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sábado, 28 de abril de 2018

Sabrina Lopes: poema (sem título)


Em 2016 foi lançando o livro Blasfêmeas - Mulheres de Palavra, reunindo 64 poetas atuantes na literatura contemporânea brasileira. Segundo a escritora Marília Kubota, que juntamente com Rita Lenira de Freitas Bittencourt organizou a edição: “Com esta antologia, queremos apresentar um panorama de vozes poéticas femininas, no qual percebemos a diversidade do que é “ser mulher”. Há vozes que se alinham ao discurso modernista, com predominância do dizer fragmentário e do tom coloquial, o tom da “poesia de mulher” de Adélia Prado; há o resgate de formas clássicas, ao modo de Cecília Meirelles, e também as que dialogam com a visualidade proposta pela poesia concreta. Grande parte destas autoras é de uma geração que iniciou sua vida literária através da internet, escrevendo em blogues ou sites; outras, começaram em áreas mais afins à literatura, como o jornalismo, a publicidade, as artes visuais, as atividades acadêmicas. Minimalistas ou verborrágicas, líricas ou satíricas, cotidianas ou metafísicas, elas compõem o panorama que define a poesia de mulher contemporânea: a palavra, hoje, é muito mais feminina.”

Das 64 autoras selecionei sete. Um poema de cada..., que você conhecerá em sete postagens. Comecei com Branca envelhece na neve, de Adriane Garcia, segui com Canção para arrumar a mesa, de Ana Mariano, e A Cadela de Platão, de Bárbara Lia, e [e eu saboreio uma irish car bomb], de Lisa Alves, e Era dia e o sol iluminava a casa, de Nydia Bonetti, e Notas sobre os felídios selvagens numa página de Rimbaud, de Regina Bostulim, e encerro com o poema (sem título) de Sabrina Lopes.


     
(sem título)
Sabrina Lopes

O cordeiro morre silencioso, não se ouve sequer um perdoai-vos. Escorre uma lágrima: nem ela sentimental. Corre por gravidade, na posição inédita de patas para cima. Como o sangue do seu pescoço aberto.

Há outros animais a elencar.

Porcos morrem gritando que nem gente. Não é qualquer um que pode matar porco, aos escolhidos pesa a sua própria coragem surda. A berradeira não é mística, começa com a virada do bicho de pernas para o alto – e não um dia antes, de pressentimento. Pés e mãos amarrados, o sequestro do porco termina com uma facada no coração.

O gado também grita, um grito grave, tuba terrível, não porque se vê amarrado, o que não estranha, mas porque logo vê jorrar o sangue da veia que lhe estouraram na testa. Sangrado o boi.

São Francisco abandonou suas roupas, mas não seu capital cultural.

O gado se revoltou uma vez. Foi na presença do cadáver de uma vaca.

Reconheceram, cheiraram. As centenas de cabeças cheirando e gritando seu grito grave, que fazia o coração dos homens vibrar, e talvez a água. O touro, ao redor de todos, correndo em círculos, dolorido. Um comício circular, um protesto acompanhado pelo coro mais instintivo, a liderança periférica possível aos animais não castrados. Da política, meu tio que era novo aprendeu uma lição: não confrontar o gado com seu destino. As reses que se acreditem imortais.

Enterrar os mortos.

*
ilustração: joba tridente.2018


Sabrina Lopes (Curitiba/PR, 1976) publicou poemas em Babel, Rascunho, Medusa e Alforja, no México, além da antologia Passagens (Imprensa Oficial do Paraná). Manteve, de 2002 a 2010, blogues de literatura, majoritariamente crônicas. Integrou o grupo de performance Galactodendron.

Blasfêmeas - Mulheres de Palavra foi editado pela Casa Verde.


sexta-feira, 27 de abril de 2018

Regina Bostulim: Notas sobre os felídios selvagens numa página de Rimbaud


Em 2016 foi lançando o livro Blasfêmeas - Mulheres de Palavra, reunindo 64 poetas atuantes na literatura contemporânea brasileira. Segundo a escritora Marília Kubota, que juntamente com Rita Lenira de Freitas Bittencourt organizou a edição: “Com esta antologia, queremos apresentar um panorama de vozes poéticas femininas, no qual percebemos a diversidade do que é “ser mulher”. Há vozes que se alinham ao discurso modernista, com predominância do dizer fragmentário e do tom coloquial, o tom da “poesia de mulher” de Adélia Prado; há o resgate de formas clássicas, ao modo de Cecília Meirelles, e também as que dialogam com a visualidade proposta pela poesia concreta. Grande parte destas autoras é de uma geração que iniciou sua vida literária através da internet, escrevendo em blogues ou sites; outras, começaram em áreas mais afins à literatura, como o jornalismo, a publicidade, as artes visuais, as atividades acadêmicas. Minimalistas ou verborrágicas, líricas ou satíricas, cotidianas ou metafísicas, elas compõem o panorama que define a poesia de mulher contemporânea: a palavra, hoje, é muito mais feminina.”

