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quinta-feira, 25 de julho de 2019

Almir Correia: Poemas Adolescentes



O escritor paranaense Almir Correia, que já  deu o ar da graça literária aqui no Falas ao Acaso, com os livros Poemas Sapecas, Rimas Traquinas, 13 Contos de Medos e Arrepios, Estrela Cadente e Babuxa, está lançando mais duas novas obras: Poemas Malandrinhos (com belíssimas ilustrações de Victor Tavares) e Poemas adolescentes (com excelentes ilustrações clássicas e em domínio público), pela Sowilo Editora. As publicações tratam, com humor leve e, por vezes, humor negro, do universo das crianças e dos adolescentes..., estes, em “permanente” crise de nervos (ou rebeldia sem causa!), por “conta” das suas “complicadíssimas” relações amorosas, familiares, escolares etc...

Para um breve tira-gosto, selecionei cinco poemas do livro Poemas adolescentes (2019), para você se deliciar e (quem sabe?) se encontrar e ou mesmo relembrar os seus bons tempos idos. São eles: Adolescente; No poço da sua alma; Doces framboesas; No elevador; Adolescendo.



ADOLESCENTE
Almir Correia

Patricinha
Boyzinho
Punk
Clubber
Roqueiro
Office-boy
Metaleiro
Anarquista
Pagodeiro
Turista
Tudo isso e muito mais…
Tudo ao mesmo tempo agora
Batido no liquidificador
E pronto
É só beber
Algumas pitadas de amor
E toda a inconstância do mundo
Vai fundo
O medo também tem sabor de
sonho
Ou será que é o sonho que tem
sabor de medo?
Durma um pouco
Não pense em nada
Amanhã você acorda cedo
Tem prova de Matemática
Tem Redação
E aquela vontade de voar
pela janela
Ou descer
pelo ralo do banheiro…




NO POÇO DE SUA ALMA
Almir Correia

Minha lâmpada foi buscar
No poço de sua alma
O infinito de seus abraços
Os cheiros de seus sentidos
Os segredos de seu olhar

Busque em mim
Os trigais de mil carícias

Há morangos na cozinha
E lentos suspiros roucos.




DOCES FRAMBOESAS
Almir Correia

Troco um milhão
de incerteza
Por um bom punhado
De doces framboesas
Desde que colhidas no pé
Há não mais de uma hora
E enquanto tu bebes da fé
Eu me saciarei
Com uma rubra aurora…




NO ELEVADOR
Almir Correia

Um poema de amor
No elevador
Sobe e desce
Desce e sobe
Sobe e desce
Desce e sobe
Um poema de amor
No elevador
Não me comove.




ADOLESCENDO
Almir Correia

Estou adolescendo!!!
Como pode ser???
Estou adolescendo
Mas não quero morrer.

Estou adolescendo
Espinhas
Na cara pálida
Pelos no corpo
Cem desejos
Mil beijos
Estou querendo
Beber o mundo
Em um segundo
E só

Estou adolescendo
E o meu avô-amigo
Também já está
Adolescendo comigo…

*
ilustrações: Joba Tridente.2019



Almir Correia é um premiado escritor brasileiro, diretor de cinema de animação e de ficção e criador da série televisiva Carrapatos e Catapultas (Prêmio Animatv – Tc Cultura – Tv Brasil), ainda em exibição nos canais TV Brasil e Cartoon Network. Entre os mais de 40 livros infantojuvenis publicados por Almir Correia, que é Pós-Graduado em Literatura, pela Universidade Federal de Santa Catarina, e lecionou Línguas Estrangeiras Modernas, na Universidade Tecnológica Federal do Paraná, estão: Poemas malandrinhos; Poemas sapecas: rimas traquinas (Prêmio de Melhor Poesia Infantil, pela Associação Paulista dos Críticos de arte em 1997); Anúncios amorosos dos bichos; O leão camaleão; Blog do sapo Frog; Enrola bola língua e vitrola; Anúncios carentes de bichos abandonados por gente; O menino com monstros nos dedos; Mais meninos com monstros nos dedos; Monstros Monstrengos; 13 Contos de Medos e Arrepios; Babuxa; Poemas Adolescentes; Poemas Malandrinhos.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Francisco Cenamor: Niños y niñas

No dia 21 de março de 2017, em comemoração ao Dia da Poesia, o escritor espanhol Francisco Cenamor disponibilizou gratuitamente, por meio do seu blog asamblea de palabras, onde publica diariamente obras de poetas de todo o mundo, a edição digital (em PDF) do livro Restos de naufragio, que traz uma interessante compilação de seus poemas publicados entre 1997 e 2007.

