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terça-feira, 2 de novembro de 2021

Joba Tridente: rito e vela

 

r i t o  e  v e l a

de joba tridente

..., cemitérios são cidadelas que me fascinam pelos restos de identidades e pó. ..., em toda a vida, é a morte que aguça a minha curiosidade. ..., gosto de ritos, de rituais praticados com a alma, de se ver e não esquecer. ..., rito, o quase hai-kai, é uma homenagem à minha mãe, que já se foi no tempo. ..., vela, o quase tanka, é uma lembrança aos que ficam um pouco mais. 

 


r   i   t   o

joba tridente

 

branca dor

quase assim

a morte

 

*

 

v   e   l   a

joba tridente

  

dia de todos os mortos

uma vela ao sereno

no caminho dos vivos

...

uma vela serena

o caminho dos vivos

 

 (*)

ilustração de Joba Tridente. (2018)

 

Joba Tridente, um livre pensador livre. artesão de imagens e de palavras em Verso: 25 Poemas Experimentais (1999); Quase Hai-Kai (1997, 1998 e 2004); em Antologias: Hiperconexões: Realidade Expandida – Sangue e Titânio (2017); Hiperconexões: Realidade Expandida (2015); 101 Poetas Paranaenses (2014); Ipê Amarelo, 26 Haicais; Ce que je vois de ma fenêtre – O que eu vejo da minha janela (2014); Ebulição da Escrivatura – 13 Poetas Impossíveis (1978); em Prosa: Fragmentos da História Antropofágica e Estapafúrdia de Um Índio Polaco da Tribo dos Stankienambás (2000); Cidades Minguantes (2001); O Vazio no Olho do Dragão (2001). Contos, poemas e artigos culturais publicados em diversos veículos de comunicação: Correio Braziliense, Jornal Nicolau, Gazeta do Povo, Revista Planeta, entre outros.

terça-feira, 23 de junho de 2020

Pippo Delbono: Dez Poemas Curtos



PIPPO DELBONO
Dez Poemas Curtos

Os poemas curtos ou haicais, abaixo, foram extraídos, por mim, da peça teatral Orchidee (2013), do dramaturgo e diretor italiano Pippo Delbono, disponibilizada gratuitamente (com legendas em português, traduzidas por David Pais e revistas por Rita Gonçalves Ramos) pelo Istituto Italiano di Cultura di Rio de Janeiro. A quebra dos versos e adaptação são minhas.

Confesso que não conhecia obra alguma do autor até assistir às provocantes e desconcertantes apresentações de suas peças Questo Buio Feroce (Esta Escuridão Feroz, 2006); Dopo la Battaglia (Após a Batalha, 2011) e Orchidee (Orquídeas, 2013) no ciclo Teatro Italiano em Streaming, do Instituto Italiano de Cultura do Rio de Janeiro, compartilhado no Vimeo (com legendas em português, italiano, espanhol, francês e polonês). A que mais me tocou foi Esta Escuridão Feroz, inspirada na obra (This Wild Darkness: The Story of My Death) do escritor americano Harold Brockey (1930-1996), morto em consequência da AIDS. Mas foi Orquídeas que, após uma tocante narrativa sobre as cerejeiras do quintal da infância do dramaturgo, me surpreendeu com os breves poemas saindo dos escuros bastidores para a luminosidade da boca de cena. Eles não são gratuitos, têm tudo a ver com as entranhas do espetáculo, mas me pegaram na rasteira do inesperado de uma peça que, na voz de Delbono: “..., nasce de um grande vazio que minha mãe me deixou quando morreu. Minha mãe, que depois dos conflitos, das separações, encontrei novamente. Eu, um pouco mais velho, um pouco mais sábio, ela um pouco mais criança. E assim o vazio. O não se sentir mais filho de ninguém. O vazio do amor. Mas Orchidee também nasce de muitos vazios, de muitos abandonos. O vazio que vivemos na cultura, em sermos artistas perdidos. O próprio teatro que sinto muitas vezes um lugar que ficou muito empoeirado, falso, morto. A mentira aceita, da representação teatral.



