Mostrando postagens com marcador História. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador História. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Victor Champier: Uma locomotiva do século XVII

Adoro curiosidades de Almanaque. Na minha infância havia o delicioso Almanaque Fontoura. Há uns dois ou três anos descobri antigos Almanaques, em edições digitais da Brasiliana-USP, e fiquei encantado. Viajando pelas páginas do Almanach Popular para 1878, encontrei este delicioso artigo de Victor Champier: Uma locomotiva do século XVII, infelizmente sem a autoria do tradutor português. Acho que o meu encanto por este texto com ares de fantástico tem a ver com o fascinante gênero literário Steampunk, que estou conhecendo. Atualizei apenas a grafia.

 Uma locomotiva do século XVII
(Tradução para o Almanach Popular para 1878)

Não há nada de novo debaixo do sol; a natureza transforma-se, mas reaparecem sempre os mesmos elementos.
Existe ainda alguém que acredite no progresso?
Se tivessem lido o livro de Édouard Fournier, o Vieux Neuf, veriam estar demonstrado que os antigos egípcios, gregos, romanos - e outros, conheciam todas as grandes invenções que nós, modernos, nos atribuímos.
Este livro que se tornou raro, e cuja reimpressão nós podemos anunciar entre parêntesis, prova claramente que não ha uma só força mecânica que os gregos não pressentissem, uma só aplicação de química ou de física que não tenha sido empregada por eles.
O quê! direis vós, o vapor que data apenas de um século?
E então! que pensais? O vapor é velho como o mundo.
Hiren d'Alexandrie divertia-se há alguns centos de anos a fazer dançarem esferazinhas à extremidade do jato do vapor.
Era divertimento, na verdade, mas é, sem duvida, porque os antigos não queriam dar à água quente um papel mais nobre. Por um excesso de civilização eles recusavam-se a inventar os caminhos de ferro, causa permanente de acidentes e além disso instrumentos de perdição, como dizia o cura de certa aldeia.
E não só o vapor, mas também os balões lhes eram conhecidos. Inclina-te bravo Montgolfier!
Pelo menos, sabe-se que antes de Cyrano de Bergerac foram vistos ovos de galinha cheios de rocio flutuar nos ares como balões.
Aulu Gelle contou que tinha admirado um pombo mecânico que voava e agitava-se no espaço, devido a um ar sutil de que tinha o corpo cheio.
Não existe coisa alguma até aos milagres, cuja invenção não seja antiga.
Os sacerdotes das religiões antigas faziam-nos admiráveis, e a certos respeitos, superiores aos que se vêm agora.
No Egito os altares eram arranjados com a máxima habilidade. A água destinada às libações, nas cerimonias sagradas, achava-se no interior de uma cavidade, comunicando por um tubo com a taça colocada sobre o altar ou na mão do sacerdote; no momento de fazer o milagre, a taça estando ainda vazia, trazia-se um fogo ardente, sem o qual não era possível a cerimonia. Posto sobre o altar aquecia o ar interior que, dilatando-se, comprimia energicamente a superfície do liquido e o fazia subir pelo tubo até à taça. A libação tinha lugar assim e o povo acreditava no prodígio.
Vão se admirar, depois disto, quando dissermos que as locomotivas com que se sulca, neste momento, todos os boulevards de Paris, cuja invenção os ingleses tão altivamente se atribuem e das quais os americanos fazem tão grande uso há vinte anos, são simplesmente de origem francesa, que datam do século XVII, a menos que não remontem ao tempo dos Assírios ou que um semideus índio as tenha feito conhecer aos homens há milhares de anos!
Eis o caso. Há alguns meses, no palácio dos Campos Elyseos, o marechal de Mac-Mahon, presidente da republica, visitando as galerias da exposição da União Central, deteve-se ao pé da grande escada de honra e encaminhou-se, em seguida, para uma das elegantes lojas reservadas para livros. Achou-se diante dos livros editados por Morel e tomando um grande in-fólio, magnificamente impresso e cheio de belos desenhos, achou-lhe o seguinte título: Château de Marly-le-Roi, construit em 1676, détruit en 1798, par Aug.-Alex. Guillaumot.
O marechal examinava as gravuras com o descuido próprio de um personagem eminente. De repente levantou a cabeça e voltando-se para os seus ajudantes de campo, exclamou:
- Vede, é uma locomotiva!
Efetivamente, a gravura representava uma espécie de trenel rolando sobre trilhos, pelo meio do parque de Marly, tendo por viajantes as damas da corte e o rei Luiz XIV, em pessoa que, de pé à retaguarda, parecia presidir a carreira.
Sabe-se a predileção que este rei tinha por Marly e quantas prodigalidades tinha feito para construir neste país o magnífico castelo em que ele tanto gostava de dar festas.
No parque estavam dispostos grande quantidade de jogos destinados a fazer passar agradavelmente o tempo aos seus convidados.
Entre eles havia o da roulette, espécie de caminho de ferro posto em movimento à força de braços.
Era este jogo que estava gravado no volume que folheava o marechal de Mac-Mahon.
A locomotiva real, ornada à retaguarda, de quimeras douradas, rolava sobre pedrinhas de pequeno diâmetro, e os trilhos estavam solidamente arranjados.
O terreno conserva ainda neste lugar a inclinação que lhe deram para obter impulso, amortecido à chegada por um movimento inverso; o jogo dianteiro era armado de croquezinhos destinados a ajudá-la a subir quando a nobre companhia a abandonasse em meio do caminho.
É preciso ajuntar, para verificar o mérito da invenção com sua data, que lâminas girantes permitiam mudar a direção do veículo para a direita! Nós não temos ainda hoje nenhuma locomotiva munida deste precioso aparelho.
E agora, se me perguntarem o nome do inventor, serei obrigado a confessar que ignoro. Mas, que faz um nome?
Basta saber que o objeto existia: quod erat demonstrandum.


