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sábado, 21 de julho de 2018

Carlos Drummond de Andrade: Um Chamado João


O ano de 2018 marca os 110 anos de nascimento de João Guimarães Rosa (Cordisburgo-MG: 27.06.1908 - Rio de Janeiro-RJ: 19.11.1967), um dos mais renomados escritores brasileiros. Autor de contos célebres presentes em livros como Sagarana (1946), Primeiras Histórias (1962), Tutameia (1967) e da obra-prima Grandes Sertões: Veredas (1956), antes de alcançar a linguagem coloquial sertaneja definitiva e nos deliciar com toda riqueza do falar regionalista, Guimarães Rosa enveredou pela poesia. Porém, mesmo premiado pela Academia Brasileira de Letras e com elogios do poeta Guilherme de Almeida (1890-1969), o seu livro de poema Magma (1936) foi considerado “pouco convincente” por ele: “O Magma, aqui dentro, reagiu, tomou vida própria, individualizou-se, libertou-se do meu desamor e fez-se criatura autônoma, com quem talvez eu já não esteja muito de acordo, mas a quem a vossa consagração me força a respeitar.” (em discurso de agradecimento ao prêmio, na ABL, em 1937).

João Guimarães Rosa não é o primeiro escritor a negar a própria obra. Magma (1936), que só foi publicado postumamente em 1977, realmente está aquém de suas obras magnas, como Sagarana e Grande Sertões: Veredas. No entanto, embora menor em sua bibliografia, não é descartável. Há excelentes poemas, entre outros não tão elaborados..., uma vez que a sua fascinante linguagem ainda não estava polida de tanta significância. Acostumado à sua incomparável prosa, quando conheci o livro, alguns poemas me pareceram convencionais. Depois, ao ler a sua “autocrítica”, vi que não era birra minha: "(...) escrevi um livro não muito pequeno de poemas, que até foi elogiado. Passaram-se quase dez anos, até eu poder me dedicar novamente à literatura. E revisando meus exercícios líricos, não os achei totalmente maus, mas tampouco muito convincentes." 

Aproveitando a data de 41 anos da primeira edição de Magma, lançado, pela Editora Nova Fronteira, 41 anos após a sua premiação, selecionei alguns poemas deste livro, para quatro postagens e um poema bônus, para homenagear este brasileiríssimo escritor João Guimarães Rosa, que nos deixou precocemente há 51 anos. Você que conheceu o Sono das Águas e apreendeu o sentido das cores Alaranjado, Verde, Amarelo e avaliou seus conceitos com Reportagem e admirou a sutileza de Riqueza, Pudor Estoico, Taumaturgo, Oração, hoje fica com a homenagem do grande escritor Carlos Drummond de Andrade a João Guimarães Rosa em Um Chamado João, (publicado no Correio da Manhã, em 22.11.1967, três dias após a morte súbita do escritor). A foto encontrei (sem autoria) na internet, apenas reeditei o posicionamento da assinatura do escritor.  



UM CHAMADO JOÃO
Carlos Drummond de Andrade

João era fabulista?
fabuloso?
fábula?
Sertão místico disparando
no exílio da linguagem comum?

Projetava na gravatinha
a quinta face das coisas,
inenarrável narrada?
Um estranho chamado João
para disfarçar, para farçar
o que não ousamos compreender?
Tinha pastos, buritis plantados
no apartamento?
no peito?
Vegetal ele era ou passarinho
sob a robusta ossatura com pinta
de boi risonho?

Era um teatro
e todos os artistas
no mesmo papel,
ciranda multívoca?
João era tudo?
tudo escondido, florindo
como flor é flor, mesmo não semeada?
Mapa com acidentes
deslizando para fora, falando?
Guardava rios no bolso,
cada qual com a cor de suas águas?
sem misturar, sem conflitar?
E de cada gota redigia nome,
curva, fim,
e no destinado geral
seu fado era saber
para contar sem desnudar
o que não deve ser desnudado
e por isso se veste de véus novos?

Mágico sem apetrechos,
civilmente mágico, apelador
de precípites prodígios acudindo
a chamado geral?
Embaixador do reino
que há por trás dos reinos,
dos poderes, das
supostas fórmulas
de abracadabra, sésamo?
Reino cercado
não de muros, chaves, códigos,
mas o reino-reino?
Por que João sorria
se lhe perguntavam
que mistério é esse?