Para Cenamor, a ideia deste resgate literário é o de fazer coincidir dois aspectos da sua trajetória poética: a presença de uma voz forte e heterogênea e a obsessão por aprender. Para tanto, a edição conta com textos reescritos e também por aqueles que se perderam pelo caminho (poético)..., divididos em breves opúsculos. Em Pecios estão poemas publicados nos livros En el océano (textos que partem da dor de mirar o mundo), En el mar (textos onde a dor provem da vivência do amor), e Islas (fragmentos de poemas descartados do livro poemillas). Ánforas ocultas traz poemas inéditos em livro, bem como alguns Islas (fragmentos, poemas curtos). El livro de Raquel trata da admiração da beleza..., com profundo teor religioso e místico (no formato gráfico dos textos bíblicos). Gotas en el agua agrega textos poéticos escritos para peças teatrais breves, encenadas principalmente por universitários.

Em declaração publicada no site las afinidades electivas, sobre a sua arte literária, o escritor espanhol disse: Mi poesía es similar a la del bardo de Astérix, aunque espero ser menos pesado. Observo el mundo que me rodea, sobre todo a las personas, me empapo de su realidad, sus sentimientos, sus pasiones, sus sufrimientos, sus esperanzas y alegrías, los paso por el tamiz de la persona que soy yo mismo y los devuelvo convertidos en belleza. O al menos esa es la pretensión. Cuando hablo de mi mismo me pienso más allá, como perteneciendo a un todo que no me pertenece. Utilizo un lenguaje llano y directo pero con pretensiones espirituales y trascendentes. Me encasillan como poeta social, pero estoy exento de ideología en mis poemas, tan solo me acerco, como imperativo humano, a las personas que sufren por diversos motivos. Mi referente poético principal es César Vallejo, pero he crecido también con San Juan de la Cruz, Mario Benedetti, Juan Gelman, José Agustín Goytisolo, Luis Luna, y muchos otros.

Para sete publicações no Falas ao Acaso selecionei apenas poemas presentes em Pecios: quatro do livro En el océano; seis poemas curtos dos três Islas e dois do Ánforas ocultas. Comecei com os dissabores de Propina e segui com o desconcertante Un cadáver viaja sin papeles e a aflição em Palestina y el bumerán. Hoje a melancolia está presente em Niños y niñas. Uma vez que não me pareceu difícil compreender a língua espanhola, optei por não traduzir (inda que sem compromisso) os poemas. Creio que apenas uma ou outra palavra em espanhol levará o leitor ao dicionário bilíngue ou ao tradutor Google.  


                  
Pecios/En el océano

Niños y niñas
Francisco Cenamor

Estás y ya no estás (dicen que hay muchos niños que
mueren de hambre cada día), estás y ya no estás (y
otros niños nacen cada mañana, como las nubes que no
sabes donde qué tierras mojarán)

Hay nubes que están en el cielo mucho tiempo y un día
ya no están (como los niños, que a veces ya no están)

Pero el agua que dejaron las nubes puebla cada tierra de
raíces (como los niños muertos)

*
ilustração de joba tridente.2018


Francisco Cenamor (1965, Leganés, Espanha) é escritor, articulista, ator e diretor de teatro. Francisco Cenabor, que coordena o Clube de Leitura da Universidad Carlos III, é autor de Amando nubes (Talasa Ediciones, 1999), Ángeles sin cielo (Ediciones Vitruvio, 2003), (Asamblea de palabras, Ediciones Vitruvio, 2007), Casa de aire (Amargord Ediciones, 2009), Nada somos, (Editorial Luces de gálibo, 2011) e Restos de naufragio (autoedição em formato digital, 2017). Em breve será lançada a edição bilíngue (espanhol e inglês) do livro de poemas Baltimore. A sua poesia também pode ser lida nas antologias: Poemas contra la guerra (2004); Salida de emergencia (2004); Vida de perros; Poemas perrunos (2007). Para saber mais sobre o autor e sua obra: Francisco Cenamor; Cuaderno de Poesia Crítica; Valejo & Co: Banderas transparentes, 11 poemas de Francisco Cenamor; Gibral Faro: Paisajes Interiores: Selección de Poemas; Revista O Cronopio; Banco da Poesia: Francisco Cenamor, poeta de Leganés; Proyeto Genoma Poético: Francisco Cenamor; La Locura de Los Cuerdos: Francisco Cenamor; mediaisla: Francisco Cenamor: “El compromiso con el lenguaje es el de enriquecerlo”; Varasek Ediciones: The Dharma Beats, una historia de la beat generation, por Francisco Cenamor; Espacio Latino: Francisco Cenamor y Luis Luna: dos poetas españoles; Fran Cenamor: Facebook; Francisco Cenamor - la entrevista: YouTube.

