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domingo, 16 de junho de 2019

Joba Tridente: METROpoli(ti)zação


Houve um tempo que as palavras fluíam pequenas. Um tempo de liberdade miúda. De entrelinhas. METROpoli(ti)zação é um fragmento do meu livro METAcidaDES (1975)...
  

     
METROpoli(ti)zação
: joba.tridente

: abra (a) tua boca
de concreto e ferro
: escancare (os) teus dentes de porcelana
chumbados a ouro
e prove o trigo

..., quão assustado ficará
ao sentir que não pode
triturar nem um grão
                               quão...

*
ilustração: Joba Tridente.2019



Joba Tridente, um livre pensador livre. artesão de imagens e de palavras em Verso: 25 Poemas Experimentais (1999); Quase Hai-Kai (1997, 1998 e 2004); em Antologias: Hiperconexões: Realidade Expandida – Sangue e Titânio (2017); Hiperconexões: Realidade Expandida (2015); 101 Poetas Paranaenses (2014); Ipê Amarelo, 26 Haicais; Ce que je vois de ma fenêtre - O que eu vejo da minha janela (2014); Ebulição da Escrivatura - 13 Poetas Impossíveis (1978); em Prosa: Fragmentos da História Antropofágica e Estapafúrdia de Um Índio Polaco da Tribo dos Stankienambás (2000); Cidades Minguantes (2001); O Vazio no Olho do Dragão (2001). Contos, poemas e artigos culturais publicados em diversos veículos de comunicação: Correio Braziliense, Jornal Nicolau, Gazeta do Povo, Revista Planeta, entre outros.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Joba Tridente: Verbo Sem Evolução


... em verbo 
nem tudo o que se conjuga se julga 
em verbo ...


Verbo Sem Evolução
Joba Tridente
série Mordaça

Eu sem isso.
Tu sem aquilo.
Ele na indiferença.

Eu sem teto.
Tu sem terra.
Ele no abrigo.

Eu sem sexo.
Tu sem família.
Ele no desejo.

Eu sem salário.
Tu sem comida.
Ele na dieta.

Eu sem escola.
Tu sem emprego.
Ele na fila.

Eu sem ferramenta.
Tu sem camisa.
Ele na rua.

Eu sem médico.
Tu sem remédio.
Ele no caixão.

Eu sem religião.
Tu sem.
Ele na encruzilhada.

Eu sem boca.
Tu sem olho.
Ele na escuta.

Eu sem governo.
Tu sem ordem.
Ele na arma.

... é verbo atemporal

*
ilustração de Joba Tridente.2016


Joba Tridente em Verso: 25 Poemas Experimentais (1999); Quase Hai-Kai (1997, 1998 e 2004); em Antologias: Hiperconexões: Realidade Expandida (2015); 101 Poetas Paranaenses (2014); Ipê Amarelo, 26 Haicais; Ce que je vois de ma fenêtre - O que eu vejo da minha janela (2014); Ebulição da Escrivatura - 13 Poetas Impossíveis (1978); em Prosa: Fragmentos da História Antropofágica e Estapafúrdia de Um Índio Polaco da Tribo dos Stankienambás (2000); Cidades Minguantes (2001); O Vazio no Olho do Dragão (2001). Contos, poemas e artigos culturais publicados em diversos veículos de comunicação: Correio Braziliense, Jornal Nicolau, Gazeta do Povo, Revista Planeta, entre outros.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Joba Tridente: Colher - 2

COLHER é um poema em desenvolvimento. Trata de menores delinquentes, que conheci quando orientava Oficinas Culturais em Abrigos (Orfanato, Quartel, Semiliberdade) para adolescentes infratores e em situação de risco, e de jovens adultos, que conheci outrora e que desapareceram nos porões do (des)governo..., por ousarem pensar por conta própria. Já publiquei, no Falas ao Acaso, em novembro de 2014, os fragmentos I e IV. Agora você confere o fragmento VII.



