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terça-feira, 7 de junho de 2016

Joba Tridente: A Dor Dura

Exercito Poemas Visuais e ou Concretos há muitos anos. São exercícios moldados a ferro em brasa. Palavras pinçadas nas sombras. Verbos conjugados nos vão das cercas farpadas. Nos anos 1990 se tornaram mais brandos..., mas sem perder o simbolismo! A Dor Dura também está presente em 101 POETAS PARANAENSES - antologia de escritas poéticas do século XIX ao XX, organizada (em dois volumes) pelo escritor Ademir Demarchi, editada pela Biblioteca Pública do Paraná, em 2014.
  


A  Dor  Dura
Joba Tridente

I
desfoco
descofo
o peixe intacto
apesar da boca

desforca
desforça
a cabeça intacta
apesar da dor

desmorte
destermo
o sexo intacto
apesar da vida

desnorte
desterno
a casa intacta
apesar da lógica

*
in Novos Exercícios Visuais
Foto de Joba Tridente: 2010



Joba Tridente em Verso: 25 Poemas Experimentais (1999); Quase Hai-Kai (1997, 1998 e 2004); em Antologias: Hiperconexões: Realidade Expandida (2015); 101 Poetas Paranaenses (2014); Ipê Amarelo, 26 Haicais; Ce que je vois de ma fenêtre - O que eu vejo da minha janela (2014); Ebulição da Escrivatura - 13 Poetas Impossíveis (1978); em Prosa: Fragmentos da História Antropofágica e Estapafúrdia de Um Índio Polaco da Tribo dos Stankienambás (2000); Cidades Minguantes (2001); O Vazio no Olho do Dragão (2001). Contos, poemas e artigos culturais publicados em diversos veículos de comunicação: Correio Braziliense, Jornal Nicolau, Gazeta do Povo, Revista Planeta, entre outros.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Joba Tridente: Eu vi! Eu sei! Eu li!

Eu vi! Eu sei! Eu li!

coletânea de crônicas: Catarse Tardia
aos pescadores de sonhos

I
Um homem foi preso, ontem. Eu vi! Tentava roubar uma bandeira nacional, do pavilhão, na praça do governo. Os homens que o prenderam eram brutos. Eram montes enormes. Eu sei! Usavam armas de última geração. Dessas que matam sem deixar marcas. Eu li!

II
O homem desapareceu no meio dos grandes. Como um afogado. Depois voltou a aparecer. Só a cabeça. Como um afogado. Os prendedores eram como ondas. Não havia salva-vidas, ali. Só grandes ondas e um pequeno homem se debatendo no meio delas. Alguns pombos voavam. Corujas também. O homem resistia à tormenta das ondas. Parecia não aguentar nadar por muito mais tempo. Faltava-lhe o ar. Engasgava-se. Dizem que o sangue é doce. Também salgado. Talvez acre-doce.  Assim como o mar. Eu sei!

III
Um náufrago morreu na praia, hoje. Eu vi! Dizem que estava bêbado e saiu pra pescar tubarões, em alto mar, além das 200 milhas. Foi atacado por orcas e peixes-espada. Eu sei! Os jornais disseram outra coisa. É difícil saber a verdade. É palavra de pescador contra de informador. Um colunista disse ouvir dizer de uma fonte confiável que, antes de morrer na praia, o homem cuspiu algumas palavras. Elas foram gravadas, por um anônimo e estão sendo analisadas por peritos, em um Laboratório de Fonética Forense. A sua fonte adiantou que os técnicos estão confusos. O que o homem parece dizer não bate com a explicação dos pescadores. A gravação diz que ele saiu pra pescar uma bandeira nacional. Como é que alguém pode ir pescar uma bandeira em alto mar? A voz, na fita, diz que a bandeira era pra fazer roupa pros seus filhos. Entre outras coisas o náufrago morto alega que seus filhos, depois, vestidos de bandeira, seriam uma bandeira viva andando pelas ruas. E não um simples pedaço de pano voando ao léu... Eu li!

*
Joba Tridente - 16.04.1998
Ilustração - 2014

segunda-feira, 31 de março de 2014

Joba Tridente: 31

31
para TT Catalão

à hora zero
era
à zero hora
foram
à hora zero
causaram
à zero hora
casernaram
à hora zero
.............................................
indo ou vindo
indo ouvindo
o tic-tac-clic
no desterro
o tic-tac-glub
no porão
o tic-tac-bang
no ermo
o tic-tac-taco
no pau
indo ou vindo
indo ouvindo
.............................................
arara desencantada
arara desencapada
arara desembestada
arara desencadeada
arara desensinada
.............................................
céu daquele azul
aves desemparceiradas
chão daquele verde
aves desmembradas
água daquele branco
aves desditosas
.............................................
casa sem leme
casa furta-cor
casa sem lema
.............................................
31 tic-tac 31 tac-tic: 31!
31 clic-clac 31 clac-clic: 31!
ai! ai! ai! 
ai! ai! ai! ai!
ai! ai! ai! ai! ai! 
ai! ai!ai! ai!ai! ai! ai!
ai! ai!ai! ai! ai! 
ai! ai! ai! ai!
ai! ai! ai!
31 clic-clac 31 clac-clic: 31!
31 tic-tac 31 tac-tic: 31!
………………………………..…….
à hora zero
casernaram
à zero hora
causaram
à hora zero
foram
à zero hora
era
à hora zero

*
Joba Tridente. 2014

domingo, 4 de agosto de 2013

Joba Tridente: Bicho-de-Pé


..., houve um tempo de becos, ciladas, sombras, cabrestos. ..., insensato que era, teimei na palavra. ..., verbo insistente que me volta como hoje. ..., que me pega distraído, como se ainda ontem. ..., como se à espera de mudanças. ..., como se...
  