DEZ POEMAS CURTOS
Pippo Delbono

céu longínquo,
flutua nas minhas pupilas
a face da minha mãe.


o meu corpo definha,
o meu espírito ilumina-se.
montanhas nevadas.


se a dor tivesse uma voz,
seria o grito
dos patos selvagens.


o grito dos grous,
tão forte que parece
a minha própria voz.


montanhas no sono,
cada árvore se prepara
para ser caixão.


dormirei bem,
até que a lande dos meus sonhos
reverdeje.


no fim,
tornar-me-ei árvore
na lande nevada.


feto de inverno:
é o sonho
ou a lembrança de um sonho


aos sessenta anos,
o coração inconsolável,
eu atravesso o mar.


na minha morte,
vinde todos,
disfarçados de pássaros.


***
ilustração.joba.tridente.2020
*lande: charneca
*feto: planta

Pippo Delbono (Varazze-Itália: 1959) é dramaturgo, roteirista, escritor, ator e diretor de teatro e cinema. Nos anos 1980 estudou arte dramática em uma escola tradicional em Savona, onde conheceu o ator argentino Pepe Robledo, do Libre Teatro Libre. Os dois se mudaram para a Dinamarca, juntando-se ao grupo Farfa, dirigido por Iben Nagel Rasmussen, atriz histórica do Odin Teatret. Em busca de uma nova linguagem teatral, Delbono se dedicou ao estudo dos princípios do teatro oriental, no qual o foco é o trabalho meticuloso e rigoroso do ator sobre o corpo e a voz. Em 1987, conheceu Pina Bausch, e foi convidado para participar do Wuppertaler Tanztheater, ocasião extraordinária que marcou uma etapa fundamental na carreira artística do diretor polêmico e original. Os espetáculos de Pippo Delbono não são meras transposições cênicas de textos teatrais, mas criações totais, geralmente composta por narrativas em off, cenas mudas, performances, monólogos, diálogos, números musicais, colagem de textos de autores diversos como Bertold Brecht, Charlie Chaplin, Pier Paolo Pasolini, Bíblia. A sua companhia agrega atores profissionais e participação de pessoas marginalizadas (portadores de doenças mentais, ex-moradores de rua, portador de síndrome de Down), criando uma experiência cênica única no palco e na platéia. Entre os seus espetáculos estão: Barboni; Il Tempo degli Assassini; La Rabbia, Guerra; Esodo; Gente di Plastica; Urlo; Il Silencio; Racconti di Giugno; Questo Buio Feroce; La Menzogna; Dopo la Battaglia; Orchidee; Vangelo; La Gioia. Fonte: web e Instituto Italiano de Cultura.
Para saber mais: Compagnia Pippo Delbono: Pippo Delbono; Wikipédia: Pippo Delbono; Facebook: Pippo Delbono; Revista Lume UFRGS: entrevista Pippo Delbono; Revistas USP - Martha Ribeiro: Corpos sublimes: o teatro-festa de Pippo Delbono Il vangelo della teatralità; Capital Cultural: entrevista: Pippo Delbono.

terça-feira, 31 de março de 2020

José Luis Reina Palazón: Talking of Michelangelo



Conheci o poema Talking of Michelangelo, do premiado escritor e tradutor espanhol José Luis Reina Palazón, na Antologia 25 poemas sobre la ciudad -  en traducción de José Luis Reina Palazón, publicada em 2010, pela Ángulo Recto - Revista de estudios sobre la ciudad como espacio plural. A mim, o poema, original do livro Cuerpo inseguro (1999), soa tão atual nesses dias virulentos, que quis compartilhar a leitura.


