Mostrando postagens com marcador Jonathan Wright. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jonathan Wright. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 17 de maio de 2016

Ashraf Fayadh: Um Espaço no Vazio

Ashraf Fayadh é mais um grande poeta que conheci através das traduções do escritor Marcílio Farias. Vítima do totalitarismo na Arábia Saudita, Ashraf Fayadh causou comoção em todo mundo ao ser aprisionado e condenado à morte (em novembro de 2015) por apostasia. Ou seja, teria renegado o Islam. A prova, segundo a justiça, está em alguns poemas publicados no seu livro Instructions Within (2008). O processo contra o artista plástico e escritor, reconhecido na Europa e na Arábia Saudita, por suas curadorias de exposições de arte (Edge of Arábia) e expressiva literatura, é bastante controverso. Pesariam contra ele acusações de discussão num jogo de futebol; de ateísmo, de postar vídeo-denúncia da violência da polícia religiosa...).  No recurso apresentado do seu advogado, em fevereiro de 2016, a pena de morte foi revogada, porém imposta uma pena de oito anos de prisão, 800 chicotadas e arrependimento público. Desde o anúncio da sua morte (por decapitação) artistas de todas as áreas, Anistia Internacional, associações de escritores, PEN Internacional, grupos de direitos humanos, em todo o mundo, têm se mobilizado pela sua liberdade.

No Falas ao Acaso a poesia de Ashraf Fayadh é livre. De uma série de cinco poemas, já foram publicados aqui: A Última Fila ParaDescendentes de Refugiados e QuatroPoemas Curtos e Tristeza Feita deMassa de Pão. Hoje, em tradução portuguesa, de Marcílio Farias, e inglesa, de Jonathan Wright, te aguarda Um Espaço no Vazio.., poema também presente no livro de poemas Instructions Within (2008).












Um Espaço no Vazio
um poema de Ashraf Fayadh
em tradução de Marcílio Farias *

Tudo tem peso.
Mas o seu peso em particular, Poeta, é famoso nos muros do fundo
porque nem eles, nem a sua sombra pesada dão ao asfalto, ou a pintura rachada, ou aos
grafittis emparedados pelas janelas empoeiradas
uma chance de aparecer. Você também tem espaço,
espaço de sobra
no vazio que lhe cerca.

O ar cada vez mais poluído, as lixeiras transbordando,
sua alma escorrendo e misturada com o carbono que sobe do óleo queimado.
E até o seu coração entulhado, desde que as artérias foram
bloqueadas e se recusaram a dar cidadania
ao sangue que reflui de sua cabeça.

Sem as melhores partes da memória você perde muito
da gravidade original e
é forçado a seguir uma dieta bem específica
que o faz perder mais e mais de si mesmo

(Decida-se rápido, amigo,
porque a gravidade do planeta
não tem muita paciência
para esperar por muito tempo. E
lhe dou uma sugestão: substitua o tempo
pelos nomes de quem você ama
e jogue no lixo a
ultima pagina do seu diário.)

Você consome oxigênio como dois recém-nascidos
que gritam no mesmo desalento
mesmo considerando que as moléculas do ar que o circunda
carregam o som com dificuldade
e ainda corroem suas cordas vocais
mais que as areias do deserto.

Pela janela, a mesma memoria mostra uma
mendiga expondo as mais de cinquenta faces
de uma dignidade espalhada num trapo onde
acumula moedas enquanto imagina que o Homem
que a recria no vazio desta cela
um dia engendrará filhos e família. E ela
então reza para que o vazio se preencha em troca
de uma moeda que sua mão de miserável pede a você e ao seu vazio.
O deserto então sussurra:
chegou a hora de você definir um ritmo além do
sexual enquanto prossegue sua procura por
meias limpas, porque, como ensina a ciência,
bactérias crescem muito rápido na cela.

Sucumba ao sono, amigo,
porque chegou a hora de derreter-se e dissolver-se além das
mil formas impostas a você
por uma história que não é sua mas
empurrada goela abaixo desde que você nasceu. Portanto amigo
Busque evaporar-se, condensar-se a
caminho desse vazio
que lhe impuseram como
substituto dos espaços silenciosos
que você sempre cultivou com sua paixão.

