Mostrando postagens com marcador Mendicância. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mendicância. Mostrar todas as postagens

domingo, 13 de maio de 2018

Francisco Cenamor: Propina


No dia 21 de março de 2017, em comemoração ao Dia da Poesia, o escritor espanhol Francisco Cenamor disponibilizou gratuitamente, por meio do seu blog asamblea de palabras, onde publica diariamente obras de poetas de todo o mundo, a edição digital (em PDF) do livro Restos de naufragio, que traz uma interessante compilação de seus poemas publicados entre 1997 e 2007.

Para Cenamor, a ideia deste resgate literário é o de fazer coincidir dois aspectos da sua trajetória poética: a presença de uma voz forte e heterogênea e a obsessão por aprender. Para tanto, a edição conta com textos reescritos e também por aqueles que se perderam pelo caminho (poético)..., divididos em breves opúsculos. Em Pecios estão poemas publicados nos livros En el océano (textos que partem da dor de mirar o mundo), En el mar (textos onde a dor provem da vivência do amor), e Islas (fragmentos de poemas descartados do livro poemillas). Ánforas ocultas traz poemas inéditos em livro, bem como alguns Islas (fragmentos, poemas curtos). El livro de Raquel trata da admiração da beleza..., com profundo teor religioso e místico (no formato gráfico dos textos bíblicos). Gotas en el agua agrega textos poéticos escritos para peças teatrais breves, encenadas principalmente por universitários.

Em declaração publicada no site las afinidades electivas, sobre a sua arte literária, o escritor espanhol disse: Mi poesía es similar a la del bardo de Astérix, aunque espero ser menos pesado. Observo el mundo que me rodea, sobre todo a las personas, me empapo de su realidad, sus sentimientos, sus pasiones, sus sufrimientos, sus esperanzas y alegrías, los paso por el tamiz de la persona que soy yo mismo y los devuelvo convertidos en belleza. O al menos esa es la pretensión. Cuando hablo de mi mismo me pienso más allá, como perteneciendo a un todo que no me pertenece. Utilizo un lenguaje llano y directo pero con pretensiones espirituales y trascendentes. Me encasillan como poeta social, pero estoy exento de ideología en mis poemas, tan solo me acerco, como imperativo humano, a las personas que sufren por diversos motivos. Mi referente poético principal es César Vallejo, pero he crecido también con San Juan de la Cruz, Mario Benedetti, Juan Gelman, José Agustín Goytisolo, Luis Luna, y muchos otros.

Para sete publicações no Falas ao Acaso selecionei apenas poemas presentes em Pecios: quatro do livro En el océano; seis poemas curtos dos três Islas e dois do Ánforas ocultas. Abro as postagens com o incômodo Propina. Uma vez que não me pareceu difícil compreender a língua espanhola, optei por não traduzir (inda que sem compromisso) os poemas. Creio que apenas uma ou outra palavra em espanhol levará o leitor a um dicionário bilíngue.
  
                   
                 
Pecios/En el océano

                    Propina
Francisco Cenamor

Tomo mi café –yo lo pagué– sentado en una exótica
estación de tren. Una joven me pide unas monedas (está
cubierta del polvo que da la pobreza, de la suciedad de
un tiempo que no le pertenece). La camarera, en acto de
servicio, espanta a este cansado fantasma. Cesan las
miradas nerviosas, los clientes dejan propina sobre la
mesa

*
ilustração de joba tridente.2018

                       
Francisco Cenamor (1965, Leganés, Espanha) é escritor, articulista, ator e diretor de teatro. Francisco Cenamor, que coordena o Clube de Leitura da Universidad Carlos III, é autor de Amando nubes (Talasa Ediciones, 1999), Ángeles sin cielo (Ediciones Vitruvio, 2003), (Asamblea de palabras, Ediciones Vitruvio, 2007), Casa de aire (Amargord Ediciones, 2009), Nada somos, (Editorial Luces de gálibo, 2011) e Restos de naufragio (autoedição em formato digital, 2017). Em breve será lançada a edição bilíngue (espanhol e inglês) do livro de poemas Baltimore. A sua poesia também pode ser lida nas antologias: Poemas contra la guerra (2004); Salida de emergencia (2004); Vida de perros; Poemas perrunos (2007). Para saber mais sobre o autor e sua obra: Francisco Cenamor; Cuaderno de Poesia Crítica; Valejo & Co: Banderas transparentes, 11 poemas de Francisco Cenamor; Gibral Faro: Paisajes Interiores: Selección de Poemas; Revista O Cronopio; Banco da Poesia: Francisco Cenamor, poeta de Leganés; Proyeto Genoma Poético: Francisco Cenamor; La Locura de Los Cuerdos: Francisco Cenamor; mediaisla: Francisco Cenamor: “El compromiso con el lenguaje es el de enriquecerlo”; Varasek Ediciones: The Dharma Beats, una historia de la beat generation, por Francisco Cenamor; Espacio Latino: Francisco Cenamor y Luis Luna: dos poetas españoles; Fran Cenamor: Facebook; Francisco Cenamor - la entrevista: YouTube.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Joba Tridente: mendigatriz

mendigatriz é o terceiro de uma série de três poemas de rua. O primeiro é mendiga. O segundo é atriz. Hora dessas publico os dois primeiros.


