O Melro, de Guerra Junqueiro, é um dos poemas que
mais me impressionaram. A primeira vez em que o li, há uns 30 anos, fiquei em
estado de choque, diante da sua trágica beleza. Ele é intenso, provocante e
desconcertante, ferino e atual na sua crítica aos hipócritas de todas as
crenças. O Melro está publicado no
inquietante A Velhice do Padre Eterno
(1885). As ilustrações são de Leal da
Câmara (1876 - 1948) para a edição da Lello & Irmãos Editores, de 1926. A foto de abertura é de Norbert Kaiser - Wiki-Commons.
O Melro (1879)
O
melro, eu conheci-o:
Era negro, vibrante, luzidio,
Madrugador,
jovial;
Logo de manhã
cedo
Começava a soltar, dentre o arvoredo,
Verdadeiras risadas de cristal.
E assim que o padre cura abria a porta
Que dá para o
passal,
Repicando umas finas ironias,
O melro, dentre
a horta,
Dizia-lhe: “Bons
dias!”
E o velho padre
cura
Não gostava daquelas cortesias.
O cura
era um velhote conservado,
Malicioso, alegre, prazenteiro;
Não tinha pombas brancas no telhado,
Nem
rosas no canteiro;
Andava às lebres pelo monte, a pé,
Livre de
reumatismos,
Graças a Deus, e graças a Noé.
O melro
desprezava os exorcismos
Que o padre lhe
dizia;
Cantava, assobiava alegremente
Até que
ultimamente
O velho disse
um dia:
“Nada,
já não tem jeito! este ladrão
Dá cabo dos
trigais!
Qual seria a
razão
Porque Deus fez os melros e os pardais?!”
E o melro, no entretanto,
Honesto como um
santo,
Mal vinha no
oriente
A madrugada
clara ,
Já ele andava jovial, inquieto,
Comendo alegremente, honradamente,
Todos os parasitas da seara
Desde a formiga ao mais pequeno inseto.
E apesar disto, o rude proletário,
O bom
trabalhador,
Nunca exigiu aumento de salário.
Que
grande tolo o padre confessor!
Foi para a eira o trigo;
E armado uns
espantalhos
Disse o abade
consigo:
“Acabaram-se as penas e os trabalhos.”
Mas logo de manhã, maldito espanto!
O abade, ainda
na cama,
Ouvia do melro o costumado canto,
Ficou ardendo
em chama;
Pega na
caçadeira,
Levanta-se dum
salto,
E vê o melro, a assobiar, na eira
Em cima do seu velho chapéu alto!
Chegou a coisa a termo
Que o bom do padre-cura andava enfermo,
Não falava nem
ria,
Minado por tão intimo desgosto;
E o vermelho oleoso do seu rosto
Tornava-se amarelo dia a dia.
E foi tal a paixão, a desventura,
(Muito embora o leitor não me acredite)
Que o bom do
padre cura
Perdera… o
apetite!
Andando
no quintal, um certo dia,
Lendo em voz alta o Velho Testamento,
Enxergou por acaso (que alegria!
Que ditoso
momento!)
Um ninho com seis melros, escondido
Entre uma carvalheira.
E ao
vê-los exclamou enfurecido:
“A mãe
comeu o fruto proibido;
Esse fruto era a minha sementeira;
Era o pão, e
era o milho;
Transmitiu-se o
pecado.
E, se a mãe não pagou, que pague o filho,
É doutrina da Igreja. Estou vingado!”
E,
engaiolando os pobres passaritos,
Soltava
exclamações:
“É uma praga.
Malditos!
Dão-me cabo de tudo estes ladrões!
Raios
os partam! andai lá que enfim…”
E
deixando a gaiola pendurada,
Continuou a ler o seu latim,
Fungando uma pitada.
Vinha
tombando a noite silenciosa;
E caia por sobre a natureza
Uma serena paz religiosa,
Uma bela
tristeza
Harmônica, viril, indefinida.
A luz
crepuscular
Infiltra-nos na alma dolorida
Um misticismo heroico e salutar.
As árvores, de luz ainda doiradas,
Sobre os montes longínquos, solitários,
Tinham tomado as formas rendilhadas
Das plantas dos
herbários.
Recolhiam-se a casa os lavradores.
Dormiam virginais as coisas mansas:
Os rebanhos e as flores,
As aves e as crianças.
Ia subindo a escada o velho abade;
A sua negra, atlética figura
Destacava na frouxa claridade,
Como
uma nodoa escura.
E introduzindo a chave no portal
Murmurou
entre dentes:
“Tal e qual… tal e qual!…
Guisados com arroz são excelentes.”
Nasceu
a lua. As folhas dos arbustos
Tinham o brilho meigo, aveludado,
Do sorriso dos mártires, dos justos.
Um eflúvio dormente e perfumado
Embebedava as seivas luxuriantes.
Todas as forças vivas da matéria
Murmuravam diálogos gigantes
Pela amplidão
etérea.
São precisos silêncios virginais,
Disposições simpáticas, nervosas,
Para ouvir estas falas silenciosas
Dos mudos
vegetais.
As orvalhadas, frescas espessuras
Pressentiam-se quase a germinar.
Desmaiavam-se as cândidas verduras
Nos magnetismos brancos do luar.
………………………………………………………
E nisto
o melro foi direito ao ninho.
Para o agasalhar, andou buscando
Umas penugens doces como arminho,
Um feltro acetinado e brando.
Chegou lá, e
viu tudo.
Partiu como uma flecha; e, louco e mudo
Correu por todo o matagal; em vão!
Mas eis que solta de repente um grito
Indo encontrar os filhos na prisão.
“Quem
vos meteu aqui?!” O mais velhito
Todo tremente, murmurou então:
“Foi
aquele homem negro. - Quando veio,
Chamei, chamei… Andavas tu na horta…
Ai que susto, que susto! Ele é tão feio!…
Tive-lhe tanto medo!… Abre esta porta,
E esconde-nos debaixo da tua asa!
Olha, já vão florindo as açucenas;
Vamos a construir a nossa casa
Num bonito
lugar…
Ai! Quem me dera, minha mãe, ter penas
Para voar,
voar!”
E o melro alucinado
Clamou:
“Senhor!
Senhor!
É porventura crime ou é pecado
Que eu
tenha muito amor
A estes
inocentes?!
Ó natureza, ó Deus, como consentes
Que me roubem assim os meus filhinhos
Os filhos que
eu criei!
Quanta
dor, quanto amor, quantos carinhos,
Quanta
noite perdida
Nem eu
sei…
E tudo, tudo em
vão!
Filhos da minha
vida!
Filhos do
coração!!!…
Não bastaria a natureza inteira,
Não bastaria o céu para voardes,
E prendem-vos assim desta maneira!…
Covardes!
A luz, a luz, o movimento insano
Eis o agulhão, a fé que nos abrasa…
Encarcerar a
asa
É encarcerar o pensamento humano.
A culpa tive-a eu, a culpa à noitinha
Parti,
deixei-os sós…
A culpa tive-a eu, e a culpa é minha,
De mais
ninguém!… Que atroz!
E eu devia sabê-lo!
Eu tinha obrigação de adivinhar…
Remorso eterno! Eterno pesadelo!…
....................................................................
Falta-me
a luz e o ar!… Oh, quem me dera
Ser
abutre ou ser fera
Para partir o cárcere maldito!…
E como a noite é límpida e formosa!
Nem um
ai, nem um grito…
Que
noite triste! Oh noite silenciosa!…”