COLHER - 2
Joba Tridente

VII

um banco de palavras
aleatórias
mãos trêmulas caçando palavras
aleatórias
memória puxando palavras
aleatórias

: em casa nunca
faltou sopa de letrinhas!

mãe, que letra é essa?
que letra?
essa que parece uma forquilha
é o ípsilon, mais comum no inglês
com ela se escreve young
quer dizer jovem

e essa?
essa é o dábliu
parece um M de ponta-cabeça
com M se escreve mártir
com W se escreve war
quer dizer guerra

mãe?!
o que é?
acho que escrevi um poema na sopa
leia pra mim
    mãe amanhece
    mãe entardece
    mãe anoitece
    mãe

mãe, onde vai?
recolher a roupa e já volto

acho que ela não gostou
do meu primeiro poema na sopa
mãe não tinha lavado roupa

engoli meu poema inteiro
com uma só colherada

engoli minha mãe
que numa noite desapareceu
na noite

engoli muitos outros poemas
a colheradas até o último pacote de sopa
e a minha mãe não voltou

*
joba tridente poesia (2014/2015) foto (2012)


Joba Tridente em Verso: 25 Poemas Experimentais; Quase Hai-Kai; em Antologias: Hiperconexões: Realidade Expandida; 101 Poetas Paranaenses; Ipê Amarelo, 26 Haicais; Ce que je vois de ma fenêtre - O que eu vejo da minha janela; Ebulição da Escrivatura; em Prosa: Fragmentos da História Antropofágica e Estapafúrdia de Um Índio Polaco da Tribo dos Stankienambás; Cidades Minguantes; O Vazio no Olho do Dragão. Contos, poemas e artigos culturais publicados em diversos veículos de comunicação: Correio Braziliense, Jornal Nicolau, Gazeta do Povo, Revista Planeta, entre outros.

sábado, 1 de agosto de 2015

Joba Tridente dialoga com TT Catalão: Tênue Equilíbrio

O escritor e jornalista TT Catalão é dono de um texto tão pertinente quanto persistente. A sua fala poético-jornalística e ou jornalístico-poética está sempre no ápice dos acontecimentos políticos, sociais, esportivos, ambientais..., no Brasil e no mundo. Seu verbo é perspicaz é irônico é perturbador e vai direto ao ponto. Dele, entre os dias 9 e 16 de agosto de 2014, publiquei I Prólogo e VII Poemas e, em 4 de julho de 2015, a sua famosa Carta Magna dos Ignorantes. Assim como interferi poeticamente no magnífico acervo do fotojornalista Marcos Santilli, publicado aqui, entre os dias 22 e 28 de junho de 2015, também comentei poeticamente as publicações de TT Catalão no G+. Alguns destes comentários, juntamente com as postagens (frases, poemas, textos, artes) originais de TT, você acompanha aqui. O décimo sintetiza a liberdade e a repressão.

poemarte de TT Catalão sobre foto de Robin Loznak

TT Catalão - 24.12.2012

ginga de corpo drible de alma


*
Joba Tridente - 31.12.2012

lânguida libélula
leve pouso
repouso leve

frágil...
não teme a farpa


*
TT Catalão - 31.12.2012

farpa dedilhada como harpa



Nota: Para saber mais sobre TT Catalão, acesse I Prólogo e VII Poemas. E ou procure-o no G+.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Joba Tridente: Colher

COLHER é um poema em desenvolvimento. Trata de menores delinquentes, que conheci quando orientava Oficinas Culturais em Abrigos (Orfanato, Quartel, Semiliberdade) para adolescentes em situação de risco, e de jovens adultos, que conheci outrora e que desapareceram nos porões do (des)governo..., por ousarem pensar por conta própria.



Colher (fragmentos I e IV)
Joba Tridente

I
aprendeu a ler
com sopa de letrinhas

aprendeu a lei
com sopa de porradinhas

a mesma colher
lhe serviu de guia

menor enchia-lhe
a boca de palavrinhas

maior enchia-lhe
a cela de palavrões 


IV
aziar o corpo aziar a alma aziar a cartilha aziar a lembrança da sopa no prato na mesa
no pão raspando a última letra

*
Joba Tridente - poesia e ilustração - 2014

terça-feira, 1 de abril de 2014

Joba Tridente: Eu vi! Eu sei! Eu li!

Eu vi! Eu sei! Eu li!

coletânea de crônicas: Catarse Tardia
aos pescadores de sonhos

I
Um homem foi preso, ontem. Eu vi! Tentava roubar uma bandeira nacional, do pavilhão, na praça do governo. Os homens que o prenderam eram brutos. Eram montes enormes. Eu sei! Usavam armas de última geração. Dessas que matam sem deixar marcas. Eu li!