mendigatriz
joba tridente

negros sacos
de molambos pelo chão
em sua elegância de andrajos
a mulher
descabelada e suja e fétida
senta e levanta trôpega
vociferando impropérios
apontando dedos para ninguém
filosofando e ameaçando
seus fantasmas
em boa língua universitária
protesta sábia
contra governo contra religião contra família contra
ovação e vaias não a alcançam
perdida em ontens e amanhãs
não vê e nem ouve
a plateia sentada
em roda viva ao redor

: meia hora de gritos
: meia hora de gestos
: meia hora rasgando sentimentos
: meia hora esbugalhando os olhos
: meia hora arranhando o peito magro
: meia hora sangrando espíritos e matérias
: meia hora expondo o coração amargurado
: meia hora e o surto colhido na calçada de petit-pavé

aplausos! aplausos! aplausos!
e mais
aplausos! aplausos! aplausos!
o cachê livre
em notas e moedas variadas
acumulando na dobra da saia
o público segue discutindo
o melhor (do) espetáculo
desfazendo a roda
desocupando a calçada
abrindo caminho para o sos
carregar a indigente
para o necrotério
ou qualquer vala
comum aos mendigos

no outro ponto da praça
uma atriz aguarda
em vão o público
prometido pelo festival

la commedia è finita


*
jt.curitiba.3.4.2016
jt.foto.30.03.2012


Joba Tridente em Verso: 25 Poemas Experimentais (1999); Quase Hai-Kai (1997, 1998 e 2004); em Antologias: Hiperconexões: Realidade Expandida (2015); 101 Poetas Paranaenses (2014); Ipê Amarelo, 26 Haicais; Ce que je vois de ma fenêtre - O que eu vejo da minha janela (2014); Ebulição da Escrivatura – 13 Poetas Impossíveis (1978); em Prosa: Fragmentos da História Antropofágica e Estapafúrdia de Um Índio Polaco da Tribo dos Stankienambás (2000); Cidades Minguantes (2001); O Vazio no Olho do Dragão (2001). Contos, poemas e artigos culturais publicados em diversos veículos de comunicação: Correio Braziliense, Jornal Nicolau, Gazeta do Povo, Revista Planeta, entre outros.

domingo, 31 de março de 2013

Joba Tridente: Retrato Dez por Um



Retrato em Dez por Um (*)


- Um trocadinhu, pessoali!
- Si cada um qui passassi aqui mi dessi um centavu eu tava feitio!
- Tem genti qui faz di contia qui nem mi vê!
- E eu é qui sô cego!

UM - Chova ou faça sol. Frio ou calor. Eles estão lá. No mesmo lugar. Mais certos que um meteorologista. Ilusões de ótica. Para uns. Cativos da própria sina. Para outros. Há anos. Aos pés de um sinaleiro. No nicho de um prédio público. Se arrastando pelas calçadas. Deslizando entre os diferentes. Agarrados a um poste. Parados no meio da praça. Seres. Administrativamente inexistentes. Impostos caducados. Sucatas do capitalismo. Profissionais da própria deficiência. Da própria indiferença. Da própria. Dá!

DOIS - O cisco em um olho, evita os mendigos. No outro, ofusca os desocupados. As lentes vencidas não captam os deficientes. Meras pedras soltas no caminho do apressado. Santas desculpas no caminho do lento. O normal prefere o atalho!

TRÊS - Ah, os motivos sempre expostos! O físico incompleto: Dor! A cabeça incompleta: Inveja! A educação incompleta: Frustração! A classe social incompleta: Deus Me Paga!

QUATRO - O olhar sempre incômodo, de falsa ou apavorante súplica dos pedintes, traz muita gente à realidade. Ajuda eu, miudinho! Ajuda, miudinho!  Ajuda!  Mãos crédulas vagam por entre bolsos e bolsas à cata de um troco, de uma moeda, de um agradinho qualquer. Solidariedade medrosa. Um Deus Lhe Pague!  pronto a lhes saltar da boca. Saltam muito, dependendo do dia. Amém, Jesus! Com a mente automática uma das mãos sobe e desce à aproximação de alguém. Trêmula. Eles tudo vêem, até os que contornam o ponto. A cabeça descai. O braço levanta. Estica. Estende. A mão se abre. A mão se fecha. Dedos treinados conferem a esmola. Moedas. Notas. Muitos sugerem o valor da dádiva, segurando uma nota de um real. Às vezes, basta o olhar!