sábado, 3 de setembro de 2016

Murillo Araujo: Sonho de Herói

Aproveitando que no mês de setembro, além da primavera, e ou talvez por isso, o Brasil é tomado por feiras de livros e encontros literários, expondo a velha e a nova literatura para novos e velhos leitores, decidi (re)visitar alguns grandes escritores brasileiros e portugueses, cuja obra pode ser apreciada com prazer e considerações por crianças de qualquer idade. São poemas que remetem à infância, ao campo, aos jogos juvenis..., por vezes até melancólicos no seu saudosismo, mas sempre (e)ternos no registro lúdico de um tempo que já não há. Há muito!

O número de poemas será o de um a três, por autor, e as postagens sempre individuais (um por página) para melhor apreciação de cada obra.  Esta primeira edição contará com mais ou menos 30 escritores pinçados ao acaso em meus arquivos. Futuramente farei uma edição apenas com escritoras.

Comecei com a tocante evocação da Infância, do escritor simbolista/modernista Murillo Araujo (1894 - 1980). Ontem lembrei a sua graciosa manifestação da Natureza em Humoresco Silvestre. Hoje ressalto a beleza de uma imaginação fértil em Sonho de Herói, do livro Poemas completos de Murilo Araújo (1960). O próximo autor será Augusto Meyer (1902-1970).



Sonho de Herói
Murillo Araujo

Com um galho de bambu verde
e dois ramos de palmeira
eu hei de fazer um dia meu cavalo – com asas!

Subirei nele, com o vento, lá bem alto,
de carreira,
por sobre o arvoredo e as casas.

Voarei, roçando o mato,
as copas em flor das árvores,
como se cruzasse o mar...
e até sobre o mar de fato
passarei nas nuvens pálidas
muito acima das montanhas, das cidades,
mais alto que a chuva, no ar!

E irei até as estrelas,
ilhas dos rios de além
ilhas de pedras divinas,
de ribeiras diamantinas
com palmas, conchas, coquinhos nas suas
praias de pérola e de ouro
onde nunca foi ninguém...

*
Ilustração de Joba Tridente - 2016



Murillo Araujo (Serro-MG: 26.10.1894 – Rio de Janeiro-RJ: 01.08.1980), advogado, jornalista, escritor e crítico literário. Um dos expoentes do modernismo, lançou o seu primeiro livro, Carrilhões, em 1917, cinco anos antes da Semana de Arte Moderna. Em poesia publicou: A galera (1920), Árias de muito longe (1921), A cidade de ouro (1927), A iluminação da vida (1927), A estrela azul (1940), As sete cores do céu (1941), A escadaria acesa (1941), O palhacinho quebrado, A luz perdida (1952), O candelabro eterno (1955) e, em prosa: A arte do poeta (1944), Ontem, ao luar (1951), Catulo da Paixão Cearense, Aconteceu em nossa terra (pequenos casos de grandes homens), Quadrantes do Modernismo Brasileiro (1958). Murillo traduziu o livro O inspetor geral, do escritor russo Nikolai Gogol (1809 - 1852). Fonte: Antonio Miranda e Murillo Araujo Vida e Obra.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Murillo Araujo: Humoresco Silvestre

Aproveitando que no mês de setembro, além da primavera, e ou talvez por isso, o Brasil é tomado por feiras de livros e encontros literários, expondo a velha e a nova literatura para novos e velhos leitores, decidi (re)visitar alguns grandes escritores brasileiros e portugueses, cuja obra pode ser apreciada com prazer e considerações por crianças de qualquer idade. São poemas que remetem à infância, ao campo, aos jogos juvenis..., por vezes até melancólicos no seu saudosismo, mas sempre (e)ternos no registro lúdico de um tempo que já não há. Há muito!