E propondo desenhos figurava
menos a resposta que
outra questão ao perguntante?
Tinha parte com... (não sei
o nome) ou ele mesmo era
a parte de gente
servindo de ponte
entre o sub e o sobre
que se arcabuzeiam
de antes do princípio,
que se entrelaçam
para melhor guerra,
para maior festa?

Ficamos sem saber o que era João
e se João existiu
de se pegar.


Carlos Drummond de Andrade  (Itabira-MG, 31.10.1902 - Rio de Janeiro-RJ, 17.08.1987): cronista e escritor de prosa e verso, tradutor. Farmacêutico formado pela Universidade Federal de Minas Gerais, Carlos Drummond, que foi funcionário público, dedicou-se à literatura desde muito jovem. Aos 28 anos de idade lançou seu primeiro livro, Alguma Poesia (1930), e teve o poema Sentimental declamado na Conferência Poesia Moderníssima do Brasil, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Portugal. Considerado o mais influente poeta do Sec. XX, Drummond de Andrade foi colaborador do Diário de Minas (onde iniciou a sua carreira de escritor), Correio da Manhã e Jornal do Brasil. A sua obra foi traduzida para o inglês, espanhol, alemão, italiano, sueco, francês, holandês, chinês. Entre os autores que traduziu para o português estão Honoré de Balzac; Choderlos de Laclos; Marcel Proust; Federico García Lorca; François Mauriac; Thérèse Desqueyroux; Molière, Jean-Theodore Descourtilz; Maurice Maeterlinck; Knut Hamsun; Bertolt Brecht. Como a sua bibliografia é imensa e há farto material biográfico sobre o escritor na internet, sugiro: Templo Cultural Delfos: Carlos Drummond de Andrade - um poeta de alma e ofício; TCD: Carlos Drummond de Andrade - antologia poética; TCD: Carlos Drummond de Andrade - entrevista inédita: erotismo - poesia e psicanálise; Site Oficial: Carlos Drummond de Andrade; Folha de S.Paulo: A homossexualidade na vida e na obra de Carlos Drummond de Andrade; IMS: Carlos Drummond de Andrade; Revista Cult: Carlos Drummond de Andrade.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

João Guimarães Rosa: 5 Poemas Curtos


O ano de 2018 marca os 110 anos de nascimento de João Guimarães Rosa (Cordisburgo-MG: 27.06.1908 - Rio de Janeiro-RJ: 19.11.1967), um dos mais renomados escritores brasileiros. Autor de contos célebres presentes em livros como Sagarana (1946), Primeiras Histórias (1962), Tutameia (1967) e da obra-prima Grandes Sertões: Veredas (1956), antes de alcançar a linguagem coloquial sertaneja definitiva e nos deliciar com toda riqueza do falar regionalista, Guimarães Rosa enveredou pela poesia. Porém, mesmo premiado pela Academia Brasileira de Letras e com elogios do poeta Guilherme de Almeida (1890-1969), o seu livro de poema Magma (1936) foi considerado “pouco convincente” por ele: “O Magma, aqui dentro, reagiu, tomou vida própria, individualizou-se, libertou-se do meu desamor e fez-se criatura autônoma, com quem talvez eu já não esteja muito de acordo, mas a quem a vossa consagração me força a respeitar.” (em discurso de agradecimento ao prêmio, na ABL, em 1937).

João Guimarães Rosa não é o primeiro escritor a negar a própria obra. Magma (1936), que só foi publicado postumamente em 1977, realmente está aquém de suas obras magnas, como Sagarana e Grande Sertões: Veredas. No entanto, embora menor em sua bibliografia, não é descartável. Há excelentes poemas, entre outros não tão elaborados..., uma vez que a sua fascinante linguagem ainda não estava polida de tanta significância: "(...) escrevi um livro não muito pequeno de poemas, que até foi elogiado. Passaram-se quase dez anos, até eu poder me dedicar novamente à literatura. E revisando meus exercícios líricos, não os achei totalmente maus, mas tampouco muito convincentes." 