Das 64 autoras selecionei sete. Um poema de cada..., que você conhecerá em sete postagens. Comecei com Branca envelhece na neve, de Adriane Garcia, segui com Canção para arrumar a mesa, de Ana Mariano, e A Cadela de Platão, de Bárbara Lia e [e eu saboreio uma irish car bomb], de Lisa Alves, e Era dia e o sol iluminava a casa, de Nydia Bonetti, e continuo com Notas sobre os felídios selvagens numa página de Rimbaud, de Regina Bostulim.

      
     
Notas sobre os felídios selvagens numa página de Rimbaud
Regina Bostulim

Só existe uma palavra - pungente -
a descrever cheiro em peças de roupa
calor em moedas aquecidas
marcas de beijo em páginas.

Herança perdida num país distante
lágrima de sal e naufrágio,
de tudo sobra esse gosto
de coisa guardada e esquecida.

Traço de rosa húmus almíscar
a floresta escura e um raio de sol à tarde.

*
ilustração: joba tridente.2018


Regina Bostulim (Curitiba/PR, 1963) é escritora, pintora, fotógrafa, artesã, performer, artista há mais de 50 anos. Tem cidadania europeia (Lisboa, Portugal), desde 2016, por serviços prestados à cultura. Publicou cerca de quarenta livros, entre solos e antologias, em papel e e-book, no Brasil e Portugal. Estudou Letras, PhD, na Universidade de Coimbra. Realizou exposições fotográficas e artísticas, no Brasil, na Rússia e na Suécia. Prêmio Nacional de Poesia Helena Kolody. Colaborou, entre outros, com a revista MEMAI e jornal Cândido, da Biblioteca Pública do Paraná.

Blasfêmeas - Mulheres de Palavra foi editado pela Casa Verde.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Nydia Bonetti: Era dia e o sol iluminava a casa


Em 2016 foi lançando o livro Blasfêmeas - Mulheres de Palavra, reunindo 64 poetas atuantes na literatura contemporânea brasileira. Segundo a escritora Marília Kubota, que juntamente com Rita Lenira de Freitas Bittencourt organizou a edição: “Com esta antologia, queremos apresentar um panorama de vozes poéticas femininas, no qual percebemos a diversidade do que é “ser mulher”. Há vozes que se alinham ao discurso modernista, com predominância do dizer fragmentário e do tom coloquial, o tom da “poesia de mulher” de Adélia Prado; há o resgate de formas clássicas, ao modo de Cecília Meirelles, e também as que dialogam com a visualidade proposta pela poesia concreta. Grande parte destas autoras é de uma geração que iniciou sua vida literária através da internet, escrevendo em blogues ou sites; outras, começaram em áreas mais afins à literatura, como o jornalismo, a publicidade, as artes visuais, as atividades acadêmicas. Minimalistas ou verborrágicas, líricas ou satíricas, cotidianas ou metafísicas, elas compõem o panorama que define a poesia de mulher contemporânea: a palavra, hoje, é muito mais feminina.”

Das 64 autoras selecionei sete. Um poema de cada..., que você conhecerá em sete postagens. Comecei com Branca envelhece na neve, de Adriane Garcia, segui com Canção para arrumar a mesa, de Ana Mariano, e A Cadela de Platão, de Bárbara Lia e [e eu saboreio uma irish car bomb], de Lisa Alves, e continuo com Era dia e o sol iluminava a casa, de Nydia Bonetti.

      
     
Era dia e o sol iluminava a casa
Nydia Bonetti

1.
Ama-me, é tempo ainda¹ diz a mulher
de olhos de fogo e ternura
encarnada.
Olhos de bruma
e secura de pedra, digo:- me esqueça.
Tempo não (h)ouve.