O número de poemas será o de um a três, por autor, e as postagens sempre individuais (um por página) para melhor apreciação de cada obra.  Esta primeira edição contará com mais ou menos 30 escritores pinçados ao acaso em meus arquivos. Futuramente farei uma edição apenas com escritoras.

Comecei a publicação ontem, com o nostálgico poema Infância, do escritor simbolista/modernista brasileiro Murillo Araujo (1894 - 1980), e sigo hoje com o campestre Humoresco Silvestre. Amanhã será a vez do Sonho de Herói.


        

Humoresco Silvestre
Murillo Araujo

O vento, chefe de esquadrão, comanda os pelotões do mato.

E no horto florestal — quartel das árvores —
os pinheiros e coqueiros
fazem ginástica
sueca.

Os castanheiros
com as flores de penacho
jogam peteca.

Sussurram pífanos e rufos na charanga dos bambus.
E as bananeiras
batendo as raquetas das palmas
batem pelota com a péla da lua.

Mas de repente
silêncio...

Pesa o repouso lunar.

Um grilinho clarina.
E o vento chefe-de-esquadrão ordena aos ramos “descansar.”

*
Ilustração de Joba Tridente - 2016



Murillo Araujo (Serro-MG: 26.10.1894 - Rio de Janeiro-RJ: 01.08.1980), advogado, jornalista, escritor e crítico literário. Um dos expoentes do modernismo, lançou o seu primeiro livro, Carrilhões, em 1917, cinco anos antes da Semana de Arte Moderna. Em poesia publicou: A galera (1920), Árias de muito longe (1921), A cidade de ouro (1927), A iluminação da vida (1927), A estrela azul (1940), As sete cores do céu (1941), A escadaria acesa (1941), O palhacinho quebrado, A luz perdida (1952), O candelabro eterno (1955) e, em prosa: A arte do poeta (1944), Ontem, ao luar (1951), Catulo da Paixão Cearense, Aconteceu em nossa terra (pequenos casos de grandes homens), Quadrantes do Modernismo Brasileiro (1958). Murillo traduziu o livro O inspetor geral, do escritor russo Nikolai Gogol (1809 - 1852). Fonte: Antonio Miranda e Murillo Araujo Vida e Obra.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Joba Tridente: Poemas Curtos V


POEMAS CURTOS V
joba tridente

I
quartas-feiras
da minha infância
sopa de feijão


II
homem e balsa
na velhice
o mesmo balanço


III
na cova rasa
o solitário acolhe
a rosa do jardim

*
ilustração de joba tridente

*
links das postagens anteriores: 

Joba Tridente em Verso: 25 Poemas Experimentais (1999); Quase Hai-Kai (1997, 1998 e 2004); em Antologias: Hiperconexões: Realidade Expandida (2015); 101 Poetas Paranaenses (2014); Ipê Amarelo, 26 Haicais; Ce que je vois de ma fenêtre - O que eu vejo da minha janela (2014); Ebulição da Escrivatura – 13 Poetas Impossíveis (1978); em Prosa: Fragmentos da História Antropofágica e Estapafúrdia de Um Índio Polaco da Tribo dos Stankienambás (2000); Cidades Minguantes (2001); O Vazio no Olho do Dragão (2001). Contos, poemas e artigos culturais publicados em diversos veículos de comunicação: Correio Braziliense, Jornal Nicolau, Gazeta do Povo, Revista Planeta, entre outros.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Contos Para A Infância: Presente por Presente

Em seu livro Contos Para a Infância (1877), Guerra Junqueiro selecionou belos contos, fábulas e parábolas da tradição oral europeia. Em alguns trabalhos o moralismo e ou a religiosidade exagerada me incomodam. Prefiro os mais sutis como: Boa Sentença, O Ermitão, Presente por Presente. Atualizei levemente a grafia das postagens.