*

ilustração de Joba Tridente.2016


* Nota de Marcílio Farias: Tradução livre da versão de Jonathan Wright, ganhador do Prêmio Saif Ghobash Banipal de Tradução em 2013, para A Space in the Void. Wright traduziu, entre outros autores palestinos, o premiado Amjad Nasser, autor de Land of No Rain. A Poesia de Ashraf Fayadh, Poeta Palestino condenado à morte pelo reino das arábias malditas, acusado de insultar o Islã, é cristalina, bela e irreversível.



********
A Space in the Void
by Ashraf Fayadh
translated by Jonathan Wright

Everything has weight.
Your weight is well known to the back walls
because your heavy shadow doesn’t give the asphalt, the paint, or the writings stuck on the windows a chance to appear.
You also have space, significant space,
in the void.
The air is polluted, and the dumpsters are too,
and your soul, too, ever since it got mixed up with carbon.
And your heart, ever since the arteries were blocked
and it refused to grant citizenship
to the blood coming back from your head.
Without your memory, you’d lose much of your weight.
You need to follow a proper diet
to lose more of you.
Make up your mind quickly,
because the earth’s gravity
doesn’t wait long.
Hint: replace the time factor with your name
so that you find the right way to throw the last page
of your diary
right into the rubbish bin.
You consume enough air for two new-born babies
if the screaming was equal,
given that the air molecules around you
carry sound badly, and your throat
needs repairing.
A beggar woman of more than fifty displays her dignity in
a rag studded with coins. She prays that you, and that
pretty woman who happens to be walking beside you,
will soon be blessed with a child,
to fill another part of the void
in return for a coin.
The time has come for you to pick up the pace, not sexually,
and for you to change your smelly socks.
A scientific fact: bacteria grow rapidly.
Succumb to sleep.
because the time has come for you to melt, and dissolve,
to take the shape agreed for the alienation into which you’re have been poured.
Evaporate, condense,
and go back to your void,
to occupy your usual space
in the You.

* tradução postada originalmente em Arabic Literature


ASHRAF FAYADH (Abha, Arábia Saudita, 1980) é artista plástico e escritor de origem palestina. Fayadh participou de várias exposições internacionais, incluindo a Bienal de Veneza, e foi curador da exposição Edge of Arábia. Lançou em 2008 o livro Al-Ta'limât bil-dâkhil (Instructions Within), que está lhe custando 8 anos de prisão e 800 chibatadas... Seus poemas se encontram em várias publicações.

MARCÍLIO FARIAS é formado e pós-graduado pela UnB (Universidade de Brasília) em Jornalismo, Cinema e Filosofia. Em 1989 emigrou para os Estados Unidos. Vive e trabalha entre Natal (Brasil) e Phoenix-Miami-Boston (EUA). Obras publicadas/poesia: Visual Field (1996), Watermark Press, MD, EUA; O Livro Cor de Triângulo Cor-de-Rosa (2007), e Rito para Ressuscitar um Elefante (2010), ambos pela Scortecci Editora, São Paulo, Brasil. Link: Currículo completo. Poemas publicados no Falas ao Acaso: Moebius; Mandala; Passado incômodo; (John); Diálogo visto de longe na Praça de Sé.

JONATHAN WRIGHT is a Saif Ghobash Banipal Prize-winning translator (2013) who has brought many beautiful works into English, including Amjad Nasser’s Land of No Rain, for which he was commended by this year’s Saif Ghobash Banipal Prize judges.

domingo, 15 de maio de 2016

Ashraf Fayadh: Quatro Poemas Curtos

Ashraf Fayadh é mais um grande poeta que conheci através das traduções do escritor Marcílio Farias. Vítima do totalitarismo na Arábia Saudita, Ashraf Fayadh causou comoção em todo mundo ao ser aprisionado e condenado à morte (em novembro de 2015) por apostasia. Ou seja, teria renegado o Islam. A prova, segundo a justiça, está em alguns poemas publicados no seu livro Instructions Within (2008). O processo contra o artista plástico e escritor, reconhecido na Europa e na Arábia Saudita, por suas curadorias de exposições de arte (Edge of Arábia) e expressiva literatura, é bastante controverso. Pesariam contra ele acusações de discussão num jogo de futebol; de ateísmo, de postar vídeo-denúncia da violência da polícia religiosa...).  No recurso apresentado do seu advogado, em fevereiro de 2016, a pena de morte foi revogada, porém imposta uma pena de oito anos de prisão, 800 chicotadas e arrependimento público. Desde o anúncio da sua morte (por decapitação) artistas de todas as áreas, Anistia Internacional, associações de escritores, PEN Internacional, grupos de direitos humanos, em todo o mundo, têm se mobilizado pela sua liberdade.

