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terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Marilia Kubota: um poema às cegas

Hoje, seis de dezembro de 2016, a escritora e jornalista Marilia Kubota lança em Curitiba, no Brasil, o livro de poesias Diário da Vertigem. Para comemorar o lançamento, estou publicando, aqui no Falas ao Acaso, quatro poemas desta edição da Editora Patuá. Você, que leu anteriormente como tudo funciona e que me perca e uma mulher jamais sofreu, hoje absorve um poema às cegas..., e o terceiro parágrafo da apresentação de Martim Palácio Gamboa*.


A suspeita como um exercício de várias vertigens - 3
Martim Palácio Gamboa

(...) “A modo de fechamento, recordemos que a arbitrariedade da autora considerar este poemário como um diário íntimo não é mais que uma mis-en-scene. E esta mis-en-scene põe em relevo a situação de uma enunciação que irrompe nos conjuntos fixos e estáveis daqueles bens simbólicos dos que se reconheciam em grupos diferenciados e hierarquizados. Esta ruptura de repertórios diferenciados teria lugar como um entrecruzamento e renovação permanente de hierarquias que desdesenha as fronteiras entre conjuntos de objetos, práticas e discursos do culto, o popular e o massivo (como é de observar em trem-fantasma e les jeunes filles en fleur). Falamos, então, da transcrição de um lugar, de um espaço-tempo predominante deste fenômeno que é o fluxo dos meios massivos e suas realizações, em particular, o caso dos videoclips. Ou de suas vertigens.” Martim Palácio Gamboa*



um poema às cegas
marilia kubota

às cegas que vendem flores
em filmes da belle époque
às cegas que escorregam
os dedos em guarda-costas
às cegas que voam
à meia-noite na tiradentes
às cegas que sossegam
em meio a bocas-de-leão
às cegas que tocam
canções clarividentes.

*
ilustração de joba tridente.2016


Marilia Kubota (Paranaguá, 06/04/1964), é poeta, jornalista e mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná. Desde 2005 orienta oficinas de criação literária. Publicou os livros de poesia Diário da vertigem (2016), micropolis (2014), Esperando as Bárbaras (2012) e Selva de Sentidos (2008). Organizou as antologias Blasfêmeas: Mulheres de Palavra (2016) e Retratos Japoneses no Brasil (2010) e está presente de 13 antologias de poesia e prosa. Participou das exposições Bienal de Artes de Curitiba (2013), Poesia Agora, no Museu da Língua Portuguesa (2014); Guenzai, na Casa de Cultura Monsenhor Celso (2015) e Olhar InComum, no Museu Oscar Niemeyer (2016).

*Martim Palácio Gamboa é poeta, ensaísta, tradutor e músico. Estudou literatura no Instituto de Professores Artigas, em Montevidéu, Uruguai. Livros de ensaios: Los trazos de Pandora; Otras voces, otros territorios; Breves ensayos sobre la nueva poesía brasileña contemporánea y Las estrategias de lo refractario; Poética y prática vanguardistas de Clemente Padín. Livros de poesia: Lecciones de antropofagia e Celebriedad del fauno. Organizou a antologia bilíngue Bicho de Siete Cabezas.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Marilia Kubota: uma mulher jamais sofreu

Amanhã, seis de Dezembro, de 2016, a escritora e jornalista Marilia Kubota lança em Curitiba, no Brasil, o livro Diário da Vertigem. Desta sua mais recente obra, estou publicando quatro poemas. Você que já leu anteriormente como tudo funciona e que me perca, hoje sabe porque uma mulher jamais sofreu... e acompanha o segundo parágrafo da apresentação do ensaísta Martim Palácio Gambôa.  


