domingo, 1 de maio de 2016

Thomas Merton: A Queda

Quando publiquei o fascinante poema Paisagem com Criança (Landscape), de Thomas Merton (1915-1968), em belíssima tradução (livre) do escritor Marcílio Farias, esperava publicar, em breve, uma boa seleção de poemas do monge trapista. Continuei recebendo as excelentes traduções (livres) de Farias, mas ando meio sem tempo para ilustrar a todas. Por isso, fique com esta primeira leva de cinco maravilhas para cinco dias de reflexões sobre o ser humano.

Comecei com Primeira Lição Sobre o Homem (First lesson about Man) e segui com o tenso Três Epigramas (Three epigrams), continuei com o melancólico Desalentados e Criminosos (Sensation Time at the home), porque ao dia cabe A Queda (The Fall).










A QUEDA
um poema de Thomas Merton
em tradução de Marcílio Farias*

Não há qualquer “onde” ou Paradizzo intangível em você, Homem.
E lá
Não se entra a não ser com uma história.
Entrar em tal local é se tornar anônimo.
Quem quer que lá esteja vira sem-terra, pois não há portas ou
Identidades com as quais se possa entrar e sair impunemente.
E quem quer que esteja em lugar algum torna-se “ninguém” e em
Consequência só pode existir sem ter nascido,
Sem disfarce que lhe dê recompensas tangíveis.
Você então nem se acha nem se perde
Porque quem tem endereço está para sempre perdido.
Todos caem, caem nas calçadas, caem em apartamentos segurados pelo
                                                                                                              [Governo e
Fartamente mobiliados, bem estabelecidos
Caem nas ruas, autorizados oficialmente a
Ir de um lugar para outro
E documentados com nome próprio e tudo mais
Sabem até os nomes de amigos oficiais com
Telefones bonitos que de vez em quando tocam.
E se todos os telefones tocarem ao mesmo tempo, se todos os nomes forem
                                                                                                                [clamados de
Uma vez só e todos os carros colidirem na mesma encruzilhada em uníssono
E se todas as cidades explodirem por todas as direções em pó e cinza
Inda assim registros oficiais manterão ativos nomes e
Números para cada um.
E todos os cadáveres receberão um lugar de “descanso” e urnas em
Buracos bem construídos para abrigar as cinzas
Tudo comprado com o dinheiro do Seguro de Vida.
Quem se atreve a perambular por esse universo tão seguro?
Para falar a Verdade, só os anônimos se sentem em casa nele por ele e com ele.
E sempre anônimos carregam em si o centro desse nada
Onde a flor do vazio não brota.
Essa, então, é a arvore do paraíso. Que deve permanecer oculta até que
As palavras cessem de existir e os argumentos silenciem.

*
foto de Joba Tridente.2016


*Nota do Tradutor: Tradução livre de The Fall, publicado em Emblems of a season of fury, livro de Merton editado pela New Directions em 1963. É um dos poemas do Monge Feliz que mais gosto.

Thomas Merton  (1915-1968), escritor e monge trapista da Abadia de Getsêmani, Kentuchy, foi ativista social, pacifista e estudioso de religiões comparadas. Escreveu mais de setenta livros de prosa e verso, a maioria sobre espiritualidade. Em 1944 publicou Thirty Poems. O segundo livro, A Man in the Divided Sea, foi lançado em 1946. Entre suas obras de grande repercussão se destacam The Seven Storey Mountain (1948); No Man Is An Island (1955); The Way of Chuang Tzu (1965). Fontes: Wikipédia e Thomas Merton Center.

Marcílio Farias é formado e pós-graduado pela UnB (Universidade de Brasília) em Jornalismo, Cinema e Filosofia. Em 1989 emigrou para os Estados Unidos. Vive e trabalha entre Natal (Brasil) e Phoenix-Miami-Boston (EUA). Obras publicadas/poesia: Visual Field (1996), Watermark Press, MD, EUA; O Livro Cor de Triângulo Cor-de-Rosa (2007), e Rito para Ressuscitar um Elefante (2010), ambos pela Scortecci Editora, São Paulo, Brasil. Link: Currículo completo. Poemas publicados no Falas ao Acaso: Moebius; Mandala; Passado incômodo; (John); Diálogo visto de longe na Praça de Sé.

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