Enquanto você aguarda a liberdade de Ashraf Fayadh, conheça um pouco mais de sua obra nesta segunda postagem, de uma série de cinco. Ontem publiquei A Última FilaPara Descendentes de Refugiados. Hoje, em tradução portuguesa, de Marcílio Farias, e inglesa, de Jonathan Wright: Quatro Poemas Curtos..., também presentes no livro Instructions Within (2008).


 









Quatro Poemas Curtos
de Ashraf Fayadh
em tradução de Marcílio Farias *

1. Oportunidades Iguais
Irmão e Irmã.
A Mãe prefere o filho à filha.
O filho ficará ao lado da mãe por todas as tragédias da vida.
A filha produzirá outro filho que ficará, então ao seu lado,
Repetindo a tragédia.


2. Um Aforisma
Amar não é ser um pássaro na mão do amado.
Melhor para este que dez na folhagem lá fora.
Um pássaro na folhagem, porém, é melhor que dez na mão do amado -
Pelo menos do ponto de vista dos pássaros...


3. Conclusões
Às vezes Amar é como uma refeição oferecida a quem jejua.
Outras vezes parece um par de sapatos novos dado
A uma criança deficiente.
De um modo geral, Amar é coisa que acaba trazendo perdas incríveis
Pra todo mundo.


4. Lógica Formal
A Velha porta aplaude o vento que aprecia
A dança que executou junto com as árvores.
A velha porta não tem mãos
E as árvores jamais frequentaram academias de dança.
E o vento é criatura invisível,
Mesmo quando dança entre as árvores.

*

ilustração de Joba Tridente.2016


* Nota de Marcílio Farias: Tradução livre feita a partir da versão inglesa de Jonathan Wright, ganhador do Prêmio Saif Ghobash Banipal de tradução em 2013, por ter revelado à língua inglesa trabalhos como o de Amjad Nasser “Land of No Rain” e outros poemas do Poeta Condenado; A foto é do dia em que o poeta Ashraf Fayadh foi preso na Arabia maldita por ter desafiado/desfiado o Islã com seus poemas. Marcílio Farias.



********
Four Short Poems
by Ashraf Fayadh
translated by Jonathan Wright

Equal opportunities
A son and a daughter.
The mother prefers the son to the daughter.
The son will stand by his mother through the vicissitudes of life.
The daughter will produce another son to stand by her side.


An aphorism 
To be in love is not to be a bird in the hand of the one you love,
better for them than ten in the bush.
A bird in the bush is better than ten in the hand,
from the birds’ point of view.


Conclusions
Sometimes love is like a meal to someone who’s been fasting
at other times it’s like a new pair of sports shoes given
to a disabled child.
Love, in general, is a deal that brings much loss
to all parties.


Logic 
The old door applauds the wind by clapping
for the dance it has performed, accompanied by the trees.
The old door doesn’t have hands
and the trees haven’t been to dancing school.
And the wind is an invisible creature,
even when it’s dancing with the trees.

* tradução postada originalmente em Arabic Literature


ASHRAF FAYADH (Abha, Arábia Saudita, 1980) é artista plástico e escritor de origem palestina. Fayadh participou de várias exposições internacionais, incluindo a Bienal de Veneza, e foi curador da exposição Edge of Arábia. Lançou em 2008 o livro Al-Ta'limât bil-dâkhil (Instructions Within), que está lhe custando 8 anos de prisão e 800 chibatadas... Seus poemas se encontram em várias publicações.

