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quinta-feira, 5 de abril de 2012

Jorge Luis Borges: Citação - Livro



Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, sem dúvida, o livro. Os outros são extensões do seu corpo. O microscópio, o telescópio são extensões da sua visão; o telefone é extensão da voz; logo temos o arado e a espada, extensões do seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.
Jorge Luis Borges in Borges, Oral: Livro.

Ilustração: Joba Tridente sobre Ding 

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Friedrich Hölderlin: Hipérion ou O Eremita na Grécia



Hipérion ou O Eremita na Grécia

Acabei de ler o tocante romance poético Hipérion ou O Eremita na Grécia (1797), de Friedrich Hölderlin (1770 - 1843), com tradução de Erlon José Paschoal, numa edição da Nova Alexandria (2003). A sua narrativa se dá através das cartas que o nostálgico Hiperion, apaixonado por uma Grécia há muito distante, envia ao seu amigo Belarmino, que ficou na Alemanha, falando das suas desventuras em terras gregas e do seu desesperado amor por Diotima. Não sei o quanto gostei. A inconstância de Hipérion me incomodou..., assim como me incomoda a minha. Talvez seja puro reflexo. Talvez autodefesa. Talvez pela leitura tardia. Na década de 1970, ainda estudava Mitologia Grega. Hoje, faço consultas casuais. Posso estar enganado, mas me parece que esta obra de Hölderlin inspirou Mika Waltari (1908 – 1979) em O Etrusco.

Excerto: na terceira carta a Belarmino, diz Hipérion: (...) Como o trabalhador no sono que o revigora, meu ser inquieto afunda muitas vezes, nos braços do passado inocente./ Sossego da infância! Sossego celestial! Quantas vezes me vejo sereno diante de você numa contemplação amorosa, tentando recordá-lo! Mas só nos restam conceitos daquilo que, um dia, foi ruim e depois remediado; mas da infância, da inocência não temos quaisquer conceitos./ Por ser ainda uma criança serena e nada saber de tudo o que nos cerca, não era eu mais do que sou agora, depois de todas as agruras do coração e de todas as reflexões e embates?/ Sim! A criança é um ser divino enquanto não submerge na cor de camaleão dos homens./ Ela é inteiramente o que é e, por isso, tão bela?/ A força da lei e do destino não a toca. Na criança, a liberdade existe sozinha./ Nela, há paz; ela ainda não se desagregou interiormente. Nela, há riqueza; ela conhece seu coração, mas não a escassez da vida. É imortal, pois nada sabe da morte. Mas isso os homens não conseguem suportar. O divino deve se tornar como um deles, deve aprender que eles também estão aí e antes que a natureza o expulse de seu paraíso, os homens o ondulam e o arrastam para o campo da maldição, fazendo-o ganhar a vida como eles, com o suor do próprio rosto./ Mas também é belo o tempo do despertar, desde que não nos despertem na hora errada.

A ilustração encontrei no site Quoting: Hiperion na Travessia até Caláuria - Rudolf Lohbauer (1824)

domingo, 10 de janeiro de 2010

Joba Tridente: Visão Geral da Literatura

arte (?) *

Visão Geral da Literatura
O lado “B” da literatura “A” na Internet

Esta série de cinco artigos, que escrevi em 2001, foi publicada no Caderno G, da Gazeta do Povo, de Curitiba, no segundo semestre do mesmo ano.
Este é o último artigo sobre obras literárias oferecidas gratuitamente aos internautas que buscam navegar além dos efeitos especiais dos mais diversos portais. Poderia continuar sugerindo o que há de melhor na literatura brasileira e estrangeira durante muito tempo, já que a cada dia novas obras, de domínio público, caem na rede e, sem dúvida alguma, merecem ser pescadas e deliciosamente saboreadas. Mas a idéia era usar um samburá e pegar apenas algumas, para dar ao leitor uma breve idéia do mundo fascinante da literatura de qualidade, feita para os leitores e não para os críticos.

O convite final, no entanto, é para que aquele leitor que adora ser surpreendido com um bom texto, se for preciso, vença o desinteresse do tema, o preconceito ou a “razão pessoal”, e bote os olhos em obras que fogem do lugar comum, como: Um Tratado da Cozinha Portuguesa do séc. XV, de autor anônimo, que é bem capaz de tornar os mais famintos em sofisticados e poéticos chefes de cozinha; Bom-Criolo, de Adolfo Caminha (1867-1897), obra corajosa e de um lirismo capaz de trincar seriamente qualquer radicalismo sexual; A Alma Encantadora das Ruas, de João do Rio (1881-1923), uma inesquecível seleção de crônicas para conhecer, amar e sentir saudades de um Rio de Janeiro antigo que, em alguns momentos, parece estar parado no tempo.