A suspeita como um exercício de várias vertigens - 2
Martim Palácio Gamboa*

(...) “As estratégias que leva a cabo para esse desdobramento de minimalismos vários se sustentam, às vezes, no confessional, no registro cortante de uma manchete de jornal, na enumeração quase desvaída, na repetição anafórica do que é e não se é - como nos tratados medievais dos teólogos negativos. Marilia instala uma pulsão; e em seu ritmo sem pausa, o inconsciente manifesta o sintoma, o dizer, certo desatino que margeia o incompreensível ou ilegível e que chega a diferenciar a lógica da possibilidade e a probabilidade. Enquanto a primeira mantém uma relação indeterminada ou melhor, potencial, contingente, fortuita com a ordem do empírico e o fático, a segunda admite a aplicação de uma prova, de um testemunho, a possível verificação ou constância de uma porção de realidade. Como se poderá observar, a possibilidade é condição da probabilidade e e não ao contrário, a não ser que o possível mude de estatuto ôntico e se revele feito como realidade. O possível é uma abertura do binário (possível-impossível), sua divisão ou partição até o infinito cósmico, ali onde a maquinaria do desejo resida no sem futuro nem passado/que afinal tudo seja/celebrar a incerteza. E é também o que nos leva a advertir a presença leve da anamorfose, onde a imagem se transforma ao ritmo dos versos sem pontuação. Assim, vários destes poemas operam refrações, figurações enviesadas por reflexos equívocos, incertos, inacabados mas envoltos na espiral (na dobra) do contínuo.” Martim Palácio Gamboa*



uma mulher jamais sofreu
marilia kubota

uma mulher
jamais sofreu

quanto o bastardo
que se afama
por subir
o pau de sebo

uma mulher
jamais sofreu
porque
o sangue  vaza

quando o homem
só goza

uma mulher
jamais sofreu
porque a luz
se apagou do astro

em seus mamilos
aflora o leite das estrelas

uma mulher
jamais sofreu
por mais difícil
seja o parto
 lençóis brancos
abundam no quarto

uma mulher
jamais sofreu
quanto aquele
que a estraçalha
porque as lágrimas
tecem sua mortalha

e se no final
houver um baita sol
no bacanal de trevas iridescentes ?
se no fim do túnel
explodir o girassol
no vagalhão de cor fúnebre ?
se a morte for só deitar
sem direito a jantar
terás voltado
à infância,
tetrarca:
perdeste o reino
para espiar a rabiola.

*
ilustração de Joba Tridente


Marilia Kubota (Paranaguá, 06/04/1964), é poeta, jornalista e mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná. Desde 2005 orienta oficinas de criação literária. Publicou os livros de poesia Diário da vertigem (2016), micropolis (2014), Esperando as Bárbaras (2012) e Selva de Sentidos (2008). Organizou as antologias Blasfêmeas: Mulheres de Palavra (2016) e Retratos Japoneses no Brasil (2010) e está presente de 13 antologias de poesia e prosa. Participou das exposições Bienal de Artes de Curitiba (2013), Poesia Agora, no Museu da Língua Portuguesa (2014); Guenzai, na Casa de Cultura Monsenhor Celso (2015) e Olhar InComum, no Museu Oscar Niemeyer (2016).

*Martim Palácio Gamboa é poeta, ensaísta, tradutor e músico. Estudou literatura no Instituto de Professores Artigas, em Montevidéu. Livros de ensaios: Los trazos de Pandora; Otras voces, otros territorios; Breves ensayos sobre la nueva poesía brasileña contemporánea y Las estrategias de lo refractario; Poética y prática vanguardistas de Clemente Padín. Livros de poesia: Lecciones de antropofagia e Celebriedad del fauno. Organizou a antologia bilíngue Bicho de Siete Cabezas.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Marilia Kubota: como tudo funciona

Na próxima terça-feira, seis de dezembro de 2016, a escritora paranaense Marilia Kubota, que já esteve aqui no Falas ao Acaso com Rondó da Velha no Outono, Micropolis/Haicais e O Fantástico Mundo de Valêncio Xavier, lança em Curitiba, Brasil, o seu mais recente livro de poesias: Diário da Vertigem. Em sua homenagem, vou publicar quatro poemas pinçados desta obra. Hoje, você conhece a força de como tudo funciona.

“Em Diário da Vertigem, Marilia Kubota parece transitar entre o sentir do tempo que passa veloz como um trem desenfreado e o tempo estático das fotografias, os olhos como flashes, na observação do instante suspenso num espaço sem gravidade, onde também trafegam as memórias. Tem a cidade como lugar e observatório. As ruas e sua gente são pautas onde inscreve os poemas. Passeia entre casas e edifícios e talvez imagine espelhos que refletem pessoas, que na verdade são – uma pessoa (a poeta?) que celebra – e canta – a vida e seus mistérios. Nota-se claramente que na voz de Marília ecoam ressonâncias de tradições filosóficas orientais, prevalecendo no livro uma visão de viajante: breve, mas atenta, transitória, mas marcante, sutil e vertiginosa, como são as viagens empreendidas via intelecto/coração.” Nydia Bonetti.*



como tudo funciona
marilia kubota

o mundo funciona assim
balas giram na metralhadora
a língua  lambe  notas
contadas uma a  uma
no balcão onde o açougueiro
acaba de cortar um pedaço de linguiça.
a garota entra
o vento levanta a saia
o banqueiro a espia
a mulher liga para o deputado:
baixe uma lei agora
proibindo o vento
de circular !
o vira-lata passa em frente
agarra um naco de linguiça e foge
o banqueiro manda a polícia
prender  o cachorro
e torturá-lo.

