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sábado, 11 de abril de 2020

Joba Tridente: Pão de Milho



pão de milho
joba tridente

me ouvindo destrancar a porta, a vizinha destrancou rapidamente também a sua e me perguntou o quê tanto Eu fazia fora de casa em tempos de isolamento social. levei um susto porque não sabia que Eu não parava em casa, com tantas recomendações. disse que teria uma séria conversa e Eu iria entender, de uma vez por todas, que não devia sair de casa descontroladamente. sair só quando necessário. agradeci a prestimosa vizinha, entrei em casa, fechei as três trancas, para o coronavírus não entrar, e comecei a falar. Eu não estava nem aí. ouvia por um ouvido e liberava pelo outro. ameacei até ficar com seu quarteto de chaves e nada. cansado de reclamar, de esbravejar, como se brigasse comigo mesmo, me calei. aí Eu disse: sabe que não conseguia achar fubá de milho em lugar algum? saía não achava. pesquisava e não achava. por fim encontrei na Quitanda do Zé, onde nunca tinha posto o pé (gracejou). gostou do Pão de Milho que fiz especialmente para aquecer a quarentena e degustar com uma xícara de chá de hortelã com erva-doce? emocionado, não soube o que responder. abracei Eu. beijei Eu. agradeci por Eu estar sempre comigo..., zelando por mim, nesses dias tão difíceis em que pipocam vírus fatais, sociais, políticos, religiosos, por tudo quanto é via...

joba.tridente.crônica.ilustração.10.04.2020


Joba Tridente, um livre pensador livre. artesão de imagens e de palavras em Verso: 25 Poemas Experimentais (1999); Quase Hai-Kai (1997, 1998 e 2004); em Antologias: Hiperconexões: Realidade Expandida – Sangue e Titânio (2017); Hiperconexões: Realidade Expandida (2015); 101 Poetas Paranaenses (2014); Ipê Amarelo, 26 Haicais; Ce que je vois de ma fenêtre – O que eu vejo da minha janela (2014); Ebulição da Escrivatura – 13 Poetas Impossíveis (1978); em Prosa: Fragmentos da História Antropofágica e Estapafúrdia de Um Índio Polaco da Tribo dos Stankienambás (2000); Cidades Minguantes (2001); O Vazio no Olho do Dragão (2001). Contos, poemas e artigos culturais publicados em diversos veículos de comunicação: Correio Braziliense, Jornal Nicolau, Gazeta do Povo, Revista Planeta, entre outros.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Conto Zen: As Flores e o Prato de Arroz

..., a morte é vista e ou reverenciada de maneira diferente em toda parte do mundo. ..., há tanto lamentação quanto regozijo. ..., a data (1 de novembro) é controversa. ..., mas, que pessoa viva e saudosa de um ente querido se preocupa com detalhes de calendário religioso e ou “profano”? As Flores e o Prato de Arroz é um belo texto com viés e dilema zen e a cada dia mais pertinente neste planeta abarrotado de “gente” intolerante. ..., esta versão (de autoria anônima?), tão propícia para hoje quanto para os demais dias do ano, contém leve variação narrativa (não de conteúdo) na internet.



As Flores e o Prato de Arroz

Um homem ocidental colocava flores no túmulo de um familiar quando observou que, no túmulo ao lado, após uma saudação silenciosa, um homem asiático depositou um prato de arroz sobre a lápide. Mal disfarçando um sorrisinho maroto, ironizou:
- Me desculpe se pareço inconveniente, mas o senhor acha mesmo que o falecido vai sair da tumba pra comer este arroz?
Ao quê, sem a menor perturbação no semblante, o asiático lhe respondeu:
- Sim, quando o seu defunto vier cheirar as suas flores.

