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quinta-feira, 19 de maio de 2016

Youssef Rakha: Escute Fayadh

A homenagem do Falas ao Acaso ao escritor e artista Ashraf Fayadh, cuja obra me foi apresentada pelo escritor Marcílio Farias, se encerraria ontem, após a publicação de cinco poemas seus: A Última Fila Para Descendes de Refugiados e Quatro Poemas Curtos e Tristeza Feita de Massa de Pão e Um Espaço no Vazio e O Nome de Um Sonho Masculino. Porém, ao ler uma recente postagem de Farias, no Facebook, decidi oferecê-la aos leitores, como um reflexivo bônus: Escute Fayadh, do premiado escritor egípcio Youssef Rakha.

"Escute Fayadh é a tradução livre de um Poema de Youssef Rakha em homenagem ao Poeta Palestino Ashraf Fayadh, cuja sentença de morte foi comutada para oito anos e 800 chicotadas. A nova sentença, fruto do clamor de alguns círculos intelectuais da Europa e dos Estados Unidos - ninguém no Brasil manifestou-se a respeito... - continua sendo uma afronta à liberdade de criação, característica de uma cultura desenvolvida a sombra da ignorância religiosa, da superstição de uma sociedade atolada na lama das tradições barbáricas, e no texto da intolerância típica dos falsos reinados." Marcílio Farias.


                     

ESCUTE FAYADH
um poema de Youssef Rakha
em tradução de Marcílio Farias *

Ashraf Fayadh, eu acredito mesmo
Que uma explosão está próxima e
Gostaria de deixar bem claro
Que a chuva está nesse momento
Fazendo piscinas em todas as casas ao longo da costa
Hoje eu vi um homem abraçando um refrigerador
Com as duas pernas dentro d’água
E sua mulher pulando de um
Candelabro para outro como a
Mulher de Tarzan.

A sua cabeça a prêmio, eu acredito,
Continua no seu corpo enquanto a
Bomba marca o tempo
Segundo após segundo enquanto
Cinco por cento do mundo
Não consegue suportar
Tanta estupidez.

Agora a explosão, Ashraf - e eu
Que achava poder escapar dos fragmentos
Pensando que os longos mantos brancos
Fossem fantasmas
Batendo asas para ídolos invisíveis
Num estrondo que
Talvez nos transformasse em
Peixes voadores e os
Prédios em garrafas de
Cerveja não alcoólica com a
Espuma escorrendo farta enquanto rachavam.

E a sua cabeça Ashraf, e a sua cabeça,
E o Homem brandindo a cimitarra sobre ela,
E os espectadores com suas roupas brancas como giz
E o Grande Vale silencioso em pessoa
Como uma espécie de palco
Onde os sem teto da vida
Encenam um texto para
Espantar os circunstantes que dizem

Estar em guerra contra o Terror. 

Ashraf, a explosão é na minha mente e
É estranho que não existe engenharia genética
Ou efeito estufa ou
Fissão nuclear, ou,
Também, qualquer homem com
Metade das pernas
Dentro d’água, água bastante

Para afogar esse mundo
Sem qualquer abrigo à vista no litoral...

* ilustração de Joba Tridente – 2016

* Nota de Marcílio Farias: O Grande Vale é a falha geológica que corta o Parque Nacional do Kuwait, atração turística internacional pelos seus “safaris” onde ricos e famosos matam elefantes e leões.


********
Listen Ashraf
A poem by Youssef Rakha for Ashraf Fayadh

Ashraf Fayadh, I do believe
the explosion is about to
and would like to make clear
that the rain’s now making
swimming pools of houses
down the coast
Today, I saw a man hugging a fridge
half his legs underwater and
his wife was leaping
from one chandelier to another
like Tarzan’s woman

Your head, I believe,
is on your body now
and the bomb ticks second by second-
sure! five percent of the world cannot shoulder
all this stupidity

Now the explosion, Ashraf,
and I, had I been out of range of fragments
would have thought
the white cloaks
ghosts
flapping at unseen things
Its bang
perhaps will make us into flying fish
and the buildings to bottles
of alcohol-free beer
foam spilling over as they clink

Your head, your head, Ashraf, and
the man bending with sword and
spectators shrubs of chalk and
the Great Rift itself
a kind of stage play
that the homeless on their pavement play
to scare the freeholders

Here, they say they are at war with terrorism

Ashraf, the explosion is
in my head, and
it is strange, I believe, that there is
genetic engineering
greenhouse effect
that there is
nuclear fission
and, too,
the man with half his legs
underwater

Water enough in the sky to drown the world
and no umbrellas at the coast

* esta versão inglesa está publicada em Qisasukhra
* o poema pode ser lido em árabe no site Yrakha


YOUSSEF RAKHA (Cairo, 1976-) é escritor, jornalista, crítico literário, fotógrafo e um dos poetas mais importantes do Egito, vencedor do Premio Larkin de poesia em língua inglesa e do Premio Chris Ayers de Filosofia. Rakha é o Editor-Chefe da revista egipcia Al-Ahram. Entre suas obras estão duas novelas recentes: Book of the Sultan’s Seal e The Crocodile. Para saber mais sobre o autor: al-bab, Yrakha, Words without Borders. 