MARCÍLIO FARIAS é formado e pós-graduado pela UnB (Universidade de Brasília) em Jornalismo, Cinema e Filosofia. Em 1989 emigrou para os Estados Unidos. Vive e trabalha entre Natal (Brasil) e Phoenix-Miami-Boston (EUA). Obras publicadas/poesia: Visual Field (1996), Watermark Press, MD, EUA; O Livro Cor de Triângulo Cor-de-Rosa (2007), e Rito para Ressuscitar um Elefante (2010), ambos pela Scortecci Editora, São Paulo, Brasil. Link: Currículo completo. Poemas publicados no Falas ao Acaso: Moebius; Mandala; Passado incômodo; (John); Diálogo visto de longe na Praça de Sé.

JONATHAN WRIGHT is a Saif Ghobash Banipal Prize-winning translator (2013) who has brought many beautiful works into English, including Amjad Nasser’s Land of No Rain, for which he was commended by this year’s Saif Ghobash Banipal Prize judges.

sábado, 14 de maio de 2016

Ashraf Fayadh: A Última Fila Para Descendentes de Refugiados

Ashraf Fayadh é mais um grande poeta que conheci através das traduções do escritor Marcílio Farias. Vítima do totalitarismo na Arábia Saudita, Ashraf Fayadh causou comoção em todo mundo ao ser aprisionado e condenado à morte (em novembro de 2015) por apostasia. Ou seja, teria renegado o Islam. A prova, segundo a justiça, está em alguns poemas publicados no seu livro Instructions Within (2008). O processo contra o artista plástico e escritor, reconhecido na Europa e na Arábia Saudita, por suas curadorias de exposições de arte (Edge of Arábia) e expressiva literatura, é bastante controverso. Pesariam contra ele acusações de discussão num jogo de futebol; de ateísmo, de postar vídeo-denúncia da violência da polícia religiosa...).  No recurso apresentado do seu advogado, em fevereiro de 2016, a pena de morte foi revogada, porém imposta uma pena de oito anos de prisão, 800 chicotadas e arrependimento público.  Desde o anúncio da sua morte (por decapitação) artistas de todas as áreas, Anistia Internacional, associações de escritores, PEN Internacional, grupos de direitos humanos, em todo o mundo, têm se mobilizado pela sua liberdade.

Em homenagem ao escritor Ashraf Fayadh, o Falas ao Acaso publica, com exclusividade, a partir de hoje, uma breve seleção de seus poemas em cinco postagens. Conheça A Última Fila Para Descendentes de Refugiados (do livro Instructions Within), na cuidadosa tradução portuguesa de Marcílio Farias e também nas versões inglesa, de Jonathan Wright, e espanhola, de Shadi Rohana e Lawrence Schimel.













A Última Fila Para Descendentes de Refugiados
um poema de Ashraf Fayadh
em tradução de Marcílio Farias *

Você, Poeta, provoca indigestão nesse mundo, além de outros problemas.
Não force o solo a vomitar,
Mas fique no mesmo plano, rente.
Você é como uma fratura que não cola, Poeta.
Uma fração que não pode ser resolvida ou
Adicionada a outras operações - e
Assim você torna-se responsável por aumentar ainda mais a
Confusão nas estatísticas globais as quais agora você pertence.

Ser um Refugiado significa estar sempre no fim da fila
Para receber migalhas de um país.
O fim da fila é familiar ao seu avô, inda que ele nunca tenha sabido o porquê.
E nesse caso, a fração do país é você.
O país, um documento que vai em sua carteira junto com dinheiro.
Dinheiro: pedaços de papel com imagens de líderes impressas.
Imagens: substitutos do seu corpo até que você morra.
Morte: criatura mística que aparece nas fábulas do seu avô.
E assim termina a primeira lição, lição que precede a segunda que
Ensina a perguntar pelo significado da primeira.

No dia do seu Juízo particular todos estão nus
Enquanto você nada no restolho de esgotos rachados.
E você nada descalço - o que pode ser bom para os pés
Mas insalubre para o solo.

Então em seu benefício eles preparam podiums
E organizam simpósios, para que os jornais
Escrevam sobre Você, Poeta, da forma apropriada aos condenados.
Uma forma elegante desenvolvida para
Eliminar qualquer impropriedade,
E tudo pela metade do preço -
Portanto corram logo para comprar pelo menos a metade do estoque
Porque a fome de morte, a seca de vida são grandes…

Negociações seríssimas estão
Em processo para providenciar sua cremação sem custos
Sem que você engasgue
E não interfira com o direito das
Árvores crescerem nessa Terra.
E aprenda, Poeta, a não gastar suas cinzas de uma só vez.
Eles ensinaram a você a manter a cabeça erguida
De forma a não ver o lixo espalhado no chão da execução.