*
ilustração: Cemitério Ucraniano em Antonio Olinto-PR
foto de joba tridente.2014


Joba Tridente, artesão de palavras e imagens em Verso: 25 Poemas Experimentais (1999); Quase Hai-Kai (1997, 1998 e 2004); em Antologias: Hiperconexões: Realidade Expandida – Sangue e Titânio (2017); Hiperconexões: Realidade Expandida (2015); 101 Poetas Paranaenses (2014); Ipê Amarelo, 26 Haicais; Ce que je vois de ma fenêtre - O que eu vejo da minha janela (2014); Ebulição da Escrivatura - 13 Poetas Impossíveis (1978); em Prosa: Fragmentos da História Antropofágica e Estapafúrdia de Um Índio Polaco da Tribo dos Stankienambás (2000); Cidades Minguantes (2001); O Vazio no Olho do Dragão (2001). Contos, poemas e artigos culturais publicados em diversos veículos de comunicação: Correio Braziliense, Jornal Nicolau, Gazeta do Povo, Revista Planeta, entre outros.

domingo, 20 de novembro de 2016

José João Craveirinha: Pena

Antes de conhecer Mia Couto eu conhecia a literatura africana.  Antes de saber que Mia Couto é branco eu sabia da literatura de autores africanos negros. Na cor, na pele, na voz, no grito do verbo dei de cara com a literatura africana nos “primórdios” da web, através de sites africanos que já foram soprados para longe.

Bons tempos aqueles em que a rede era um fascinante arquipélago com ilhotas pululando culturas deliciosamente estranhas. Foi mergulhando naquele admirável mundo novo que descobri a rica literatura em verso e prosa da África. Salvava uma coisa aqui e outra acolá. Muito se perdeu disquetes afora. Com o tempo aprendi a fuçar feito porco atrás de trufa. Nesse cavucar encontrei uma rara Antologia de Autores Africanos: Do Rovuma ao Maputo, organizada por Carlos Pinto Pereira, em 1999, a partir de arquivos esparsos na web. Para meu espanto a Antologia trazia algumas pérolas que admirara antes e, para minha felicidade, alguns dados biográficos de alguns autores.

Não sou muito ligado a datas. Creio que todo dia é dia de todo dia e do quê e de quem quiser o dia. Portanto, aproveito este domingo em que se comemora o Dia da Consciência Negra, no Brasil, e o fim da semana a ela dedicada, para iniciar a minha Semana da Literatura Africana, republicando alguns grandes autores que já estiveram por aqui, como José João Craveirinha, Geraldo Bessa, Viriato da Cruz..., e abrindo espaço também para a bela tradição oral do Continente Africano. Começo com o desconcertante poema Pena, do mestre moçambicano José Craveirinha (1922-2003), presente em Cela 1, de 1980.



P E N A
José Craveirinha

Zangado
acreditas no insulto
e chamas-me negro.

Mas não me chames negro.

Assim não te odeio
Porque se me chamas de negro
encolho os meus elásticos ombros
e com pena de ti sorrio.

*
Ilustração de Joba Tridente: 2015



José João Craveirinha (1922-2003) nasceu em Maputo, Moçambique.  Considerado o maior escritor moçambicano, o primeiro a receber o Prêmio Camões, iniciou-se no jornalismo no Brado Africano e se firmou colaborando com diversos veículos de informação. Craveirinha esteve preso entre 1965 e 1969, pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado), na Cela 1, com Malangatana e Rui Nogar. O escritor utilizou vários pseudônimos: Mário Vieira, J.C., J. Cravo, José Cravo, Jesuíno Cravo e Abílio Cossa. É autor de Xigubo (1964 - com 13 poemas e 1980 – com 21 poemas); Cantico a un dio di Catrame (1966); Karingana ua karingana (1974);  Cela 1 (1980); Izbrannoe (1984); Maria (1988); Babalaze das hienas (1996); Hamina e outros contos (1997); Maria. Vol.2 (1998); Poemas da Prisão (2004); Poemas Eróticos (2004 - edição póstuma organizada por Fátima Mendonça).