Vale lembrar que, além das obras de domínio público, também são distribuídas obras diversas, de autores contemporâneos editados ou não por algumas bibliotecas virtuais. O fato de elas serem oferecidas gratuitamente não quer dizer que não tenham qualidade ou que estão ali porque foram recusadas pelas editoras de marca. O que está acontecendo é que muitos autores estão experimentando e apostando numa novidade editorial em busca de novos leitores. Um exemplo disso é o livro Às Moscas, armas!, de Nelson de Oliveira. A obra é uma excelente coletânea de contos e está disponível na Catatau Editora. Nelson recebeu o Prêmio Casa de Las Américas em 1995 e venceu o Concurso de Contos da Fundação Cultural da Bahia em 1996).

Alguns leitores, mais saudosistas, se recusam a instalar aplicativos para ler as obras editadas nos formatos PDF e/ou eBook, porque acham cansativo ficar sentados em frente do computador lendo um texto literário. No entanto são capazes de passar horas vagando por poluidíssimas páginas e/ou simplesmente trabalhando em algum texto próprio. A desculpa é a de que o aplicativo eBook não se compara ao livro de papel que se carrega para todo lado, inclusive para a cama, e que o e-Book portátil, que se carrega para onde quiser, custa muito caro. O aplicativo Acrobat eBook Reader, além de aceitar textos em PDF, como todo e-Book também permite fazer anotações, marcar e destacar texto na página, como se faz em qualquer livro de papel, além de ser mais prático e rápido na busca de palavras. Talvez o mais interessante nesses aplicativos, que funcionam como uma biblioteca, já que são capazes de armazenar vários livros, é que, ao contrário dos impressos, eles possibilitam aumentar bem o tamanho das letras, aliviando as vistas cansadas de tanta leitura e tranquilizando as mentes ainda carentes.


*Encontrei esta bonita ilustração (sem a autoria) num site da SEED-PR, que também oferece download de excelentes obras literárias em Domínio Público.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Livro: Lendas do Mundo Todo



Lendas do Mundo Todo
O lado “B” da literatura “A” na Internet

Esta série de cinco artigos, que escrevi em 2001, foi publicada no Caderno G, da Gazeta do Povo, de Curitiba, no segundo semestre do mesmo ano.


Neste quarto artigo sobre as obras disponibilizadas gratuitamente na internet, através de diversas bibliotecas virtuais, e que merecem a atenção de todo leitor que gosta realmente de um bom texto, a sugestão fica com as curiosas Lendas do Mundo Todo, oferecidas pela Virtual Books.

Numa época em que o apagão quase nacional, por força da Natureza fragilizada pelo homem, sugere um recuo na evolução tecnológica, e que por um bom tempo os eletroeletrônicos deverão ser poupados, reunir a família e contar histórias à luz de velas, pode ser uma ótima oportunidade para passar o tempo.

Para os pais, tios, avós que se acham pouco sensíveis e sem criatividade, contemporâneos demais para contar histórias de reis e rainhas, anjos e demônios, príncipes e princesas, fadas e bruxas, uma navegada digital nas Lendas do Mundo Todo, pode ser uma boa solução. Quem já sabe de cor e salteado os antológicos e fascinantes contos de Andersen, Irmãos Grimm, Dickens, vai ter uma surpresa e tanto. Os profissionais contadores de histórias e professores que gostam de trabalhar o lado lúdico, mágico e fantasioso, sem nenhuma culpa, das crianças, também.

São trinta lendas catalogadas e disponibilizadas para todos os gostos: fantasia, terror, humor, absurdo, edificante, moralista, fabulista, religiosa, profana, que podem ser recebidas até por e-mail. Possível fruto de uma já esquecida tradição oral, a obra digitalizada foi compilada do livro Os Mais Belos Contos da Polônia, editado em 1948, em Portugal, que não traz o nome do autor/compilador. O leitor que cresceu ouvindo ou lendo contos de fadas, com certeza vai reconhecer muitos deles, recontados com outra roupagem. Algumas lendas, inclusive, agregam duas ou três outras, mas não ficam com cara de “lenda doida”.