                           

Talking of Michelangelo
José Luis Reina Palazón

In the room the women come and go/
talking of Michelangelo T.S. Eliot
The love song of J. Alfred Prufrock


Sobre la calle fría de la mañana
espera ya el dolor,
cotidiana es la muerte
y un aire barre lento tus palabras
como plumas de un ala
rotas sobre el asfalto.
Despierto está tu afán
que sin embargo sabes
a espaldas de tu sueño.
Imágenes, destellos,
figuras que traspasan,
ilusión que se afirma,
sombras que mueve el sol :
¿ vida ? - La hora
es breve. Alerta un ansia
fría cada paso. Cada sonrisa
leve oculta otra pasión.
Nadie entraña un anhelo.
Estos no van y vienen

talking of Michelangelo.
Tiempo es desilusión.

Transparente cristal,
duro de transparencia.
Y todo puede verse en un alba
de mayo: la rapidez, la precisión,
el gesto útil, la nítida eficiencia,
la solidez, el fracaso diario
de cualquier duelo,
la distinta tensión. No existe
el tiempo. Ni el alma se conoce.
Ni necesarios son. Los ojos,
sólo los ojos. Los ojos sólo
ven las miradas. Los ojos sólo
miran la atención. Los ojos
sólo atienden el vacío. Los ojos
están vacíos. Una manchita roja
en el asfalto. El aire limpio.
Las ventanas ciegan. Nadie
oye. ¿ Puede decirse nadie ?

Estos no van y vienen
talking of Michelangelo.

La noche está cortada
a la medida. Espera a cualquier hora
en las vitrinas. Mira.
El silencio es exacto.
No hay dudas. Toda la acción
de un cuerpo se proyecta sobre
su propia ausencia. Alma es
simulación. La perfección
del espanto. ¿ Qué has de sentir?
Nada puede tu vuelo.
Has de aceptar
la herida de la noche.
Es eterna. Y es tuya.
Queda sólo el dolor.
La angustia es compañera
y no hay distancia a la muerte.
En ella somos. En ella estamos.
Lejos no se oye el mar.

Estos no van y vienen
talking of Michelangelo.

*
ilustração.joba.tridente.2020



José Luis Reina Palazón (La Puebla de Cazalla – 20.04.1941) é escritor, ensaísta, filólogo clássico, filósofo e renomado tradutor espanhol. Autor de Piedra en el cielo (1976); Exodus (1981); El tiempo no pasa (1985); Exotarium I: La soledad del día (1990); Exotarium II: Cuerpo inseguro (1999), com obras publicadas em importantes antologias e revistas literárias estrangeiras, Reina Palazón se destaca também como tradutor de Boris Pasternak, Arthur Rimbaud, Paul Celan (obra completa), Stéphane Mallarmé, Jean Cocteau, Rainer María Rilke, Goethe, Anna Ajmatova, Samuel Becket, Georg Trakl, Anne Sexton (obra completa), Nelly Sachs (obra completa) Friederike Mayröcker, Herta Müller y Stefan George (obra completa). Pelas suas impecáveis traduções recebeu prêmios como Premio Ayuda a la Traducción de la Obra de Trakl del Ministerio Español de Cultura, 1991; Premio a la Traducción Literaria del Ministerio de Arte y Enseñanza de Austria, 1992; Premio a la Traducción de Anna Ajmátova del Festival de la Poesía de Oradea (Rumanía), 1997; Premio Nacional de Traducción a la mejor obra por las Obras Completas de Paul Celan, 2000; Premio Annibal Caro a la traducción de poesía italiana, 2003; Premio Nacional de Traducción por toda su obra, 2007.
Para saber mais: Antonio Miranda: Poesia Española: José Luis Reina Palazón; Dialnet: José Luis Reina Palazón; Trianarts: José Luis Reina Palazón; Youtube: José Luis Reina Palazón; Ángulo Recto: 25 poemas sobre la ciudad en traducción de José Luis Reina Palazón (download PDF).

