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quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Tennessee Williams: A Catástrofe do Sucesso

Em tempos de celebridades instantâneas, cujo brilho não dura nem 10 minutos Warhol. Em tempos em que a mídia em todo mundo cria astros promissores a cada edição e ou programa de tv..., há um artigo, escrito em 1947, que vem ganhando repercussão na web: A Catástrofe do Sucesso, do dramaturgo norte-americano Tennessee Williams (1911-1983). Este fascinante texto, profundamente reflexivo, trata dos percalços da fama que enredou inesperadamente o mestre Tennessee. Ainda que amargo e melancólico, é de uma beleza imensurável. Após os dados biográficos, o texto original em inglês.

A Catástrofe do Sucesso foi publicado pela primeira vez no New York Times - Drama Section, 30 de novembro de 1947, quatro dias antes da estreia de A Streetcar Named Desire.


A Catástrofe do Sucesso
Tennessee Williams
tradução de Léo Gilson Ribeiro*
foto de Joba Tridente. 2015

Este inverno assinalou o terceiro aniversário da estreia, em Chicago, de A Margem da Vida, um evento que pôs término a uma parte de minha vida e começou outra tão diferente da precedente em todas as circunstâncias externas quanto será fácil imaginar. Fui arrancado de meu quase anonimato e atirado aos píncaros de uma fama repentina e, do precário aluguel de quartos mobiliados em várias regiões do país, fui trasladado para um apartamento de um hotel de primeira classe em Manhattam. Minha experiência não foi única, pois o sucesso muitas vezes já irrompeu, da mesma forma abrupta, na vida de muitos americanos. A história de Cinderela é nosso mito nacional favorito, a pedra fundamental da indústria cinematográfica, senão da própria Democracia. Eu já a vira representada na tela tantas vezes que estava agora inclinado a recebê-la com um bocejo de enfado, não com descrença, mas com a atitude de quem desse de ombros, exclamando: "Que bem me importa!" Qualquer pessoa dotada de dentes e cabelos tão lindos, como a protagonista cinematográfica de tal história, tinha, por força, que se divertir a valer, fosse como fosse. Você podia apostar seu último dólar e todo o chá da China em que aquela estrela nunca seria vista, viva ou morta, em qualquer tipo de reunião que exigisse um mínimo de consciência social.

Não, minha experiência não era excepcional, mas por outro lado não era tampouco comum e caso você esteja disposto a aceitar a tese um tanto eclética de que eu não escrevera tendo em mente tal experiência - e há muita gente não disposta a crer que um dramaturgo possa estar interessado em outra coisa que não seja o sucesso popular – talvez haja certa razão para compararmos estas duas fases de minha vida.

A vida que eu levara antes de atingir esse sucesso de público era do tipo que exigia resistência e tenacidade, que me fazia agarrar-me à superfície cheia de arestas que me feriam e me obrigavam a prender-me firmemente, com unhas e dentes, a cada centímetro de pedra colocado mais alto que o precedente - mas era uma vida substancialmente boa porque era do tipo para o qual o organismo humano é criado.

Eu só me dei conta de quanta energia vital eu despendera naquela luta quando esta cessou. Encontrei-me então num planalto, com meus braços ainda se agitando no ar e meus pulmões sorvendo sofregamente um ar que já não oferecia resistência. Isto era a segurança, afinal.

Sentei-me e olhei a meu redor e de repente me senti muito deprimido. Pensei comigo mesmo: não é nada, é só o período de adaptação. Amanhã de manhã, acordarei neste hotel de luxo, pairando sobre o ruído discreto que sobe de um bulevar dos quarteirões elegantes do East Side e então apreciarei seu requinte e mergulharei em seu conforto, consciente de que cheguei ao nosso conceito americano do Olimpo. Amanhã de manhã, quando eu olhar para este sofá de cetim verde, me apaixonarei por ele. É: só agora, temporariamente, que aquele cetim verde me dá a impressão de limo em água estagnada.

Mas na manhã seguinte o sofazinho inofensivo parecia ainda' mais repugnante dó que na noite anterior e eu já começava a engordar demais para usar o terno de 125 dólares que um conhecido elegante escolhera para mim. Na suíte que eu ocupava, objetos começaram a quebrar-se acidentalmente. Um braço saiu - do sofá; Queimaduras· de cigarro apareciam na superfície brilhante dos móveis. Eu deixava as janelas abertas e uma vez uma chuvarada inundou a suíte. Mas a empregada sempre endireitava tudo e a paciência do gerente do hotel era inextinguível. Festas que duravam até de madrugada não o ofendiam seriamente. Só uma bomba de demolição, parecia­-me, podia incomodar meus vizinhos.

Eu recebia minhas refeições no apartamento. Mas até isto também tinha seu quê de desencanto. No tempo que decorria entre o momento em que eu escolhia o jantar pelo telefone e o momento em que ele entrava em meu quarto num carrinho, como um cadáver transportado numa mesa de rodas de borracha, eu perdia todo interesse por ele. Uma vez pedi um bife de filé e um sundae de chocolate, mas tudo estava disfarçado tão habilmente na mesa que confundi a cobertura de chocolate com o molho da carne e a derramei sobre o bife.

É claro que tudo isto era só o aspecto mais trivial de um deslocamento espiritual que começou a manifestar-se de formas muito mais perturbadoras. Logo notei que comecei a ficar indiferente às pessoas. Senti-me presa de uma onda de cinismo. As conversas que eu ouvia me pareciam todas gravadas há muitos anos e tocadas de novo num toca-discos. Parecia que a sinceridade e a bondade tinham desaparecido da voz dos meus amigos. Suspeitei que fossem hipócritas. Parei de telefonar-lhes, parei de vê-los. Não tinha mais paciência com o que me parecia ser os sintomas de uma adulação idiota.

Fiquei tão saturado de ouvir gente dizer "adorei sua peça!" Que já nem podia mais agradecer. Eu me engasgava com aquelas palavras e virava as costas grosseiramente à pessoa geralmente sincera que as dissera. Já não sentia orgulho pela peça em si, ao contrário, comecei a enjoar dela, talvez porque me sentia demasiado morto por dentro para poder escrever outra. Eu caminhava como um zumbi, um morto conduzido pelos meus próprios pés. Sabia disso mas não contava então com amigos em quem confiasse o suficiente para leva-las para um canto e contar-lhes o que me estava acontecendo.

Esta situação estranha persistiu durante três meses, até quase fins da primavera, quando decidi submeter-me a outra operação na vista, principalmente devido ao pretexto que ela me oferecia de retirar-me do mundo detrás de uma máscara de gaze. Era já minha quarta operação na vista e talvez eu deva explicar que eu sofria há uns cinco anos de uma catarata no olho esquerdo que exigia urna série de operações torturantes e finalmente uma operação no músculo do Olho (ainda tenho esse olho, esclareço).

Bem, a máscara de gaze teve sua serventia. Enquanto eu estava repousando no hospital, os amigos, que abandonara ou insultara de uma forma ou de outra, começaram a visitar-me e agora que eu jazia em meio à escuridão e às dores suas vozes pareciam ter mudado. Ou melhor: aquela mutação desagradável, que eu suspeitara antes, desaparecera no presente e elas soavam agora como sempre nos dias saudosos de minha obscuridade perdida. Novamente eu as reconhecia como sendo vozes sinceras e bondosas, animadas por um tom inconfundível de verdade e pela virtude da compreensão que me fizera busca-las desde o início.