*
ilustração de joba tridente.2016


Marilia Kubota (Paranaguá, 06/04/1964), é poeta, jornalista e mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná. Desde 2005 orienta oficinas de criação literária. Publicou os livros de poesia Diário da vertigem (2016), micropolis (2014), Esperando as Bárbaras (2012) e Selva de Sentidos (2008). Organizou as antologias Blasfêmeas: Mulheres de Palavra (2016) e Retratos Japoneses no Brasil (2010) e está presente de 13 antologias de poesia e prosa. Participou das exposições Bienal de Artes de Curitiba (2013), Poesia Agora, no Museu da Língua Portuguesa (2014); Guenzai, na Casa de Cultura Monsenhor Celso (2015) e Olhar InComum, no Museu Oscar Niemeyer (2016).

*Nydia Bonetti é escritora e autora de Sumi-ê (Patuá, 2014); Antologia Digital Vinagre - Uma antologia dos poetas neobarrocos (Edições de Vândalo, 2013); Projeto Instante Estante, curadoria de Sandra Santos (Castelinho Edições, 2012); Desvio para o vermelho - Treze poetas brasileiros contemporâneos; Coleção Poesia Viva (Centro Cultural São Paulo, 2012); Coletânea Qasaêd Ila Falastin - Poemas para a Palestina (Selo Zunai, 2012).

sábado, 8 de março de 2014

Júlia Lopes de Almeida: A Mulher Brasileira

Fosse o Robin, do divertido seriado pop Batman, ele diria: Santa coincidência, Joba! Será? É que estava pesquisando sobre a escritora e cronista Júlia da Costa (1844-1911), para postagem nesta  Semana da Mulher, confundi com a notória professora paranaense Júlia Wanderley (1874-1918), e, por erro de digitação, encontrei a escritora carioca Júlia Lopes de Almeida, que morreu há oitenta anos, mais precisamente em 30/05/1934. Fuxicando pela rede, o primeiro material da escritora que encontrei foi a edição de crônicas Livro das Donas e Donzellas (Francisco Alves & Cia, 1906), no site Biblioteca Virtual de Literatura, que disponibiliza obras de Domínio Público. Entre as curiosas crônicas de um ontem de contradições (?) estão estas três: O Vestuário Feminino, A Arte de Envelhecer e a atualíssima A Mulher Brasileira. Ia postar somente a última, sobre a mítica mulher brasileira que, ainda hoje, é conhecida (no Brasil) e no mundo como desfrutável. Mas, ao ler as duas outras, achei que a liga das três provoca um curto ou longo circuito na contemporaneidade. Confira a terceira postagem:


A Mulher Brasileira
Júlia Lopes de Almeida

O europeu tem a respeito da mulher brasileira uma noção falsíssima. Para ele nós só nascemos para o amor e a idolatria dos homens, sendo para tudo mais o protótipo da nulidade.

Dir-se-ia que a existência para nós desliza como um rio de rosas sem espinhos e que recebemos do céu o dom escultural da formosura, que impõe a adoração... Nem uma nem outra coisa. Nem a mulher brasileira é bonita, se não nos curtos anos da primeira mocidade, nem tão pouco a sociedade lhe alcatifa a vida de facilidades. Ela é exatamente digna de observação elogiosa pelo seu caráter independente, pela presteza com que se submete aos sacrifícios, a bem dos seus, e pela sua virtude. A brasileira não se contenta com o ser amada: ama; não se resigna a ser inútil: age, vibrando à felicidade ou à dor, sem ofender os tristes com a sua alegria e sabendo subjugar o sofrimento. Parecerá por isso indiferente ou sossegada, a quem não a conhecer senão pelas exterioridades. Mas não tivesse ela capacidade para a luta e ainda as portas das academias não se lhe teriam aberto, nem teria conseguido lecionar em colégios superiores. A esses lugares de responsabilidade ninguém vai por fantasia nem chega sem sacrifícios e coragem. Apesar da antipatia do homem pela mulher intelectual, que ele agride e ridiculariza, a brasileira de hoje procura enriquecer a sua inteligência frequentando cursos que lhe ilustrem o espírito e lhe proporcionem um escudo para a vida, tão sujeita a mutabilidades....