Eles ensinaram também que sua mãe chama-se Terra.
E o seu pai?
Até agora você o procura para confirmar paternidade, e
Eles ensinaram que
Tantas lágrimas como as que você agora chora
São um desperdício de água,
Bem raro e escasso nesse deserto de hoje em dia,
Como vocês todos bem sabem…

Amanhã,
Dizem eles,
É um belo dia pra se ver livre de sua vida
Porque a Terra, essa Terra dos profetas,
Ficará bem melhor sem sua presença, Poeta.
Inclusive as Crianças, estridentes como pardais,
Ficarão mais à vontade para
Construir ninhos em árvores mortas,
Porque a ONU e suas agências
Não são responsáveis pelo plantio de árvores.

Você então se usa como trunfo na barganha de sua própria vida,
Nada mais que papel e tinta e um poema escrito nele, ou
Um rolo de papel higiênico tal qual o que sua mãe usava
Para acender o forno e
Fazer pão.

(Previsão do Tempo:
O Sol está de cama porque tem febre)

Os ossos, envoltos em carne e pele.
A pele, suja e fedendo.
Pele que arde com a febre provocada por fatores sobrenaturais -
Você, por exemplo.

Mas diga pra si mesmo “não desista”
Tenha esperança, mesmo do fundo do exílio que você recusa,
Tenha esperança nesse treino intenso para a vida no Inferno
Em condições extremas.
(E pergunte ao deus que te desconhece:
O inferno é aqui mesmo nessa Terra? É o fundo dessa Cela?)

Os profetas se aposentaram e
Não há mais nenhum ao seu lado.
Todos servem ao governo escrevendo relatórios
E recebem salários nababescos
E vivem uma vida decente.
Até o falafel de Abu Said está contaminado
Pelas campanhas de vacinação milionárias -
Inclusive as crianças que
Brincam de roda perto da enfermaria.

A cobertura ao vivo do concurso de beleza mostra
Garotas coloridas em seus biquínis,
Todas muito bem dotadas.
E o locutor interrompe o desfile para
Uma notícia extraordinária sobre o aumento súbito
Das mortes por tabagismo.
O Sol ainda é a melhor fonte de Luz
E as estrelas olham pra você escondidas porque seu
Telhado precisa de reparos.

E sua memória, agora num ponto de taxi, recorda a discussão entre estranhos:
A - “Não temos passageiros suficientes para a corrida!”
B - “Mas minha mulher entrou em trabalho de parto! Esta é sua décima gravidez...”
A - “Quer dizer que ela não aprendeu nada? E a explosão demográfica desenfreada? Desenfreada - essa palavra mágica que tentamos aprender há anos...Vocês vivem a multiplicar crianças que correm nuas pelas ruas inspirando cineastas
E discussões soporíferas do G-8”
B - “Nós somos gente simples mas eles não podem viver sem a gente. Pouco importa que nossas cidades tenham sido destruídas, que nossas estações de trem tenham sido
Dinamitadas...Tudo fotografado e musicado e a cores e som estéreo. Somos atores que jamais serão pagos...Nosso papel é posar nus como quando nascemos, como quando brotamos da terra, como os jornais e revistas nos criaram, como quando mudamos para vilas e assentamentos carregando as chaves que foram do meu avô - que não sabia que vocês haviam trocado as fechaduras por cartões digitais. (Que as águas de todos os esgotos do mundo passem por cima de suas tumbas – Que jamais chova sobre suas lavouras. Esse é meu desejo)”

Mas não se preocupem - meus ossos não germinam uma vez enterrados,

E o solo existe para evitar que eles germinem. E assim por diante.
Digo ao meu avô e ao meu pai que no dia de meu juízo particular
Estarei nu na frente de todos porque minha nudez habituou-se as câmeras que
Filmarão tudo nesse dia.

Digo ao meu avô que todos os dias é meu dia do Juízo e sem tribunal,
Sem trompas ou trompetes porque na verdade, sou cobaia do
Inferno na Terra, nesse planeta que vocês chamam Terra.

Terra preparada a dedo para refugiados.