Para saber mais da sua obra, sugiro o ensaio José Craveirinha, publicado no Portal Lusofonia.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Joba Tridente: Paz Cabisbaixa


PAZ Cabisbaixa
Joba Tridente

Criei o Projeto a Arte Anda, em 2012, um Projeto de Arte Sustentável visando reutilizar os ingressos plásticos, estampados com detalhes de obras de arte do Acervo da Caixa Econômica Federal, utilizado pelo Teatro da Caixa de Curitiba. A série é composta por temas que buscam leitura nas mais diversas analogias conceituais (que vão além da forma): A Arte Anda..., ou Nada! (peixe); A Arte Anda..., ou Desliza (cobra 1 e 2); A Arte Anda..., ou Dança! (boi de folia). As obras podem ser conferidas no blog Lixo Que Vira Arte, clicando nos links entre parênteses.

Bem, mas não é sobre o projeto que quero falar, mas especificamente sobre uma peça da série A Arte Anda..., ou Dança!, de 2015. Dos dez objetos articulados, apenas o que recebeu a estampa com o detalhe do quadro PAZ - Nações Unidas, de Gomes de Souza, embora, como os outros Bois de Folia, movimente a cabeça e o pescoço, mantém-se cabisbaixo.

É claro que, em sendo objetos articulados artesanais, cada peça não é idêntica à outra e até mesmo o encaixe varia..., uma pode ficar com o pescoço parado e a cabeça levantada e outra não. O curioso é que esta, ainda que articulada, é a única que fica com a cabeça abaixada e não tem o que a faça alinhar-se ao pescoço. Um Boi de Melancólica Folia. Uma PAZ Cabisbaixa.


Decidi não vender a peça e refletir sobre a alegoria.  2015 tombando ladeira abaixo e 2016 subindo claudicante. A intolerância social, racial, política, religiosa..., crescendo célere com a mente desenfreada das pessoas obtusas no Brasil e no mundo. Vidas migrantes. Vidas mirradas. Vidas ceifadas aleatoriamente na aldeia global a cada dia mais fragilizada com seus colossos sovando o barro humano. Não o barro primordial da sopa da iniciação. Mas o barro essencial à sopa da civilização. Pasteuriza-se o conhecimento contemporâneo implodindo a cultura milenar.

PAZ Cabisbaixa me faz pensar sobre o mundo onde a rapina ao intelecto e à matéria é uma constante e a surdez às súplicas das vítimas dos ambiciosos senhores do capital e da guerra é absurda. Nas mídias e redes sociais, nos parlamentos e tribunais predomina arrogância do EU. A maioria uniformizada não fala, grita. E grita tão alto que é incapaz de ouvir os próprios impropérios. Não ouve. Não dialoga. Monologa! Não importa se andamos à sombra e ou à luz..., o terror nos vigia, o horror nos persegue, o temor nos tira o sono. Perde-se a cabeça pela diferença, pelo pensamento e por nada. Ideologia virou pacto de imbecis. Não tarda e a intelligentsia não passará de insignificante substantivo grifado no dicionário. No horizonte o colapso da civilização parece iminente..., tamanha a barbárie que nos ronda.


Todavia, numa Terra devastada por credos, a PAZ Cabisbaixa também me faz meditar que resistir à malta é preciso, ainda que nadar contra a violência da maré seja impreciso. Afinal, se a Arte é Sustentável..., a Paz também pode ser!


*
ilustração: Bois de Folia
criação e fotos de Joba Tridente

Joba Tridente em Verso: 25 Poemas Experimentais (1999); Quase Hai-Kai (1997, 1998 e 2004); em Antologias: Hiperconexões: Realidade Expandida (2015); 101 Poetas Paranaenses (2014); Ipê Amarelo, 26 Haicais; Ce que je vois de ma fenêtre - O que eu vejo da minha janela (2014); Ebulição da Escrivatura – 13 Poetas Impossíveis (1978); em Prosa: Fragmentos da História Antropofágica e Estapafúrdia de Um Índio Polaco da Tribo dos Stankienambás (2000); Cidades Minguantes (2001); O Vazio no Olho do Dragão (2001). Contos, poemas e artigos culturais publicados em diversos veículos de comunicação: Correio Braziliense, Jornal Nicolau, Gazeta do Povo, Revista Planeta, entre outros.

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