Se o seu temperamento é cálido e voluptuoso, a sua índole é honesta e ativa e o seu pensamento despido de preconceitos.

Se uma mulher brasileira, (se há exceções? há-as de certo!) cai de uma posição ornamental em outra humilde, é de rosto descoberto que dia procura trabalho então vai ser costureira, mestra, tipógrafa, telegrafista, aia, qualquer coisa, conforme a educação recebida, ou o ambiente em que vive...

Nessas ações, não há simplicidade, - há estoicismo e uma compreensão perfeita da vida moderna: que é a guerra das competências. A brasileira vive ociosa; é uma frase injusta e que anda a correr mundo, infelizmente sem protesto. Porque?

Toda a gente sabe que no Brasil só não amamenta os filhos a mulher doente, aquela que não tem leite ou que o sabe prejudicial em vez de benéfico!

Ricas ou pobres, as mães só tem uma aspiração: - aleitar, criar os seus filhos! Este exemplo devia ser citado, porque, à proporção que esta virtude se acentua entre nós, parece que nos países mais civilizados vai se tornando escassa!

A mulher brasileira ama com mais intensidade, talvez; dedica-se toda, sem medo de estragar a sua beleza, às comoções da vida. Aí vemos as pobres mulheres dos soldados, seguindo-os à guerra, acompanhando-os nas batalhas, matando quem os fere, ferindo quem os ameaça, erguendo-lhes das mãos moribundas a espingarda com que os vingam!

Estas energias não são filhas do acaso, vêm-nos da mistura de sangues com que fomos geradas, vêm-nos desta natureza portentosa e que por toda a parte nos ensina que a vida é uma grande fonte que não deve secar inutilmente!

*
Nos países tropicais a precocidade é tamanha que a existência da menina passa como um sopro e começam bem cedo as responsabilidades da mulher. Por vezes o assalto é tão repentino que não há tempo de preparar na criança o espírito da donzela. Namorada de si mesma, no deslumbramento da mocidade, ela afigurasse-nos então frívola e perigosa. Receia a gente pelo futuro da pobre criança, estonteada pela vida como uma mariposa pela luz. Quanto mais melindrosa é essa quadra, quanto mais vagares tem a imaginação, alvoroçada pelos sentidos, de arquitetar castelos mentirosos! Felizes as donzelas pobres, obrigadas pelas circunstâncias apertadas da vida a empregar a sua inteligência e a sua atividade no trabalho e no estudo! São as mocinhas que, para irem às aulas que frequentam, engomam as suas saias ou cosem as suas blusas, as mais habilitadas para a resistência das paixões ruins. Decididamente, o trabalho é o melhor saneador de almas! E nós precisamos da nossa muito sã, porque só a virtude da mulher pode salvar os homens, seus filhos e seus irmãos, no descalabro das sociedades arruinadas ou em deliquescência... A nossa força está na nossa bondade e no nosso critério, coisas que, quando não são naturais, fazem-se pela vontade.

Nós, as brasileiras, perdemo-nos pelo excesso de sentimento. Ainda não aprendemos a dominar o nosso coração, que se dá em demasia, sem colher por isso grandes resultados...

O europeu, tratado com rigor pela mãe, não tem por ela menos respeito (talvez tenha mais!) nem menos carinhos que os nossos filhos têm por nós... que nos desfazemos por eles em sacrifícios e ternuras! Parece que a blandície perene enfraquece a alma do indivíduo, tornando-o um pouco indiferente...

*
Há muito quem afirme que no Brasil a mulher domina como soberana; e já um escritor português disse dela, relatando as suas observações em um livro de viagem:

"... A mulher deve ser, entre esta raça, superior a todas as coisas. Vê-la passar na rua e compreender a comoção que ela causa é ter reconhecido todo o alcance do seu prestígio. Inspira devoção, tem um culto. Não é mulher companheira do homem, sua irmã de trabalhos e de penas; é a mulher ídolo, a mulher sacrário. Mãe, filha, esposa ou cortesã, ela será neste país e para este povo a suprema instigadora, e a sua vontade, como o seu capricho, terão o cunho autêntico de leis, assim no lar como nas alcovas. Será ela quem predomine e da sua boa ou má influência dependerá, talvez, o destino histórico desta nacionalidade."

