esse livro. Nunca fui muito leitor de poesia, a influência tardia foi Anabase, de Saint-John Perse (1887-1975), um longo poema que conta uma história, mas não revela que história é essa: Nasceu um poldro em baixo das folhas de bronze. Um homem pôs essas bagas amargas em nossas mãos. Estrangeiro. Que passava. E eis um grande rumor numa árvore de bronze. Betume e rosas, dom do canto! Trovão e flautas pelas câmaras! Ah! tanta facilidade em nossas vias, ah! quantas histórias pelo ano em fora, e o Estrangeiro com suas maneiras pelos caminhos de toda a terra!... Eu vos saúdo, minha filha, sob a mais bela roupagem do ano. (tradução Bruno Palma) A obsessão de Saint-John Perse pela etimologia. A palavra certa na hora certa com a entonação certa. Qual a palavra certa para traduzir o sentido da palavra anabase?! Por que desperdiçar palavras para contar nossa história e não aquela que estamos contando? E que a palavra já tenha em si a densidade absoluta do que ela tem a dizer. Partindo de Saint-John Perse fui ler a Anabase, do historiador grego Xenofonte. Por sua composição ferrosa as montanhas da Armênia tem uma leve coloração azul, ao descrever a retirada do exército de Ciro, Xenofonte se refere a elas como as montanhas azuis da Armênia.

MK - Antes de lançar O Mez da Grippe, em 1981, você dizia em entrevistas não desejar uma carreira literária. Dizia-se satisfeito como produtor de TV e cineasta e tinha pouca literatura escrita. Quando começou a mudar?
VX - Não é bem assim. Sou o rei da preguiça. Sempre trabalhei em televisão, passava o dia escrevendo programas de tudo que é tipo: humor, musicais, entrevistas, reportagens, documentários, tele-teatro, telenovelas, e por aí vai. Fora o que eu escrevia para jornais e revistas aqui e ali. Além de empatar meu tempo, isso não deixava de ser um tipo de literatura e punha dinheiro no bolso. O Mez foi de cara um sucesso de crítica e de um certo público. E eu deixara a televisão, tinha mais tempo livre para escrever outras coisas.

MK – A publicação de O Mez pela Companhia das Letras foi um investimento de risco num mercado voltado para o lucro. Você acha que existe público para a prosa de invenção?
VX - Imaginava que O Mez da Grippe ia fazer certo sucesso entre meu público costumeiro, mais de ambiente universitário ou especializado. Mas pegou também o público geral, que se diverte e não se chateia com minhas histórias. Há muitos nesse Brasil afora, considerados malditos, que fazem uma literatura experimental sem querer cagar regras, ou meter sapiência, ideologias e mágoas em seus textos, ou imitando esse e aquele – escrevem só pelo prazer de escrever. Um grande público espera por eles, é só uma editora decente se interessar. De momento eu cito o André Sant’Anna com seu primeiro livro Amor e o Sebastião Nunes: você sabe, Sebastião, que eu queria que aquilo que está acontecendo comigo acontecesse com você.

foto (?): Valêncio Xavier entrevista a bailarina Ana Botafogo
MK - Truques mágicos, mitos clássicos e mistérios estão sempre em seus livros. Por que você busca estes temas?
VX - Mais magia do que mágica, menos mito e mais minto, mais perguntas que não sei as respostas do que mistério, penso ser esses os meus “temas”, se é que posso chamá-los assim. Não tenho nenhum interesse nem a mínima pretensão de tentar compreender o mundo, apenas vivo nele.

MK - Algumas histórias suas parecem extraídas de novelas policiais ou programas populares de TV, descrevendo a miséria e a paixão humanas. Como você escolhe a linguagem de uma obra? Você tem obsessões literárias? Como sabe que uma história chega à forma final?
VX - Vamos por partes. Novelas policiais e programas populares de TV são parte das misérias e paixões humanas, e a minha linguagem é a única que sei transar. E não escolho temas, eles é que me escolhem. Sim, os assuntos me perseguem, mas que eu saiba minha única obsessão é o amor. Canso de dizer que no meu computador tem colado uma frase do cineasta Alain Resnais, mestre da forma e do conteúdo: “A forma preexiste em algum lugar, não sei onde, e se incorpora na história à medida que escrevemos”. Não tem nada de sobrenatural, a gente tem de sentir quando a forma se completa e quando a história termina, senão danou-se tudo.