CINCO - Um homem agarrado a uma árvore. Agarrado a um poste. Agarrado a alguma coisa vertical, suficientemente grande para ser agarrada. Puro devaneio. A sua lamúria, terrivelmente suplicante, vai sempre num crescendo. Apavora os transeuntes. Baba. Quase um ator. De rua. Parece um não-homem desabando sobre o alheio. Um homem se arrastando dia e noite. Altas horas ao sol ou à lua. Esfarrapado. Medieval. Algo saído de um quadro de Bosch. Um verso de Dante. Uma cena de Fellini. Uma vírgula apocalíptica. Balbucia súplicas empurrando uma caixa com trocados. Barrando. Atropelando os passantes. Nas costas um cartaz Deus Lhe Pague. Cuspe. Mais que um coadjuvante. De rua. Parece um não-homem desmanchando sob o alheio. Uma mulher que diz nada. Apenas olha com cara terrivelmente velha e suplicante. Numa terra de branco transparente. Projeta a sombra da noite. Olha nos olhos. Guarda a esmola na sacola. No final da tarde, talvez, o pão. Um Deus Lhe Pague sempre lhe escapa da frágil boca vespertina. Seca. Fiandeira de destinos. De rua. Parece uma não-mulher  acusando o alheio. Somam-lhes homem-estaca, homem-carrinho, homem-pula-pula, homem-nada. Sexo a varejo. Há mais homem que mulher na lida da pedição. Há mais mulher que homem no aluguel de criança. Há mais criança que adulto na perda da própria identidade. Sobre todos  há um silêncio sepulcral!

SEIS - Festival de pernas amputadas. Braços cotocos. Corpo sem coordenação. Cabeças ocupadas por extraterrestres, espíritos de porcos, fantasmas do passado. Ouvidos sem som. Bocas sem fala. Olhos sem luz. Feridas extrapolando a alma. Gente terminal. Interminada. Interminável. Não-gente. Não!

SETE – Infância!? Inocência!? Esperança!? Sonho!? Futuro: Compre um agulheiro, tio! Compre uma pastilha, tia! Compre uma flor pra moça, moço! Compre isso! Compre aquilo! Eu preciso vender, se não a minha mãe me bate! Então, me dê um trocado! Faço qualquer coisa! Me ajude! Me dê! Me! M! !   

OITO - Um trocado! Um real! Um vale refeição! Um vale transporte! Uma ajuda para comprar remédio para a criança! Pedem. Suplicam. Exigem inexistentes cidadãos. Ninguém está a salvo. Nem eles! A miséria entre os comuns pode ser ampla, geral e irrestrita. Depende apenas do ponto (em) que se avista. Ou da coleta do dia. Não há espaço para amadores. Todos são sem alguma coisa. Desejos (quase) abortados. Mãos indomadas no atacado!

NOVE - Pede-se de tudo pelas ruas, esquinas, praças, portas de bares, restaurantes, igrejas, cinemas, cemitérios, centros de compras, caixas 24 horas. Teatro. O pedintódromo é a céu aberto. Qualquer lugar que o movimento prometa. Um pede. Teme ser preso. Outro dá. Teme ser tomado. Marcado. Vigiado. Encontrado na esquina que vem depois. Paraneurose.  Neuroparanóia. Pesadelos. Noites em claro. Ouvidores caros. Rezas obsoletas. Gorjetas dizimadas. Decimadas. Olhar conivente de um Deus!

DEZ - Minha culpa! A Igreja. Crescer e multiplicar. Minha culpa! O rico. Ser rico. Minha culpa! O pobre. Ser pobre. Minha culpa! O empresário. Ser lucro. Minha culpa! O computador. Ser futuro. Minha culpa!  O Governo. Ser falta. Minha culpa! O Estado. Ser resto. Minha máxima culpa! O Pedinte. Existir. Pedir. “Ei, doutor, uma esmola/ para um pobre que é são/ ou lhe mata de vergonha/ ou vicia o cidadão”, cantava Gonzaguinha, nos anos 70. Um dia ao invés de poesia. Ser. Cidadania!


(*) Joba Tridente - Crônica escrita em 04.06.1997, publicada no mesmo ano no Caderno Cultural do Jornal A Notícia (Joinville-SC)..., e ainda atual. Ilustração de 2013.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...