É possível que assim seja de futuro, visto que a brasileira de hoje tem mais ampla noção da vida; a lição passado, porém, desgraçadamente, é outra.

A verdade, que deve aparecer aqui, é que nos acontecimentos culminantes da nossa história, aqueles que nos fatos da nacionalidade brasileira iniciam períodos de renovação e de progresso - a independência, a abolição, a república - a intervenção da mulher, direta ou indiretamente considerada, quando não foi nula foi hostil.

Entretanto, estes fatos, para só falar dos príncipes, tiveram todos longa, persistente, tenacíssima propaganda, e realizaram-se sem a mulher ou... apesar da mulher!

A sinceridade deste livro, exige este desabafo doloroso.

*
Foto-Ilustração de Joba Tridente - 2014


Júlia Lopes de Almeida (Rio de Janeiro: 1862 - 1934), foi escritora, cronista, teatróloga. Seus primeiros artigos foram publicados aos 19 anos na A Gazeta de Campinas e, depois, em O País, Jornal do CommercioA SemanaIlustração Brasileira, Tribuna Liberal. Foi casada com o escritor português Felinto de Almeida. Seus filhos Afonso Lopes de Almeida, Albano Lopes de Almeida e Margarida Lopes de Almeida também seguiram a carreira literária. Aos 24 anos lançou em Portugal o seu primeiro livro: Traços e Iluminuras. Entre os mais de 40 livros de contos, romances, teatro, crônicas, estão: Romance: Memórias de Marta (1889); A Família Medeiros (1892); A Viúva Simões (1897); A Falência (1901); A Intrusa (1908); Cruel Amor (1911); Correio da Roça (1913); A Silveirinha (1914); A Casa Verde - com Filinto de Almeida (1932); Pássaro Tonto - póstumo (1934); Conto: Traços e Iluminuras (1887); Ânsia Eterna (1903); Era uma Vez (1917); A Isca (1922); Teatro: A Herança (1909); Quem Não Perdoa; Doidos de Amor; Nos Jardins de Saul (1917); Crônica: Livro das Donas e Donzelas – 1906; Jornadas no Meu País (1920); Infantil e juvenil: Contos Infantis - com Adelina da Silveira Lopes (1886); Histórias da Nossa Terra (1907); A Árvore - com Afonso Lopes de Almeida(1916); Ensaio: Livro das Noivas (1896); Eles e Elas  (1910); Jardim Florido (1922); Maternidade (1925). Fontes Biográficas: Wikipédia; Enciclopédia Itaú Cultural - Literatura Brasileira e Biblioteca Virtual de Literatura.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Reflexão: Conselhos a uma Donzela



Ah, o tempo! Do tal Paraíso (cheio de proibições e pegadinhas) aos dias de hoje..., a mulher trilhou um árduo e longo, longo, longo caminho até a sua quase plena emancipação feminina. Alguns teóricos acreditam que o mundo já foi (um dia) e voltará a ser matriarcal (no futuro). É bem provável, já que na Terra há mais mulheres do que homens, já que as mulheres sobrevivem aos homens, já que nascem mais mulheres do que homens, já que... Bem, enquanto esse dia não chega, divirta-se com estes hilários Conselhos a uma Donzela, de autor desconhecido (pelo estilo devia ser membro da TFP - Tradição, Família e Patrimônio), publicado no Almanach de Porto Alegre de 1920.

Conselhos a uma Donzela

01 - Não ergas nunca os teus olhos, senão para olhar o céu.
02 - Sê dócil para com teus pais a tal extremo, que eles não tenham o incômodo de dizer-te com os lábios o que bastaria dizerem-te com os olhos.
03 - Não dês entrada ao orgulho na tua alma, porque o orgulho perde com mais segurança a mulher do que o homem, e a este perde-o sempre.
04 - Coloca-te todos os dias na presença de Deus, sob pena de te esqueceres de que vives nela.
05 - Sê caridosa com todos os pobres, com todas as misérias.
06 - Não feches nunca o teu coração à tua mãe: deixa-a ler nele como em livro aberto.
07 - Usa vestidos brancos para harmonizarem com a tua consciência e o teu coração.
08 - No mundo não há mulheres feias: o que ha é mulheres más e sem educação.
09 - Se tens talento, esconde-o e se o não tens, esconde-te.
10 - A mulher é formosa aos quinze anos; a bondade é-o aos quarenta.
11 - São as criadas que passam certidões de virtude das suas amas.
12 - A mulher que tem medo, nunca terá necessidade de valor.
13 - O matrimônio é uma cadeia, que pode ser de flores; mas inda que o seja, é cadeia.
14 - Se teu marido é bom, imita-o, e se o não é, faze com que ele te imite, sendo tu boa.
15 - Nunca tenhas amigas intimas.