Presente por Presente

Um grande fidalgo, que se tinha perdido numa floresta, foi dar de noite à choupana de um pobre carvoeiro. Como este ainda não tinha chegado, foi a mulher que recebeu o importante personagem. Acolheu-o o melhor que pôde, desculpando-se da miserável hospitalidade que lhe ia dar, porque eram batatas cozidas a única coisa que lhe poderia oferecer; cama não a tinha, por conseguinte dormiria sobre a palha. Mas o estrangeiro estava morto de fome e de fadiga; as batatas souberam-lhe mais do que faisões, e dormiu melhor em cima da palha do que num leito de príncipes. Ao outro dia pela manhã disse isto mesmo à pobre mulher, gratificando-a ao despedir-se com uma moeda de ouro. Mas, como o desconhecido lhe tinha dito que a guardasse como uma pequena lembrança, a boa camponesa julgou que seria uma medalha, e sentiu que não tivesse um buraquinho para a trazer ao pescoço. Quando o carvoeiro chegou a casa, contou-lhe logo o que lhe tinha acontecido, mostrando-lhe a moeda preciosa. O carvoeiro examinou os cunhos e o valor da moeda de ouro, e disse para a mulher:

- Esse forasteiro era nada mais nada menos do que o nosso príncipe!

E o bom do homem não podia conter-se de alegria, por sua alteza ter achado as suas batatas melhores do que faisões.

É necessário confessar, disse ele com um ar triunfante, que não há talvez no mundo um terreno mais favorável do que este para a cultura das batatas; hei de lhe levar um cesto delas, já que as acha tão boas.

E partiu imediatamente para o palácio com uma provisão de batatas escolhidas. Os lacaios e as sentinelas ao princípio não o queriam deixar entrar; mas insistiu energicamente, dizendo que não vinha pedir nada, e que pelo contrário vinha trazer alguma coisa.

Foi, pois, introduzido na sala da audiência.

- Meu senhor, disse ele ao príncipe: Vossa alteza dignou-se recentemente pedir hospitalidade à minha mulher, e dar-lhe uma peça de ouro, em troca duma enxerga miserável e de um prato de batatas cozidas. Era pagar demasiadamente, apesar de serdes um príncipe muito rico e poderoso. Eis o motivo porque eu venho trazer ainda a vossa alteza um cestinho das batatas, que vos souberam melhor do que os vossos faisões. Dignai-vos aceitá-las, e, se nos fizerdes de novo a honra de ser nosso hóspede, lá as encontrareis sempre ao vosso dispor.

A honrada simplicidade do camponês agradou ao príncipe, e, como estava num momento de bom humor, fez-lhe doação de uma quinta com trinta jeiras de terra.

Ora o carvoeiro tinha um irmão muito rico, mas invejoso e avarento, que, sabendo da fortuna do irmão mais novo, disse consigo: - Porque não me há de suceder a mim outro tanto? O príncipe gosta do meu cavalo, pelo qual lhe pedi sessenta libras, que ele me recusou. Vou lhe fazer presente dele: se deu ao João uma quinta com trinta jeiras de terra, simplesmente por um cesto de batatas, a mim com certeza me há de recompensar ainda mais generosamente.

Tirou o cavalo da estrebaria e levou-o para defronte das portas do palácio; recomendou ao criado que o segurasse, e, atravessando com ar altivo as alas dos lacaios, penetrou na sala da audiência.

- Ouvi dizer, disse ele, que vossa alteza gosta do meu cavalo; não tenho querido trocá-lo a dinheiro, mas dignai-vos permitir-me que lhe ofereça.

O príncipe viu imediatamente onde o nosso homem queria chegar, e disse consigo: - Deixa estar, tratante, que te vou dar a paga que mereces.

Depois dirigindo-se a ele:

- Aceito a tua dádiva, mas não sei como agradecer-te condignamente. Oh! espera um pouco: Eis aqui um cesto de batatas mais saborosas do que faisões. Custaram-me trinta jeiras de terra. Parece-me que é um bom preço para um cavalo, que eu poderia ter comprado por sessenta libras.

E entregando-lhe o cesto, mandou-o embora.


*
Ilustração de Joba Tridente - 2013


Abílio Manuel Guerra Junqueiro (17.9.1850 - 7.7.1923) foi jornalista, escritor, e também se envolveu com política. Um dos mais importantes escritores portugueses é autor, entre outros, de: Viagem À Roda Da Parvónia, A Morte De D. João (1874), Contos para a Infância (1875), A Musa Em Férias (1879), A velhice do padre eterno (1885), Finis Patriae (1890), Os Simples (1892), Oração Ao Pão (1903), Oração À Luz (1904), Gritos da Alma (1912), Pátria (1915), Poesias Dispersas (1920). Algumas obras estão disponibilizadas gratuitamente no Projeto Gutemberg.

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