MARCÍLIO FARIAS é formado e pós-graduado pela UnB (Universidade de Brasília) em Jornalismo, Cinema e Filosofia. Em 1989 emigrou para os Estados Unidos. Vive e trabalha entre Natal (Brasil) e Phoenix-Miami-Boston (EUA). Obras publicadas/poesia: Visual Field (1996), Watermark Press, MD, EUA; O Livro Cor de Triângulo Cor-de-Rosa (2007), e Rito para Ressuscitar um Elefante (2010), ambos pela Scortecci Editora, São Paulo, Brasil. Link: Currículo completo. Poemas publicados no Falas ao Acaso: Moebius; Mandala; Passado incômodo; (John); Diálogo visto de longe na Praça de Sé.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Ashraf Fayadh: O Nome de Um Sonho Masculino

Ashraf Fayadh é mais um grande poeta que conheci através das traduções do escritor Marcílio Farias. Vítima do totalitarismo na Arábia Saudita, Ashraf Fayadh causou comoção em todo mundo ao ser aprisionado e condenado à morte (em novembro de 2015) por apostasia. Ou seja, teria renegado o Islam. A prova, segundo a justiça, está em alguns poemas publicados no seu livro Instructions Within (2008). O processo contra o artista plástico e escritor, reconhecido na Europa e na Arábia Saudita, por suas curadorias de exposições de arte (Edge of Arábia) e expressiva literatura, é bastante controverso. Pesariam contra ele acusações de discussão num jogo de futebol; de ateísmo, de postar vídeo-denúncia da violência da polícia religiosa...).  No recurso apresentado do seu advogado, em fevereiro de 2016, a pena de morte foi revogada, porém imposta uma pena de oito anos de prisão, 800 chicotadas e arrependimento público.  Desde o anúncio da sua morte (por decapitação) artistas de todas as áreas, Anistia Internacional, associações de escritores, PEN Internacional, grupos de direitos humanos, em todo o mundo, têm se mobilizado pela sua liberdade.

Hoje encerro a primeira homenagem ao poeta de Ashraf Fayadh, aqui no Falas ao Acaso. Outras já estão programadas. Enquanto aguarda também pela liberdade do escritor, conheça alguns dos seus poemas já publicados aqui: A Última Fila Para Descendentes de Refugiados e Quatro Poemas Curtos e Tristeza Feita de Massa de Pão e Um Espaço no Vazio. E depois, o poema O Nome de Um Sonho Masculino, em tradução portuguesa, de Marcílio Farias, e inglesa, de Mona Zaki..., poema também presente no livro Instructions Within (2008).


 









O Nome de Um Sonho Masculino
um poema de Ashraf Fayadh
em tradução de Marcílio Farias

Enquanto você aperfeiçoa a arte de adorar essa angústia, Poeta,
Será que notou que suas artérias não conseguem mais bombear insônia para os olhos?
Será que você notou, Poeta,
Que os corações abandonados nas calçadas dessa noite
Fugiram de suas visões várias vezes no processo?
E que os ritmos da noite continuam seu trabalho oculto
até que a manhã escorra pela borda de nuvens que se agregam
no reduzido teto de sua imaginação?
Será que você notou, Poeta,
como você costumava gostar de ler as artérias dos humanos -
ou corpos jogados nos telhados da memoria mais antiga?

Suas paginas estão encharcadas pelo lodo da exegese
mas nenhuma palavra sequer foi lida
como você, pois como você
essas páginas exauriram
todas as línguas conhecidas nessa Terra sem conseguir
expressar um termo que defina de fato o seu nome, tal qual
um tinteiro prenhe de possibilidades - e
que desafiam todas as definições com o esforço unânime
de todos os seus órgãos.

Então você escolhe enfrentar o trovão de pé, Poeta, onde ele
possa ver como o seu corpo emaciado apodrece
e sua alma ressurge como uma nuvem de chuva que
jorra vida em lugares onde seu nome sequer se torna um sonho que jamais tem fim, acalentado pelo tempo em que faz você incapaz de abandonar
definições traçadas pelas noites de
prazeres proibidos, duvidosos e bêbados
para desespero daqueles que clamam alto
pelos nomes sagrados do Amor.