Ilustração de Joba Tridente. 2013


Nota: A ficha completa do Almanach de Porto Alegre - 1920  pode ser acessada aqui. O site é Brasiliana USP. 


sexta-feira, 20 de julho de 2012

Joba Tridente: Daqui e Dali

Ilustração de Joba Tridente - Daqui e Dali - Falas ao Acaso


Daqui e Dali

daqui
quatro luzes brancas
acesas no apartamento
da mulher na janela

dali
quatro meias brancas
secando ao sol
na janela da mulher

poesia e ilustração de Joba Tridente  - 20.07.2012

domingo, 12 de junho de 2011

Oscar Wilde: 10 Aforismos sobre o Amor

arte sobre ding: Joba Tridente

Ah, o Amor! Ah, o Dia dos Namorados! Ah, o Romance! Ah, O Casamento! Ah, o Oscar Wilde e suas ironias amorosas!

Em 2010 foram comemorados os 110 anos da morte do escritor Oscar Wilde (16/10/1854 - 30/11/1900), mestre do sarcasmo inglês: A única pessoa no mundo que gostaria de conhecer profundamente sou eu mesmo, mas por enquanto não vejo a menor possibilidade de isso acontecer. Em 2011 se comemora 110 anos da publicação de Aphorisms. Durante todo o ano vou postar por aqui alguns dos meus favoritos.

01 - Os homens sempre desejam ser o primeiro amor de uma mulher; este é um efeito de sua insensata vaidade. As mulheres têm um instinto mais sutil. Elas desejam ser o último amor de um homem.

02 - Sempre percebemos alguma coisa ridícula nas emoções das pessoas que deixamos de amar.

03 – Segundo alguns, as mulheres amam com os ouvidos, exatamente como os homens amam com os olhos; admitindo-se que realmente amem.

04 - Quem ama uma só vez na vida tem uma natureza superficial. O que alguns consideram lealdade e fidelidade, para mim não passa de apatia devida ao hábito e à falta de imaginação.

05 - Na verdade não vejo nada de romântico nos pedidos de casamento. O amor é muito romântico, mas não há nada de romântico ao se pedir a mão de uma jovem. Corre-se sempre o risco de ela aceitar. Aliás, acredito que na maioria dos casos seja isso mesmo que acontece. Aí, qualquer interesse desaparece. A incerteza é a quinta-essência do romantismo.

06 - Hoje em dia é muito perigoso, para um marido, ser gentil em público com a mulher: isto faz com que as pessoas pensem logo que ele a surra na intimidade. De tão grande que é a incredulidade do mundo por aquilo que tem aparência de felicidade conjugal.

07 - O Romantismo é privilégio dos ricos, e não profissão dos desempregados. Ao pobre só é permitido ser prático e prosaico.

08 - É a velha história: o amor - não no começo, porém, mas sim no fim da estação, quando é muito mais satisfatório.

09 - Os amantes fiéis só conhecem o lado trivial do amor, as tragédias do amor são privilégios dos amantes infiéis.

10 - O mistério do amor é maior que o mistério da morte.


Estes Aforismos têm como base o livro Oscar Wilde - Aforismos, com tradução de Mario Fondelli para Clássicos Econômicos Newton.

Arte de Joba Tridente sobre ding Engleknapper

terça-feira, 8 de março de 2011

Oscar Wilde: 10 Aforismos sobre a Mulher

ilustração de Joba Tridente - arte sobre ding: Mulher

Em 2010 foram comemorados os 110 anos da morte do escritor Oscar Wilde (16/10/1854 - 30/11/1900), mestre do sarcasmo inglês: A única pessoa no mundo que gostaria de conhecer profundamente sou eu mesmo, mas por enquanto não vejo a menor possibilidade de isso acontecer. Em 2011 se comemora 110 anos da publicação de Aphorisms. Durante todo o ano vou postar por aqui alguns dos meus favoritos.