Aproveitando a data de 41 anos da primeira edição de Magma, lançado, pela Editora Nova Fronteira, 41 anos após a sua premiação, selecionei alguns poemas deste livro, para quatro postagens e um poema bônus, para homenagear este brasileiríssimo escritor João Guimarães Rosa, que nos deixou precocemente há 51 anos. Você que conheceu o Sono das Águas e apreendeu o sentido das cores Alaranjado, Verde, Amarelo e avaliou seus conceitos com Reportagem, hoje admira a sutileza de cinco poemas curtos: Riqueza, Pudor Estoico, Taumaturgo, Oração, Turismo Acidental. Amanhã a homenagem a Guimarães Rosa, será de Carlos Drummond de Andrade.


                

Riqueza
João Guimarães Rosa

Veio ao meu quarto um besouro
de asas verdes e ouro,
e fez do meu quarto uma joalharia...



Pudor Estoico
João Guimarães Rosa

Acuado entre brasas 
um escorpião volve o dardo
 
e faz o hara-kiri...



Taumaturgo
João Guimarães Rosa

Muitos bichos reunidos? : um jardim de Hagenbeck.
Ou, quem sabe, talvez, a Arca de Noé...
Mas um gênio os dirige? : um livro de Kipling...



Oração
João Guimarães Rosa

O louva-deus, ereto, num caule de junquilho,
reza, de mãos postas, com punhais cruzados,
como um bandido calabrês...



Turismo Sentimental
João Guimarães Rosa

Viajei toda a Ásia
ao alisar o dorso
da minha gata angorá...

*
ilustração: joba tridente.2018


João Guimarães Rosa (Cordisburgo, MG: 27.06.1908 - Rio de Janeiro, RJ: 19.11.1967): médico, diplomata, escritor brasileiro. A sua obra, de forte apelo regional, é ambientada no sertão brasileiro e nos brinda, linha a linha, com seu delicioso falar, cheio de sotaques e novos vocábulos. Guimarães Rosa foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, em 16.11.1967, e deveria ocupar a cadeira 2, de Álvares de Azevedo, não fosse a sua morte três dias depois, em 16.11.1967. Iniciou a carreira literária em 1929, com a publicação do conto O mistério de Highmore Hall, na revista O Cruzeiro. Dono de uma cultura invejável, com domínio de fala e leitura em várias línguas, dizia que “Estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração.” Recebeu os seguintes prêmios: Academia Brasileira de Letras pelo livro de poesia Magma; Prêmio Filipe d'Oliveira por Sagarana (1946); Prêmio Machado de Assis (do Instituto Nacional do Livro), Prêmio Carmen Dolores Barbosa (1956) e Prêmio Paula Brito (1957) pelo romance Grande sertão: Veredas; Prêmio do PEN Clube do Brasil (1963), para Primeiras estórias. Guimarães Rosas é autor de Magma (1936); Sagarana (1946); Com o Vaqueiro Mariano (1952); Corpo de Baile (1956); Grande Sertão: Veredas (1956); Primeiras Estórias (1962); Manuelzão e Miguilim (1964); Campo Geral (1964); No Urubuquaquá, no Pinhém (1965); Noites do sertão (1965); Tutaméia - Terceiras Estórias (1967); Estas Estórias (póstumo. 1969); Ave, Palavra (póstumo, 1970); Antes das Primeiras Estórias (póstumo, 2011). Há farto material na internet sobre Guimarães Rosa, portanto, para saber mais sobre um dos pioneiros do Realismo Fantástico no Brasil, sugiro: Templo Cultural Delfos: João Guimarães Rosa - o demiurgo do sertão; Templo Cultural Delfos: João Guimarães Rosa e o Magma - o poeta não cita: canta; Revista Prosa Verso e Arte: João Guimarães Rosa; Academia Brasileira de Letras: João Guimarães Rosa; USP - Banco de Dados Bibliográfico: João Guimarães Rosa; Instituto Moreira Sales: A João Guimarães Rosa por Maureen Bisilliat; Folha de S.Paulo: Memórias do diplomata João Guimarães Rosa; Revista Planeta: Centenário de João Guimarães Rosa; Memorial da Democracia: João Guimarães Rosa Reinventa a Linguagem; SciELO: A biblioteca alemã de João Guimarães Rosa; Clipping CACD: Entrevista com Guimarães Rosa; Sílvio José Stessuk: tese: Magma - Breviário de Rosa.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