No tocante à minha visão física, essa última operação tinha tido resultados só relativamente bons (embora me tivesse deixado com uma pupila aparentemente preta na posição devida ou quase) mas em outro sentido, figurado, da palavra, ela servira a um propósito muito mais profundo.

Quando foi retirada a máscara de gaze, encontrei-me readaptado ao mundo. Deixei o apartamento elegante do hotel de luxo, guardei na mala meus papéis e alguns pertences e parti para o México, um país telúrico em que se pode esquecer rapidamente as falsas dignidades e as vaidades impostas pelo sucesso, um país em que vagabundos inocentes como crianças enrolam-se para dormir nas calçadas e as vozes humanas, principalmente quando a linguagem em que falam não é familiar a nossos ouvidos, parecem nos suaves como o gorjeio dos pássaros. Meu "eu" público, aquele artifício de espelhos sobrepostos, não existia aqui, e, portanto, eu voltava a meu "eu" natural.

Depois, como um ato final de restauração espiritual, permaneci durante algum tempo em Chapala, para trabalhar numa peça chamada “A Partida de Pôquer”, que se tornaria mais tarde “Um Bonde Chamado Desejo”. É só no seu trabalho que um artista pode encontrar a realidade e a satisfação, pois o mundo ambiente, real, é menos intenso que o mundo de sua invenção e consequente­mente sua vida, sem recorrer a desordens violentas, não lhe parece muito importante. A condição verdadeira de vida para um artista é aquela em que seu trabalho é não só conveniente mas também inevitável.

Para mim, um lugar conveniente para trabalhar é um lugar distante, em meio a estranhos, onde eu possa dar umas braçadas. Mas a vida deve exigir um mínimo de esforço de nossa parte. Você não deve ter gente demais a servi-lo, ao contrário: você devia fazer sozinho a maioria das coisas. O serviço oferecido pelos hotéis é embaraçoso. As empregadas, os garçons, os boys e os porteiros etc. são as pessoas mais embaraçosas do mundo porque continuamente estão a recordar-­nos as iniquidades que nós aceitamos como coisas certas. O quadro de uma velhinha ofegante que carrega com enorme esforço um balde pesado d'água por um corredor de hotel para limpar a imundice de um hóspede bêbado e cheio de privilégios sociais é um quadro que me faz ficar doente e oprime meu coração, fazendo-o murchar de vergonha deste mundo, em que essa situação é não só tolerada mas considerada como a prova dos nove de que o mecanismo da Democracia está funcionando devidamente, sem interferência de cima ou de baixo. Ninguém deveria ter que limpar a imundice de outrem neste mundo. É intoleravelmente horrível para ambas as pessoas mas talvez pior ainda para quem recebe esse tipo de serviço.

Fui tão corrompido quanto qualquer outra pessoa pelo número vastíssimo de serviços humilhantes que nossa sociedade se acostumou a esperar e do qual ela depende. Mas nós devíamos fazer tudo por nós mesmos ou deixar que as máquinas o fizessem por nós, a gloriosa tecnologia que garante ser o facho de luz do mundo futuro. Somos como um homem que comprou uma quantidade enorme de equipa­mento para acampar, que tem a canoa e a barraca, as linhas de pescar e o machado, os fuzis, os lençóis e os cobertores mas que agora, que todos os preparativos e providências estão empilhados, por mão de perito, uns sobre os outros, sente-se de repente demasiado tímido para iniciar a jornada e fica-se onde estava ontem e antes de ontem e antes e antes, olhando com desconfiança, através das cortinas de renda branca, para o céu claro de que se suspeita. Nossa grandiosa tecnologia é uma oportunidade, que Deus nos enviou, para gozarmos da aventura e do progresso que temos medo de arriscar. Nossas ideias e nossos ideais continuam sendo exatamente os mesmos, No mesmo ponto em que os deixamos, três séculos atrás. Não, desculpe! Já ninguém mais se sente seguro bastante para sequer afirma-los!

Esta foi uma digressão longa, partida de um tema pequeno para um imenso, que eu não tinha intenção, originalmente, de fazer, por isso voltemos ao que eu estava dizendo antes.

O que venho afirmando é uma simplificação extrema Ninguém escapa assim tão facilmente da sedução de uma maneira de viver sibarítica. Você não pode arbitrariamente dizer a si mesmo, de um momento para o outro: agora vou continuar minha vida como ela era antes de esta coisa, o sucesso, me acontecer. Mas logo que você apreender a vacuidade de uma vida sem lutas, você estará equipado com os meios básicos de salvação. Logo que você souber que isto é verdade, que o coração do ser humano, seu corpo e seu cérebro são forjados numa fornalha de brasas vivas especificamente para o propósito do conflito, do choque (a luta criadora), e que, uma vez desaparecendo esse conflito, o homem é uma mera espadinha de criança, boa para cortar margaridas, que não é a privação mas sim o luxo, o lobo mau, e que os dentes agudos do lobo são formados pelas vaidadezinhas e indolências pequeninas que constituem o legado do Sucesso - então, de posse desta certeza, você está pelo menos apto a saber onde reside o verdadeiro perigo.

Você sabe, então, que o "alguém" público que você é quando "tem um nome" é uma ficção criada por espelhos e que o único alguém digno de você ser é o seu "eu" solitário, não visto pelos demais, que existiu desde a sua primeira respiração e que é a soma de todas as suas ações e, portanto, está sempre num estado de eterno devenir, moldado pela sua própria vontade - sabendo essas coisas, você poderá sobreviver até à catástrofe do Sucesso!

Nunca é tarde demais, a menos que você abrace a deusa­-cadela, a Fama, como William James a alcunhou, com os braços abertos e ache em seus abraços sufocantes exatamente aquilo que o menininho inquieto dentro de você, com saudades de casa, queria: proteção absoluta e uma vida sem sacrifício e esforços de espécie alguma. A segurança é uma espécie de morte, creio, e pode atingi-la numa enxurrada de cheques de direitos autorais, junto a uma piscina em forma de rim em Beverly Hills ou em qualquer outro lugar que esteja divorciado das condições que tornaram você um artista, se é isso que você é ou foi ou quis ser. Pergunte a qualquer pessoa que já passou pelo tipo de sucesso de que estou falando. Para que serve? Provavelmente para obter uma resposta honesta, você terá que lhe dar uma injeção de soro da verdade, mas a palavra que ele emitirá finalmente, com um gemido, não pode ser publicada em publicações refinadas.

Então o que nos serve, afinal? O interesse obsessivo pelas vicissitudes humanas, além de uma certa dose de compaixão e de convicção moral, que pela primeira vez tornou a experiência de viver algo que deve ser traduzido em pigmento, música, movimentos corpóreos ou poesia ou prosa ou qualquer coisa dinâmica e expressiva... isso é que lhe será útil se é que você tem objetivos sérios. William Saroyan escreveu uma grande peça sobre esse tema, o de que a pureza de coração é o único sucesso que vale a pena termos. "Durante sua vida - viva!" A vida é curta e não volta nunca mais. Ela está fluindo furtivamente agora, enquanto eu escrevo isto e enquanto você me lê e o pêndulo de relógio, ao oscilar, repete somente:

"Nunca-mais, nunca-mais, nunca-mais", a menos que você se lance, de coração, em oposição a ele.