01 - As mulheres malvadas nos atormentam. As boas nos aborrecem. É nisto que consiste a diferença entre elas

02 - As mulheres feias são sempre ciumentas dos maridos; as bonitas nunca! Não têm tempo para isto. Estão ocupadas demais com o ciúme dos maridos das outras.

03 - O único jeito de uma mulher reformar um homem é chateando-o até que ele perca qualquer interesse pela vida.

04 - Uma mulher precisa ser sinceramente boa para fazer uma coisa sinceramente idiota.

05 - Desconfiem de uma mulher que confessa a sua verdadeira idade. Uma mulher que diz isto poderá dizer qualquer coisa.

06 - As mulheres estragam qualquer caso de amor com o seu desejo de perpetuá-lo eternamente.

07 - Como definir uma mulher perversa? Ora, aquela de que a gente nunca se cansa!

08 - Segundo um ditado de um francês espirituoso, as mulheres inspiram-nos o desejo de criarmos obras-primas, e nunca nos deixam realizá-las.

09 - As mulheres nos amam pelos nossos defeitos. Se tivermos um número suficiente deles, elas nos perdoarão tudo, até a nossa grande inteligência.

10 - As mulheres foram feitas para serem amadas e não para serem compreendidas.
Estes Aforismos têm como base o livro Oscar Wilde - Aforismos, com tradução de Mario Fondelli para Clássicos Econômicos Newton.

ilustração de Joba Tridente - arte sobre ding

domingo, 7 de março de 2010

Joba Tridente: Mulher de Segunda

Arte de Joba Tridente sobre Dins - 2010 - Mulher de Segunda

Mulher de Segunda

Há 11 anos escrevi esta crônica
para reflexão e alguma comemoração
no Dia Internacional da Mulher: 08/03/1999.
Infelizmente ela continua atual.


O ônibus é grande. Trem sobre rodas, dizem. Meio devagar. Articulado. Certas horas do dia, lotado. Alternando as estações a voz da moça, presa no alto-falante, repete a mensagem, a ouvidos praticamente surdos: “Dê preferência às pessoas idosas, gestantes e deficientes”. Fala para uma geração recente de dez, vinte e até trinta anos, que já nasceu podre. Mulheres e homens. Gente louca para entrar no veículo e se sentar antes do outro. À mensagem da voz, aos apelos da voz, aos desejos da voz se fazem de cegos.

Arte sobre Dings - Mulher de Segunda - 2010: Joba Tridente

Manhã. Itinerário: centro. Ônibus razoavelmente cheio. Todos os lugares tomados principalmente por gente jovem. No último banco uma menina de uns 10 anos, confortavelmente sentada ao lado de uma senhora, de uns trinta anos, olhando curiosa, em pé, ali perto delas, entre outras, uma velha senhora de uns 60 anos, gorda e exausta com o calor. Ela sabe que aquela mulher é idosa e em atenção à recomendação da voz, questiona a sua mãe:

Mãe, uma mulher idosa pode ter filho? De onde você tirou essa idéia maluca? Da moça do alto-falante? Que moça? Essa que tá falando pra dá preferência às pessoas idosas gestantes. Não é idosas gestantes é idosas e gestantes. Ah! Mas mulher idosa pode ter filhos? Não é recomendado? Por que? Porque ela é muito velha, não resistiria ao parto. E não pode fazer cesariana? Ela continua muito velha. Só por isso? Não! Se ela é muito velha como é que vai poder brincar e educar o seu filho? Mas a vó é velha e brinca com a gente, ensina a gente. Ora, a sua vó é a minha mãe. Mas a mãe do pai também é legal com a gente. É porque ela é parente. Ah! Mas e se... Jaquelaine Elizabetchi, você não acha que é nova demais pra ficar falando sobre isso, não? Toma, leia uma revista, pra passar o tempo. Veja a seção de regimes, pra você se cuidar e não ficar igual a essa senhora, que nem aguenta ficar em pé, de tão gorda. E se você não se cuidar agora que é criança... Mãe. O que é, agora? Eu devo dar o meu lugar pra essa mulher idosa e gorda? É claro que não, você pagou a passagem. Mas no alto-falante... É bobagem! Ninguém liga. Eu duvido que se ela estivesse sentada ela dava o lugar dela pra você. Além do que ela é muito gorda e eu vou ficar muito apertada. Ah!