As Lendas do Mundo Todo têm tudo para agradar o leitor de qualquer idade. É claro que se levando em conta o estado de espírito com que ele vai mergulhar de corpo e alma na leitura. Se for do tipo experimentalista que gosta de embromação, do texto vazio que parte de lugar nenhum para lugar algum, é melhor que fique longe. Mas, se for do tipo que busca uma leitura descompromissada, porém divertida, deve copiar todas e ir sorvendo aos poucos, porque são lendas curtas que acabam sempre antes da hora.

Destacar uma ou outra não é tarefa fácil. Vai muito do gosto pessoal de cada um. Mas, a título de curiosidade, com certeza, o leitor mais atencioso vai reconhecer em A Cotovia, uma famosíssima lenda que virou um clássico belíssimo no cinema, nas mãos de Jean Cocteau, e, recentemente, da equipe Disney, assim como Os Três Guerreiros, que ganhou diversas versões em desenho animado, uma delas protagonizada pelo Mickey. Outra curiosidade é uma das lendas ter duas versões.

Fora isso, tem a divertida história de uma princesa que, para não ficar solteira, está disposta a se casar até com um burrico; um príncipe que acaba virando um asno; uma criança que nasce com barba; um homem que não consegue parar de fumar; um anão que tem uma mosca que inferniza a vida de todo mundo; uma disputa estranhíssima entre um boi, um macaco e um porco...

domingo, 27 de dezembro de 2009

Dito Assim: Carlos Drummond de Andrade


Dito Assim são falas colhidas ao acaso, nas obras máximas de grandes autores. São convites à (re)leitura. São falas para nunca esquecer.


Dito Assim por Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) em O Avesso das Coisas - Aforismos – Record.1990:

Romances de luxúria e violência, que se supõem modernos, são plagiados do Antigo Testamento.

Há certo sadomasoquismo na idéia de Deus deixar-se crucificar pelos homens que ele criou.

É o esqueleto, e não o corpo, que detém a essên­cia da beleza.

Para cada tipo de situação política há um discur­so pronto, de que se trocam as vírgulas.


sábado, 12 de dezembro de 2009

Livro: Micrômegas

O gigante Micrômegas encontra o navio
dos filósofos. (Gravura de Charles Monnet)


Micrômegas
O lado “B” da literatura “A” na Internet


Esta série de cinco artigos, que escrevi em 2001, foi publicada no Caderno G, da Gazeta do Povo, de Curitiba, no segundo semestre do mesmo ano.

O convite de hoje é para visitar a Virtual Book que oferece grátis excelente literatura em seis idiomas (português, espanhol, inglês, francês, italiano e alemão) e descobrir o mundo iluminado, irônico e sarcástico de Voltaire (1694/1778) através da divertida ficção Micrômegas (1750).

Micrômegas é um conto de leitura fácil e rápida onde as idéias de Voltaire, o filósofo do iluminismo, “viajam” livres entre a ficção sacra e profana e a filosofia pura. Quem conhece Zadig (1749) e Cândido (1759), outras obras fascinantes do autor, vai encontrar um ponto em comum: o personagem andarilho. Assim como Zadig e Cândido vagam por países e/ou reinos desconhecidos, buscando conhecimento, sabedoria e respostas aos seus intermináveis infortúnios, Micrômegas vaga pelo Universo em busca de instrução filosófica.

As aventuras espaciais de Micrômegas, bem no estilo ficção científica, são narradas com muito sarcasmo. O personagem título é originário da estrela Sírio, mede oito léguas de altura e decidiu fazer uma viagem filosófica, ao ser condenado por causa de suas estranhas idéias, como “querer saber se a forma substancial das pulgas de Sírio era da mesma natureza que a dos caramujos”. Em Saturno ele conhece o secretário da Academia, um filósofo um tanto quanto pessimista, que o acompanha na viagem. Os dois chegam na Terra, na margem setentrional do Mar Báltico, a 5 de Julho de 1737. Como eles não conseguem enxergar os minúsculos seres humanos, duvidam que exista algum tipo de vida na Terra ou que alguém de bom senso queira viver aqui. A dúvida persiste mesmo quando encontram um navio transportando filósofos, pois acham impossível que seres tão pequenos falem ou pensem, pois “para falar é preciso pensar ou quase”. Mas logo que começam a filosofar os extraterrestres vão descobrir que estão “altamente” enganados.