João Guimarães Rosa: Reportagem

O ano de 2018 marca os 110 anos de nascimento de João Guimarães Rosa (Cordisburgo-MG: 27.06.1908 - Rio de Janeiro-RJ: 19.11.1967), um dos mais renomados escritores brasileiros. Autor de contos célebres presentes em livros como Sagarana (1946), Primeiras Histórias (1962), Tutameia (1967) e da obra-prima Grandes Sertões: Veredas (1956), antes de alcançar a linguagem coloquial sertaneja definitiva e nos deliciar com toda riqueza do falar regionalista, Guimarães Rosa enveredou pela poesia. Porém, mesmo premiado pela Academia Brasileira de Letras e com elogios do poeta Guilherme de Almeida (1890-1969), o seu livro de poema Magma (1936) foi considerado “pouco convincente” por ele: “O Magma, aqui dentro, reagiu, tomou vida própria, individualizou-se, libertou-se do meu desamor e fez-se criatura autônoma, com quem talvez eu já não esteja muito de acordo, mas a quem a vossa consagração me força a respeitar.” (em discurso de agradecimento ao prêmio, na ABL, em 1937).

João Guimarães Rosa não é o primeiro escritor a negar a própria obra. Magma (1936), que só foi publicado postumamente em 1977, realmente está aquém de suas obras magnas, como Sagarana e Grande Sertões: Veredas. No entanto, embora menor em sua bibliografia, não é descartável. Há excelentes poemas, entre outros não tão elaborados..., uma vez que a sua fascinante linguagem ainda não estava polida de tanta significância: "(...) escrevi um livro não muito pequeno de poemas, que até foi elogiado. Passaram-se quase dez anos, até eu poder me dedicar novamente à literatura. E revisando meus exercícios líricos, não os achei totalmente maus, mas tampouco muito convincentes." 

Aproveitando a data de 41 anos da primeira edição de Magma, lançado, pela Editora Nova Fronteira, 41 anos após a sua premiação, selecionei alguns poemas deste livro, para quatro postagens e um poema bônus, para homenagear este brasileiríssimo escritor João Guimarães Rosa, que nos deixou precocemente há 51 anos. Você que conheceu o Sono das Águas e apreendeu o sentido das cores Alaranjado, Verde, Amarelo, hoje avalia seus conceitos no comovente e desconcertante Reportagem.


                 

Reportagem
João Guimarães Rosa

O trem estacou, na manhã fria,
num lugar deserto, sem casa de estação:
a parada do Leprosário…

Um homem saltou, sem despedidas,
deixou o baú à beira da linha,
e foi andando. Ninguém lhe acenou…

Todos os passageiros olharam ao redor,
com medo de que o homem que saltara
tivesse viajado ao lado deles…

Gravado no dorso do bauzinho humilde,
não havia nome ou etiqueta de hotel:
só uma estampa de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro…

O trem se pôs logo em marcha apressada,
e no apito rouco da locomotiva
gritava o impudor de uma nota de alívio…

Eu quis chamar o homem, para lhe dar um sorriso,
mas ele ia já longe, sem se voltar nunca,
como quem não tem frente, como quem só tem costas….

*
ilustração: foto e montagem de Joba Tridente.2018


João Guimarães Rosa (Cordisburgo, MG: 27.06.1908 - Rio de Janeiro, RJ: 19.11.1967): médico, diplomata, escritor brasileiro. A sua obra, de forte apelo regional, é ambientada no sertão brasileiro e nos brinda, linha a linha, com seu delicioso falar, cheio de sotaques e novos vocábulos. Guimarães Rosa foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, em 16.11.1967, e deveria ocupar a cadeira 2, de Álvares de Azevedo, não fosse a sua morte três dias depois, em 16.11.1967. Iniciou a carreira literária em 1929, com a publicação do conto O mistério de Highmore Hall, na revista O Cruzeiro. Dono de uma cultura invejável, com domínio de fala e leitura em várias línguas, dizia que “Estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração.” Recebeu os seguintes prêmios: Academia Brasileira de Letras pelo livro de poesia Magma; Prêmio Filipe d'Oliveira por Sagarana (1946); Prêmio Machado de Assis (do Instituto Nacional do Livro), Prêmio Carmen Dolores Barbosa (1956) e Prêmio Paula Brito (1957) pelo romance Grande sertão: Veredas; Prêmio do PEN Clube do Brasil (1963), para Primeiras estórias. Guimarães Rosas é autor de Magma (1936); Sagarana (1946); Com o Vaqueiro Mariano (1952); Corpo de Baile (1956); Grande Sertão: Veredas (1956); Primeiras Estórias (1962); Manuelzão e Miguilim (1964); Campo Geral (1964); No Urubuquaquá, no Pinhém (1965); Noites do sertão (1965); Tutaméia - Terceiras Estórias (1967); Estas Estórias (póstumo. 1969); Ave, Palavra (póstumo, 1970); Antes das Primeiras Estórias (póstumo, 2011). Há farto material na internet sobre Guimarães Rosa, portanto, para saber mais sobre um dos pioneiros do Realismo Fantástico no Brasil, sugiro: Templo Cultural Delfos: João Guimarães Rosa - o demiurgo do sertão; Templo Cultural Delfos: João Guimarães Rosa e o Magma - o poeta não cita: canta; Revista Prosa Verso e Arte: João Guimarães Rosa; Academia Brasileira de Letras: João Guimarães Rosa; USP - Banco de Dados Bibliográfico: João Guimarães Rosa; Instituto Moreira Sales: A João Guimarães Rosa por Maureen Bisilliat; Folha de S.Paulo: Memórias do diplomata João Guimarães Rosa; Revista Planeta: Centenário de João Guimarães Rosa; Memorial da Democracia: João Guimarães Rosa Reinventa a Linguagem; SciELO: A biblioteca alemã de João Guimarães Rosa; Clipping CACD: Entrevista com Guimarães Rosa; Sílvio José Stessuk: tese: Magma - Breviário de Rosa.