Vem, Poeta, pois as noites são sempre mais longas para
o Amado, mas sempre breves, brevíssimas
para aquele que Ama e escreve sobre
corpos que cheiram a pêssegos maduros
absorvidos por todas as formas proibidas dessa noite.

Vem, Poeta, para o lugar onde as nuvens escolhem
mudar as formas do seu corpo e arrebatar sua alma do exílio de
um coração ao qual foi imposta total ausência de Amor e
das miragens de uma terra natal a qual você nunca
pertencerá em carne e poeira, cinza e pedra.

Desde quando o vento obedece às leis do trafego?
Desde quando?
Desde quando o vento para na luz vermelha?
E quando alguma vez você ensinou esse vento e
esse deserto algumas palavras
ou estórias dignas de publicação?

Seus olhos, Poeta, admitem que a insônia
violou todos os segredos da noite de tal modo que
ela, essa noite que nunca acaba, não aguenta mais tanto silêncio.
E seu coração virou um ídolo que suas artérias esconderam e
não mais sacrificam às suas veias
como tributo aquele trono
ocupado por deuses belíssimos.

Seu nome significa Nada, Poeta,
se não puder livrar você dos pecados do deserto,
se não puder implorar a noite para que o
deixe caminhar livre e longe da lâmina, porque
seu nome é um numero discado errado, é
um peso insuportável que
acabou de rebentar as suas costas.


*

ilustração de Joba Tridente.2016


* Nota de Marcílio Farias: Versão Livre do poema The Name of a Masculine Dream, baseada na tradução de Mona Kareem, poeta do Kuweit, banida pelo emir daquele poço maldito de petróleo, hoje refugiada em Cambridge, UK, onde estuda Literatura.



********
The Name of a Masculine Dream
by Ashraf Fayadh
translated by Mona Zaki

While you excel in worshipping anxiety—
didn’t you notice that your arteries have failed to pump your insomnia up to the eyes?
Didn’t you notice?
That the hearts of those abandoned on the pavements of the night
have split from your vision so many times?
The patterns of the night continue their work
until dawn appears on the edges of clouds gathering
on the ceiling of your imagination.
Didn’t you also notice—
how you enjoy interpreting the arteries of women
and the bodies tossed on the roofs of memories from long ago?
Your pages have been soaked with the sludge of exegesis
and not one word has been read
like you
these pages have exhausted all languages known to earth
in order to offer a name that matches your definition of self
your name—like an inkwell pregnant with possibilities
your build defies all definitions of its organs combined.
Come stand to where the thunder can see you so that your emaciated body may dissolve
and your soul be resurrected as a cloud followed by rain
pouring down life to where your name is not even a dream
that won’t come to pass as long as you’re unable to abandon the definitions
of dubious pleasures and drunken nights
and those who call out the sacred names of love.
Come—for the night is long for the beloved,
not long enough to write about pleasure
or bodies saturated in the smell of peaches
absorbed in all the forbidden pleasures of the night.
Come—to where the cloud chooses to shift your sickly form
and snatch your soul from its exile—
from a heart that had openly declared the absence of love
and from the mirages of the assumed homeland you thought you belonged
to every grit of its earth.
Since when does the wind honor traffic laws?
Since when?
Did the wind ever stop at your red light?
How long have you coaxed it to stop
so you could gather a few words
or find some news no longer fit for print?
Your eyes will confess that insomnia
has violated the secrets of the night
and the night too won’t keep silent for long.
Your heart is an idol to which your arteries have absconded
And they no longer offer your veins as sacrifice
as tribute to the throne of beautiful gods
Your name means nothing to me
it cannot deliver me of all the sins of drought
and it cannot supplicate the night so that I can walk free from its isolation
your name is a lost number—
a weight that has broken your back!

* tradução postada originalmente em Arabic Literature


ASHRAF FAYADH (Abha, Arábia Saudita, 1980) é artista plástico e escritor de origem palestina. Fayadh participou de várias exposições internacionais, incluindo a Bienal de Veneza, e foi curador da exposição Edge of Arábia. Lançou em 2008 o livro Al-Ta'limât bil-dâkhil (Instructions Within), que está lhe custando 8 anos de prisão e 800 chibatadas... Seus poemas se encontram em várias publicações.