Arte sobre Dings - Mulher de Segunda: Joba Tridente - 2010

Tarde. Itinerário: bairro. Ônibus razoavelmente cheio. Todos os lugares tomados principalmente por gente jovem. No banco reservado a idosos ou deficientes uma jovem de uns 20 anos, confortavelmente sentada e ouvindo a todo volume, com fone no ouvido, uma radio brega qualquer. Em pé, ao lado, uma senhora, de uns quarenta e cinco anos, com uma perna engessada, e os olhos tomados pela catarata. A jovem olha curiosa para senhora em pé, ali perto dela, mas é como se não a visse ou como se não desse a mínima. Um homem de uns cinquenta e poucos anos, cabelos brancos, se aproxima da moça e fala alguma coisa com ela que, é claro, não escuta, com a altura da música. O senhor, então, arranca-lhe os fones de ouvido e antes que ela reaja, pega a cabeça dela e sem violência, mas com firmeza, gira-a de frente para a mulher. Ergue e abaixa a cabeça da jovem para que ela olhe e veja o estado da senhora e depois gira-a para a janela, onde está o selo de reserva. A jovem, vociferando, dá um inesperado chute no velho. Outros passageiros alheios ou espectadores acreditando ser um assalto, caem de pancada no velho que é expulso do ônibus, na próxima parada, todo machucado. A jovem retoma o seu assento e o seus fones de ouvidos. A música ensurdecedora que ela ouve é uma breguice religiosa qualquer.

Arte sobre Ding - Mulher de Segunda - Joba Tridente - 2010

Noite. Itinerário: centro. Ônibus razoavelmente cheio. Todos os lugares tomados principalmente por gente jovem. Num banco, no primeiro carro, um rapaz de uns 18 anos, confortavelmente sentado, ao perceber a entrada de uma senhora, de uns sessenta e poucos anos, se apressa em lhe oferecer o lugar. A senhora, magra e elegante, vestida com bom gosto, maquiagem discreta e cabelos prateados presos à moda diva, com bonita presilha, sapatos e bolsa combinando, agradece e rejeita a oferta. Um senhor cinquentão, que não tinha visto a cena, repete o gesto, oferecendo o seu lugar. O que é novamente recusado de forma bastante educada. Um pouco atrás, assistindo a tudo, duas senhoras quarentonas. Donas de casa, talvez. Ou funcionárias de uma empresa qualquer. Não importa. Não interessa. Derrubadas:

É inacreditável, duas pessoas oferecem o lugar e “a princesa” recusa. Deve se achar madame demais. Perua demais, você quer dizer, né amiga. Quando ninguém oferece o lugar dizem que todo mundo é mal educado. Com essa cara cheia de rugas e esse cabelo branco, que não engana nem cego, ela pensa que vai convencer a quem, de que não é velha? Menina, você viu os pés de galinha? E os sapatos combinandinho com a bolsa? Isso fica bem em mulher jovem e não em mulher velha. Tem gente que não se toca, viu. Aposto que usa dentadura fixada com aquele talquinho. Deus me livre de chegar nessa idade e toda metida assim. E eu, então!? Pra andar sozinha de ônibus ou deve ser solteirona ou viúva. A essa hora, só pode! Ou sapatão, né? Tudo é possível. Ela deve ter, no mínimo, uns oitenta anos. No mínimo!. Mas pensa que aparenta cinquenta. Nem morta! Você reparou no vestido? Deve ter copiado de alguma vitrine. Não tem nem um bom caimento. E o tecido? Isso lá é tecido pra gente velha? Mas as mãos dela estão bem feitas. Você deve estar cega, aquele esmalte já caiu de moda há séculos. É mesmo! Shhhhiiii, que a dondoca vai descer. Elvira do céu, se viu o velho que está esperando por ela? Com beijinho na boca e tudo. Até que ele está bem vestido. Possivelmente vão a algum velório. O deles mesmo. A não ser que sejam casados. Imagina! Nessa idade, vestidos desse jeito, beijinhos. Hoje em dia, os casamentos não duram dois anos. Sabe que você tem razão, Marlene, o meu não chegou a três, com filhos e tudo. O meu até que tá durando, já vou pro quinto. Mas tenho que fazer muita vista grossa, por causa dos quatro filhos, né. Imagino!

Ilustrações: Arte de Joba Tridente sobre Dings
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