MK - Como é que você compõe as histórias? Quando tem uma ideia começa a caçar informações? Como é este processo de montagem?
VX - Começa na cabeça, e eu não vou à caça. Em determinados momentos o próprio desenrolar da história pede os elementos que a compõe. Não sou o que se chama de um pensador; se não fosse muita pretensão da minha parte, diria como Picasso disse: “Eu não procuro, eu acho”. E se reparar bem, você verá que escrevo mais em planos seqüências do que em montagem de frases curtas em cortes rápidos, que erroneamente se considera linguagem cinematográfica. Maciste no Inferno é um único longo plano seqüência. O que há, talvez, é um sincronismo do passado, presente e do que possa acontecer no futuro – mas isso está somente na cabeça dos personagens das histórias que eu escrevo.

foto (?): web

MK - Quais seus autores preferidos, na literatura e no cinema ?
VX - Mark Twain, Alain Robbe-Grillet, Gustave Flaubert, Elio Vittorini, Luis Buñuel, Alain Resnais, Orson Welles, Peter Greenaway e Shoei Imamura.

MK - Ver filmes influencia o que você escreve ?
VX - Sou da teoria que todos nós vemos os nossos filmes, e não aquele que está na tela. Se um dia fossemos juntos ao cinema, você iria ver o seu filme, muito diferente daquele que eu estiver vendo, e do que o espectador ao seu lado está assistindo, o que está ao meu lado poderia até ter dormido justamente naquele momento que mais me emocionou. Tudo que acontece só acontece dentro de cada um de nós. E não tem coisa mais fácil do que contar o que está dentro de nós. Além de ser divertido, podemos até controlar o que vamos contar para não acabar atrás das grades, ou no hospício.

MK - Pra quem você escreve? O escritor tem que pensar no leitor ou escrever só pra si mesmo?
VX - E eu lá que sei? Eu só escrevo para mim, com exceção de um livro que escrevi para outra pessoa ler. O leitor é que deve descobrir o livro, e não o autor. Ah, por que eu não dizer como Saint-John Perse: “Terra arável do sonho! Quem fala em construir?”.

MK - Por que você faz literatura?
VX - Nunca me perguntei isso, nem vou perguntar. Sei que posso muito bem viver sem escrever, as únicas coisas que não dá para viver sem elas são comer, beber (água) e amar. Às vezes, muito raramente, me lembro de eu menino, antes de ter idade para entrar na escola, enchendo páginas e páginas de cadernos com garranchos, achando que tinha escrito alguma coisa que fazia sentido. Não sei se isso tem alguma coisa a ver comigo hoje.

MK - O que a gente escreve pode mudar a vida das pessoas ?
VX - Isso vale não só para o que escrevemos: Infelizmente, ou felizmente, nunca ficamos sabendo de que maneira nossos atos podem, ou não, mudar a vida das pessoas. Eu poderia contar uma historinha, mas não sei se vale a pena. Quando saiu a primeira edição de O Mez da Grippe, uma pessoa de outro estado me escreveu dizendo que estava em véspera de se matar, mas depois que leu o livro desistiu. De vez em quando essa pessoa me escreve contando como vai sua vida: casou, tem filhos, está tudo bem. Verdade? Mentira? Não sei.

foto (?) web

MK: Aqui, um retrato de Valêncio Xavier, que escrevi para o jornal Gazeta do Povo, em seu aniversário de 70 anos, em 2013.


MARILIA KUBOTA é poeta e jornalista, mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná.Orientadora de oficinas de criação literária desde 2005. Livros: micropolis (2014) Esperando as bárbaras (2012) e Selva de Sentidos (2008). Organizou a antologia Retratos Japoneses no Brasil (São Paulo, Annablume, 2010) e participou de mais 11 coletâneas. Organizou o Concurso Nacional de Haicai Nempuku Sato, Arte Nikkei no Centenário (2008) e a Mostra de Cinema Nikkei (2010). É editora do JORNAL MEMAI – Letras e Artes Japonesas.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Livro: Duluth, de Gore a Kaufman

