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domingo, 9 de outubro de 2016

Joba Tridente: Três Cadernos


Três Cadernos
Joba Tridente
Crônica publicada na Gazeta do Povo em 27 de julho de 2003

Domingo de manhã. O maçudo jornal rodopia num lance contumaz. Encontra a soleira da porta e ali fica. O sol aquece amarelando a capa. Às vezes uma brisa fugidia roçando o jardim areja algumas páginas. O dia correndo e ninguém pra decifrar os signos de cada página. Noite chegando e os caracteres ainda virgens.

Segunda-feira abafada e duvidosa. Um vento Sul antecipando mudanças revira páginas incertas. Os cadernos se libertam do velho maço. A Cultura volteia entre a Cidade e a Política. Outros se prendem nos espinhos do jardim. O remoinho alcança a rua e páginas dançam livres entre os veículos. Ninguém se apercebe dos sinais impressos. Tinta muda abreviando verbos sem ecos. O ir e vir ao sabor dos passantes causam inevitáveis cortes. Daí pra queda é só uma questão de voragem. Tragédia de notícias quase anunciada. As páginas feridas se enroscam em para-brisas, retrovisores, para-choques. Gravitam no asfalto. São sugadas pelas rodas impacientes em chegar lá. Questão de segundos e os atropelos estraçalham a Cidade, a Cultura, a Política.

Sinal fechado. Na brisa que encerra a ventania, fragmentos, menos que serpentinas e quase confetes, dançam na rotina do asfalto e pousam em qualquer lugar.

*
Ilustração de Joba Tridente.2016


Joba Tridente em Verso: 25 Poemas Experimentais (1999); Quase Hai-Kai (1997, 1998 e 2004); em Antologias: Hiperconexões: Realidade Expandida (2015); 101 Poetas Paranaenses (2014); Ipê Amarelo, 26 Haicais; Ce que je vois de ma fenêtre - O que eu vejo da minha janela (2014); Ebulição da Escrivatura - 13 Poetas Impossíveis (1978); em Prosa: Fragmentos da História Antropofágica e Estapafúrdia de Um Índio Polaco da Tribo dos Stankienambás (2000); Cidades Minguantes (2001); O Vazio no Olho do Dragão (2001). Contos, poemas e artigos culturais publicados em diversos veículos de comunicação: Correio Braziliense, Jornal Nicolau, Gazeta do Povo, Revista Planeta, entre outros.

terça-feira, 28 de julho de 2015

Joba Tridente dialoga com TT Catalão: Carlie Hebdo

O escritor e jornalista TT Catalão é dono de um texto tão pertinente quanto persistente. A sua fala poético-jornalística e ou jornalístico-poética está sempre no ápice dos acontecimentos políticos, sociais, esportivos, ambientais..., no Brasil e no mundo. Seu verbo é perspicaz é irônico é perturbador e vai direto ao ponto. Dele, entre os dias 9 e 16 de agosto de 2014, publiquei I Prólogo e VII Poemas e, em 4 de julho de 2015, a sua famosa Carta Magna dos Ignorantes. Assim como interferi poeticamente no magnífico acervo do fotojornalista Marcos Santilli, publicado aqui, entre os dias 22 e 28 de junho de 2015, também comentei poeticamente as publicações de TT Catalão no G+. Alguns destes comentários, juntamente com as postagens (frases, poemas, textos, artes) originais de TT, você acompanha aqui. O sexto lembra o massacre na redação do jornal francês Charlie Hebdo.

poemarte de TT Catalão

TT Catalão - 07.01.2015
(ataque à redação Charlie Hebdo, na França)

 “assassinar jornalistas
torna ainda mais sêmen
aquilo q eles temem
BALA NÃO CALA”


*
Joba Tridente - 07.01.2015

a bala laica abala a fala
o fóssil santo metálico falo
no tiro e re-tiro estupra a (pa)lavra
......................................................
a dor não cala a dor não consente
.......................................................
no babélico (i)mundo
o alfabeto sempre se restaura



Nota: Para saber mais sobre TT Catalão, acesse I Prólogo e VII Poemas. E ou procure-o no G+.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Observatório da Imprensa: Outras razões para a pauta negativa