Tennessee Williams (Columbus: 26.03.1911 - Nova York: 25.02.1983) é um dos mais importantes escritores e dramaturgos norte-americanos do século 20. Autor de inúmeras peças de grande sucesso, Tennessee foi merecedor, entre outros prêmios, de dois Pulitzer (1948: A Streetcar Named Desire/Um Bonde Chanado Desejo e 1955: Cat on a Hot Tin Roof/Gata em Teto de Zinco Quente), de um Tony Award (1952: The Rose Tattoo/A Rosa Tatuada). Williams adaptou um grande número de suas peças para o cinema. Há farto material sobre ele na web.

* Nas várias postagens de A Catástrofe do Sucesso, na web, até parece que o texto foi traduzido automaticamente. Como sou um chato, vasculhei até encontrar, em um blog, que a tradução seria de Léo Gilson Ribeiro (Varginha: 26.01.1928 - São Paulo: 11.01.2007): jornalista, escritor, ensaísta, crítico literário, tradutor. Autor de Crônicas do Absurdo (1964), recebeu, entre os vários prêmios, o Esso de Jornalismo (1969: A Noite dos Balões) e o da Associação Paulista de Críticos de Arte-APCA (1988: O Continente Submerso). Léo Gilson foi colaborador da revista The Kennyon Review (EUA), Christ und Welt (Alemanha), Lever (Inglaterra), Caros Amigos. Trabalhou no Diário de Notícias, Correio da Manhã, Jornal da Tarde, Veja. Escreveu a peça Balada de Manhattan (Prêmio Governador do Estado, 1971) e traduziu Tennessee Williams e Steven Berkoff.


On A Streetcar Named Success
by
Tennessee Williams

(This essay appeared in The New York Times Drama Section, November 30, 1947 — four days before the New York opening of A Streetcar Named Desire.)

Sometime this month I will observe the third anniversary of the Chicago opening of “The Glass Menagerie,” and even which terminated one part of my life and began another about as different in all external circumstances as could be well imagined. I was snatched out of a virtual oblivion and thrust into sudden prominence, and from the precarious tenancy of furnished rooms about the country I was removed to a suite in a first-class Manhattan hotel. My experience was not unique. Success has often come that abruptly into the lives of Americans.

No, my experience was not exceptional, but neither was it quite ordinary, and if you are willing to accept the somewhat eclectic proposition that I had not been writing with such an experience in mind–and many people are not willing to believe that a playwright is interested in anything but popular success–there may be some point in comparing the two estates.

The sort of life which I had had previous to this popular success was one that required endurance, a life of clawing and scratching along a sheer surface and holding on tight with raw fingers to every inch of rock higher than the one caught hold of before, but it was a good life because it was the sort of life for which the human organism is created.

I was not aware of how much vital energy had gone into this struggle until the struggle was removed. I was out on a level plateau with my arms still thrashing and my lungs still grabbing at air that no longer resisted. This was security at last.

I sat down and looked about me and was suddenly very depressed. I thought to myself, this is just a period of adjustment. Tomorrow morning I will wake up in this first-class hotel suite above the discreet hum of an East Side boulevard and I will appreciate its elegance and luxuriate in its comforts and know that I have arrived at our American plan of Olympus. Tomorrow morning when I look at the green satin sofa I will fall in love with it. It is only temporarily that the green satin looks like slime on stagnant water.

But in the morning the inoffensive little sofa looked more revolting than the night before and I was already getting too fat for the $125 suit which a fashionable acquaintance had selected for me. In the suite things began to break accidentally. An arm came off the sofa. Cigarette burns appeared on the polished surfaces of the furniture. Windows were left open and a rainstorm flooded the suite. But the maid always put it straight and the patience of the management was inexhaustible. Late parties could not offend them seriously. Nothing short of a demolition bomb seemed to bother my neighbors.

I lived on room-service. But in this, too, there was a disenchantment. Sometime between the moment when I ordered dinner over the ‘phone and when it was rolled into my living room like a corpse on a rubber-wheeled table, I lost all interest in it. Once I ordered a sirloin steak and a chocolate sundae, but everything was so cunningly disguised on the table that I mistook the chocolate sauce for gravy and poured it over the sirloin steak. Of course all this was the more trivial aspect of a spiritual dislocation that began to manifest itself in far more disturbing ways. I soon found myself becoming indifferent to people. A well of cynicism rose in me. Conversations all sounded like they had been recorded years ago and were being played back on a turntable. Sincerity and kindliness seemed to have gone out of my friends’ voices. I suspected them of hypocrisy. I stopped calling them, stopped seeing them. I was impatient of what I took to be inane flattery.

I got so sick of hearing people say, “I loved your play!” that I could not say thank you any more. I choked on the words and turned rudely away from the usually sincere person. I no longer felt any pride in the play itself but began to dislike it, probably because I felt too lifeless inside ever to create another. I was walking around dead in my shoes, and I knew it but there was no one I knew or trusted sufficiently, at that time, to take him aside and tell him what was the matter.

This curious condition persisted about three months, till late spring, when I decided to have another eye operation, mainly because of the excuse it gave me to withdraw from the world behind a gauze mask. It was my fourth eye operation, and perhaps I should explain that I had been afflicted for about five years with a cataract on my left eye which required a series of needling operations and finally an operation on the muscle of the eye. (The eye is still in my head. So much for that.)

Well, the gauze mask served a purpose. While I was resting in the hospital the friends whom I had neglected or affronted in one way or another began to call on me and now that I was in pain and darkness, their voices seemed to have changed, or rather that unpleasant mutation which I had suspected earlier in the season had now disappeared and they sounded now as they used to sound in the lamented days of my obscurity. Once more they were sincere and kindly voices with the ring of truth in them.

When the gauze mask was removed I found myself in a readjusted world. I checked out of the handsome suite at the first-class hotel, packed my papers and a few incidental belongings and left for Mexico, and elemental country where you can quickly forget the false dignities and conceits imposed by success, a country where vagrants innocent as children curl up to sleep on pavements and human voices especially when their language is not familiar to the ear, are soft as birds’. My public self, that artifice of mirrors, did not exist here and so my natural being was resumed.

Then, as a final act of restoration, I settled for a while at Chapala to work on a play called “The Poker Night,” which later became “A Streetcar Named Desire.” It is only in his work that an artist can find reality and satisfaction, for the actual world is less intense than the world of his invention and consequently his life, without recourse to violent disorder, does not seem very substantial. The right condition for him is that in which his work is not only convenient but unavoidable.