(*)
Victor Champier (1851-1929): historiador, editor e crítico de arte. Mais informações no OAC - Online Archive of California: Victor Champier e no Wikipédia: Victor Champier.

Édouard Fournier (1819 - 1880): escritor, dramaturgo, historiador, bibliógrafo e bibliotecário francês. Mais informação no Wikipédia: Édouard Fournier

Livro Vieux Neuf (1859) - o volume 2 (de 2): Vieux Neuf 

Ilustração: Locomotive Gilderfluke (American Journal Railway Gazette, 06 de dezembro de 1931), que encontrei em Some Fictional Locomotives. O site,  com suas loucas locomotivas ao estilo Steampunké muito bacana: Some Fictional Locomotives

domingo, 8 de janeiro de 2012

Mika Waltari: O Egípcio, O Etrusco e O Romano


Li O Egípcio, O Etrusco e O Romano, de Mika Waltari (1908 - 1979), em sequência. Estes três envolventes romances históricos que falam de religião e política, paixão e sexo, traição e guerra, em épocas e governos “diferentes”, chamam a atenção por outro ponto em comum: seus personagens (protagonistas e coadjuvantes) são pessoas extremamente ordinárias. Uma gente meio (ou totalmente) sem caráter, sem ética, “sem pai nem mãe”. Donos de um passado desconhecido, mas “nobre”, estão sempre dispostos a levar vantagem (e conseguem) em tudo o que se metem, (principalmente na espionagem) a serviço de faraós, reis, imperadores, sem importar se as informações (colhidas) são cruciais para a submissão e ou extermínio de povos que acreditam na sua amizade. Ou ainda resultar na morte de seus próprios familiares. Ocupados em ficar ricos, se isentam de qualquer culpa e ou arrependimento pelos seus abomináveis feitos (a serviço dos déspotas), creditando-os à busca de conhecimento.