Para quem já não aguenta mais tanta notícia ruim no telejornalismo (com suas trilhas sonoras piegas) e jornais impressos, com suas manchetes sangrentas, um excelente artigo publicado no Observatório da Imprensa:

Outras razões para a pauta negativa
Por Venício A. de Lima em 19/05/2015 na edição 851

O sempre interessante Boletim UFMG que traz, a cada semana, notícias do dia a dia da Universidade Federal de Minas Gerais, informa, na edição de 4 de maio [Ano 41, nº 1.902], sobre trabalho desenvolvido por grupo de pesquisa do Departamento de Ciência da Computação (DCC) em torno da “análise de sentimento” que relaciona o sucesso das notícias com sua polaridade, negativa ou positiva.

Vale a pena conferir o artigo que originou a matéria (disponível aqui) e será apresentado, ainda este mês, em conferência internacional sobre weblogs e mídia social na Universidade de Oxford, Inglaterra.

Utilizando programas de computador desenvolvidos pelo DCC-UFMG, foram identificadas, coletadas e analisadas 69.907 manchetes veiculadas em quatro sites noticiosos internacionais ao longo de oito meses de 2014: The New York Times, BBC, Reuters e Daily Mail. E as notícias foram agrupadas em cinco grandes categorias: negócios e dinheiro, saúde, ciência e tecnologia, esportes e mundo.

As conclusões da pesquisa são preciosas.
Notícia negativa atrai mais leitores(as)

Cerca de 70% das notícias diárias estão relacionadas a fatos que geram “sentimentos negativos” – tais como catástrofes, acidentes, doenças, crimes e crises. Os textos das manchetes foram relacionados aos sentimentos que elas despertam, numa escala de menos 5 (muito negativo) a mais 5 (muito positivo). Descobriu-se que o sucesso de uma notícia [vale dizer, o número de vezes em que é “clicada” pelo eventual leitor(a)] está fortemente vinculado a esses “sentimentos” e que os dois extremos – negativo e positivo – são os mais “clicados”. As manchetes negativas, todavia, são aquelas que atraem maior interesse dos leitores(as).
Das cinco categorias de manchetes analisadas, a mais homogênea é a categoria “mundo”, onde só foram encontradas manchetes sobre catástrofes, sugerindo implicitamente que o país onde a notícia é produzida seria mais seguro do que os outros.
Descobriu-se também, ao contrário da expectativa dos pesquisadores, que os comentários postados por eventuais leitores(as) tendem a ser sempre negativos, independentemente do “sentimento” provocado pelo conteúdo da notícia.
Razões para a pauta negativa

Embora realizado com base em manchetes publicadas em sites internacionais – não brasileiros – os resultados do trabalho dos pesquisadores do DCC-UFMG nos ajudam a compreender a predominância do “jornalismo do vale de lágrimas” (ver, neste Observatório, “O vale de lágrimas é aqui”) na grande mídia brasileira.

Para além da partidarização seletiva das notícias, parece haver também uma importante estratégia de sobrevivência empresarial influindo na escolha da pauta negativa. Os principais telejornais exibidos na televisão brasileira, por exemplo, estão se transformando em incansáveis noticiários diários de crises, crimes, catástrofes, acidentes e doenças de todos os tipos. Carrega-se, sem dó nem piedade, nas notícias que geram sentimentos negativos. Mais do que isso: os(as) âncoras dos telejornais, além das notícias negativas, se encarregam de editorializar (fazer comentários) invariavelmente críticos e pessimistas reforçando, para além da notícia, exatamente os aspectos e consequências funestas de toda e qualquer notícia.
Existe, sim, o risco do esgotamento. Cansado de tanta notícia ruim e sentindo-se impotente para influir no curso dos eventos, pode ser que o leitor/telespectador(a) brasileiro afinal desista de se expor a esse tipo de jornalismo que o empurra cotidianamente rumo a um inexorável “vale de lágrimas” mediavalesco.
Triste mundo esse em que vivemos. Pautar preferencialmente o negativo se transformou, para além da política, em estratégia de sobrevivência empresarial.
Por enquanto, parece, está dando certo.
A ver.
*
Venício A. Lima é jornalista e sociólogo, professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado), pesquisador do Centro de Estudos Republicanos Brasileiros (Cerbras) da UFMG e organizador/autor com Juarez Guimarães e Ana Paola Amorim de Em defesa de uma opinião pública democrática – conceitos, entraves e desafios (Paulus, 2014), entre outros livros.