This is an over-simplification. One does not escape that easily from the seductions of an effete way of life. You cannot arbitrarily say to yourself, I will now continue my life as it was before this thing. Success happened to me. But once you fully apprehend the vacuity of a life without struggle you are equipped with the basic means of salvation. Once you know this is true, that the heart of man, his body and his brain, are forged in a white-hot furnace for the purpose of conflict (the struggle of creation) and that with the conflict removed, the man is a sword cutting daisies, that not privation but luxury is the wolf at the door and that the fangs of this wolf are all the little vanities and conceits and laxities that Success is heir to–why, then with this knowledge you are at least in a position of knowing where danger lies.

You know, then, that the public Somebody you are when you “have a name” is a fiction created with mirrors and that the only somebody worth being is the solitary and unseen you that existed from your first breath and which is the sum of your actions and so is constantly in a state of becoming under your own volition–and knowing these things, you can even survive the catastrophe of Success!

It is never altogether too late, unless you embrace the Bitch Goddess, as Willimam James called her, with both arms and find in her smothering caresses exactly what the homesick little boy in you always wanted, absolute protection and utter effortlessness. Security is a kind of death, I think, and it can come to you in a storm of royalty checks beside a kidney-shaped pool in Beverly Hills or anywhere at all that is removed from the conditions that made you an artist, if that’s what you are or were intedned to be. Ask anyone who has experienced the kind of success I am talking about–What good is it? Perhaps to get an honest answer you will have to give him a shot of truth-serum but the word he will finally groan is unprintable in genteel publications.

Then what is good? The obsessive interest in human affairs, plus a certain amount of compassion and moral conviction, that first made the experience of living something that must be translated into pigment or music or bodily movement or poetry or prose or anything that’s dynamic and expressive–that’s what’s good for you if you’re at all serious in your aims. William Saroyan wrote a great on this theme, that purity of heart is the one success worth having. “In the time of your life–live!” That time is short and it doesn’t return again. It is slipping away while I write this and while you read it, and the monosyllable of the clock is Loss, Loss, Loss unless you devote your heart to its opposition.

domingo, 2 de março de 2014

Joba Tridente: Quanto Vale a Cultura?

Há 15 anos publiquei este artigo na Gazeta do Povo, em Curitiba-PR. Naquele tempo (que eu me lembre) as escolas não eram obrigadas a aprovar alunos para cumprir a cota de formação escolar. Naquele tempo (que eu me lembre) não havia livros censurados por conta de um texto adulto distribuído para criança ou por conta de um texto antigo soar preconceituoso no esquema do politicamente correto de hoje... Naquele tempo já havia alunos sem escola, professores miseráveis (com seus salários de fome), estudantes sem merenda, violência escolar... 2014 vai que vai. O que mudou? O que melhorou? Diga você!

Em 2011 postei este texto no Falas ao Acaso. Estou republicando por causa do bonito filme A Menina Que Roubava Livros. Na verdade, a causa é os comentários tolos ao filme, que tenho lido na rede, postados por “leitores” (e não leitores) do livro.


Quanto Vale a Cultura?
Joba Tridente

Dia desses um homem comum, quase do povo, virou notícia nacional. Não mordeu um cachorro ou cometeu algum horrendo crime humano. Estava apenas preocupado com a sua triste sorte de interior. Amante dos livros e a caminho de inteirar a idade, chegou a uma óbvia conclusão. Frente à sua biblioteca particular, era como se estivesse frente a um espelho. Ele e os livros envelheciam. Ele, dentro do ciclo vital humano que, para uns é curto demais e para outros é terrivelmente infinito. Os livros, nas estantes, alguns já meio gagás e mudos há muito.

Assim como alguns brasileiros, o homem comum, quase do povo, venceu as etapas escolares e se formou em sociologia. A caminho da sua formação foi guardando os livros auxiliares e outros que lhe interessavam. Construiu um pequeno e doméstico patrimônio cultural, mas não financeiro. Enquanto vivo, com uma profissão reconhecida, até presidencialmente, poderia manter o seu corpo, depósito da sua cultura, em plena atividade, mas, e depois? Quando a alma, com a cultura adquirida, o deixasse, o que seria feito dele? Seria enterrado como indigente? Serviria de corpo-cobaia para experimentos e treinos em algum hospital-escola? Que destino teria aquele que lhe servira a tantos ir e vir? Triste sina a sua, e a de milhões de brasileiros: não ter onde cair morto! Sim, porque não juntou em bens de valor o suficiente para comprar uma vala, sete palmos, um túmulo, uma tumba qualquer em um cemitério qualquer, para ser enterrado o seu corpo pós-vida. E os livros, seu bem maior, sucumbiriam ao pó e as traças? Aí estava um curioso impasse a ser resolvido.

Poderia, evidentemente, enquanto é tempo, vender o seu pequeno acervo a um sebo e até acompanhar destino final dele. Mas a questão continuava, teria dinheiro suficiente para comprar um túmulo? Nos dias de hoje é um mercado concorrido este. Aliás os dois mercados são concorridos, o dos sebos, com venda de livros, discos e tudo o mais que for vendável e o dos cemitérios, com mais gente nascendo e morrendo a cada dia. Talvez, com a Lei de Doação de Órgãos, em alguns casos, pode-se até ter nada para enterrar e ainda há a opção do crematório, para poucos e privilegiados. Mas ainda será pouco.

Assim, na dúvida do preço alcançado pelos seus livros, o homem comum, quase do povo, resolveu fazer um trato, uma permuta com o prefeito de sua cidade, doaria o seu acervo para a Biblioteca Pública, administrada pela prefeitura, em troca de um túmulo com lápide, onde pudesse deixar um epitáfio. O que foi aceito e virou notícia. Solução original, trocar a o seu acervo por uma sepultura com lápide. Assim o seus livros vão para uma biblioteca pública e o seu corpo para um túmulo com lápide e tudo.

O que me inquieta na verdade, já que depois de morto, tanto faz enterrar, queimar, cortar, jogar no lixo ou, algum responsável, usar como bem entender o meu corpo..., o que me incomoda, é o preço da cultura. O preço do conhecimento, da formação profissional de um indivíduo. Será que a cultura não vale mais que um reles túmulo com lápide? Será que ela só terá algum valor como um bem qualquer, depois da morte, como é comum, para pagar um enterro?

Somos quase todos mendigos do saber, implorando algum trocado para chegar até a próxima página. Mas as vírgulas são muitas e os pontos finais estão sempre interrompendo o livre trânsito do pensamento. Somos Gulliver e Malazartes. Macunaína e Quixote. Policarpos eternamente, em troco da boa morte. Não importa se Ubirajaras, Zés, Pedros ou Manés, a verdade é que estamos a todo momento com o travessão na garganta, as reticências na boca e o carvão gasto nas mãos. Implorando, primeiro, um lugar na vida. Depois...

Para uns o melhor amigo de um homem é o cão. Para outros o gato, o peixe, a cobra, a aranha, a galinha, a vaca... Para a minoria, o livro. Isso mesmo, o livro, este ser alienígena que apavora a tantos e tem sobrevivido a todos. Assim, será que alguma prefeitura aceitaria um bichinho qualquer, em troca de um túmulo com lápide ou mesmo uma cova rasa sem ao menos uma identificação? Nem o zoológico, com essa crise econômica braba que não perdoa sequer os leitores mais assíduos. No entanto, ainda há quem queira receber e cuidar de um livro, em troca de um agrado qualquer. É que, no Brasil, não é tão fácil, quanto parece, comprar e manter a companhia de um livro, mesmo que se queira. Não que seja ilegal, muito pelo contrário, há até quem o incentive, o problema está no preço nada convidativo. É claro, e também na falta de tradição à leitura (ou seria na alfabetização?).