Narrando sempre na primeira pessoa, Mika nos conta a história de seus personagens-título através da autobiografia que cada um está escrevendo para justificar seus atos infames. Através de um texto perspicaz, vamos aos poucos descobrindo a personalidade (perturbada) de cada anti-herói e nos enredando em sua trama por vezes indigesta e sem saída. Cândidos no fim, os carreiristas Sinuhe (o egípcio), Turms (o etrusco), e Minuto (o romano), trágicos e românticos na sua depravação, detêm-se nas minúcias ao relatar uma vida atribulada e pouco invejável. Preconceituosos e irresponsáveis, egoístas e egocêntricos, desvelam ganhos e perdas de valiosos bens e de mulheres (tão podres quanto eles). Tamanha é a covardia de cada um que dificilmente o leitor será simpático à sua “causa” (e ou dor), e tampouco conseguirá parar de acompanhar as suas sagas repletas de reviravoltas, para ver até onde irão, na ânsia de atingir os seus propósitos.

Dos personagens coadjuvantes: o esperto escravo Kaptah (que resgata a dignidade ultrajada de Sinuhe), o espartano Doro (traído pelo ambicioso Turms), e o imperador Nero (enaltecido pelo avarento Minuto), o melhor e mais fascinante deles é Doro que, infelizmente, (mesmo sendo mais interessante que Turms) “desaparece” no meio da narrativa. É um personagem tão cativante e intenso que a sua breve vida merecia um livro próprio. O Etrusco, pela luminosidade, ritmo, ação e aventura com boa dose de humor, é o meu favorito. Também porque me pareceu menos (explicitamente) violento que O Egípcio e O Romano. A beleza de O Etrusco é comparável à fabulosa obra da escritora inglesa Mary Renault (1905 - 1983), autora de excepcionais romances históricos que se passam na Grécia antiga. Como não li as obras de Mika Waltari no original finlandês e muito menos a versão inglesa que deu origem à tradução brasileira, não posso precisar a ausência de humor em O Romano, já que O Egípcio ainda tem alguma graça nas armações do interesseiro Kaptah. Acredito, porém, que o foco religioso destes dois fantásticos livros contribui para o seu clima mais obscuro, mas não menos interessante.

Assim como os personagens gregos de Renault, Sinuhe, Turms e Minuto não são caricatos. Longe disso, são mais tangíveis que os transeuntes, políticos, religiosos que esbarramos por aí. E, com certeza, mais humanos do que a maioria deles. Sempre acreditei que quando não se pode ler o original, deve-se sempre duvidar das traduções, por melhores que sejam. No entanto, sem parâmetro comparativo, acatei com prazer estas edições da Itatiaia, mesmo com alguns problemas ortográficos. Enfim, o que me surpreendeu neste primeiro contato com a narrativa de Waltari foi o seu subtexto, o emprego da metalinguagem no tratamento “histórico” da “História”. Exemplifico com esta passagem, em O Romano (página 450), onde o filósofo Sêneca, em conversa com Minuto Lauso Maniliano, faz a seguinte consideração:

“- Dir-te-ei a mesma coisa que procurei incutir no espírito de Nero. Pode uma pessoa esconder por algum tempo, com dissimulação e subserviência, as suas características reais. Mas, no fim, o ato é sempre descoberto e a pele de ovelha de desprende do lobo. Nero tem sangue de lobo nas veias, por mais ator que seja. Tu também tens, Minuto, mas de um lobo mais covarde.” Mika Waltari. O Romano. 2ª. Edição. Editora Itatiaia Limitada. 1980. Tradução José Laurênio de Melo. 

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Literatura: Carta de Antônio Rodrigues



Carta de Antônio Rodrigues
O lado “B” da literatura “A” na Internet

Esta série de cinco artigos, que escrevi em 2001, foi publicada no Caderno G, da Gazeta do Povo, de Curitiba, no segundo semestre do mesmo ano.

Bem é que morram, porque não haverá ouro para tantos!
Este é um breve trecho da cópia de uma impressionante e, por vezes, apavorante carta que o soldado, viajante, aventureiro e jesuíta português Antônio Rodrigues enviou, em maio de 1553, aos seus irmãos jesuítas em Portugal e que a Fundação Biblioteca Nacional está disponibilizando, juntamente com A Alma Encantadora das Ruas, de João do Rio (1881/1923), no arquivo: Cronistas e Viajantes.