*
Foto e Ilustração de Joba Tridente para esta postagem no Falas ao Acaso.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Joba Tridente: Eu vi! Eu sei! Eu li!

Eu vi! Eu sei! Eu li!

coletânea de crônicas: Catarse Tardia
aos pescadores de sonhos

I
Um homem foi preso, ontem. Eu vi! Tentava roubar uma bandeira nacional, do pavilhão, na praça do governo. Os homens que o prenderam eram brutos. Eram montes enormes. Eu sei! Usavam armas de última geração. Dessas que matam sem deixar marcas. Eu li!

II
O homem desapareceu no meio dos grandes. Como um afogado. Depois voltou a aparecer. Só a cabeça. Como um afogado. Os prendedores eram como ondas. Não havia salva-vidas, ali. Só grandes ondas e um pequeno homem se debatendo no meio delas. Alguns pombos voavam. Corujas também. O homem resistia à tormenta das ondas. Parecia não aguentar nadar por muito mais tempo. Faltava-lhe o ar. Engasgava-se. Dizem que o sangue é doce. Também salgado. Talvez acre-doce.  Assim como o mar. Eu sei!

III
Um náufrago morreu na praia, hoje. Eu vi! Dizem que estava bêbado e saiu pra pescar tubarões, em alto mar, além das 200 milhas. Foi atacado por orcas e peixes-espada. Eu sei! Os jornais disseram outra coisa. É difícil saber a verdade. É palavra de pescador contra de informador. Um colunista disse ouvir dizer de uma fonte confiável que, antes de morrer na praia, o homem cuspiu algumas palavras. Elas foram gravadas, por um anônimo e estão sendo analisadas por peritos, em um Laboratório de Fonética Forense. A sua fonte adiantou que os técnicos estão confusos. O que o homem parece dizer não bate com a explicação dos pescadores. A gravação diz que ele saiu pra pescar uma bandeira nacional. Como é que alguém pode ir pescar uma bandeira em alto mar? A voz, na fita, diz que a bandeira era pra fazer roupa pros seus filhos. Entre outras coisas o náufrago morto alega que seus filhos, depois, vestidos de bandeira, seriam uma bandeira viva andando pelas ruas. E não um simples pedaço de pano voando ao léu... Eu li!

*
Joba Tridente - 16.04.1998
Ilustração - 2014

domingo, 10 de março de 2013

Joba Tridente: Três Cadernos



Três Cadernos
Crônica publicada na Gazeta do Povo em 27 de julho de 2003

Domingo de manhã. O maçudo jornal rodopia num lance contumaz. Encontra a soleira da porta e ali fica. O sol aquece amarelando a capa. Às vezes uma brisa fugidia roçando o jardim areja algumas páginas. O dia correndo e ninguém pra decifrar os signos de cada página. Noite chegando e os caracteres ainda virgens.

Segunda-feira abafada e duvidosa. Um vento Sul antecipando mudanças revira páginas incertas. Os cadernos se libertam do velho maço. A Cultura volteia entre a Cidade e a Política. Outros se prendem nos espinhos do jardim. O remoinho alcança a rua e páginas dançam livres entre os veículos. Ninguém se apercebe dos sinais impressos. Tinta muda abreviando verbos sem ecos. O ir e vir ao sabor dos passantes causam inevitáveis cortes. Daí pra queda é só uma questão de voragem. Tragédia de notícias quase anunciada. As páginas feridas se enroscam em para-brisas, retrovisores, para-choques. Gravitam no asfalto. São sugadas pelas rodas impacientes em chegar lá. Questão de segundos e os atropelos estraçalham a Cidade, a Cultura, a Política.

Sinal fechado. Na brisa que encerra a ventania, fragmentos, menos que serpentinas e quase confetes, dançam na rotina do asfalto e pousam em qualquer lugar.

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Ilustração de Joba Tridente

domingo, 8 de maio de 2011

Falas Idiotas - Imprensa

ilustração de Joba Tridente: Falas Idiotas

Há algum tempo venho colecionando estas "maravilhas" escritas e ditas por jornalistas e telejornalistas diplomados e acima de qualquer suspeita.

