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sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Joba Tridente: Colher - 2

COLHER é um poema em desenvolvimento. Trata de menores delinquentes, que conheci quando orientava Oficinas Culturais em Abrigos (Orfanato, Quartel, Semiliberdade) para adolescentes infratores e em situação de risco, e de jovens adultos, que conheci outrora e que desapareceram nos porões do (des)governo..., por ousarem pensar por conta própria. Já publiquei, no Falas ao Acaso, em novembro de 2014, os fragmentos I e IV. Agora você confere o fragmento VII.



COLHER - 2
Joba Tridente

VII

um banco de palavras
aleatórias
mãos trêmulas caçando palavras
aleatórias
memória puxando palavras
aleatórias

: em casa nunca
faltou sopa de letrinhas!

mãe, que letra é essa?
que letra?
essa que parece uma forquilha
é o ípsilon, mais comum no inglês
com ela se escreve young
quer dizer jovem

e essa?
essa é o dábliu
parece um M de ponta-cabeça
com M se escreve mártir
com W se escreve war
quer dizer guerra

mãe?!
o que é?
acho que escrevi um poema na sopa
leia pra mim
    mãe amanhece
    mãe entardece
    mãe anoitece
    mãe

mãe, onde vai?
recolher a roupa e já volto

acho que ela não gostou
do meu primeiro poema na sopa
mãe não tinha lavado roupa

engoli meu poema inteiro
com uma só colherada

engoli minha mãe
que numa noite desapareceu
na noite

engoli muitos outros poemas
a colheradas até o último pacote de sopa
e a minha mãe não voltou

*
joba tridente poesia (2014/2015) foto (2012)


Joba Tridente em Verso: 25 Poemas Experimentais; Quase Hai-Kai; em Antologias: Hiperconexões: Realidade Expandida; 101 Poetas Paranaenses; Ipê Amarelo, 26 Haicais; Ce que je vois de ma fenêtre - O que eu vejo da minha janela; Ebulição da Escrivatura; em Prosa: Fragmentos da História Antropofágica e Estapafúrdia de Um Índio Polaco da Tribo dos Stankienambás; Cidades Minguantes; O Vazio no Olho do Dragão. Contos, poemas e artigos culturais publicados em diversos veículos de comunicação: Correio Braziliense, Jornal Nicolau, Gazeta do Povo, Revista Planeta, entre outros.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Joba Tridente: Colher

COLHER é um poema em desenvolvimento. Trata de menores delinquentes, que conheci quando orientava Oficinas Culturais em Abrigos (Orfanato, Quartel, Semiliberdade) para adolescentes em situação de risco, e de jovens adultos, que conheci outrora e que desapareceram nos porões do (des)governo..., por ousarem pensar por conta própria.



Colher (fragmentos I e IV)
Joba Tridente

I
aprendeu a ler
com sopa de letrinhas

aprendeu a lei
com sopa de porradinhas

a mesma colher
lhe serviu de guia

menor enchia-lhe
a boca de palavrinhas

maior enchia-lhe
a cela de palavrões 


IV
aziar o corpo aziar a alma aziar a cartilha aziar a lembrança da sopa no prato na mesa
no pão raspando a última letra

*
Joba Tridente - poesia e ilustração - 2014

domingo, 2 de março de 2014

Joba Tridente: Quanto Vale a Cultura?

Há 15 anos publiquei este artigo na Gazeta do Povo, em Curitiba-PR. Naquele tempo (que eu me lembre) as escolas não eram obrigadas a aprovar alunos para cumprir a cota de formação escolar. Naquele tempo (que eu me lembre) não havia livros censurados por conta de um texto adulto distribuído para criança ou por conta de um texto antigo soar preconceituoso no esquema do politicamente correto de hoje... Naquele tempo já havia alunos sem escola, professores miseráveis (com seus salários de fome), estudantes sem merenda, violência escolar... 2014 vai que vai. O que mudou? O que melhorou? Diga você!

Em 2011 postei este texto no Falas ao Acaso. Estou republicando por causa do bonito filme A Menina Que Roubava Livros. Na verdade, a causa é os comentários tolos ao filme, que tenho lido na rede, postados por “leitores” (e não leitores) do livro.