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Joba Tridente: Rito e Vela


..., cemitérios são cidadelas que me fascinam pelos restos de identidades e pó. ..., em toda a vida, é a morte que aguça a minha curiosidade. ..., gosto de ritos, de rituais praticados com a alma, de se ver e não esquecer. ..., rito, o quase hai-kai, é uma homenagem à minha mãe, que já se foi no tempo. ..., vela, o quase tanka, é uma lembrança aos que ficam um pouco mais.



r   i   t   o
joba tridente
  
branca dor
quase assim
a morte

*

v   e   l   a
joba tridente
  
dia de todos os mortos
uma vela ao sereno
no caminho dos vivos
...
uma vela serena
o caminho dos vivos


(*)
ilustração de Joba Tridente. (2018)

Joba Tridente, um livre pensador livre. artesão de imagens e de palavras em Verso: 25 Poemas Experimentais (1999); Quase Hai-Kai (1997, 1998 e 2004); em Antologias: Hiperconexões: Realidade Expandida – Sangue e Titânio (2017); Hiperconexões: Realidade Expandida (2015); 101 Poetas Paranaenses (2014); Ipê Amarelo, 26 Haicais; Ce que je vois de ma fenêtre - O que eu vejo da minha janela (2014); Ebulição da Escrivatura - 13 Poetas Impossíveis (1978); em Prosa: Fragmentos da História Antropofágica e Estapafúrdia de Um Índio Polaco da Tribo dos Stankienambás (2000); Cidades Minguantes (2001); O Vazio no Olho do Dragão (2001). Contos, poemas e artigos culturais publicados em diversos veículos de comunicação: Correio Braziliense, Jornal Nicolau, Gazeta do Povo, Revista Planeta, entre outros.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Francisco Cenamor: Niños y niñas

No dia 21 de março de 2017, em comemoração ao Dia da Poesia, o escritor espanhol Francisco Cenamor disponibilizou gratuitamente, por meio do seu blog asamblea de palabras, onde publica diariamente obras de poetas de todo o mundo, a edição digital (em PDF) do livro Restos de naufragio, que traz uma interessante compilação de seus poemas publicados entre 1997 e 2007.

Para Cenamor, a ideia deste resgate literário é o de fazer coincidir dois aspectos da sua trajetória poética: a presença de uma voz forte e heterogênea e a obsessão por aprender. Para tanto, a edição conta com textos reescritos e também por aqueles que se perderam pelo caminho (poético)..., divididos em breves opúsculos. Em Pecios estão poemas publicados nos livros En el océano (textos que partem da dor de mirar o mundo), En el mar (textos onde a dor provem da vivência do amor), e Islas (fragmentos de poemas descartados do livro poemillas). Ánforas ocultas traz poemas inéditos em livro, bem como alguns Islas (fragmentos, poemas curtos). El livro de Raquel trata da admiração da beleza..., com profundo teor religioso e místico (no formato gráfico dos textos bíblicos). Gotas en el agua agrega textos poéticos escritos para peças teatrais breves, encenadas principalmente por universitários.

Em declaração publicada no site las afinidades electivas, sobre a sua arte literária, o escritor espanhol disse: Mi poesía es similar a la del bardo de Astérix, aunque espero ser menos pesado. Observo el mundo que me rodea, sobre todo a las personas, me empapo de su realidad, sus sentimientos, sus pasiones, sus sufrimientos, sus esperanzas y alegrías, los paso por el tamiz de la persona que soy yo mismo y los devuelvo convertidos en belleza. O al menos esa es la pretensión. Cuando hablo de mi mismo me pienso más allá, como perteneciendo a un todo que no me pertenece. Utilizo un lenguaje llano y directo pero con pretensiones espirituales y trascendentes. Me encasillan como poeta social, pero estoy exento de ideología en mis poemas, tan solo me acerco, como imperativo humano, a las personas que sufren por diversos motivos. Mi referente poético principal es César Vallejo, pero he crecido también con San Juan de la Cruz, Mario Benedetti, Juan Gelman, José Agustín Goytisolo, Luis Luna, y muchos otros.