quarta-feira, 18 de julho de 2018

João Guimarães Rosa: Alaranjado, Verde, Amarelo


O ano de 2018 marca os 110 anos de nascimento de João Guimarães Rosa (Cordisburgo-MG: 27.06.1908 - Rio de Janeiro-RJ: 19.11.1967), um dos mais renomados escritores brasileiros. Autor de contos célebres presentes em livros como Sagarana (1946), Primeiras Histórias (1962), Tutameia (1967) e da obra-prima Grandes Sertões: Veredas (1956), antes de alcançar a linguagem coloquial sertaneja definitiva e nos deliciar com toda riqueza do falar regionalista, Guimarães Rosa enveredou pela poesia. Porém, mesmo premiado pela Academia Brasileira de Letras e com elogios do poeta Guilherme de Almeida (1890-1969), o seu livro de poema Magma (1936) foi considerado “pouco convincente” por ele: “O Magma, aqui dentro, reagiu, tomou vida própria, individualizou-se, libertou-se do meu desamor e fez-se criatura autônoma, com quem talvez eu já não esteja muito de acordo, mas a quem a vossa consagração me força a respeitar.” (em discurso de agradecimento ao prêmio, na ABL, em 1937).

João Guimarães Rosa não é o primeiro escritor a negar a própria obra. Magma (1936), que só foi publicado postumamente em 1977, realmente está aquém de suas obras magnas, como Sagarana e Grande Sertões: Veredas. No entanto, embora menor em sua bibliografia, não é descartável. Há excelentes poemas, entre outros não tão elaborados..., uma vez que a sua fascinante linguagem ainda não estava polida de tanta significância: "(...) escrevi um livro não muito pequeno de poemas, que até foi elogiado. Passaram-se quase dez anos, até eu poder me dedicar novamente à literatura. E revisando meus exercícios líricos, não os achei totalmente maus, mas tampouco muito convincentes." 

Aproveitando a data de 41 anos da primeira edição de Magma, lançado, pela Editora Nova Fronteira, 41 anos após a sua premiação, selecionei alguns poemas deste livro, para quatro postagens e um poema bônus, para homenagear este brasileiríssimo escritor João Guimarães Rosa, que nos deixou precocemente há 51 anos. Ontem você conheceu o Sono das Águas e hoje apreende o sentido das cores Alaranjado, Verde e Amarelo.


