sábado, 24 de maio de 2014

Couto Magalhães: Como a noite apareceu

Céu e Terra. O Infinito e Além. Quem nunca questionou a origem de todas as coisas e até de si mesmo? Em sua introdução ao Contos Populares do Brasil 2 (1897), Silvio Romero fala de dois contos sobre a separação do Céu e da Terra. Um deles é o neozelandês Filhos do Céu e da Terra. O segundo é Como a noite apareceu, recolhido por Couto Magalhães e que se encontra originalmente em O Selvagem (1876), fascinante Curso de Língua Tupi viva ou Nheengatú.

Optei pela versão (com breve introdução) de Magalhães porque a que se encontra na edição (que tenho) de Romero está incompleta e com erros. Esta é apenas a versão portuguesa. Digitalizar a versão tupi é muito complicado. Atualizei rapidamente a grafia.


Couto Magalhães: Esta lenda é provavelmente um fragmento do Gênesis dos antigos selvagens sul-americanos. É talvez o eco degradado e corrompido das crenças que eles tinham, do como se formou esta ordem de cousas no meio da qual nós vivemos, e, despida das formas grosseiras com que provavelmente a vestiram as avós e as amas de leite, ela mostra que por toda a parte o homem se propôs resolver este problema - de onde é que nós viemos? Aqui, como nos Vedas, como no Gênesis, a questão é no fundo resolvida pela mesma forma, isto é: no principio todos eram felizes; uma desobediência n’um episódio de amor, uma fruta proibida, trouxe a degradação. A lenda é, em resumo, a seguinte: no principio não havia distinção entre animais, o homem e as plantas; tudo faltava. Também não havia trevas. Tendo a filha da Cobra Grande se casado, não quis coabitar com o seu marido enquanto não houvesse noite sobre o mundo, assim como havia no fundo das águas. O marido mandou buscar a noite, que lhe foi remetida encerrada dentro de um caroço de tucumã, bem cerrado, com proibição expressa aos condutores de que o abrissem, pena de perderem-se a si e a seus descendentes, e a todas as cousas. A princípio resistem à tentação, mas depois, a curiosidade de saber o que havia dentro da fruta os fez violar a proibição, e assim se perderam. Substituindo a fruta de tucumã pela árvore proibida, a curiosidade de saber pela tentação do espirito maligno; parece-me haver no fundo do episódio tanta semelhança com o pensamento asiático que vacilo e pergunto se não será um eco degradado e transformado desse pensamento?

  

COMO A NOITE APARECEU
MAI PITUNA OIUQUAU ÃNA

No princípio não havia noite; dia somente havia em todo tempo. A noite estava adormecida no fundo das águas. Não havia animais; todas as coisas falavam.
A filha da Cobra Grande, contam, casara-se com um moço.
Este moço tinha três fâmulos fiéis. Um dia ele chamou os três fâmulos e lhes disse: - Ide passear, porque minha mulher não quer dormir comigo.
Os fâmulos foram-se, e então ele chamou sua mulher para dormir com ele. A filha da Cobra Grande respondeu-lhe:
- Ainda não é noite.
O moço disse-lhe: - Não há noite, somente há dia.
A moça falou: - Meu pai tem noite. Se queres dormir comigo, manda buscá-la lá, pelo grande rio.
O moço chamou os três fâmulos; a moça mandou-os à casa de seu pai para trazerem um caroço de tucumã.
Os fâmulos foram, chegaram à casa da Cobra Grande, esta lhes entregou um caroço de tucumã muito bem fechado, e disse-lhes: -  Aqui está; levai-o. Eia! não o abrais, senão todas as coisas se perderão.
Os fâmulos foram-se, estavam ouvindo barulho dentro do coco de tucumã, assim: tem, ten, ten... xi... (*) era o barulho dos grilos e dos sapinhos que cantam de noite.
Quando já estavam longe, um dos fâmulos disse a seus companheiros: - Vamos ver que barulho será este?
O piloto disse: - Não, do contrário nos perderemos. Vamos embora, eia, rema!
 Eles foram-se e continuaram a ouvir aquele barulho dentro do coco de tucumã e não sabiam que barulho era.
Quando já estavam muito longe, ajuntaram-se no meio da canoa, acenderam fogo, derreteram o breu que fechava o coco e o abriram. De repente tudo escureceu.
O piloto então disse: - Nós estamos perdidos; e a moça, em sua casa, já sabe que nós abrimos o coco de tucumã! Eles seguiram viagem.
A moça, em sua casa, disse então a seu marido: - Eles soltaram a noite; vamos esperar a manhã.
Então todas as coisas que estavam espalhadas pelo bosque, se transformaram em animais e em pássaros.
As coisas que estavam espalhadas pelo rio, se transformaram em patos e em peixes. Do paneiro gerou-se a onça; o pescador e a sua canoa se transformarão em pato; de sua cabeça nascerão a cabeça e bico do pato; da canoa o corpo do pato; dos remos as pernas do pato.
A filha da Cobra Grande, quando viu a estrela-d’alva, disse a seu marido:
- A madrugada vem rompendo. Vou dividir o dia da noite.
Então ela enrolou um fio, e disse-lhe: - Tu serás cujubim. Assim, ela fez o cujubim; pintou a cabeça do cujubim de branco, com tabatinga; pintou-lhe as pernas de vermelho com urucu, e então disse-lhe: - Cantarás para todo sempre, quando a manhã vier raiando.
Ela enrolou o fio, sacudiu cinza em cima dele, e disse: - Tu serás inambu, para cantar nos diversos tempos da noite, e de madrugada.
De então para cá todos os pássaros cantaram em seus tempos, e de madrugada para alegrar o princípio do dia.
Quando os três fâmulos chegaram, o moço disse-lhes: - Não fostes fiéis; abristes o caroço de tucumã, soltastes a noite e todas as coisas se perderam, e vós também que vos metamorfoseastes em macacos, andareis para todo o sempre pelos galhos dos paus.
(A boca preta, e a risca amarela que eles têm no braço, dizem que é ainda o sinal do breu que fechava o caroço de tucumã, que escorreu sobre eles quando o derreteram.)

(*) Quando os selvagens narram esta parte imitam o zumbido dos insetos que cantam à noite.


Silvio Romero: É esta a lenda; comparem-na com a neozelandesa. Dentre os contos indígenas alguns passaram às populações cristãs do país e outros não. Daquele transcrito não encontramos vestígios na tradição que consultamos. O mesmo deve ter acontecido a muitos contos africanos e por certo a alguns portugueses: não passaram às nossas populações atuais. Mas não é somente nas canções e contos populares que se encerra tudo o que devemos às três raças que habitam o país.


*
Ilustração de Joba Tridente (2014) 


José Vieira Couto Magalhães nasceu em Diamantina (MG) em 1837 e morreu no Rio de Janeiro (RJ) em 1898. Foi escritor, folclorista, militar, político. Estudou no Seminário de Mariana; Academia Militar do Rio de Janeiro; Artilharia de Campanha de Londres. Em 1859 concluiu o curso de Direito, pela Faculdade de Direito de São Paulo, doutorando-se em 1860. Couto Magalhães falava inglês, francês, alemão, italiano, tupi. É autor de: Viagem ao rio Araguaia (1863); O Selvagem (1876); Ensaios de Antropologia (1894).

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