Para sete publicações no Falas ao Acaso selecionei apenas poemas presentes em Pecios: quatro do livro En el océano; seis poemas curtos dos três Islas e dois do Ánforas ocultas. Comecei com os dissabores de Propina e segui com o desconcertante Un cadáver viaja sin papeles e a aflição em Palestina y el bumerán. Hoje a melancolia está presente em Niños y niñas. Uma vez que não me pareceu difícil compreender a língua espanhola, optei por não traduzir (inda que sem compromisso) os poemas. Creio que apenas uma ou outra palavra em espanhol levará o leitor ao dicionário bilíngue ou ao tradutor Google.  


                  
Pecios/En el océano

Niños y niñas
Francisco Cenamor

Estás y ya no estás (dicen que hay muchos niños que
mueren de hambre cada día), estás y ya no estás (y
otros niños nacen cada mañana, como las nubes que no
sabes donde qué tierras mojarán)

Hay nubes que están en el cielo mucho tiempo y un día
ya no están (como los niños, que a veces ya no están)

Pero el agua que dejaron las nubes puebla cada tierra de
raíces (como los niños muertos)

*
ilustração de joba tridente.2018


Francisco Cenamor (1965, Leganés, Espanha) é escritor, articulista, ator e diretor de teatro. Francisco Cenabor, que coordena o Clube de Leitura da Universidad Carlos III, é autor de Amando nubes (Talasa Ediciones, 1999), Ángeles sin cielo (Ediciones Vitruvio, 2003), (Asamblea de palabras, Ediciones Vitruvio, 2007), Casa de aire (Amargord Ediciones, 2009), Nada somos, (Editorial Luces de gálibo, 2011) e Restos de naufragio (autoedição em formato digital, 2017). Em breve será lançada a edição bilíngue (espanhol e inglês) do livro de poemas Baltimore. A sua poesia também pode ser lida nas antologias: Poemas contra la guerra (2004); Salida de emergencia (2004); Vida de perros; Poemas perrunos (2007). Para saber mais sobre o autor e sua obra: Francisco Cenamor; Cuaderno de Poesia Crítica; Valejo & Co: Banderas transparentes, 11 poemas de Francisco Cenamor; Gibral Faro: Paisajes Interiores: Selección de Poemas; Revista O Cronopio; Banco da Poesia: Francisco Cenamor, poeta de Leganés; Proyeto Genoma Poético: Francisco Cenamor; La Locura de Los Cuerdos: Francisco Cenamor; mediaisla: Francisco Cenamor: “El compromiso con el lenguaje es el de enriquecerlo”; Varasek Ediciones: The Dharma Beats, una historia de la beat generation, por Francisco Cenamor; Espacio Latino: Francisco Cenamor y Luis Luna: dos poetas españoles; Fran Cenamor: Facebook; Francisco Cenamor - la entrevista: YouTube.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Francisco Cenamor: Un cadáver viaja sin papeles

No dia 21 de março de 2017, em comemoração ao Dia da Poesia, o escritor espanhol Francisco Cenamor disponibilizou gratuitamente, por meio do seu blog asamblea de palabras, onde publica diariamente obras de poetas de todo o mundo, a edição digital (em PDF) do livro Restos de naufragio, que traz uma interessante compilação de seus poemas publicados entre 1997 e 2007.

Para Cenamor, a ideia deste resgate literário é o de fazer coincidir dois aspectos da sua trajetória poética: a presença de uma voz forte e heterogênea e a obsessão por aprender. Para tanto, a edição conta com textos reescritos e também por aqueles que se perderam pelo caminho (poético)..., divididos em breves opúsculos. Em Pecios estão poemas publicados nos livros En el océano (textos que partem da dor de mirar o mundo), En el mar (textos onde a dor provem da vivência do amor), e Islas (fragmentos de poemas descartados do livro poemillas). Ánforas ocultas traz poemas inéditos em livro, bem como alguns Islas (fragmentos, poemas curtos). El livro de Raquel trata da admiração da beleza..., com profundo teor religioso e místico (no formato gráfico dos textos bíblicos). Gotas en el agua agrega textos poéticos escritos para peças teatrais breves, encenadas principalmente por universitários.