Foi à casa do governador de helicóptero.  
Foi à casa do piloto?

O governador chegou na fazenda de helicóptero.
Foi a uma criação de helicóptero?

Foi levado pro hospital de helicóptero.
Foi ao hangar onde consertam aeronaves?

Foi carregada pra calçada ferida?
Calçada esburacada ou quebrada?

Foi retirado do carro vivo.
O carro estava vivo e o sujeito morto?

O menino levou um tiro na porta e morreu.
Onde fica a porta de um menino? Nos olhos? Boca? Nariz? Ouvidos?

O menino foi retirado pelo bombeiro da fossa.
Não sabia que existia bombeiro de fossa.

O técnicudunga. 
O técnico Dunga.

O técnicuca.
O técnico Cuca.

A seleção dudunga.  
A seleção do Dunga

O técnicunovo.
O técnico novo.

Bola cudinho.
Bola com o Dinho.

Récordi de produção.
Recorde de produção.

Da serra se vê o mar de trem.
Haja trem!

Elvis atendendo o telefone enrolado numa toalha.
Não era o telefone e sim Elvis quem estava enrolado na toalha.

Você crê Tino?
Eu odiaria este apelido.

Tiorema.
Teorema.

Tisouro.
Tesouro.

Tioria.
Teoria.

Acabaram de chegar os cachorros que vão rastrear o local.
Chegaram de onde?

A Defesa Civil acabou de enviar um médico de helicóptero ao lugar dos desabamentos.
O que um “médico” de helicóptero entende de desabamento?

Site mostra Robert Pattinson tomando banho no mar de cueca no Brasil.
Haja cueca!

“BBB11”: Transexual Adriadna conta que toma hormônio para outros participantes.
Como assim? “Ela” toma hormônio no lugar dos outros?

Os sobreviventes foram encontrados no lugar de helicóptero.
Roubaram a aeronave!

ilustração de Joba Tridente

domingo, 24 de janeiro de 2010

Joba Tridente: Eu vi! Eu sei! Eu li!

Ilustração de Joba Tridente: Eu vi! Eu sei! Eu li - Falas ao Acaso

Eu vi! Eu sei! Eu li!
da coletânea de crônicas: Catarse Tardia

Um homem foi preso, ontem. Eu vi! Tentava roubar uma bandeira nacional, do pavilhão, na praça do governo. Os homens que o prenderam eram brutos. Eram montes enormes. Eu sei! Usavam armas de última geração. Dessas que matam sem deixar marcas. Eu li!

O homem desapareceu no meio dos grandes. Como um afogado. Depois voltou a aparecer. Só a cabeça. Como um afogado. Os prendedores eram como ondas. Não havia salva-vidas, ali. Só grandes ondas e um pequeno homem se debatendo no meio delas. Alguns pombos voavam. Corujas também. O homem resistia à tormenta das ondas. Parecia não aguentar nadar por muito mais tempo. Faltava-lhe o ar. Engasgava-se. Dizem que o sangue é doce. Também salgado. Talvez acre-doce. Assim como o mar.

Um náufrago morreu na praia, hoje. Eu vi! Dizem que estava bêbado e saiu pra pescar tubarões, em alto mar, além das 200 milhas. Foi atacado por orcas e peixes-espada. Eu sei! Os jornais disseram outra coisa. É difícil saber a verdade. É palavra de pescador contra de informador. Um colunista disse ouvir dizer de uma fonte confiável que, antes de morrer na praia, o homem cuspiu algumas palavras. Elas foram gravadas, por um anônimo e estão sendo analisadas por peritos, em um Laboratório de Fonética Forense. A sua fonte adiantou que os técnicos estão confusos. O que o homem parece dizer não bate com a explicação dos pescadores. A gravação diz que ele saiu pra pescar uma bandeira nacional. Como é que alguém pode ir pescar uma bandeira em alto mar? A voz, na fita, diz que a bandeira era pra fazer roupa pros seus filhos. Entre outras coisas o náufrago morto alega que seus filhos, depois, vestidos de bandeira, seriam uma bandeira viva andando pelas ruas. E não um simples pedaço de pano voando ao léu... Eu li!

Joba Tridente: 16.04.1998

Ilustração de Joba Tridente
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