A carta é um relato dos sonhos, esperanças e pesadelos de Antônio Rodrigues em busca de uma terra repleta de riquezas: “E é que eu e outros Portugueses, assim por vaidade como por cobiça de ouro e prata, no ano de 1523, partimos de Sevilha em uma armada, que fazia Dom Pedro de Mendonça, na qual éramos 1800 homens; e todos carregados de nossa cobiça, chegamos, com próspero vento, ao Rio da Prata e entramos pelo rio com as naus 60 léguas.” O seu conteúdo desvela a confissão dolorida e amarga de um homem procurando compreender e situar a realidade que o cerca, diante da “lógica católica apostólica” a que serve. A culpa de Antônio Rodrigues, “em pensamentos, palavras e obras”, parece infinita e a sua súplica de perdão atravessará os “mares de Portugal” e também os séculos, atordoando o leitor habituado com a História Oficial. Nada se compara com o fato sendo descrito por quem comete o ato. Documento ideal para ser discutido e analisado por professores e alunos de história, geografia, antropologia, sociologia, economia, a carta detalha contrastes e confrontos entre civilizados e selvagens. Resta-nos saber quem é quem pois, uns são movidos pela ambição e outros para se livrar do jugo.

(...) Prouve a Nosso Senhor castigar a nossa cobiça e pecados, que soldados comumente fazem: permitiu vir tanta fome ao arraial que não davam a comer a cada um, cada dia, senão seis onças de pão. E, porque a gente por esta causa, com a fraqueza, não podia trabalhar, era muito castigada dos oficiais da ordem da guerra, porque lhes davam com paus, e assim morriam cada dia 4 ou 5.
Propondo-se a relatar uma viagem de ida e volta do Brasil ao Peru, Antônio Rodrigues serve-nos em uma cuia a História como ela era e assim, diante dos nossos olhos, o domínio português se firma, vilarejos são levantados e povos exterminados, enquanto a ambição leva dezenas de confiantes homens cristãos ao Peru e traz de volta uns poucos miseráveis sobreviventes. Quem dera fosse pura ficção!

(...) Porque, enforcando-se a dois soldados, lhes comeram as barrigas das pernas, e um homem matou em sua casa a um seu primo e comeu-lhe a assadura. Acabando de a comer o acharam que estava para morrer, permitindo Deus por seu justo juízo que o matasse a comida com que a morte do primo procurou. Aconteceu também comerem uns o excremento que outro depois de ter comido deitava, ainda que pela corrupção dos corpos era aquilo tão peçonhento que quem o comia logo morria. E, desta maneira, uns com fome, outros por os matarem as onças, e outros os gentios, morreram neste tempo, que se fez a cidade, 600 homens.

Para quem quer conhecer o Brasil de anteontem, pra entender o Brasil de hoje, a Carta de Antônio Rodrigues é um bom começo. Ela não é tão idílica, como a famosa Carta de Pero Vaz de Caminha (também disponível no site da FBN), portanto, que o leitor fique prevenido pois, em alguns momentos, a narrativa pode embrulhar o estômago mais sensível. É que não há como ficar indiferente aos cheiros da miséria e aos gritos da violação da terra, dos povos, das crenças primitivas, em nome de Jesus Cristo.

Há muitas terras povoadas deste gênero de gentio, os quais obedecem a seus principais e neles há grande disposição para se fazerem cristãos. Praza a Nosso Senhor de mandá-los visitar, porque a nossa, porque não era para ganhar as suas almas senão para ver se tinham ouro, não lhes fez nenhum proveito na fé.

ilustração: Terra Brasilis, Atlas Miller, c 1523 – 1525/Mapas Históricos Brasileiros/ Grandes Personagens da Nossa História – Abril Cultural, 1973
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...