*

ilustração de Joba Tridente.2016


* Nota de Marcilio Farias: Tradução livre do poema The last in the refugees line, a partir da feita em língua inglesa por Jonathan Wright. O tradutor Wright foi o vencedor do prêmio Saif Ghobash Banipal de tradução em 2013 e o responsável por introduzir diversos autores do Oriente Médio ao publico ocidental, entre eles Amjad Nasser (autor de Land of No Rain).



********
The Last of the Line of Refugee Descendants
 by Ashraf Fayadh
translated by Jonathan Wright

You give the world indigestion, and some other problems.
Don’t force the ground to vomit,
and stay close to it, very close.
A fracture that can’t be set,
A fraction that can’t be resolved
or added to the other numbers,
so you give rise to a certain confusion in global statistics.

Being a refugee means standing at the end of the queue
to get a fraction of a country.
Standing is something your grandfather did, without knowing the reason.
And the fraction is you.
The country: a card you put in your wallet with your money.
Money: pieces of paper with pictures of leaders.
Pictures: they stand in for you until you go back.
Going back: a mythical creature that appears in your grandfather’s stories.
Here endeth the first lesson.
The lesson is conveyed to you so that you can learn the second lesson, which is “what do you signify?”

On the Day of Judgment, they stand naked,
and you swim in the spillage from the cracked sewage pipes.
Barefoot – that’s healthy for the feet
but unhealthy for the ground.

For your sake we will set up rostrums and hold conferences,
and the newspapers will write about you in the appropriate manner.
A new formula has been developed to eliminate recalcitrant dirt,
and at only half the price.
Hurry to buy up half the amount,
because the water shortage is very acute.

Serious negotiations
are underway to provide ashes for free so that you won’t choke,
without affecting the right of trees to live on Earth.
Learn how to avoid using up all your ash allowance in one go.

They taught you how to lift your head up
so that you can’t see the dirt on the ground.
They taught you that your mother is the Earth.
And your father?
You’re looking for him to confirm your lineage.
They taught you that your tears are an extravagant waste of water.
And water … as you know!

Tomorrow,
It’ll be a good idea to get rid of you,
because the Earth would look better without you.

Children are like sparrows,
but they don’t build nests in dead trees.
And the U.N. agency isn’t responsible for planting trees.

Use yourself as a bargaining card,
as a piece of paper with a poem on it, a piece of toilet paper,
a piece of paper for your mother to light the stove
and bake some loaves.

The weather forecast:
The sun is lying in bed because it has a temperature.

The bones, clothed in flesh and then with skin.
The skin gets dirty and gives off a horrible smell.
The skin burns and is affected by supernatural factors.
Take yourself as an example.

Don’t give up hope.
Take heart from the exile from which you are fleeing!
This is intensive training for living in Hell
and in your harsh conditions.
My god, is Hell somewhere on Earth?

The prophets have gone into retirement
so don’t expect any prophet to be sent your way for your sake.
For your sake the observers submit daily reports
and are paid high salaries.
How important money is
for the sake of a decent life!

Abu Said’s felafel are exposed to contamination
and the dispensary is announcing that the inoculation campaign is ending
so don’t worry about your children being contaminated
as long as the dispensary is there.

Live coverage of the proceedings of the beauty contest.
That girl looks good in her bikini,
and that one has rather a large bottom.
Breaking news: Sudden Rise in the Number of Deaths
From Smoking.
The sun is still a source of light
and the stars are peeping in at you, because your roof needs
repairing.

An argument at the taxi depot:
“We don’t have enough passengers to leave yet.”
“But my wife is in labour.”

“This is her tenth pregnancy. Hasn’t she learnt anything? There are reports warning of random population growth. Random – that’s the word I’ve been looking for for ages. We’re living in a random world. We’re multiplying and our children stand naked. Sources of inspiration for film-makers, or for discussion around the table at the G8. We are small people but they can’t live without us. For our sake some buildings have fallen down and some railway stations have been blown up. Iron is liable to rust. For our sake there are plenty of picture messages. We are actors who don’t get paid. Our role is to stand as naked as when our mothers gave birth to us, as when the Earth gave birth to us, as the news bulletins gave birth to us, and the multi-page reports, and the villages that border on settlements, and the keys my grandfather carries. My poor grandfather, he didn’t know that the locks had changed. My grandfather, may the doors that open with digital cards curse you and may the sewage water that runs past your grave curse you. May the sky curse you, and not rain. Never mind, your bones can’t grow from under the soil, so the soil is the reason we don’t grow again.