2.
Uivam os cães de Hilda, enquanto
passam as caravanas
vazias
de palavras e gentes
[...ao vento

            Das almas
           dos bichos/dos homens
           o que se sabe?²

3.
Dizem que enternece seus cães
que se tornam quase
humanos.

Dizem
que é estranha
essa mulher [quase ...um bicho

4.
Essa noite sonhei com Hilda.
E ela me confessava que foi preciso enlouquecer
para ser ouvida.
Havia cães à sua volta. Todos sorriam - sorrisos
de cães.
Era dia e o sol iluminava a casa.


1. verso do poema de HH – “Ama-me. É tempo ainda.”
2. “O que sabeis / Da alma dos homens?” - do ‘poema aos homens     
do nosso tempo’

*
ilustração: joba tridente.2018


Nydia Bonetti (Piracaia/SP, 1958), engenheira civil e poeta. Livros publicados: Sumi-ê (Editora Patuá, 2013),  Minimus Cantus, Projeto Instante Estante/ Castelinho Edições e participou das antologias  Desvio para o vermelho - Treze poetas brasileiros contemporâneos (Coleção Poesia Viva/CCSP) e Qasaëd Ila Falastin (Poemas para Palestina (Selo ZUNAI, e antologias diversas. Tem poemas publicados na Revista Zunái, Mallarmargens, Germina.

Blasfêmeas - Mulheres de Palavra foi editado pela Casa Verde.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Lisa Alves: [e eu saboreio uma irish car bomb]


Em 2016 foi lançando o livro Blasfêmeas - Mulheres de Palavra, reunindo 64 poetas atuantes na literatura contemporânea brasileira. Segundo a escritora Marília Kubota, que juntamente com Rita Lenira de Freitas Bittencourt organizou a edição: “Com esta antologia, queremos apresentar um panorama de vozes poéticas femininas, no qual percebemos a diversidade do que é “ser mulher”. Há vozes que se alinham ao discurso modernista, com predominância do dizer fragmentário e do tom coloquial, o tom da “poesia de mulher” de Adélia Prado; há o resgate de formas clássicas, ao modo de Cecília Meirelles, e também as que dialogam com a visualidade proposta pela poesia concreta. Grande parte destas autoras é de uma geração que iniciou sua vida literária através da internet, escrevendo em blogues ou sites; outras, começaram em áreas mais afins à literatura, como o jornalismo, a publicidade, as artes visuais, as atividades acadêmicas. Minimalistas ou verborrágicas, líricas ou satíricas, cotidianas ou metafísicas, elas compõem o panorama que define a poesia de mulher contemporânea: a palavra, hoje, é muito mais feminina.”

Das 64 autoras selecionei sete. Um poema de cada..., que você conhecerá em sete postagens. Comecei com Branca envelhece na neve, de Adriane Garcia, segui com Canção para arrumar a mesa, de Ana Mariano, e A Cadela de Platão, de Bárbara Lia, e continuo com [e eu saboreio uma irish car bomb], de Lisa Alves.


                
[e eu saboreio uma irish car bomb]
Lisa Alves

Eu bebia uma Irish Car Bomb
enquanto crianças eram pulverizadas por bombas israelenses.
O Mal distante é legítima ficção até o dia q
nos extraem de nós mesmos para sermos outros.

Meu vizinho é um corpo de carne e ossos
e se ele se incendeia eu penso em performance.

Adel Kedhri (Tunísia): performer
Jampa Yeshi (Índia): performer
Lâm Văn Tuc (Vietnã do Sul): performer
Prema Devi (Índia): performer

Contam que após o domínio do fogo
nossa espécie transubstanciou o cérebro
para algo hábil a criar bombas e rodas.

Adel Kedhri incendiou-se
Jampa Yeshi incendiou-se
Lâm Văn Tuc incendiou-se
Prema Devi incendiou-se

São Martinho articulava sobre o Homem ser fogo,
Buda propunha que o coração é a lareira
e Heráclito dizia: do fogo tudo flui.

Adel Kedhri é uma mensagem
Jampa Yeshi é uma mensagem
Lâm Văn Tuc é uma mensagem
Prema Devi é uma mensagem

Sonho com uma tempestade de fogo,
sonho com olhos volvendo em cinzas,
sonho com o cheiro amedrontador do Deus dos Mortos
colhendo infanticídios nos campos de girassóis da Ucrânia.