capa: Ana Maria Duarte

dicas de leitura:
O Mundo de Gore Vidal e o Mundo de Charlie Kaufman

Tem gente que acha que o curioso filme Mais Estranho que a Ficção, de Marc Forster (Direção) e Zach Helm (Roteiro), bebe no mesmo copo de Charlie Kaufman: Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, Quero Ser John Malkovich e Adaptação. Será? Para quem não conhece ou nunca ouviu falar, sugiro a leitura de Duluth, de Gore Vidal, lançado no Brasil, pela Rocco, em 1987. Com sua língua afiadíssima Gore Vida nos oferece a paródia de uma cidade onde tudo, absolutamente tudo, pode acontecer. Ali, as pessoas não morrem, tornam-se personagens de seriado de TV, e os personagens literários se revoltam por ter de viver indefinidamente as mesmas histórias cada vez que alguém abre um livro. Isso quando não pulam de um livro para outro.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Crítica: O Velho e o Mar


O Velho e o Mar
o filme que é o livro
O velho se chamava Santiago.
O menino se chamava Manolin.
O peixe era um gigantesco Marlin (Peixe Espada).

Muitos professores têm dificuldade em trabalhar e mesmo indicar uma obra literária (de qualidade) que fuja da obrigatória programação curricular. A verdade é que, mesmo tendo o copo com água nas mãos, grande parte deles morre de sede..., simplesmente por falta de informação e ou pior, de interesse. Quando professores, alunos e até autores de literatura dirigida ao público infanto-juvenil dizem que a literatura de Monteiro Lobato (que já no seu tempo ironizava sutilmente os Contos de Fadas, através do seu divertido alter ego emiliano, e que virou moda no fim do século passado) envelheceu e que o público leitor de hoje é outro e quer um texto mais contemporâneo..., há algo estranho no abcdiário do mundo escolar. Mas isso é assunto para outra conversa. Agora me interessa falar de cinema..., ou melhor, de obras literárias de qualidade que, transpostas para as telas de cinema, podem ser um diferencial no ensino de literatura.

Antigamente (nem tanto!), quando uma adaptação cinematográfica chegava próxima à qualidade do romance, dizia-se: Leia o livro e Veja o filme! Ou vice-versa. É claro que tal indicação não serve para todo e qualquer filme. Mas, nas exceções, poderá auxiliar uma aula marrenta onde as opções de leitura são poucas e a iniciativa dos alunos nenhuma. Um bom filme, baseado numa obra literária, clássica ou contemporânea, serve como ponto de partida, por exemplo, para incentivar a leitura da obra e discutir linguagens, narrativas, expressões artísticas. E ainda explorar as diferenças entre a “palavra falada” e a “palavra filmada”. Quando lê (ouve) uma obra literária o leitor (ouvinte) é o seu próprio banco de imagens e imagina o que lê, diferente ou muito além da sugestão do autor. Quando vê uma obra cinematográfica o espectador vê tão somente aquilo que o autor quer que ele veja, não há espaço para a imaginação. Diz-se que uma boa imagem vale mais que mil palavras. Mas, mil palavras podem suscitar mil imagens. Ou não?

No Brasil foram para as telas de cinema, por exemplo: O Saci (de Monteiro Lobato/Rodolfo Nanni-1953); Pluft, O Fantasminha (de Maria Clara Machado/Romain Lesage-1962); O meu Pé de Laranja Lima (de José Mauro de Vasconcelos/Aurélio Teixeira-1970); O Menino de Engenho (de José Lins do Rego/Walter Lima Jr.-1965); O Cavalinho Azul (de Maria Clara Machado/Eduardo Escorel-1984); A Ostra e o Vento (de Moacir C. Lopes/Walter Lima Jr.-1997). São filmes lúdicos e interessantes que tratam da relação das crianças e dos jovens com o seu mundo familiar, social e, principalmente, mágico..., obras que poderão ser comentadas futuramente. Assim como documentários importantes: Pro Dia Nascer Feliz (João Jardim) que traça um painel dos adolescentes nas escolas brasileiras, e Meninas (Sandra Werneck), que fala da gravidez na adolescência. Hoje o espaço é de O Velho e o Mar, obra máxima e atemporal de Hemingway.