MARCÍLIO FARIAS é formado e pós-graduado pela UnB (Universidade de Brasília) em Jornalismo, Cinema e Filosofia. Em 1989 emigrou para os Estados Unidos. Vive e trabalha entre Natal (Brasil) e Phoenix-Miami-Boston (EUA). Obras publicadas/poesia: Visual Field (1996), Watermark Press, MD, EUA; O Livro Cor de Triângulo Cor-de-Rosa (2007), e Rito para Ressuscitar um Elefante (2010), ambos pela Scortecci Editora, São Paulo, Brasil. Link: Currículo completo. Poemas publicados no Falas ao Acaso: Moebius; Mandala; Passado incômodo; (John); Diálogo visto de longe na Praça de Sé.

Mona Zaki is an Egyptian, born in Belgrade. She has a BA from the American University in Cairo in Middle Eastern History and a PhD on the Medieval Muslim depiction of hell from Princeton University. She a translator and a contributing editor at Banipal.

terça-feira, 17 de maio de 2016

Ashraf Fayadh: Um Espaço no Vazio

Ashraf Fayadh é mais um grande poeta que conheci através das traduções do escritor Marcílio Farias. Vítima do totalitarismo na Arábia Saudita, Ashraf Fayadh causou comoção em todo mundo ao ser aprisionado e condenado à morte (em novembro de 2015) por apostasia. Ou seja, teria renegado o Islam. A prova, segundo a justiça, está em alguns poemas publicados no seu livro Instructions Within (2008). O processo contra o artista plástico e escritor, reconhecido na Europa e na Arábia Saudita, por suas curadorias de exposições de arte (Edge of Arábia) e expressiva literatura, é bastante controverso. Pesariam contra ele acusações de discussão num jogo de futebol; de ateísmo, de postar vídeo-denúncia da violência da polícia religiosa...).  No recurso apresentado do seu advogado, em fevereiro de 2016, a pena de morte foi revogada, porém imposta uma pena de oito anos de prisão, 800 chicotadas e arrependimento público. Desde o anúncio da sua morte (por decapitação) artistas de todas as áreas, Anistia Internacional, associações de escritores, PEN Internacional, grupos de direitos humanos, em todo o mundo, têm se mobilizado pela sua liberdade.

No Falas ao Acaso a poesia de Ashraf Fayadh é livre. De uma série de cinco poemas, já foram publicados aqui: A Última Fila ParaDescendentes de Refugiados e QuatroPoemas Curtos e Tristeza Feita deMassa de Pão. Hoje, em tradução portuguesa, de Marcílio Farias, e inglesa, de Jonathan Wright, te aguarda Um Espaço no Vazio.., poema também presente no livro de poemas Instructions Within (2008).












Um Espaço no Vazio
um poema de Ashraf Fayadh
em tradução de Marcílio Farias *

Tudo tem peso.
Mas o seu peso em particular, Poeta, é famoso nos muros do fundo
porque nem eles, nem a sua sombra pesada dão ao asfalto, ou a pintura rachada, ou aos
grafittis emparedados pelas janelas empoeiradas
uma chance de aparecer. Você também tem espaço,
espaço de sobra
no vazio que lhe cerca.

O ar cada vez mais poluído, as lixeiras transbordando,
sua alma escorrendo e misturada com o carbono que sobe do óleo queimado.
E até o seu coração entulhado, desde que as artérias foram
bloqueadas e se recusaram a dar cidadania
ao sangue que reflui de sua cabeça.

Sem as melhores partes da memória você perde muito
da gravidade original e
é forçado a seguir uma dieta bem específica
que o faz perder mais e mais de si mesmo

(Decida-se rápido, amigo,
porque a gravidade do planeta
não tem muita paciência
para esperar por muito tempo. E
lhe dou uma sugestão: substitua o tempo
pelos nomes de quem você ama
e jogue no lixo a
ultima pagina do seu diário.)

Você consome oxigênio como dois recém-nascidos
que gritam no mesmo desalento
mesmo considerando que as moléculas do ar que o circunda
carregam o som com dificuldade
e ainda corroem suas cordas vocais
mais que as areias do deserto.

Pela janela, a mesma memoria mostra uma
mendiga expondo as mais de cinquenta faces
de uma dignidade espalhada num trapo onde
acumula moedas enquanto imagina que o Homem
que a recria no vazio desta cela
um dia engendrará filhos e família. E ela
então reza para que o vazio se preencha em troca
de uma moeda que sua mão de miserável pede a você e ao seu vazio.
O deserto então sussurra:
chegou a hora de você definir um ritmo além do
sexual enquanto prossegue sua procura por
meias limpas, porque, como ensina a ciência,
bactérias crescem muito rápido na cela.