BICHO-de-PÉ
olha para o teu sapato
comendo a poeira do CHÃO
e...
sujando todo o teu pé
tão ALVO    (à mosca)
ou...
tão NEGRO  (ao escaravelho)
............................................................
pegaste o BICHO-de-PÉ
............................................................
             agora é que tardarás a chegar à cidade

 

*
Joba Tridente:06.01.1975
Ilustração: Detalhe do Ensaio Fotográfico: Pegadas, 
que fiz em Itapoá-SC, em dezembro de 2012

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Joba Tridente: (?)


..., houve um tempo de becos, ciladas, sombras, cabrestos. ..., insensato que era, teimei na palavra. ..., verbo insistente que me volta como hoje. ..., que me pega distraído, como se ainda ontem. ..., como se à espera de mudanças. ..., como se...


(?)

as palavras soavam-lhe
nos ouvidos
                                       (SUAVA)
                                       (EU)
frágil
tremia de medo


*
Joba Tridente. 04.06.1974
Ilustração: Detalhe da Foto: Empalado,
que fiz em Itapoá-SC, em dezembro de 2012

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Joba Tridente: A Dor Dura



Exercito Poemas Visuais e ou Concretos desde os anos 1970. Eram Exercícios moldados a ferro em brasa..., fruto do seu tempo, que ainda o é. Nos anos 1990 se tornaram mais brandos.


A Dor Dura

I

desfoco
descofo
o peixe intacto
apesar da boca

desforca
desforça
a cabeça intacta
apesar da dor

desmorte
destermo
o sexo intacto
apesar da vida

desnorte
desterno
a casa intacta
apesar da lógica


Joba Tridente in Novos Exercícios Visuais
Foto de Joba Tridente: 2010



quinta-feira, 26 de maio de 2011

Joba Tridente: Verbo Sem Evolução


Verbo Sem Evolução

da série Mordaça



Eu sem isso. 

Tu sem aquilo. 

Ele na indiferença. 


Eu sem teto. 

Tu sem terra. 

Ele no abrigo. 


Eu sem sexo. 

Tu sem família. 

Ele no desejo. 


Eu sem salário. 

Tu sem comida. 

Ele na dieta. 


Eu sem escola. 

Tu sem emprego. 

Ele na fila. 


Eu sem ferramenta. 

Tu sem camisa. 

Ele na rua. 


Eu sem médico. 

Tu sem remédio. 

Ele no caixão. 


Eu sem religião. 

Tu sem fé. 

Ele na encruzilhada. 


Eu sem boca. 

Tu sem olho. 

Ele na escuta.




Eu sem governo. 

Tu sem ordem. 

Ele na arma.




... é verbo atemporal



poesia e ilustração de Joba Tridente

domingo, 24 de janeiro de 2010

Joba Tridente: Eu vi! Eu sei! Eu li!

Ilustração de Joba Tridente: Eu vi! Eu sei! Eu li - Falas ao Acaso

Eu vi! Eu sei! Eu li!
da coletânea de crônicas: Catarse Tardia

Um homem foi preso, ontem. Eu vi! Tentava roubar uma bandeira nacional, do pavilhão, na praça do governo. Os homens que o prenderam eram brutos. Eram montes enormes. Eu sei! Usavam armas de última geração. Dessas que matam sem deixar marcas. Eu li!

O homem desapareceu no meio dos grandes. Como um afogado. Depois voltou a aparecer. Só a cabeça. Como um afogado. Os prendedores eram como ondas. Não havia salva-vidas, ali. Só grandes ondas e um pequeno homem se debatendo no meio delas. Alguns pombos voavam. Corujas também. O homem resistia à tormenta das ondas. Parecia não aguentar nadar por muito mais tempo. Faltava-lhe o ar. Engasgava-se. Dizem que o sangue é doce. Também salgado. Talvez acre-doce. Assim como o mar.

Um náufrago morreu na praia, hoje. Eu vi! Dizem que estava bêbado e saiu pra pescar tubarões, em alto mar, além das 200 milhas. Foi atacado por orcas e peixes-espada. Eu sei! Os jornais disseram outra coisa. É difícil saber a verdade. É palavra de pescador contra de informador. Um colunista disse ouvir dizer de uma fonte confiável que, antes de morrer na praia, o homem cuspiu algumas palavras. Elas foram gravadas, por um anônimo e estão sendo analisadas por peritos, em um Laboratório de Fonética Forense. A sua fonte adiantou que os técnicos estão confusos. O que o homem parece dizer não bate com a explicação dos pescadores. A gravação diz que ele saiu pra pescar uma bandeira nacional. Como é que alguém pode ir pescar uma bandeira em alto mar? A voz, na fita, diz que a bandeira era pra fazer roupa pros seus filhos. Entre outras coisas o náufrago morto alega que seus filhos, depois, vestidos de bandeira, seriam uma bandeira viva andando pelas ruas. E não um simples pedaço de pano voando ao léu... Eu li!

Joba Tridente: 16.04.1998

Ilustração de Joba Tridente
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