“Tudo o que nele existia era velho,
com exceção dos olhos que eram da cor do mar,
alegres e indomáveis.”


Dia desses reli O Velho e o Mar, na tradução de Fernando Castro Ferro, para a publicação da Civilização Brasileira, em edição com belas ilustrações de C. F. Tunnicliffe e Raymond Sheppard, reproduzidas da edição inglesa. E também revi O Velho e o Mar, em duas versões cinematográficas, a de 1958, com direção de John Sturges, protagonizado por Spencer Tracy, e a antológica animação do diretor russo Aleksandr Petrov, o mestre que realiza os seus filmes pintando quadro a quadro sobre placa de vidro, e que foi ganhadora do Oscar em 2000. As duas belas obras, é bom que se diga, são bastante fiéis ao livro. Para ser sincero parecem o livro filmado/animado, com a mesma narrativa, inclusive. E aqui não vai nenhum demérito. Ao reler e rever as obras pensei que seria uma boa dica para quem busca novas formas de trabalhar a literatura em sala de aula.

O Velho e o Mar, a obra prima de Ernest Hemingway (1898/1961), é uma das mais belas histórias escritas sobre a amizade entre um velho e um menino e a relação deles com o mar. Ou, ainda, sobre a superação de todos os limites humanos impostos pela idade. Santiago é um velho pescador que vive numa vila de pescadores, no litoral de Cuba, onde é alvo de gozação dos companheiros. Ele não pesca um peixe há 84 dias e conta apenas com a amizade e solidariedade de Manolin, um garoto a quem ele ensinou o ofício e que foi tirado de seu barco e colocado em outro, pelo pai. Solitário, ingênuo e sonhador, Santiago tem uma relação fraternal de amizade com o mar, peixes e aves marítimas e se fortalece com as lembranças de um passado cheio de esperanças que compartilha com Manolin. O Velho e o Mar é uma obra breve que se lê sem querer largar em qualquer idade disponível.

Há quem confunda as obras e os filmes O Velho e o Mar (Hemingway/Sturges) e Moby Dick (Melville/Huston). Ambas falam de grandes pescadores e a vida nos grandes mares..., porém o diferencial está na poética narrativa de um e de outro. Em Moby Dick, de Herman Melville (1819/1891), que chegou aos cinemas em 1956, pelas mãos de John Huston (Ray Bradbury, poeta maior da ficção científica, colaborou no roteiro), praticamente trata de uma luta inglória, movida pela vingança desmedida de Ahab, o insano capitão de um baleeiro que cruza os mares à caça da grande baleia branca Moby Dick: “-Oh! Ahab – exclamou Starbuck – não é muito tarde, mesmo hoje, o terceiro dia, para desistir. Vê! Moby Dick não te procura. És tu, tu, que loucamente o buscas!” (tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos).

Em O Velho e o Mar a luta é outra. Não há vingança. Há um velho pescador que, após 84 dias sem nenhuma pesca, fisga um gigantesco Marlin e, ao mesmo tempo em que busca dominar o peixe, se desculpa com ele por ser obrigado a matá-lo. Santiago teme que o Marlin descubra que ele é apenas um pescador velho que, no momento, só pode contar com a sua experiência. No mar, assim como na vida, nem sempre vence o mais forte e nem sempre cabe, ao vencedor, o espólio da sua vitória. “Meu Deus, nunca pensei que ele fosse assim tão grande. Mas tenho de matá-lo, murmurou o velho. Em toda a sua grandeza e glória. Embora seja injusto. Mas vou mostrar-lhe o que um homem pode fazer e o que é capaz de aguentar.” (tradução de Fernando de Castro Ferro).

O Velho e o Mar, em livro e filmes, é uma obra sensível e de beleza visual impressionante. Não tem o ritmo do videogame, porque o seu tempo é outro, o da reflexão. Mas tem um ritmo que cada leitor/espectador deverá encontrar. Em O Velho e o Mar o que importa mesmo é a sua essência, mesmo que fragmentada.

Notas:- O Velho e o Mar, recebeu o Prêmio Pulitzer em 1952.
- Ernest Hemingway ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1954.
- Hemingway escreveu, entre outras obras: Adeus Às Armas, O Sol Também Se Levanta, Por Quem Os Sinos Dobram, O Jardin Do Éden.
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