Sucumba ao sono, amigo,
porque chegou a hora de derreter-se e dissolver-se além das
mil formas impostas a você
por uma história que não é sua mas
empurrada goela abaixo desde que você nasceu. Portanto amigo
Busque evaporar-se, condensar-se a
caminho desse vazio
que lhe impuseram como
substituto dos espaços silenciosos
que você sempre cultivou com sua paixão.

*

ilustração de Joba Tridente.2016


* Nota de Marcílio Farias: Tradução livre da versão de Jonathan Wright, ganhador do Prêmio Saif Ghobash Banipal de Tradução em 2013, para A Space in the Void. Wright traduziu, entre outros autores palestinos, o premiado Amjad Nasser, autor de Land of No Rain. A Poesia de Ashraf Fayadh, Poeta Palestino condenado à morte pelo reino das arábias malditas, acusado de insultar o Islã, é cristalina, bela e irreversível.



********
A Space in the Void
by Ashraf Fayadh
translated by Jonathan Wright

Everything has weight.
Your weight is well known to the back walls
because your heavy shadow doesn’t give the asphalt, the paint, or the writings stuck on the windows a chance to appear.
You also have space, significant space,
in the void.
The air is polluted, and the dumpsters are too,
and your soul, too, ever since it got mixed up with carbon.
And your heart, ever since the arteries were blocked
and it refused to grant citizenship
to the blood coming back from your head.
Without your memory, you’d lose much of your weight.
You need to follow a proper diet
to lose more of you.
Make up your mind quickly,
because the earth’s gravity
doesn’t wait long.
Hint: replace the time factor with your name
so that you find the right way to throw the last page
of your diary
right into the rubbish bin.
You consume enough air for two new-born babies
if the screaming was equal,
given that the air molecules around you
carry sound badly, and your throat
needs repairing.
A beggar woman of more than fifty displays her dignity in
a rag studded with coins. She prays that you, and that
pretty woman who happens to be walking beside you,
will soon be blessed with a child,
to fill another part of the void
in return for a coin.
The time has come for you to pick up the pace, not sexually,
and for you to change your smelly socks.
A scientific fact: bacteria grow rapidly.
Succumb to sleep.
because the time has come for you to melt, and dissolve,
to take the shape agreed for the alienation into which you’re have been poured.
Evaporate, condense,
and go back to your void,
to occupy your usual space
in the You.

* tradução postada originalmente em Arabic Literature


ASHRAF FAYADH (Abha, Arábia Saudita, 1980) é artista plástico e escritor de origem palestina. Fayadh participou de várias exposições internacionais, incluindo a Bienal de Veneza, e foi curador da exposição Edge of Arábia. Lançou em 2008 o livro Al-Ta'limât bil-dâkhil (Instructions Within), que está lhe custando 8 anos de prisão e 800 chibatadas... Seus poemas se encontram em várias publicações.

MARCÍLIO FARIAS é formado e pós-graduado pela UnB (Universidade de Brasília) em Jornalismo, Cinema e Filosofia. Em 1989 emigrou para os Estados Unidos. Vive e trabalha entre Natal (Brasil) e Phoenix-Miami-Boston (EUA). Obras publicadas/poesia: Visual Field (1996), Watermark Press, MD, EUA; O Livro Cor de Triângulo Cor-de-Rosa (2007), e Rito para Ressuscitar um Elefante (2010), ambos pela Scortecci Editora, São Paulo, Brasil. Link: Currículo completo. Poemas publicados no Falas ao Acaso: Moebius; Mandala; Passado incômodo; (John); Diálogo visto de longe na Praça de Sé.

JONATHAN WRIGHT is a Saif Ghobash Banipal Prize-winning translator (2013) who has brought many beautiful works into English, including Amjad Nasser’s Land of No Rain, for which he was commended by this year’s Saif Ghobash Banipal Prize judges.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Ashraf Fayadh: Tristeza Feita de Massa de Pão

Ashraf Fayadh é mais um grande poeta que conheci através das traduções do escritor Marcílio Farias. Vítima do totalitarismo na Arábia Saudita, Ashraf Fayadh causou comoção em todo mundo ao ser aprisionado e condenado à morte (em novembro de 2015) por apostasia. Ou seja, teria renegado o Islam. A prova, segundo a justiça, está em alguns poemas publicados no seu livro Instructions Within (2008). O processo contra o artista plástico e escritor, reconhecido na Europa e na Arábia Saudita, por suas curadorias de exposições de arte (Edge of Arábia) e expressiva literatura, é bastante controverso. Pesariam contra ele acusações de discussão num jogo de futebol; de ateísmo, de postar vídeo-denúncia da violência da polícia religiosa...).  No recurso apresentado do seu advogado, em fevereiro de 2016, a pena de morte foi revogada, porém imposta uma pena de oito anos de prisão, 800 chicotadas e arrependimento público. Desde o anúncio da sua morte (por decapitação) artistas de todas as áreas, Anistia Internacional, associações de escritores, PEN Internacional, grupos de direitos humanos, em todo o mundo, têm se mobilizado pela sua liberdade.