Em Micrômegas, Voltaire não deixa, pensamento sobre pensamento. Com seu humor cáustico questiona a essência das coisas, do espírito, da matéria, da alma; indaga sobre a duração da vida e a razão da morte; esmiuça a estupidez de todos os seres: “Sabeis, por exemplo, que neste momento, cem mil doidos da minha espécie, que usam chapéus, matam cem mil outros animais que usam turbante ou são massacrados por eles. Por toda a Terra é assim que se procede desde tempos imemoriais. (...) Trata-se, informou o filósofo, de um pouco de lama do tamanho do vosso calcanhar. Não é que qualquer dos Homens que se deixa degolar pretenda algumas migalhas dessa lama. Trata-se apenas de saber se ela é pertença de um certo homem chamado “Sultão” ou de outro a quem denominam, não sei porquê “César”. (...) Nem um nem outro viram ou chegarão a ver o pequeno torrão em litígio; e quase nenhum destes animais, que mutuamente se degolam, viu o animal por quem se deixa matar.

Micrômegas é a obra ideal para se iniciar em Voltaire. É um texto curto, enxuto e terrivelmente atual nas suas entrelinhas, onde há bem mais que um simples colóquio filosófico sobre a vida inteligente no Universo. Bom, é verdade que os conceitos científicos do séc.18 mudaram um pouco, mas como ainda não há provas da existência ou não de seres verdes em Marte, quem pode garantir que não existam jesuítas e matemáticos resolvendo teoremas de Euclides em Sírio e Saturno?

sábado, 5 de dezembro de 2009

Livro: A Luneta Mágica


A Luneta Mágica

O lado “B” da literatura “A” na Internet


Esta série de cinco artigos, que escrevi em 2001, foi publicada no Caderno G, da Gazeta do Povo, de Curitiba, no segundo semestre do mesmo ano.

Internet, como é que a gente conseguia viver sem ela!? À primeira vista (ou seria acesso?), é como a cidade de São Paulo, sabendo procurar, encontra-se de tudo, do arco da moça ao arco da velha. O melhor é que, ao contrário de São Paulo, na rede a maioria das coisas boas é grátis. Como, por exemplo, literatura brasileira e/ou estrangeira. Num país em que o livro é um bem de consumo distante de milhões de bolsos e que a leitura de lazer não é prioridade, nem na educação, o acesso, totalmente grátis, às mais diversas obras literárias, é um colírio. Para quem realmente gosta de literatura e, portanto, não se importa com seu formato digital (PDF, ebook), há um grande número de bibliotecas disponibilizando textos literários, em várias línguas, para pesquisa e leitura no próprio site e/ou para cópias. Ali estão: Machado de Assis, Eça de Queirós, Shakespeare, Gregório de Matos, Fernando Pessoa, Antônio Vieira, Euclides da Cunha.

O propósito desta série de artigos sobre a literatura na internet é falar sobre algumas obras interessantes, curiosas, divertidas e desconhecidas do grande público leitor, como: Micrômegas, a “ficção científica” filosófica de Voltaire, o iluminista autor de Zadig; As cartas apavorantes dos primeiros aventureiros portugueses no Brasil selvagem, como a de Antônio Rodrigues, escrita em 1553; Contos infantis do mundo todo.

Neste primeiro artigo a sugestão é acessar a página da Fundação Biblioteca Nacional e (re)descobrir Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882) possivelmente na sua melhor obra: A Luneta Mágica. Este romance, pouco conhecido do grande público, é fascinante, divertido e perturbador. Publicado, entre 22 de março e 27 de setembro de 1868, como folhetim, no periódico A Semana Ilustrada, a sua trama, 133 anos depois, continua atual, uma vez que no Brasil a política ainda se arrasta, a moral engatinha e a ética ensaia os primeiros passos.

Diz-se que em terra de cego quem tem um olho é rei ou caolho. Nessa romanceada crônica de costumes, Macedo nos desvela que ter um olho em terra de cego é uma benção ou uma maldição. Na provinciana Rio de Janeiro do séc.19, o míope Simplício não mede esforços para curar a sua miopia física e moral: “Miopia física: - a duas polegadas de distância dos olhos não distingo um girassol de uma violeta. E por isso ando na cidade e não vejo as casas. Miopia moral:- sou sempre escravo das idéias dos outros; porque nunca pude ajustar duas idéias minhas. E por isso quando vou às galerias da câmara temporária ou do senado, sou consecutiva e decididamente do parecer de todos os oradores que falam pró e contra a matéria em discussão.” O seu desejo de ver as coisas do mundo é tanto que nem se importa com os meios. É nessa busca incessante que conhece um armênio mágico que cria, para ele, lunetas capazes de lhe dar a visão do real, durante três minutos, e depois disso, a visão do inesperado: a maldade e/ou a bondade que habita em todas as coisas, e/ou ainda o raro bom senso, da pessoa ou coisa observada. O que acaba colocando em polvorosa toda a sociedade do Rio antigo, que hora o hostiliza e o considera um louco e hora o ridiculariza e se aproveita de sua ignorância.