                 

Alaranjado
João Guimarães Rosa

No campo seco, a crepitar em brasas,
dançam as últimas chamas da queimada,
tão quente, que o sol pende no ocaso,
bicado
pelos sanhaços das nuvens,
para cair, redondo e pesado,
como uma tangerina temporã madura…



Verde
João Guimarães Rosa

Na lâmina azinhavrada
desta água estagnada,
entre painéis de musgo
e cortinas de avenca,
bolhas espumejam
como opalas ocas
num veio de turmalina:
é uma rã bailarina,
que ao se ver feia, toda ruguenta,
pulou, raivosa, quebrando o espelho,
e foi direta ao fundo,
reenfeitar, com mimo,
suas roupas de limo…



Amarelo
João Guimarães Rosa

Kuang-Ling,
pintor chinês de máscara de cera,
feliz de ópio, e ébrio de dragões,
molha o pincel na água de ocre
do Huang-Ho,
e, entre lanternas de seda,
pinta e repinta,
durante trinta anos,
sulfúreos e asiáticos girassóis,
na incrível porcelana de um jarrão
dos Ming…

*
ilustração de Joba Tridente.2018


João Guimarães Rosa (Cordisburgo, MG: 27.06.1908 - Rio de Janeiro, RJ: 19.11.1967): médico, diplomata, escritor brasileiro. A sua obra, de forte apelo regional, é ambientada no sertão brasileiro e nos brinda, linha a linha, com seu delicioso falar, cheio de sotaques e novos vocábulos. Guimarães Rosa foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, em 16.11.1967, e deveria ocupar a cadeira 2, de Álvares de Azevedo, não fosse a sua morte três dias depois, em 16.11.1967. Iniciou a carreira literária em 1929, com a publicação do conto O mistério de Highmore Hall, na revista O Cruzeiro. Dono de uma cultura invejável, com domínio de fala e leitura em várias línguas, dizia que “Estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração.” Recebeu os seguintes prêmios: Academia Brasileira de Letras pelo livro de poesia Magma; Prêmio Filipe d'Oliveira por Sagarana (1946); Prêmio Machado de Assis (do Instituto Nacional do Livro), Prêmio Carmen Dolores Barbosa (1956) e Prêmio Paula Brito (1957) pelo romance Grande sertão: Veredas; Prêmio do PEN Clube do Brasil (1963), para Primeiras estórias. Guimarães Rosas é autor de Magma (1936); Sagarana (1946); Com o Vaqueiro Mariano (1952); Corpo de Baile (1956); Grande Sertão: Veredas (1956); Primeiras Estórias (1962); Manuelzão e Miguilim (1964); Campo Geral (1964); No Urubuquaquá, no Pinhém (1965); Noites do sertão (1965); Tutaméia - Terceiras Estórias (1967); Estas Estórias (póstumo. 1969); Ave, Palavra (póstumo, 1970); Antes das Primeiras Estórias (póstumo, 2011). Há farto material na internet sobre Guimarães Rosa, portanto, para saber mais sobre um dos pioneiros do Realismo Fantástico no Brasil, sugiro: Templo Cultural Delfos: João Guimarães Rosa - o demiurgo do sertão; Templo Cultural Delfos: João Guimarães Rosa e o Magma - o poeta não cita: canta; Revista Prosa Verso e Arte: João Guimarães Rosa; Academia Brasileira de Letras: João Guimarães Rosa; USP - Banco de Dados Bibliográfico: João Guimarães Rosa; Instituto Moreira Sales: A João Guimarães Rosa por Maureen Bisilliat; Folha de S.Paulo: Memórias do diplomata João Guimarães Rosa; Revista Planeta: Centenário de João Guimarães Rosa; Memorial da Democracia: João Guimarães Rosa Reinventa a Linguagem; SciELO: A biblioteca alemã de João Guimarães Rosa; Clipping CACD: Entrevista com Guimarães Rosa; Sílvio José Stessuk: tese: Magma - Breviário de Rosa.

terça-feira, 17 de julho de 2018

João Guimarães Rosa: Sono das Águas


O ano de 2018 marca os 110 anos de nascimento de João Guimarães Rosa (Cordisburgo-MG: 27.06.1908 - Rio de Janeiro-RJ: 19.11.1967), um dos mais renomados escritores brasileiros. Autor de contos célebres presentes em livros como Sagarana (1946), Primeiras Histórias (1962), Tutameia (1967) e da obra-prima Grandes Sertões: Veredas (1956), antes de alcançar a linguagem coloquial sertaneja definitiva e nos deliciar com toda riqueza do falar regionalista, Guimarães Rosa enveredou pela poesia. Porém, mesmo premiado pela Academia Brasileira de Letras e com elogios do poeta Guilherme de Almeida (1890-1969), o seu livro de poema Magma (1936) foi considerado “pouco convincente” por ele: “O Magma, aqui dentro, reagiu, tomou vida própria, individualizou-se, libertou-se do meu desamor e fez-se criatura autônoma, com quem talvez eu já não esteja muito de acordo, mas a quem a vossa consagração me força a respeitar.” (em discurso de agradecimento ao prêmio, na ABL, em 1937).