A homenagem ao escritor Ashraf Fayadh segue com a publicação de mais um dos seus intensos poemas. Numa seleção de cinco postagens, você conheceu A Última Fila Para Descendentes deRefugiados e Quatro Poemas Curtos. Hoje sabe do porquê da Tristeza Feita de Massa de Pão, em tradução portuguesa, de Marcílio Farias, e inglesa, de Jonathan Wright.., poema também presente no livro Instructions Within (2008).











Tristeza Feita de Massa de Pão
(ou, É assim que se mata um Poeta)
um poema de Ashraf Fayadh
em tradução de Marcílio Farias *

Pedaços de você se atropelam uns sobre os outros -
Misturados com seu sangue, suor, fezes, e lágrimas.
O nó na língua e na garganta apontam para o
Mar que você não enxerga nesse meio dia.
E quando a esfera solar nada
Em uma órbita prefixada há milênios -
Aí a complicação começa.
O que a calçada nunca lhe perdoou
É que você costumava pisá-la
Com seus sapatos novos
Como se fosse numa placa de concreto, com
Seus pés numa placa de sapatos
E suas pernas num prato de desgraças.

Você afina as cordas de seu pensamento para
Tocar e transformar em algo palpável a euforia mórbida com
Que enterras um crânio (o seu)
Que você preferiria não carregar sobre os ombros.
Então você empilha seus ossos numa bandeja que
Esbanja brancura como se coberta por farinha de trigo - e
Você como Fermento.
E então seu corpo incha e estufa tristeza como um pão quente no forno
Da existência que o resseca enquanto
Busca um pouco d’água no deserto entre
Sua Delicadeza e sua Resistência,
E a crosta endurece enquanto
Sua testa queima - tal qual o pão saído do forno.

E como um pão, armazenam você
Na caótica memória dessa Terra, Terra com
Um centro não de Ferro mas
De Lauh Al Mahfuz, primeiro homem
Criado pelo pesadelo dos Profetas e que oprime
Seus ombros dia após dia.
Tal qual um pão, você mofa por dentro e por fora, e
Em vão força o seu corpo a resistir nessa
Cama embranquecida como
As calçadas que refletem e são
Refletidas por superfícies que normalmente somente absorvem a luz.

E o seu corpo vai esquecendo que tudo isso é
Uma mistura complexa, e que a você resta apenas
A vaga forma de suas pernas
E que você vai cada vez mais se confundindo
Com os outros andarilhos que
(ao contrário de você)
Andam em outras calçadas e são apontados pelos dedos em riste dos outros.
Você, como aqueles, não pode andar livremente, nem falar a sua língua
Nem ir para onde quiser,
Nem tropeçar e lamentar quando deseja.
Você, mais ainda, não tem o direito de abrir a janela
De sua Alma para deixar entrar o ar e a poeira do
Deserto junto com lamentações e mais tristeza.
E as vezes você esquece que, como eles, você
É como um pedaço de pão;
E sua alma foi misturada com o nada
No dia em que você nasceu, no dia em que
Sua placenta se rompeu,
E as roupas que lhe deram ao nascer foram criadas
Para esconder seu sexo mutilado e impedir que
Outros vissem o que poderia ser visto. Tanto de você
Como das mulheres - acostumadas a rasgar as
Vestes em desespero e a pendurar retratos
De filhos treinados a desenhar nas paredes
E nos carros e nos cemitérios e ferros-velhos - treinados a marchar
E marchar em nome de alguém ou algo
Tal qual um pão.
Assim a sua alma foi misturada, batida,
Homogeneizada, fermentada, assada e
Vendida em padarias que sempre violam códigos
Sanitários (falsificados e ignorados em épocas de eleição
Usados para fins ilegais votados pelos oficiais)
E devorada
Como um Pão.

*

ilustração de Joba Tridente.2016


* Nota de Marcílio Farias: Tradução livre de A Melancholy Made of Dough feita a partir da versão inglesa de Tariq al Haydar, cujo trabalho poético e de tradução tem aparecido regularmente nas publicações The Normal School, Down & Out, Crab Orchard Review, The Cafe Irreal, The Los Angeles Review. O poema original não tem título, como a maior parte dos poemas de Fayadh. O titulo foi dado pelo primeiro tradutor.