O armênio tem razão: a visão do mal é um tormento; ver muito é um erro; ver demais é um castigo; a temperança é virtude que deve presidir e moderar os gozos de todos os sentidos do homem.

A sina de Simplício no mundo seria trágica se não fosse cômica e ele o contrário de si mesmo, enredado em seus dilemas sobre o valor da cegueira e o peso da visão. A verdade é que ainda somos todos míopes diante da vida ou daquilo que não conhecemos ou compreendemos. Se 2001 (ano da publicação deste artigo) não é como imaginávamos em 1968, infelizmente continua o mesmo descrito em 1868, por Joaquim Manuel Macedo: corrupção, banditismo, oportunismo, falsidade, politicagem, fraude, ladroagem, impunidade, poder...

O nosso código é necessariamente muito sábio e muito previdente: exige que para ser jurado o cidadão brasileiro tenha apenas senso comum, se exigisse bom senso haveria desordem geral, porque segundo tenho ouvido dizer, muitos dos que têm feito e dos que fazem leis, muitos dos que as deviam mandar e mandam executar, e muitos dos que têm por dever aplicar as leis, não poderiam ser jurados por falta do bom senso! (...)
Dizem‑me isso, e asseguram‑me que o bom senso é senso raro.
Eu não entendo estas coisas; mas atendendo ao que me dizem, chego a crer que foi por essa razão que a lei não impôs a condição do bom senso nem para que o cidadão fosse jurado, nem para que fosse magistrado, deputado, senador, ministro, e conselheiro de estado.
Asseveram‑me ainda que se assim não fosse, que, se se exigisse a condição do bom senso para o exercício daquelas altas delegações e cargos do Estado, haveria quatro quintas partes do mundo oficial inteiramente fora da lei.”


Autor de romances leves como A Moreninha (1844) e O Moço Loiro (1845), talvez por isso, Joaquim Manuel de Macedo é considerado, por alguns críticos, um escritor pouco criativo. No entanto é preciso ressaltar que, se nessas primeiras obras encontramos um autor bastante jovem e romântico, aos 23/24 anos, o mesmo não se dá com A Luneta Mágica (1868) onde o escritor, beirando os 50 anos, está ciente do mundo ao seu redor e muito mais seguro do que a sua pena desenha sobre o papel. O Joaquim Macedo de A Luneta Mágica, permite-se ser irônico, sarcástico, dolorosamente divertido e, em sua reflexão dura e fria do mundo que o cerca, desfia um rosário de pérolas ainda hoje novas. Ou talvez apenas um pouco amareladas pelo ciclo vicioso da repetição.

Um advogado era para mim a luz do direito, o escudo da inocência, o campeão da lei; era a Sabedoria a pleitear pela justiça; como pois um advogado se anima a mentir diante de Deus e dos homens, a malfazer a sociedade, esforçando‑se com todo o poder das suas faculdades para que se julgue inocente e puro um assassino conhecido e provado, um malvado que ele sabe que é assassino?... e, mil vezes ainda pior, como é que outro advogado profundamente convencido de que o réu não cometeu o crime que lhe imputam, ousa ir acusá‑lo, ousa ir pedir que o encarcerem, que o condenem a trabalhos forçados?

A Luneta Mágica é um texto fácil e rápido, mas não é gratuito. É divertido, mas não é banal. Rimos da inocência de Simplício, ultrajada por familiares, mulheres, amigos e oportunistas de plantão, mas poderíamos chorar. A impressão que fica, ao fim da leitura, é a de que, com o passar do tempo, estamos a cada dia mais idiotizados nas relações humanas, políticas e sociais.

- Consola‑te, mano; tudo tem compensação: a tua miopia é uma desgraça; mas porque és míope não vês como são bonitos os bordados da farda de um ministro de estado, e portanto não te exasperas por não poder ostentá‑los.

Ainda bem que já foi decretado O Fim da História. Por quem, mesmo?

Nota: Em 1986, Wilson Rocha adaptou A Luneta Mágica para a série Teletema, da Rede Globo. O programa foi exibido de 26 a 30 de maio de 1986 e reprisado de 10 a 14 de janeiro de 1987 (Fonte: Memória Globo. Em 2009, a obra está sendo lançada no formato de História em Quadrinhos, com adaptação de Carlos Patati e arte de Marcio Castro, pela a Panda Books.

ilustração: arte de Joba Tridente sobre foto de Joaquim Manuel Macedo
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