Granddad, I’ll stand in for you on the Day of Judgment, because my private parts are no strangers to the camera.
Do they allow filming on the Day of Judgment?

Granddad, I stand naked every day without any judgment, without anyone needing to blow any last trump, because I have been sent on in advance. I am Hell’s experiment on the planet Earth.

The Hell that has been prepared for refugees.

* tradução postada originalmente em Arabic Literature


********
Los últimos descendientes de los Refugiados
de Ashraf Fayadh
del árabe al español: Shadi Rohana y Lawrence Schimel

Provocas indigestión al mundo, entre otras cosas.
No obligues a la Tierra a vomitarte,
y permanece cerca de ella, muy cerca.
Eres una fracción irreducible,
no participas en operaciones matemáticas.
Así, creas confusión en las estadísticas internacionales.

Refugiado: el último de la fila, esperando tu pedazo de patria.
Esperar: ya lo había hecho tu abuelo, sin saber porqué.
El pedazo: eres tú.
Patria: un carnet para colocar en la billetera.
Billetes: papeles que llevan el retrato de los jefes.
Retrato: ocupa tu lugar hasta que vuelvas a tu país.
El Retorno: un ser mítico, de los cuentos de la abuela.
Se acabó la primera clase.
Vamos a la segunda: tú… ¿qué significas?

Todos están desnudos en el Juicio Final,
y nadarán ustedes en las aguas derramados de las cloacas.
Estar descalzo es saludable para los pies
pero insalubre para el suelo.

Estableceremos tribunas para usted, congresos.
Escribiremos elocuentemente sobre ustedes en los periódicos.
Existe una nueva fórmula contra los contaminantes recalcitrantes,
y está a medio precio.
Apúrense para comprar la mitad.
La crisis del agua es muy dura.

Negociaciones serias están en marcha
para garantizar cenizas gratuitas,
para que no te ahogas,
y sin violar el derecho de los árboles a vivir sobre la Tierra.
Evita consumir tu porción de cenizas de una sola vez.

Te enseñaron mantener la cabeza en alto
para que no veas la suciedad sobre la tierra.
Te enseñaron que la Tierra es tu madre
¿pero tu papá?
Lo buscas para averiguar tu linaje.
Enseñaron que tus lágrimas son un desperdicio de agua,
y que el agua… ya sabes.

Mañana…
sería mejor deshacerse de ti.
Sin ti, la Tierra lucirá mejor.

Los niños son como los pájaros,
pero no hacen sus nidos en los árboles muertos.
Y plantar árboles no es la responsabilidad de la agencia de la ONU para los refugiados.

Transfórmate en una hoja
para ser utilizada como un naipe
para escribir poesía
para limpiarte en el baño
para que tu mamá se sirve de ella para prender la estufa
y hornear algo de pan.

Según el pronóstico del tiempo:
el sol permanecerá en la cama por su alta temperatura corporal.

Los huesos, vestidos por carne y luego piel.
La piel se ensucia, y produce un mal olor.
La piel se quema y se ve afectada por factores sobrenaturales.
Mira a ti mismo, por ejemplo.

No pierdan la esperanza…
Dejen que el exilio del que huyen los anime.
Es una formación intensiva para aprender a vivir en el infierno
bajo sus condiciones duras.
Dios mío… ¿está el infierno aquí en la Tierra en algún lugar?

Los profetas ya se han jubilado
así que no esperen a ninguno enviado por y para ustedes.
Por ustedes, los observadores escriben sus informes dirarios
y cobran sus sueldos altos,
necesarios
para vivir con dignidad.

Los falafel de Abu Saíd están expuestos a contaminación
y las farmacias anuncian el fin de la campaña de vacunas.
No se preocupen a que contaminan a sus hijos
mientras el dispensario sigue allí.

El concurso de belleza está transmitido en vivo,
el bikini le queda bien a esta chica,
y esa otra tiene el trasero un poco grande.
Noticias de última hora: “Subida repentino en  el número de muertos
por fumar tabaco”.
El sol sigue siendo la fuente de luz,
y las estrellas se asoman pare verlos, porque el techo necesita ser repararado.