II
O homem desapareceu no meio dos grandes. Como um afogado. Depois voltou a aparecer. Só a cabeça. Como um afogado. Os prendedores eram como ondas. Não havia salva-vidas, ali. Só grandes ondas e um pequeno homem se debatendo no meio delas. Alguns pombos voavam. Corujas também. O homem resistia à tormenta das ondas. Parecia não aguentar nadar por muito mais tempo. Faltava-lhe o ar. Engasgava-se. Dizem que o sangue é doce. Também salgado. Talvez acre-doce.  Assim como o mar. Eu sei!

III
Um náufrago morreu na praia, hoje. Eu vi! Dizem que estava bêbado e saiu pra pescar tubarões, em alto mar, além das 200 milhas. Foi atacado por orcas e peixes-espada. Eu sei! Os jornais disseram outra coisa. É difícil saber a verdade. É palavra de pescador contra de informador. Um colunista disse ouvir dizer de uma fonte confiável que, antes de morrer na praia, o homem cuspiu algumas palavras. Elas foram gravadas, por um anônimo e estão sendo analisadas por peritos, em um Laboratório de Fonética Forense. A sua fonte adiantou que os técnicos estão confusos. O que o homem parece dizer não bate com a explicação dos pescadores. A gravação diz que ele saiu pra pescar uma bandeira nacional. Como é que alguém pode ir pescar uma bandeira em alto mar? A voz, na fita, diz que a bandeira era pra fazer roupa pros seus filhos. Entre outras coisas o náufrago morto alega que seus filhos, depois, vestidos de bandeira, seriam uma bandeira viva andando pelas ruas. E não um simples pedaço de pano voando ao léu... Eu li!

*
Joba Tridente - 16.04.1998
Ilustração - 2014

domingo, 24 de janeiro de 2010

Joba Tridente: Eu vi! Eu sei! Eu li!

Ilustração de Joba Tridente: Eu vi! Eu sei! Eu li - Falas ao Acaso

Eu vi! Eu sei! Eu li!
da coletânea de crônicas: Catarse Tardia

Um homem foi preso, ontem. Eu vi! Tentava roubar uma bandeira nacional, do pavilhão, na praça do governo. Os homens que o prenderam eram brutos. Eram montes enormes. Eu sei! Usavam armas de última geração. Dessas que matam sem deixar marcas. Eu li!

O homem desapareceu no meio dos grandes. Como um afogado. Depois voltou a aparecer. Só a cabeça. Como um afogado. Os prendedores eram como ondas. Não havia salva-vidas, ali. Só grandes ondas e um pequeno homem se debatendo no meio delas. Alguns pombos voavam. Corujas também. O homem resistia à tormenta das ondas. Parecia não aguentar nadar por muito mais tempo. Faltava-lhe o ar. Engasgava-se. Dizem que o sangue é doce. Também salgado. Talvez acre-doce. Assim como o mar.

Um náufrago morreu na praia, hoje. Eu vi! Dizem que estava bêbado e saiu pra pescar tubarões, em alto mar, além das 200 milhas. Foi atacado por orcas e peixes-espada. Eu sei! Os jornais disseram outra coisa. É difícil saber a verdade. É palavra de pescador contra de informador. Um colunista disse ouvir dizer de uma fonte confiável que, antes de morrer na praia, o homem cuspiu algumas palavras. Elas foram gravadas, por um anônimo e estão sendo analisadas por peritos, em um Laboratório de Fonética Forense. A sua fonte adiantou que os técnicos estão confusos. O que o homem parece dizer não bate com a explicação dos pescadores. A gravação diz que ele saiu pra pescar uma bandeira nacional. Como é que alguém pode ir pescar uma bandeira em alto mar? A voz, na fita, diz que a bandeira era pra fazer roupa pros seus filhos. Entre outras coisas o náufrago morto alega que seus filhos, depois, vestidos de bandeira, seriam uma bandeira viva andando pelas ruas. E não um simples pedaço de pano voando ao léu... Eu li!

Joba Tridente: 16.04.1998

Ilustração de Joba Tridente
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