João Guimarães Rosa não é o primeiro escritor a negar a própria obra. Magma (1936), que só foi publicado postumamente em 1977, realmente está aquém de suas obras magnas, como Sagarana e Grande Sertões: Veredas. No entanto, embora menor em sua bibliografia, não é descartável. Há excelentes poemas, entre outros não tão elaborados..., uma vez que a sua fascinante linguagem ainda não estava polida de tanta significância: "(...) escrevi um livro não muito pequeno de poemas, que até foi elogiado. Passaram-se quase dez anos, até eu poder me dedicar novamente à literatura. E revisando meus exercícios líricos, não os achei totalmente maus, mas tampouco muito convincentes." 

Aproveitando a data de 41 anos da primeira edição de Magma, lançado pela Editora Nova Fronteira, 41 anos após a sua premiação pela ABL, selecionei alguns poemas deste livro, para quatro postagens e um poema bônus de Carlos Drummond de Andrade, para homenagear este brasileiríssimo escritor João Guimarães Rosa, que nos deixou precocemente há 51 anos. Começo com o belíssimo Sono das Águas.


                 

Sono das Águas
João Guimarães Rosa

Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme. Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d’água,
nos grotões fundos.
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir…

Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas de folhagem.
E adormece
até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes…
  
Mas nem todos dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono…

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ilustração: foto de Joba Tridente/Itapoá.2015


João Guimarães Rosa (Cordisburgo, MG: 27.06.1908 - Rio de Janeiro, RJ: 19.11.1967): médico, diplomata, escritor brasileiro. A sua obra, de forte apelo regional, é ambientada no sertão brasileiro e nos brinda, linha a linha, com seu delicioso falar, cheio de sotaques e novos vocábulos. Guimarães Rosa foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, em 16.11.1967, e deveria ocupar a cadeira 2, de Álvares de Azevedo, não fosse a sua morte três dias depois, em 16.11.1967. Iniciou a carreira literária em 1929, com a publicação do conto O mistério de Highmore Hall, na revista O Cruzeiro. Dono de uma cultura invejável, com domínio de fala e leitura em várias línguas, dizia que “Estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração.” Recebeu os seguintes prêmios: Academia Brasileira de Letras pelo livro de poesia Magma; Prêmio Filipe d'Oliveira por Sagarana (1946); Prêmio Machado de Assis (do Instituto Nacional do Livro), Prêmio Carmen Dolores Barbosa (1956) e Prêmio Paula Brito (1957) pelo romance Grande sertão: Veredas; Prêmio do PEN Clube do Brasil (1963), para Primeiras estórias. Guimarães Rosas é autor de Magma (1936); Sagarana (1946); Com o Vaqueiro Mariano (1952); Corpo de Baile (1956); Grande Sertão: Veredas (1956); Primeiras Estórias (1962); Manuelzão e Miguilim (1964); Campo Geral (1964); No Urubuquaquá, no Pinhém (1965); Noites do sertão (1965); Tutaméia - Terceiras Estórias (1967); Estas Estórias (póstumo. 1969); Ave, Palavra (póstumo, 1970); Antes das Primeiras Estórias (póstumo, 2011). Há farto material na internet sobre Guimarães Rosa, portanto, para saber mais sobre um dos pioneiros do Realismo Fantástico no Brasil, sugiro: Templo Cultural Delfos: João Guimarães Rosa - o demiurgo do sertão; Templo Cultural Delfos: João Guimarães Rosa e o Magma - o poeta não cita: canta; Revista Prosa Verso e Arte: João Guimarães Rosa; Academia Brasileira de Letras: João Guimarães Rosa; USP - Banco de Dados Bibliográfico: João Guimarães Rosa; Instituto Moreira Sales: A João Guimarães Rosa por Maureen Bisilliat; Folha de S.Paulo: Memórias do diplomata João Guimarães Rosa; Revista Planeta: Centenário de João Guimarães Rosa; Memorial da Democracia: João Guimarães Rosa Reinventa a Linguagem; SciELO: A biblioteca alemã de João Guimarães Rosa; Clipping CACD: Entrevista com Guimarães Rosa; Sílvio José Stessuk: tese: Magma - Breviário de Rosa.


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