Conheço muita gente que não entende como é que alguém pode “gostar de ler”, principalmente livros, quando pode “ouvir rádio e ver televisão”. Semana passada, comentando com um amigo sobre um livro que me interessava, como livre pensador, num mundo repleto de tradições contra ou a favor do homem pensante, ele tranquilamente confessou: “Não gosto de ler livros, é pura perda de tempo. Gosto é de ver a história de um livro de sucesso transformado em filme e passar dublado na televisão. Não gosto de ver filme no cinema porque a gente tem que ler as legendas. O filme é legal porque a gente consegue viajar na história. No livro não. Acho que um escritor, em vez de escrever, devia gravar a sua história em fita ou CD, pra gente ficar deitado e ouvindo, sem precisar ficar prestando muita atenção ou segurando o livro e virando as páginas.” Como será que alguém consegue imaginar em cima do que já está (re)imaginado e pronto num filme? Não sei. Ele não é o único, o primeiro ou o último, mas o seu discurso faz eco ao que se ouve, daqueles que temem a palavra. Daqueles que temem o tom das palavras naqueles que têm o dom da imaginação. 

Daí que pergunto, quanto vale a cultura? Cada livro comprado e bem cuidado pode funcionar como uma poupança cemiterial? Se isso virar moda, pelo tamanho do túmulo será possível saber o tamanho da biblioteca ou o grau cultural do morto? Ditaremos um novo (?) ditado: “Diga-me o tamanho da tua biblioteca e eu te direi o túmulo que terás!” E se um sujeito, digamos, um pré-morto, conseguir apenas um túmulo simples, de uma prefeitura pobre, poderá pleitear junto às autoridades competentes a realização de um chá-de-túmulo, para arrecadar fundos (e livros?) e providenciar melhorias na sepultura e assim, no pós-morte se rodear de todo conforto? Quem viver, verá! (ou será: quem ler, sepultar-se-á?).

*
Joba Tridente: Artigo (20.04.1998) e Foto (07.01.2014)


domingo, 16 de setembro de 2012

Literatura Infantil: A BONECA



Dia desses, pesquisando textos para um novo Projeto de Contação de Histórias, dei de cara com a poesia/conto A Boneca, de Olavo Bilac (1865 - 1918). Ela se encontra no seu famoso livro Poesias Infantis (1895), que conheço desde a minha infância.

O curioso é que, logo depois de reencontrar a singela poesia de Bilac, eu acordei, numa manhã de domingo, certo de que já havia lido aquela história (envolvendo uma boneca) em algum outro lugar e nas palavras de outro autor. Pensei até que (A Boneca) pudesse ser uma tradução de Bilac para algum conto dos Grimm ou Andersen, já que era tradutor e perambulou pela Europa.

Lá fui eu revirar arquivos, inclusive digitais, e acabei encontrando duas variações do tema: A Boneca, compilada por Guerra Junqueiro (1850 - 1923), publicada em Contos Para A Infância - Escohidos Dos Melhores Autores, Lisboa (1877), e Mary and Lucy, que se encontra em Little Stories for Little Children, by Anonymous, Londres (18..), ambos disponibilizados pelo Projeto Gutemberg. Para quem gosta de literatura o Gutemberg (entre outros sites DP) é um Clássico Paraíso, onde é possível encontrar até raridades musicais. A maioria do material disponível (em vários formatos de download) está em inglês. Mas há um bocado de literatura em português (de Portugal). Guerra Junqueiro, por exemplo, fica ao gosto do leitor: português arcaico ou atualizado.

Estou compartilhando esta curiosidade, com quem gosta de Literatura e ou trabalha com Contação de Histórias, porque acho divertido e importante conhecer variações de linguagem de um tema em comum na obra de autores contemporâneos ou não. Além de aproveitar o contexto para dar alguma ocupação aos macaquinhos do meu sótão, que também pensam por conta própria. Será que o tema (A Boneca) dos três contos publicados em datas próximas, na Inglaterra (Anonymous), Portugal (Junqueiro) e Brasil (Bilac), é mera coincidência? Ou tem a ver com a moral vigente e o estilo literário destinado ao público infantojuvenil que via o raiar de um novo dia? Por que os contos são tão iguais (conteúdo) nas suas diferenças (formas)? Ah, o inconsciente coletivo a cada dia mais singular, num mundo em que o cidadão se torna cada vez mais cada um.

Além da forma/estilo dos autores, o interessante nos três contos é o preceito (ou seria conceito?) moral que encerrava a literatura em fins do Século 19. O que aconteceu com ele nos anos 1900 e 2000? Mudaram os preceitos ou mudamos nós os conceitos de educação, moral e até mesmo de civilidade (ou seria de civismo?) nas escolas e nas comunidades? Ah, o politicamente (in)correto de hoje e a insana caça ao ideário literário de ontem. Como se fosse possível pensar o verbo de ontem com a cabeça verborrágica de hoje! Ou racionalizar o lúdico de hoje isento (ou seria ausente?) de “porquê”! A arte “não tem quê” isso ou aquilo. A arte é arte, independente de lhe atribuírem funções (terapêuticas?)!

O lúdicontemporâneo é uma febre colorida com efeitos colaterais. É tão multicolorido quanto multifacetado! Estou em meio a um processo de pesquisa (quantos contos falando de boneca já foram escritos?) e ainda longe de respostas que me satisfaçam. Afinal, sou um livre pensador livre (ou seria contestador?). O conto A Boneca, colhido por Guerra Junqueiro, não é o que acredito ter lido no passado.

Leia a versão atualizada (e abrasileirada) de A Boneca/Junqueiro. Leia o conto A Boneca/Bilac. Leia a tradução (sem compromisso) que fiz de Mary and Lucy/Anonymous (seja ele quem for!).


LINKS das Edições Integrais de Olavo Bilac, Guerra Junqueiro e Anonymous (em inglês). O livro de Olavo Bilac é raríssimo e, depois de muito fuçar na rede, o encontrei, entre outras preciosidades, no site da Unicamp.
- Olavo Bilac: Poesias Infantis
- Guerra Junqueiro: Contos Para A Infância

LINKS - Cortando caminho
- Projeto Gutemberg: Autores
- Projeto Gutemberg: Página inicial em português

*Artigo e ilustração/colagem de Joba Tridente - 2012

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Literatura: Carta de Antônio Rodrigues



Carta de Antônio Rodrigues
O lado “B” da literatura “A” na Internet

Esta série de cinco artigos, que escrevi em 2001, foi publicada no Caderno G, da Gazeta do Povo, de Curitiba, no segundo semestre do mesmo ano.