Em declaração publicada no site las afinidades electivas, sobre a sua arte literária, o escritor espanhol disse: Mi poesía es similar a la del bardo de Astérix, aunque espero ser menos pesado. Observo el mundo que me rodea, sobre todo a las personas, me empapo de su realidad, sus sentimientos, sus pasiones, sus sufrimientos, sus esperanzas y alegrías, los paso por el tamiz de la persona que soy yo mismo y los devuelvo convertidos en belleza. O al menos esa es la pretensión. Cuando hablo de mi mismo me pienso más allá, como perteneciendo a un todo que no me pertenece. Utilizo un lenguaje llano y directo pero con pretensiones espirituales y trascendentes. Me encasillan como poeta social, pero estoy exento de ideología en mis poemas, tan solo me acerco, como imperativo humano, a las personas que sufren por diversos motivos. Mi referente poético principal es César Vallejo, pero he crecido también con San Juan de la Cruz, Mario Benedetti, Juan Gelman, José Agustín Goytisolo, Luis Luna, y muchos otros.

Para sete publicações no Falas ao Acaso selecionei apenas poemas presentes em Pecios: quatro do livro En el océano; seis poemas curtos dos três Islas e dois do Ánforas ocultas. Ontem você conheceu os dissabores de Propina..., hoje fica com o desconcertante Un cadáver viaja sin papeles. Uma vez que não me pareceu difícil compreender a língua espanhola, optei por não traduzir (inda que sem compromisso) os poemas. Creio que apenas uma ou outra palavra em espanhol levará o leitor ao dicionário bilíngue.


                  
Pecios/En el océano

Un cadáver viaja sin papeles
                     Francisco Cenamor

Un cadáver viaja sin nombre por el ancho estrecho
donde se juntan el mar abierto al esplendor del pasado y
el mar abierto a la inmensidad del presente. Flota el
cadáver tranquilo, descansando del hambre y el exilio,
indocumentado, mortalmente indocumentado este
muerto documento de la muerte

Sobre el cadáver sin papeles se ha posado una gaviota
tranquila, ajena; en su pata derecha una anilla nos dice
que sus papeles sí están en regla, por eso puede estar la
gaviota tranquila y echar como echa a volar mientras el
cadáver decide, sin prisa (no tiene papeles), a qué orilla
llevará sus huesos

*
ilustração de joba tridente.2018


Francisco Cenamor (1965, Leganés, Espanha) é escritor, articulista, ator e diretor de teatro. Francisco Cenabor, que coordena o Clube de Leitura da Universidad Carlos III, é autor de Amando nubes (Talasa Ediciones, 1999), Ángeles sin cielo (Ediciones Vitruvio, 2003), (Asamblea de palabras, Ediciones Vitruvio, 2007), Casa de aire (Amargord Ediciones, 2009), Nada somos, (Editorial Luces de gálibo, 2011) e Restos de naufragio (autoedição em formato digital, 2017). Em breve será lançada a edição bilíngue (espanhol e inglês) do livro de poemas Baltimore. A sua poesia também pode ser lida nas antologias: Poemas contra la guerra (2004); Salida de emergencia (2004); Vida de perros; Poemas perrunos (2007). Para saber mais sobre o autor e sua obra: Francisco Cenamor; Cuaderno de Poesia Crítica; Valejo & Co: Banderas transparentes, 11 poemas de Francisco Cenamor; Gibral Faro: Paisajes Interiores: Selección de Poemas; Revista O Cronopio; Banco da Poesia: Francisco Cenamor, poeta de Leganés; Proyeto Genoma Poético: Francisco Cenamor; La Locura de Los Cuerdos: Francisco Cenamor; mediaisla: Francisco Cenamor: “El compromiso con el lenguaje es el de enriquecerlo”; Varasek Ediciones: The Dharma Beats, una historia de la beat generation, por Francisco Cenamor; Espacio Latino: Francisco Cenamor y Luis Luna: dos poetas españoles; Fran Cenamor: Facebook; Francisco Cenamor - la entrevista: YouTube.


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