********
A Melancholy Made of Dough
by Ashraf Fayadh
translated by Tariq al Haydar

Parts of you pile one on top of another - a mixture of your blood,
sweat, remains, and discharge from your eyes.
And discharge from your eyes.
The knot of your tongue at the midway point of the ocean,
and when the sphere of the sun swims
in a preconceived orbit -
Complications!

What the sidewalk never mentioned
is that you used to step on it
and present your shoes on a plate of concrete,
your feet on a plate of shoes,
your legs on a plate of your misfortune.
You tune the strings of your head to affect your foolish delight,
you bury a skull—you’d rather not bear.
You heap yourself on a slate that claims whiteness due to a fistful of flour—
and you ferment.
You swell and puff your sadness like a hot loaf
and dry.
You search for your water
Between your delicacy and your hardness
and your breaking.
and your forehead reddens
also, like a loaf!

You are stored
in the chaotic memory
of the earth, of its core
of al-Lauh al-Mahfuz on your shoulders

You grow mold, also, like a loaf!

In vain, you resist your body’s floundering atop the whitened slate
on your bed
on the sidewalks, on
reflecting and reflected surfaces
and surfaces that absorb light.
Your body always forgets that it’s a complex admixture,
that you have only the familiar look of your legs.
That you resemble a vagrant
whose features stick out among those who walk other walks.
He can neither master their walk nor speak their tongue;
has no right to walk as he pleases
or stumble or weep as he pleases.
No right to crack open the window of the soul
to renew its air and debris and mourning.
You forget that you too are
like a loaf!

You forget how your soul was mixed
at birth, since the day they ripped your placenta,
mixed, your soul
with clothes that conceal your genitals
and reveal what may be seen of them. Of you
and of women who have grown accustomed to ripping their own collars
and hanging portraits on walls.
Of boys who have trained themselves to draw on walls
and gravestones and cars in junkyards
and to march in your name, also,
like a loaf!

So your soul was mixed:
homogenized, fermented, kneaded, baked
and sold at stores that violated health codes,
forged—and used for illegal purposes,
voted on— and eaten
like a loaf.

* tradução postada originalmente em Arabic Literature


ASHRAF FAYADH (Abha, Arábia Saudita, 1980) é artista plástico e escritor de origem palestina. Fayadh participou de várias exposições internacionais, incluindo a Bienal de Veneza, e foi curador da exposição Edge of Arábia. Lançou em 2008 o livro Al-Ta'limât bil-dâkhil (Instructions Within), que está lhe custando 8 anos de prisão e 800 chibatadas... Seus poemas se encontram em várias publicações.

MARCÍLIO FARIAS é formado e pós-graduado pela UnB (Universidade de Brasília) em Jornalismo, Cinema e Filosofia. Em 1989 emigrou para os Estados Unidos. Vive e trabalha entre Natal (Brasil) e Phoenix-Miami-Boston (EUA). Obras publicadas/poesia: Visual Field (1996), Watermark Press, MD, EUA; O Livro Cor de Triângulo Cor-de-Rosa (2007), e Rito para Ressuscitar um Elefante (2010), ambos pela Scortecci Editora, São Paulo, Brasil. Link: Currículo completo. Poemas publicados no Falas ao Acaso: Moebius; Mandala; Passado incômodo; (John); Diálogo visto de longe na Praça de Sé.

Tariq al Haydar’s work has appeared or is forthcoming in The Normal School, Down & Out, Crab Orchard Review, The Cafe Irreal, The Los Angeles Review and others.

domingo, 15 de maio de 2016

Ashraf Fayadh: Quatro Poemas Curtos

Ashraf Fayadh é mais um grande poeta que conheci através das traduções do escritor Marcílio Farias. Vítima do totalitarismo na Arábia Saudita, Ashraf Fayadh causou comoção em todo mundo ao ser aprisionado e condenado à morte (em novembro de 2015) por apostasia. Ou seja, teria renegado o Islam. A prova, segundo a justiça, está em alguns poemas publicados no seu livro Instructions Within (2008). O processo contra o artista plástico e escritor, reconhecido na Europa e na Arábia Saudita, por suas curadorias de exposições de arte (Edge of Arábia) e expressiva literatura, é bastante controverso. Pesariam contra ele acusações de discussão num jogo de futebol; de ateísmo, de postar vídeo-denúncia da violência da polícia religiosa...).  No recurso apresentado do seu advogado, em fevereiro de 2016, a pena de morte foi revogada, porém imposta uma pena de oito anos de prisão, 800 chicotadas e arrependimento público. Desde o anúncio da sua morte (por decapitação) artistas de todas as áreas, Anistia Internacional, associações de escritores, PEN Internacional, grupos de direitos humanos, em todo o mundo, têm se mobilizado pela sua liberdade.