Bem é que morram, porque não haverá ouro para tantos!
Este é um breve trecho da cópia de uma impressionante e, por vezes, apavorante carta que o soldado, viajante, aventureiro e jesuíta português Antônio Rodrigues enviou, em maio de 1553, aos seus irmãos jesuítas em Portugal e que a Fundação Biblioteca Nacional está disponibilizando, juntamente com A Alma Encantadora das Ruas, de João do Rio (1881/1923), no arquivo: Cronistas e Viajantes.

A carta é um relato dos sonhos, esperanças e pesadelos de Antônio Rodrigues em busca de uma terra repleta de riquezas: “E é que eu e outros Portugueses, assim por vaidade como por cobiça de ouro e prata, no ano de 1523, partimos de Sevilha em uma armada, que fazia Dom Pedro de Mendonça, na qual éramos 1800 homens; e todos carregados de nossa cobiça, chegamos, com próspero vento, ao Rio da Prata e entramos pelo rio com as naus 60 léguas.” O seu conteúdo desvela a confissão dolorida e amarga de um homem procurando compreender e situar a realidade que o cerca, diante da “lógica católica apostólica” a que serve. A culpa de Antônio Rodrigues, “em pensamentos, palavras e obras”, parece infinita e a sua súplica de perdão atravessará os “mares de Portugal” e também os séculos, atordoando o leitor habituado com a História Oficial. Nada se compara com o fato sendo descrito por quem comete o ato. Documento ideal para ser discutido e analisado por professores e alunos de história, geografia, antropologia, sociologia, economia, a carta detalha contrastes e confrontos entre civilizados e selvagens. Resta-nos saber quem é quem pois, uns são movidos pela ambição e outros para se livrar do jugo.

(...) Prouve a Nosso Senhor castigar a nossa cobiça e pecados, que soldados comumente fazem: permitiu vir tanta fome ao arraial que não davam a comer a cada um, cada dia, senão seis onças de pão. E, porque a gente por esta causa, com a fraqueza, não podia trabalhar, era muito castigada dos oficiais da ordem da guerra, porque lhes davam com paus, e assim morriam cada dia 4 ou 5.
Propondo-se a relatar uma viagem de ida e volta do Brasil ao Peru, Antônio Rodrigues serve-nos em uma cuia a História como ela era e assim, diante dos nossos olhos, o domínio português se firma, vilarejos são levantados e povos exterminados, enquanto a ambição leva dezenas de confiantes homens cristãos ao Peru e traz de volta uns poucos miseráveis sobreviventes. Quem dera fosse pura ficção!

(...) Porque, enforcando-se a dois soldados, lhes comeram as barrigas das pernas, e um homem matou em sua casa a um seu primo e comeu-lhe a assadura. Acabando de a comer o acharam que estava para morrer, permitindo Deus por seu justo juízo que o matasse a comida com que a morte do primo procurou. Aconteceu também comerem uns o excremento que outro depois de ter comido deitava, ainda que pela corrupção dos corpos era aquilo tão peçonhento que quem o comia logo morria. E, desta maneira, uns com fome, outros por os matarem as onças, e outros os gentios, morreram neste tempo, que se fez a cidade, 600 homens.

Para quem quer conhecer o Brasil de anteontem, pra entender o Brasil de hoje, a Carta de Antônio Rodrigues é um bom começo. Ela não é tão idílica, como a famosa Carta de Pero Vaz de Caminha (também disponível no site da FBN), portanto, que o leitor fique prevenido pois, em alguns momentos, a narrativa pode embrulhar o estômago mais sensível. É que não há como ficar indiferente aos cheiros da miséria e aos gritos da violação da terra, dos povos, das crenças primitivas, em nome de Jesus Cristo.

Há muitas terras povoadas deste gênero de gentio, os quais obedecem a seus principais e neles há grande disposição para se fazerem cristãos. Praza a Nosso Senhor de mandá-los visitar, porque a nossa, porque não era para ganhar as suas almas senão para ver se tinham ouro, não lhes fez nenhum proveito na fé.

ilustração: Terra Brasilis, Atlas Miller, c 1523 – 1525/Mapas Históricos Brasileiros/ Grandes Personagens da Nossa História – Abril Cultural, 1973

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Joba Tridente: Aula de Religião


Aula de Religião
uma questão polêmica

1
Garoto. No fim do primário ou começo do ginásio. Tive Aula de Religião (Católica Apostólica Romana, evidentemente) na escola pública, dada por um padre. Na época era Católico Apostólico Romano. Não me incomodava muito. Não tardou para eu aprender a diferença entre Religião e Teologia. Ao compreender o que era singular e o que era plural, encontrei a dúvida. Ao buscar respostas virei um Livre Pensador. Na minha cidade, no interior de São Paulo, numa região chamada de Alta Paulista, numa cidade chamada Osvaldo Cruz, tinha além da Igreja Católica Apostólica Romana, uma Igreja Batista e uma Igreja Presbiteriana, além de um Centro Espírita, pelo que me lembro. Isso foi lá pelos anos 1960. Era adolescente. Estou certo de que os fiéis de outras crenças não eram obrigados a assistir a Aula de Religião sobre o Catolicismo, que encerrava com uma reza.

2
Hoje há um mercado de religiões (e variantes) para todo tipo de gosto e de bolso e de intenção. E todas as religiões são favoritas e únicas, do deus lá delas, em detrimento do deus lá das outras. O homem teme o que ele criou. O que ele inventou. Inventa-se um monstro para temê-lo. Inventa-se um deus para todas as causas. Religião não deve ser imposta, quiçá proposta. O oculto na verdade de um nem sempre (ou nunca) é satisfação na verdade exposta do outro. Cada um compreende a sua “necessidade” e coisa alguma mais aquém ou além dela. O homem religioso é egoísta (como a sua crença) por natureza. Partilhar (se não a crença) é força de expressão ou gesto de ocasião. Tudo é dízimo no corpo ou na alma daquele que ignora a própria “fé”.

3
Ensinar Teologia ou ao menos abrir espaço de discussão em sala de aula, num leque de opções religiosas e crenças outras, parece positivo..., mas pode ser também perigoso, sem a neutralidade do palestrante. Há no mundo uma corrente (pequena ainda) que crê num totalitarismo evangélico, amanhã, mais forte e fundamentalista que o do catolicismo cristão, ontem. É mais que possível. Quando vemos “religiosos” vociferadores a qualquer hora do dia (e da noite) nas redes de TV ou pelas ruas ou pelos “templos” impondo as suas “verdades”, há que se temer. Quando vemos “religiosos” vociferadores a qualquer hora do dia (e da noite) travando (e tramando) sua eterna guerra santa em nome do “impiedoso”, infiltrados nos negócios políticos e financeiros, há que se temer. Quando se vê, se lê, se ouve vociferações religiosas, de quem quer seja (sagradas ou profanas) há que se temer, sim!

