Dia desses um homem comum, quase do povo, virou notícia nacional. Não mordeu um cachorro ou cometeu algum horrendo crime humano. Estava apenas preocupado com a sua triste sorte de interior. Amante dos livros e a caminho de inteirar a idade, chegou a uma óbvia conclusão. Frente à sua biblioteca particular, era como se estivesse frente a um espelho. Ele e os livros envelheciam. Ele, dentro do ciclo vital humano que, para uns é curto demais e para outros é terrivelmente infinito. Os livros, nas estantes, alguns já meio gagás e mudos há muito.
Assim como alguns brasileiros, o homem comum, quase do povo, venceu as etapas escolares e se formou em sociologia. A caminho da sua formação foi guardando os livros auxiliares e outros que lhe interessavam. Construiu um pequeno e doméstico patrimônio cultural, mas não financeiro. Enquanto vivo, com uma profissão reconhecida, até presidencialmente, poderia manter o seu corpo, depósito da sua cultura, em plena atividade, mas, e depois? Quando a alma, com a cultura adquirida, o deixasse, o que seria feito dele? Seria enterrado como indigente? Serviria de corpo-cobaia para experimentos e treinos em algum hospital-escola? Que destino teria aquele que lhe servira a tantos ir e vir? Triste sina a sua, e a de milhões de brasileiros: não ter onde cair morto. Sim, porque não juntou em bens de valor o suficiente para comprar uma vala, sete palmos, um túmulo, uma tumba qualquer em um cemitério qualquer, para ser enterrado o seu corpo pós-vida. E o livros, seu bem maior, sucumbiriam ao pó e as traças? Aí estava um curioso impasse a ser resolvido.
Poderia, evidentemente, enquanto é tempo, vender o seu pequeno acervo a um sebo e até acompanhar destino final dele. Mas a questão continuava, teria dinheiro suficiente para comprar um túmulo? Nos dias de hoje é um mercado concorrido este. Aliás os dois mercados são concorridos, o dos sebos, com venda de livros, discos e tudo o mais que for vendável e o dos cemitérios, com mais gente nascendo e morrendo a cada dia. Talvez, com a Lei de Doação de Órgãos, em alguns casos, pode-se até ter nada para enterrar e ainda há a opção do crematório, para poucos e privilegiados. Mas ainda será pouco.
Assim, na dúvida do preço alcançado pelos seus livros, o homem comum, quase do povo, resolveu fazer um trato, uma permuta com o prefeito de sua cidade, doaria o seu acervo para a Biblioteca Pública, administrada pela prefeitura, em troca de um túmulo com lápide, onde pudesse deixar um epitáfio. O que foi aceito e virou notícia. Solução original, trocar a o seu acervo por uma sepultura com lápide. Assim o seus livros vão para uma biblioteca pública e o seu corpo para um túmulo com lápide e tudo.
O que me inquieta na verdade, já que depois de morto, tanto faz enterrar, queimar, cortar, jogar no lixo ou, algum responsável, usar como bem entender o meu corpo..., o que me incomoda, é o preço da cultura. O preço do conhecimento, da formação profissional de um indivíduo. Será que a cultura não vale mais que um reles túmulo com lápide? Será que ela só terá algum valor como um bem qualquer, depois da morte, como é comum, para pagar um enterro?
Somos quase todos mendigos do saber, implorando algum trocado para chegar até a próxima página. Mas as vírgulas são muitas e os pontos finais estão sempre interrompendo o livre trânsito do pensamento. Somos Gulliver e Malazartes. Macunaína e Quixote. Policarpos eternamente, em troco da boa morte. Não importa se Ubirajaras, Zés, Pedros ou Manés, a verdade é que estamos a todo momento com o travessão na garganta, as reticências na boca e o carvão gasto nas mãos. Implorando, primeiro, um lugar na vida. Depois...
Para uns o melhor amigo de um homem é o cão. Para outros o gato, o peixe, a cobra, a aranha, a galinha, a vaca... Para a minoria, o livro. Isso mesmo, o livro, este ser alienígena que apavora a tantos e tem sobrevivido a todos. Assim, será que alguma prefeitura aceitaria um bichinho qualquer, em troca de um túmulo com lápide ou mesmo uma cova rasa sem ao menos uma identificação? Nem o zoológico, com esta crise econômica braba que não está perdoando nem mesmo os leitores mais assíduos. No entanto, ainda há quem queira receber e cuidar de um livro, em troca de um agrado qualquer. É que, no Brasil, não é tão fácil, quanto parece, comprar e manter a companhia de um livro, mesmo que se queira. Não que seja ilegal, muito pelo contrário, há até quem o incentive, o problema está no preço nada convidativo. É claro, e também na falta de tradição à leitura (ou seria na alfabetização?).
Conheço muita gente que não entende como é que alguém pode gostar de ler, principalmente livros, quando pode ouvir rádio e ver televisão. Dia desses, comentando com um amigo sobre um livro que me interessava, como ponte intermediária do livre pensar no mundo, com as suas tradições contra ou a favor do homem, ele tranquilamente confessou: “Não gosto de ler livros, é pura perda de tempo. Gosto é de ver a história de um livro de sucesso transformado em filme passar dublado na televisão. Não gosto de ver filme no cinema porque a gente tem que ler as legendas. O filme é legal porque a gente consegue viajar na história. No livro não. Acho que um escritor, em vez de escrever, devia gravar a sua história em fita ou CD, pra gente ficar deitado e ouvindo, sem precisar ficar prestando muita atenção ou segurando o livro e virando as páginas.” Como será que alguém consegue imaginar em cima do que já está re-imaginado e pronto num filme? Não sei. Ele não é o único, o primeiro ou o último, mas o seu discurso faz eco ao que se ouve, daqueles que temem a palavra. Daqueles que temem o tom das palavras naqueles que têm o dom da imaginação.
Daí que pergunto, quanto vale a cultura? Cada livro comprado e bem cuidado pode funcionar como uma poupança cemiterial? Se isso virar moda, pelo tamanho do túmulo será possível saber o tamanho da biblioteca ou o grau cultural do morto? Ditaremos um novo (?) ditado: “Diga-me o tamanho da tua biblioteca e eu te direi o túmulo que terás!” E se um sujeito, digamos, um pré-morto, conseguir apenas um túmulo simples, de uma prefeitura pobre, poderá pleitear junto às autoridades competentes a realização de um chá-de-túmulo, para arrecadar fundos para providenciar melhorias na sepultura e assim, no pós-morte se rodear de todo conforto? Quem viver, verá! (ou será: quem ler, sepultar-se-á?).
Joba Tridente. 20.04.1998
Arte de Joba Tridente sobre Listemagerens Ny Dingbats