terça-feira, 24 de março de 2015

Silvio Romero: O Macaco e o Rabo

O Macaco e o Rabo é um dos contos de tradição oral presentes no livro Contos Populares do Brazil, compilados por Sylvio Roméro (Silvio Romero) e Theophilo Braga, Editora Nova Livraria Internacional, Lisboa, 1885. Apesar de recolhido por aqui, ele seria de origem europeia. Na edição, disponibilizada pela Brasiliana Digital, há duas versões, uma colhida em Sergipe e outra em Pernambuco. Sei lá, mas a versão pernambucana me parece tão pertinente nos dias de hoje...

  

O Macaco e o Rabo
(Pernambuco)

Uma ocasião achavam-se na beira de uma estrada um macaco e uma cotia e vinha passando na mesma estrada um carro de bois cantando. O macaco disse para a cotia: «Tira o teu rabo da estrada, senão o carro passa e corta.» Embebido nesta conversa, não reparou o macaco que ele é que corria o maior risco, e veio o carro e passou em riba do rabo dele e cortou. Estava um gato escondido dentro de uma moita, saltou no pedaço do rabo do macaco e correu. Correu também o macaco atrás, pedindo o seu pedaço de rabo. O gato disse: «Só te dou, si me deres leite.» — «Onde tiro leite?» disse o macaco. Respondeu o gato: «Pede à vaca.» O macaco foi à vaca e disse: «Vaca, dá-me leite para dar ao gato, para o gato dar-me o meu rabo.» — «Não dou; só si me deres capim.» disse a vaca. «D’onde tiro capim?» — «Pede à velha.» — «Velha, dá-me capim para eu dar à vaca, para a vaca dar-me leite, o leite para o gato para me dar o meu rabo.» — «Não dou; só si me deres uns sapatos.» — «D'onde tiro sapatos?» — «Pede ao sapateiro.» — «Sapateiro, dá-me sapatos para eu dar à velha, para a velha me dar capim para eu dar à vaca, para a vaca me dar leite para eu dar ao gato, para o gato me dar meu rabo.» — «Não dou; só si me deres seda.» — «D'onde tiro seda?» — «Pede ao porco.» — «Porco, dá-me seda para eu dar ao sapateiro, para me dar sapatos para dar á velha, para me dar capim para dar à vaca, para me dar leite para dar ao gato, para me dar o meu rabo.» — «Não dou, só si me deres chuva.» — «D'onde tiro chuva?» — «Pede às nuvens.» — «Nuvens, dai-me chuva para o porco, para dar-me seda para o sapateiro, para dar-me sapatos para dar à velha, para me dar capim para dar à vaca, para dar-me leite para dar ao gato, para dar meu rabo...» — «Não dou; só si me deres fogo.» — «D'onde tiro fogo?»— «Pede às pedras.» — « Pedras, dai-me fogo para as nuvens, para chuva para o porco, para seda para o sapateiro, para sapatos para a velha, para capim para a vaca, para leite para o gato, para me dar meu rabo.» — «Não dou; só si me deres rios.» — «D'onde tiro rios?» — «Pede às fontes.» — «Fontes, dai-me rios, os rios ser para as pedras, as pedras me dar fogo, o fogo ser para as nuvens, as nuvens me dar chuvas, as chuvas ser para o porco, o porco me dar seda, a seda ser para o sapateiro, o sapateiro fazer os sapatos, os sapatos ser para a velha, a velha me dar capim, o capim ser para a vaca, a vaca me dar o leite, o leite ser para o gato, o gato me dar meu rabo.» 
Alcançou o macaco todos os pedidos; o gato bebeu o leite, entregou o rabo; o macaco não quis mais, porque o rabo estava podre.

*
ilustração de Joba Tridente.2015

Sylvio Vasconcelos da Silveira Ramos Roméro (Lagarto, 21.04.1851 -18.06.1914): escritor, ensaísta, crítico literário, professor, filósofo. Roméro foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras em 1897 e escreveu para diversos jornais.  Sylvio Roméro é, entre outras obras, autor de: A poesia contemporânea e a sua intuição naturalista (1869); Contos do fim do século (1878); A filosofia no Brasil (1878); A literatura brasileira e a crítica moderna (1880);  Cantos Populares do Brasil - vol. 1 e 2 (1883); Contos Populares do Brasil (1885); História da literatura brasileira, 2v. (1888); A poesia popular no Brasil (1880);  Compêndio da História da Literatura Brasileira (1906). Informações sabre a edição: Portal Brasiliana USP.

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