4
Se, aos olhos marxistas, ontem a religião era “o ópio do povo”, aos olhos democratas, hoje ela é “o crack do povo” Só mudou o nome da droga. Liberar é muito diferente de libertar. Dar aula sobre religiões, com a sua literatura (mítica/mística/erótica) incorporada, é uma coisa. Mas, dar aula somente sobre uma religião e a sua literatura incorporada, em detrimento de outras, me parece preconceituoso. Ou se fala sobre todas ou sobre nenhuma. Na verdade, não vejo em quê a aula de religião pode ajudar/melhorar a vida (profissional) de uma gente antes carente de saneamento básico, comida, educação, saúde, escola, hospital, moradia, cidadania... , e que a cada dia está mais para um trecho de Partido Alto (de Chico Buarque): Diz que Deus, diz que dá/ Diz que Deus dará/ Não vou duvidar, ô nega/ E se Deus não dá/ Como é que vai ficar, ô nega/ Diz que Deus, diz que dá/ E se Deus negar, ô nega/ Eu vou me indignar e chega...; do que para um trecho do verso do poeta latino Juvenal (in Sátiras X): mens sana in corpore sano (mente sã em corpo são).

5
A propósito de mens sana in corpore sano, que tem hoje as mais diversas aplicações, há um trecho da Sátira X, em tradução livre, na Wikipédia: Deve-se pedir em oração que a mente seja sã num corpo são./ Peça uma alma corajosa que careça do temor da morte,/ que ponha a longevidade em último lugar entre as bênçãos da natureza,/ que suporte qualquer tipo de labores,/ desconheça a ira, nada cobice e creia mais/ nos labores selvagens de Hércules do que/ nas satisfações, nos banquetes e camas de plumas de um rei oriental./ Revelarei aquilo que podes dar a ti próprio;/ Certamente, o único caminho de uma vida tranquila passa pela virtude.;
e o recorte do mesmo trecho (com os dois versos finais) que pode ser lido em Boletim de Estudos Clássicos – 33, num estudo de Joana Abranches Portela: Mas, se à viva força queres fazer algum pedido e oferecer nos santuários/ as entranhas e os salpicões divinatórios de um porquinho luzidio,/ então pede uma mente sã num corpo são./ Pede uma alma forte isenta do terror da morte,/ que coloque uma vida longa em último entre os dons/ da natureza, que possa suportar quaisquer canseiras,/ que não conheça a ira, que não tenha ambições e considere preferíveis/ os sofrimentos de Hércules e os seus duros trabalhos/ à volúpia e aos festins e aos cochins de Sardanapalo./ O que te aconselho, tu mesmo a ti podes dar, certamente/ é pela virtude que se abre o único caminho de uma vida tranquila./ Não precisas de nenhum deus, se tens a razão. Somos nós/ que te fazemos deusa, ó Fortuna, e te colocamos no céu.

6
Ou seja, fora do contexto, cada um faz a leitura que quiser ou puder dos poemas de Chico Buarque ou de Juvenal. Apesar dos poetas não dizerem exatamente o que achamos que eles disseram, já que um trecho não expressa o poema inteiro. É assim, também, com a religião.

ilustração de Joba Tridente: Mito

sábado, 12 de dezembro de 2009

Livro: Micrômegas

O gigante Micrômegas encontra o navio
dos filósofos. (Gravura de Charles Monnet)


Micrômegas
O lado “B” da literatura “A” na Internet


Esta série de cinco artigos, que escrevi em 2001, foi publicada no Caderno G, da Gazeta do Povo, de Curitiba, no segundo semestre do mesmo ano.

O convite de hoje é para visitar a Virtual Book que oferece grátis excelente literatura em seis idiomas (português, espanhol, inglês, francês, italiano e alemão) e descobrir o mundo iluminado, irônico e sarcástico de Voltaire (1694/1778) através da divertida ficção Micrômegas (1750).

Micrômegas é um conto de leitura fácil e rápida onde as idéias de Voltaire, o filósofo do iluminismo, “viajam” livres entre a ficção sacra e profana e a filosofia pura. Quem conhece Zadig (1749) e Cândido (1759), outras obras fascinantes do autor, vai encontrar um ponto em comum: o personagem andarilho. Assim como Zadig e Cândido vagam por países e/ou reinos desconhecidos, buscando conhecimento, sabedoria e respostas aos seus intermináveis infortúnios, Micrômegas vaga pelo Universo em busca de instrução filosófica.

As aventuras espaciais de Micrômegas, bem no estilo ficção científica, são narradas com muito sarcasmo. O personagem título é originário da estrela Sírio, mede oito léguas de altura e decidiu fazer uma viagem filosófica, ao ser condenado por causa de suas estranhas idéias, como “querer saber se a forma substancial das pulgas de Sírio era da mesma natureza que a dos caramujos”. Em Saturno ele conhece o secretário da Academia, um filósofo um tanto quanto pessimista, que o acompanha na viagem. Os dois chegam na Terra, na margem setentrional do Mar Báltico, a 5 de Julho de 1737. Como eles não conseguem enxergar os minúsculos seres humanos, duvidam que exista algum tipo de vida na Terra ou que alguém de bom senso queira viver aqui. A dúvida persiste mesmo quando encontram um navio transportando filósofos, pois acham impossível que seres tão pequenos falem ou pensem, pois “para falar é preciso pensar ou quase”. Mas logo que começam a filosofar os extraterrestres vão descobrir que estão “altamente” enganados.

Em Micrômegas, Voltaire não deixa, pensamento sobre pensamento. Com seu humor cáustico questiona a essência das coisas, do espírito, da matéria, da alma; indaga sobre a duração da vida e a razão da morte; esmiuça a estupidez de todos os seres: “Sabeis, por exemplo, que neste momento, cem mil doidos da minha espécie, que usam chapéus, matam cem mil outros animais que usam turbante ou são massacrados por eles. Por toda a Terra é assim que se procede desde tempos imemoriais. (...) Trata-se, informou o filósofo, de um pouco de lama do tamanho do vosso calcanhar. Não é que qualquer dos Homens que se deixa degolar pretenda algumas migalhas dessa lama. Trata-se apenas de saber se ela é pertença de um certo homem chamado “Sultão” ou de outro a quem denominam, não sei porquê “César”. (...) Nem um nem outro viram ou chegarão a ver o pequeno torrão em litígio; e quase nenhum destes animais, que mutuamente se degolam, viu o animal por quem se deixa matar.

Micrômegas é a obra ideal para se iniciar em Voltaire. É um texto curto, enxuto e terrivelmente atual nas suas entrelinhas, onde há bem mais que um simples colóquio filosófico sobre a vida inteligente no Universo. Bom, é verdade que os conceitos científicos do séc.18 mudaram um pouco, mas como ainda não há provas da existência ou não de seres verdes em Marte, quem pode garantir que não existam jesuítas e matemáticos resolvendo teoremas de Euclides em Sírio e Saturno?

sábado, 5 de dezembro de 2009

Livro: A Luneta Mágica


A Luneta Mágica

O lado “B” da literatura “A” na Internet


Esta série de cinco artigos, que escrevi em 2001, foi publicada no Caderno G, da Gazeta do Povo, de Curitiba, no segundo semestre do mesmo ano.