Adel Kedhri é um noticiário
Jampa Yeshi é um noticiário
Lâm Văn Tuc é um noticiário
Prema Devi é um noticiário

E eu saboreio uma Irish Car Bomb.


*
ilustração: joba tridente.2018


Lisa Alves (Araxá/MG, 1981) mora em Brasília. É curadora da revista Mallarmargens. Tem textos publicados em revistas e sites como Zunai, Flaubert, Germina, Cronópios e Diversos Afins. Tem poemas publicados em sete antologias lançadas no Brasil, Argentina e País Basco. Lançou em 2015 seu primeiro livro de poesia Arame Farpado (Coletivo Púcaro). Site: lisaallves.wix.com/lisaalves. Blog: lisaallves.blogspot.com.br.

Blasfêmeas - Mulheres de Palavra foi editado pela Casa Verde.

terça-feira, 24 de abril de 2018

Bárbara Lia: A cadela de Platão


Em 2016 foi lançando o livro Blasfêmeas - Mulheres de Palavra, reunindo 64 poetas atuantes na literatura contemporânea brasileira. Segundo a escritora Marília Kubota, que juntamente com Rita Lenira de Freitas Bittencourt organizou a edição: “Com esta antologia, queremos apresentar um panorama de vozes poéticas femininas, no qual percebemos a diversidade do que é “ser mulher”. Há vozes que se alinham ao discurso modernista, com predominância do dizer fragmentário e do tom coloquial, o tom da “poesia de mulher” de Adélia Prado; há o resgate de formas clássicas, ao modo de Cecília Meirelles, e também as que dialogam com a visualidade proposta pela poesia concreta. Grande parte destas autoras é de uma geração que iniciou sua vida literária através da internet, escrevendo em blogues ou sites; outras, começaram em áreas mais afins à literatura, como o jornalismo, a publicidade, as artes visuais, as atividades acadêmicas. Minimalistas ou verborrágicas, líricas ou satíricas, cotidianas ou metafísicas, elas compõem o panorama que define a poesia de mulher contemporânea: a palavra, hoje, é muito mais feminina.”

Das 64 autoras selecionei sete. Um poema de cada..., que você conhecerá em sete postagens. Comecei com Branca envelhecena neve, de Adriane Garcia, segui com Cançãopara arrumar a mesa, de Ana Mariano, e continuo com A Cadela de Platão, de Bárbara Lia.


                           
A cadela de Platão
Bárbara Lia

Eu sou a cadela de Platão
Só restos do banquete
Só o cheiro do amor
(o osso, o osso, o osso)
Voz de Diotima - eco singelo
(é belo, é belo, é belo)
Não é belo lamber o chão
Fazer o amor virar lama
(sem cama, sem cama, sem cama)
Alguém arranque este amor até o siso
Nada mais vai brotar nas entranhas
Nas veias, na cava oca do coração
Este que acabei de atirar
Ao mais amado cão

*
ilustração: joba tridente.2018



Bárbara Lia (Assaí/PR), publicou dez livros, entre eles: O sal das rosas (Lumme, 2007), A última chuva (ME, 2007), Solidão Calcinada (Imprensa Oficial do PR, 2008), Paraísos de Pedra (Penalux, 2013) e Respirar (Ed. da autora, 2014). Antologias: O que é Poesia? (Confraria do Vento?Calibán, 2009), O Melhor da Festa 3 (Festipoa/Casa Verde, 2011), Amar - Verbo Atemporal (Rocco,2013), A Arqueologia da Palavra e a Anatomia da Língua (Literatas - Maputo,2013) entre outras. Vive em Curitiba.

Blasfêmeas - Mulheres de Palavra foi editado pela Casa Verde.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Ana Mariano: Canção para arrumar a mesa


Em 2016 foi lançando o livro Blasfêmeas - Mulheres de Palavra, reunindo 64 poetas atuantes na literatura contemporânea brasileira. Segundo a escritora Marília Kubota, que juntamente com Rita Lenira de Freitas Bittencourt organizou a edição: “Com esta antologia, queremos apresentar um panorama de vozes poéticas femininas, no qual percebemos a diversidade do que é “ser mulher”. Há vozes que se alinham ao discurso modernista, com predominância do dizer fragmentário e do tom coloquial, o tom da “poesia de mulher” de Adélia Prado; há o resgate de formas clássicas, ao modo de Cecília Meirelles, e também as que dialogam com a visualidade proposta pela poesia concreta. Grande parte destas autoras é de uma geração que iniciou sua vida literária através da internet, escrevendo em blogues ou sites; outras, começaram em áreas mais afins à literatura, como o jornalismo, a publicidade, as artes visuais, as atividades acadêmicas. Minimalistas ou verborrágicas, líricas ou satíricas, cotidianas ou metafísicas, elas compõem o panorama que define a poesia de mulher contemporânea: a palavra, hoje, é muito mais feminina.”