Enquanto você aguarda a liberdade de Ashraf Fayadh, conheça um pouco mais de sua obra nesta segunda postagem, de uma série de cinco. Ontem publiquei A Última FilaPara Descendentes de Refugiados. Hoje, em tradução portuguesa, de Marcílio Farias, e inglesa, de Jonathan Wright: Quatro Poemas Curtos..., também presentes no livro Instructions Within (2008).


 









Quatro Poemas Curtos
de Ashraf Fayadh
em tradução de Marcílio Farias *

1. Oportunidades Iguais
Irmão e Irmã.
A Mãe prefere o filho à filha.
O filho ficará ao lado da mãe por todas as tragédias da vida.
A filha produzirá outro filho que ficará, então ao seu lado,
Repetindo a tragédia.


2. Um Aforisma
Amar não é ser um pássaro na mão do amado.
Melhor para este que dez na folhagem lá fora.
Um pássaro na folhagem, porém, é melhor que dez na mão do amado -
Pelo menos do ponto de vista dos pássaros...


3. Conclusões
Às vezes Amar é como uma refeição oferecida a quem jejua.
Outras vezes parece um par de sapatos novos dado
A uma criança deficiente.
De um modo geral, Amar é coisa que acaba trazendo perdas incríveis
Pra todo mundo.


4. Lógica Formal
A Velha porta aplaude o vento que aprecia
A dança que executou junto com as árvores.
A velha porta não tem mãos
E as árvores jamais frequentaram academias de dança.
E o vento é criatura invisível,
Mesmo quando dança entre as árvores.

*

ilustração de Joba Tridente.2016


* Nota de Marcílio Farias: Tradução livre feita a partir da versão inglesa de Jonathan Wright, ganhador do Prêmio Saif Ghobash Banipal de tradução em 2013, por ter revelado à língua inglesa trabalhos como o de Amjad Nasser “Land of No Rain” e outros poemas do Poeta Condenado; A foto é do dia em que o poeta Ashraf Fayadh foi preso na Arabia maldita por ter desafiado/desfiado o Islã com seus poemas. Marcílio Farias.



********
Four Short Poems
by Ashraf Fayadh
translated by Jonathan Wright

Equal opportunities
A son and a daughter.
The mother prefers the son to the daughter.
The son will stand by his mother through the vicissitudes of life.
The daughter will produce another son to stand by her side.


An aphorism 
To be in love is not to be a bird in the hand of the one you love,
better for them than ten in the bush.
A bird in the bush is better than ten in the hand,
from the birds’ point of view.


Conclusions
Sometimes love is like a meal to someone who’s been fasting
at other times it’s like a new pair of sports shoes given
to a disabled child.
Love, in general, is a deal that brings much loss
to all parties.


Logic 
The old door applauds the wind by clapping
for the dance it has performed, accompanied by the trees.
The old door doesn’t have hands
and the trees haven’t been to dancing school.
And the wind is an invisible creature,
even when it’s dancing with the trees.

* tradução postada originalmente em Arabic Literature


ASHRAF FAYADH (Abha, Arábia Saudita, 1980) é artista plástico e escritor de origem palestina. Fayadh participou de várias exposições internacionais, incluindo a Bienal de Veneza, e foi curador da exposição Edge of Arábia. Lançou em 2008 o livro Al-Ta'limât bil-dâkhil (Instructions Within), que está lhe custando 8 anos de prisão e 800 chibatadas... Seus poemas se encontram em várias publicações.

MARCÍLIO FARIAS é formado e pós-graduado pela UnB (Universidade de Brasília) em Jornalismo, Cinema e Filosofia. Em 1989 emigrou para os Estados Unidos. Vive e trabalha entre Natal (Brasil) e Phoenix-Miami-Boston (EUA). Obras publicadas/poesia: Visual Field (1996), Watermark Press, MD, EUA; O Livro Cor de Triângulo Cor-de-Rosa (2007), e Rito para Ressuscitar um Elefante (2010), ambos pela Scortecci Editora, São Paulo, Brasil. Link: Currículo completo. Poemas publicados no Falas ao Acaso: Moebius; Mandala; Passado incômodo; (John); Diálogo visto de longe na Praça de Sé.

JONATHAN WRIGHT is a Saif Ghobash Banipal Prize-winning translator (2013) who has brought many beautiful works into English, including Amjad Nasser’s Land of No Rain, for which he was commended by this year’s Saif Ghobash Banipal Prize judges.

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