Internet, como é que a gente conseguia viver sem ela!? À primeira vista (ou seria acesso?), é como a cidade de São Paulo, sabendo procurar, encontra-se de tudo, do arco da moça ao arco da velha. O melhor é que, ao contrário de São Paulo, na rede a maioria das coisas boas é grátis. Como, por exemplo, literatura brasileira e/ou estrangeira. Num país em que o livro é um bem de consumo distante de milhões de bolsos e que a leitura de lazer não é prioridade, nem na educação, o acesso, totalmente grátis, às mais diversas obras literárias, é um colírio. Para quem realmente gosta de literatura e, portanto, não se importa com seu formato digital (PDF, ebook), há um grande número de bibliotecas disponibilizando textos literários, em várias línguas, para pesquisa e leitura no próprio site e/ou para cópias. Ali estão: Machado de Assis, Eça de Queirós, Shakespeare, Gregório de Matos, Fernando Pessoa, Antônio Vieira, Euclides da Cunha.

O propósito desta série de artigos sobre a literatura na internet é falar sobre algumas obras interessantes, curiosas, divertidas e desconhecidas do grande público leitor, como: Micrômegas, a “ficção científica” filosófica de Voltaire, o iluminista autor de Zadig; As cartas apavorantes dos primeiros aventureiros portugueses no Brasil selvagem, como a de Antônio Rodrigues, escrita em 1553; Contos infantis do mundo todo.

Neste primeiro artigo a sugestão é acessar a página da Fundação Biblioteca Nacional e (re)descobrir Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882) possivelmente na sua melhor obra: A Luneta Mágica. Este romance, pouco conhecido do grande público, é fascinante, divertido e perturbador. Publicado, entre 22 de março e 27 de setembro de 1868, como folhetim, no periódico A Semana Ilustrada, a sua trama, 133 anos depois, continua atual, uma vez que no Brasil a política ainda se arrasta, a moral engatinha e a ética ensaia os primeiros passos.

Diz-se que em terra de cego quem tem um olho é rei ou caolho. Nessa romanceada crônica de costumes, Macedo nos desvela que ter um olho em terra de cego é uma benção ou uma maldição. Na provinciana Rio de Janeiro do séc.19, o míope Simplício não mede esforços para curar a sua miopia física e moral: “Miopia física: - a duas polegadas de distância dos olhos não distingo um girassol de uma violeta. E por isso ando na cidade e não vejo as casas. Miopia moral:- sou sempre escravo das idéias dos outros; porque nunca pude ajustar duas idéias minhas. E por isso quando vou às galerias da câmara temporária ou do senado, sou consecutiva e decididamente do parecer de todos os oradores que falam pró e contra a matéria em discussão.” O seu desejo de ver as coisas do mundo é tanto que nem se importa com os meios. É nessa busca incessante que conhece um armênio mágico que cria, para ele, lunetas capazes de lhe dar a visão do real, durante três minutos, e depois disso, a visão do inesperado: a maldade e/ou a bondade que habita em todas as coisas, e/ou ainda o raro bom senso, da pessoa ou coisa observada. O que acaba colocando em polvorosa toda a sociedade do Rio antigo, que hora o hostiliza e o considera um louco e hora o ridiculariza e se aproveita de sua ignorância.

O armênio tem razão: a visão do mal é um tormento; ver muito é um erro; ver demais é um castigo; a temperança é virtude que deve presidir e moderar os gozos de todos os sentidos do homem.

A sina de Simplício no mundo seria trágica se não fosse cômica e ele o contrário de si mesmo, enredado em seus dilemas sobre o valor da cegueira e o peso da visão. A verdade é que ainda somos todos míopes diante da vida ou daquilo que não conhecemos ou compreendemos. Se 2001 (ano da publicação deste artigo) não é como imaginávamos em 1968, infelizmente continua o mesmo descrito em 1868, por Joaquim Manuel Macedo: corrupção, banditismo, oportunismo, falsidade, politicagem, fraude, ladroagem, impunidade, poder...

O nosso código é necessariamente muito sábio e muito previdente: exige que para ser jurado o cidadão brasileiro tenha apenas senso comum, se exigisse bom senso haveria desordem geral, porque segundo tenho ouvido dizer, muitos dos que têm feito e dos que fazem leis, muitos dos que as deviam mandar e mandam executar, e muitos dos que têm por dever aplicar as leis, não poderiam ser jurados por falta do bom senso! (...)
Dizem‑me isso, e asseguram‑me que o bom senso é senso raro.
Eu não entendo estas coisas; mas atendendo ao que me dizem, chego a crer que foi por essa razão que a lei não impôs a condição do bom senso nem para que o cidadão fosse jurado, nem para que fosse magistrado, deputado, senador, ministro, e conselheiro de estado.
Asseveram‑me ainda que se assim não fosse, que, se se exigisse a condição do bom senso para o exercício daquelas altas delegações e cargos do Estado, haveria quatro quintas partes do mundo oficial inteiramente fora da lei.”


Autor de romances leves como A Moreninha (1844) e O Moço Loiro (1845), talvez por isso, Joaquim Manuel de Macedo é considerado, por alguns críticos, um escritor pouco criativo. No entanto é preciso ressaltar que, se nessas primeiras obras encontramos um autor bastante jovem e romântico, aos 23/24 anos, o mesmo não se dá com A Luneta Mágica (1868) onde o escritor, beirando os 50 anos, está ciente do mundo ao seu redor e muito mais seguro do que a sua pena desenha sobre o papel. O Joaquim Macedo de A Luneta Mágica, permite-se ser irônico, sarcástico, dolorosamente divertido e, em sua reflexão dura e fria do mundo que o cerca, desfia um rosário de pérolas ainda hoje novas. Ou talvez apenas um pouco amareladas pelo ciclo vicioso da repetição.

Um advogado era para mim a luz do direito, o escudo da inocência, o campeão da lei; era a Sabedoria a pleitear pela justiça; como pois um advogado se anima a mentir diante de Deus e dos homens, a malfazer a sociedade, esforçando‑se com todo o poder das suas faculdades para que se julgue inocente e puro um assassino conhecido e provado, um malvado que ele sabe que é assassino?... e, mil vezes ainda pior, como é que outro advogado profundamente convencido de que o réu não cometeu o crime que lhe imputam, ousa ir acusá‑lo, ousa ir pedir que o encarcerem, que o condenem a trabalhos forçados?

A Luneta Mágica é um texto fácil e rápido, mas não é gratuito. É divertido, mas não é banal. Rimos da inocência de Simplício, ultrajada por familiares, mulheres, amigos e oportunistas de plantão, mas poderíamos chorar. A impressão que fica, ao fim da leitura, é a de que, com o passar do tempo, estamos a cada dia mais idiotizados nas relações humanas, políticas e sociais.

- Consola‑te, mano; tudo tem compensação: a tua miopia é uma desgraça; mas porque és míope não vês como são bonitos os bordados da farda de um ministro de estado, e portanto não te exasperas por não poder ostentá‑los.

Ainda bem que já foi decretado O Fim da História. Por quem, mesmo?

Nota: Em 1986, Wilson Rocha adaptou A Luneta Mágica para a série Teletema, da Rede Globo. O programa foi exibido de 26 a 30 de maio de 1986 e reprisado de 10 a 14 de janeiro de 1987 (Fonte: Memória Globo. Em 2009, a obra está sendo lançada no formato de História em Quadrinhos, com adaptação de Carlos Patati e arte de Marcio Castro, pela a Panda Books.

ilustração: arte de Joba Tridente sobre foto de Joaquim Manuel Macedo
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