Das 64 autoras selecionei sete. Um poema de cada..., que você conhecerá em sete postagens. Comecei com Branca envelhecena neve, de Adriane Garcia, e sigo com Canção para arrumar a mesa, de Ana Mariano.


                          
Canção para arrumar a mesa
Ana Mariano

De minha mãe, eu sei, herdei a calma,
os pés no chão, a luz dos candelabros.

Mas quem legou as mãos ardendo em brasa?
Quem semeou em mim esta semente,
a cada outono florescendo em dálias?

Era tão certa a casa em que vivíamos,
seu lúcido equador, as costas largas,
bonança horizontal, pompa e decoro.

Sobre a toalha, o rol de cicatrizes:
à esquerda os garfos, à direita as facas
no centro, o prato, dentro, o guardanapo.

Onde coloco, mãe, o desconforto,
essa vontade de afiar as garras?

*
ilustração: joba tridente.2018


Ana Mariano (Porto Alegre/RS) tem poemas, contos e ensaios publicados em revistas literárias e coletâneas como Antologia dos contistas bissextos (L&PM) e 100 Autores que você precisa ler (L&PM). Publicou o livro de poemas Olhos de cadela (L&PM, 2006), finalista do Prêmio Açorianos. Seu romance Atado de ervas (L&PM, 2011) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura – categoria melhor livro do ano de autor estreante.

Blasfêmeas - Mulheres de Palavra foi editado pela Casa Verde.

domingo, 22 de abril de 2018

Adriane Garcia: Branca envelhece na neve


Em 2016 foi lançando o livro Blasfêmeas - Mulheres de Palavra, reunindo 64 poetas atuantes na literatura contemporânea brasileira. Segundo a escritora Marília Kubota, que juntamente com Rita Lenira de Freitas Bittencourt organizou a edição: “Com esta antologia, queremos apresentar um panorama de vozes poéticas femininas, no qual percebemos a diversidade do que é “ser mulher”. Há vozes que se alinham ao discurso modernista, com predominância do dizer fragmentário e do tom coloquial, o tom da “poesia de mulher” de Adélia Prado; há o resgate de formas clássicas, ao modo de Cecília Meirelles, e também as que dialogam com a visualidade proposta pela poesia concreta. Grande parte destas autoras é de uma geração que iniciou sua vida literária através da internet, escrevendo em blogues ou sites; outras, começaram em áreas mais afins à literatura, como o jornalismo, a publicidade, as artes visuais, as atividades acadêmicas. Minimalistas ou verborrágicas, líricas ou satíricas, cotidianas ou metafísicas, elas compõem o panorama que define a poesia de mulher contemporânea: a palavra, hoje, é muito mais feminina.”

Das 64 autoras selecionei sete. Um poema de cada..., que você conhecerá em sete postagens. Começo com Branca envelhece na neve, de Adriane Garcia.


                           
Branca envelhece na neve
Adriane Garcia
        
Morta, aguardando sopro
Beijo alheio de vida
No féretro

Somente os chilreios dos pássaros
No péssimo humor, desapercebidos

Há tanto tempo passam homens
E bolinam, mesmo copulam

Muitos
Com a morta

O corpo duro não repõe
Fluidos
Não há o rosto angélico do que foi
Outrora:

Cada vez mais é mulher
No espelho.

*

ilustração: joba tridente.2018



Adriane Garcia, poeta, nascida em Belo Horizonte. Tem publicados os livros Fábulas para adulto perder o sono, ed. Biblioteca do Paraná (Prêmio Paraná de Literatura 2013); O nome do mundo, ed. Armazém da Cultura 2014; Só, com peixes, ed. Confraria do Vento, 2015. Publica em diversas revistas online e antologias no Brasil e em Portugal.

Blasfêmeas - Mulheres de Palavra foi editado pela Casa Verde.

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