Discusión en el estacionamiento:
— La taxi no esté lleno todavía, no partiremos…
— Pero mi esposa está pariendo.
— Es su décima embarazo, ¿no aprendió nada?
Los informes advierten del crecimiento caótico de la población.
Caótico… ¡La palabra que buscaba todo este tiempo!
¡Vivimos en un mundo caótico!
Nos multiplicamos en masa y nuestros hijos permanecen desnudos.
Somos una fuente de inspiración para los cineastas, los noticieros, visitas de las delegaciones y discusiones por el G8… Somos los pequeños. Pero no pueden vivir sin nosotros. Por nosotros, algunos edificios cayeron, estaciones de ferrocarril explotaron (y el hierro es susceptible a oxidarse).
Por nosotros, los mensajes con foto se multiplican.
Somos actores sin sueldo.
Nuestro rol consiste en estar desnudos como nuestras madres nos parieron, como la tierra nos parió, como los noticieros nos parieron, como los informes de várias páginas, como las aldeas adyacentes a los asentamientos israelíes, como las llaves que todavía carga mi abuelo… Pobre de mi abuelo, ¡nunca se enteró de que cambiaron las cerraduras!
Mi abuelo… malditas sean las puertas que se abren con llaves digitales, malditas las aguas de las cloacas que fluyen por al lado de tu tumba, qué te maldiga el cielo sin lluvia. No importa, pues tus huesos no pueden crecer debajo de la tierra… es por culpa de la tierra que no crecemos por segunda vez.
Abuelito, en el Día del Juicio estaré ahí, déjame tomar tu lugar. Mis genitales ya son conocidos para la cámara.
¿Crees que será permitido tomar fotos durante el Día del Juicio?
Abuelito, estoy desnudo todos los días, sin Juicio, y sin que nadie toque ninguna trompeta. Ya me han mandado de adelantado. ¡Soy el experimento del infierno en la Tierra!
La Tierra…
El infierno que fue preparado para los refugiados.

* tradução postada originalmente em Arabic Literature


ASHRAF FAYADH (Abha, Arábia Saudita, 1980) é artista plástico e escritor de origem palestina. Fayadh participou de várias exposições internacionais, incluindo a Bienal de Veneza, e foi curador da exposição Edge of Arábia. Lançou em 2008 o livro Al-Ta'limât bil-dâkhil (Instructions Within), que está lhe custando 8 anos de prisão e 800 chibatadas... Seus poemas se encontram em várias publicações.

MARCÍLIO FARIAS é formado e pós-graduado pela UnB (Universidade de Brasília) em Jornalismo, Cinema e Filosofia. Em 1989 emigrou para os Estados Unidos. Vive e trabalha entre Natal (Brasil) e Phoenix-Miami-Boston (EUA). Obras publicadas/poesia: Visual Field (1996), Watermark Press, MD, EUA; O Livro Cor de Triângulo Cor-de-Rosa (2007), e Rito para Ressuscitar um Elefante (2010), ambos pela Scortecci Editora, São Paulo, Brasil. Link: Currículo completo. Poemas publicados no Falas ao Acaso: Moebius; Mandala; Passado incômodo; (John); Diálogo visto de longe na Praça de Sé.

JONATHAN WRIGHT is a Saif Ghobash Banipal Prize-winning translator (2013) who has brought many beautiful works into English, including Amjad Nasser’s Land of No Rain, for which he was commended by this year’s Saif Ghobash Banipal Prize judges.

SHADI ROHANA is a Palestinian translator from Haifa, doing literary translations between Arabic and Spanish. He’s translated and introduced a number of Latin American authors into Arabic, including Rodolfo Walsh, Yolanda Oreamuno, David Huerta, Eduardo Galeano and José Emilio Pacheco, as well as speeches and declarations from the EZLN in Chiapas. He’s lived in Mexico since 2012. 

LAWRENCE SCHIMEL (New York, 1971) writes in both Spanish and English and has published over 100 books as author or anthologist in many different genres, including one collection of poems written in Spanish,Desayuno en la cama (Egales), as well as a chapbook in English Fairy Tales for Writers (A Midsummer Night’s Press).

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...