Quanto Vale a Cultura?
Joba Tridente

Dia desses um homem comum, quase do povo, virou notícia nacional. Não mordeu um cachorro ou cometeu algum horrendo crime humano. Estava apenas preocupado com a sua triste sorte de interior. Amante dos livros e a caminho de inteirar a idade, chegou a uma óbvia conclusão. Frente à sua biblioteca particular, era como se estivesse frente a um espelho. Ele e os livros envelheciam. Ele, dentro do ciclo vital humano que, para uns é curto demais e para outros é terrivelmente infinito. Os livros, nas estantes, alguns já meio gagás e mudos há muito.

Assim como alguns brasileiros, o homem comum, quase do povo, venceu as etapas escolares e se formou em sociologia. A caminho da sua formação foi guardando os livros auxiliares e outros que lhe interessavam. Construiu um pequeno e doméstico patrimônio cultural, mas não financeiro. Enquanto vivo, com uma profissão reconhecida, até presidencialmente, poderia manter o seu corpo, depósito da sua cultura, em plena atividade, mas, e depois? Quando a alma, com a cultura adquirida, o deixasse, o que seria feito dele? Seria enterrado como indigente? Serviria de corpo-cobaia para experimentos e treinos em algum hospital-escola? Que destino teria aquele que lhe servira a tantos ir e vir? Triste sina a sua, e a de milhões de brasileiros: não ter onde cair morto! Sim, porque não juntou em bens de valor o suficiente para comprar uma vala, sete palmos, um túmulo, uma tumba qualquer em um cemitério qualquer, para ser enterrado o seu corpo pós-vida. E os livros, seu bem maior, sucumbiriam ao pó e as traças? Aí estava um curioso impasse a ser resolvido.

Poderia, evidentemente, enquanto é tempo, vender o seu pequeno acervo a um sebo e até acompanhar destino final dele. Mas a questão continuava, teria dinheiro suficiente para comprar um túmulo? Nos dias de hoje é um mercado concorrido este. Aliás os dois mercados são concorridos, o dos sebos, com venda de livros, discos e tudo o mais que for vendável e o dos cemitérios, com mais gente nascendo e morrendo a cada dia. Talvez, com a Lei de Doação de Órgãos, em alguns casos, pode-se até ter nada para enterrar e ainda há a opção do crematório, para poucos e privilegiados. Mas ainda será pouco.

Assim, na dúvida do preço alcançado pelos seus livros, o homem comum, quase do povo, resolveu fazer um trato, uma permuta com o prefeito de sua cidade, doaria o seu acervo para a Biblioteca Pública, administrada pela prefeitura, em troca de um túmulo com lápide, onde pudesse deixar um epitáfio. O que foi aceito e virou notícia. Solução original, trocar a o seu acervo por uma sepultura com lápide. Assim o seus livros vão para uma biblioteca pública e o seu corpo para um túmulo com lápide e tudo.

O que me inquieta na verdade, já que depois de morto, tanto faz enterrar, queimar, cortar, jogar no lixo ou, algum responsável, usar como bem entender o meu corpo..., o que me incomoda, é o preço da cultura. O preço do conhecimento, da formação profissional de um indivíduo. Será que a cultura não vale mais que um reles túmulo com lápide? Será que ela só terá algum valor como um bem qualquer, depois da morte, como é comum, para pagar um enterro?

Somos quase todos mendigos do saber, implorando algum trocado para chegar até a próxima página. Mas as vírgulas são muitas e os pontos finais estão sempre interrompendo o livre trânsito do pensamento. Somos Gulliver e Malazartes. Macunaína e Quixote. Policarpos eternamente, em troco da boa morte. Não importa se Ubirajaras, Zés, Pedros ou Manés, a verdade é que estamos a todo momento com o travessão na garganta, as reticências na boca e o carvão gasto nas mãos. Implorando, primeiro, um lugar na vida. Depois...

Para uns o melhor amigo de um homem é o cão. Para outros o gato, o peixe, a cobra, a aranha, a galinha, a vaca... Para a minoria, o livro. Isso mesmo, o livro, este ser alienígena que apavora a tantos e tem sobrevivido a todos. Assim, será que alguma prefeitura aceitaria um bichinho qualquer, em troca de um túmulo com lápide ou mesmo uma cova rasa sem ao menos uma identificação? Nem o zoológico, com essa crise econômica braba que não perdoa sequer os leitores mais assíduos. No entanto, ainda há quem queira receber e cuidar de um livro, em troca de um agrado qualquer. É que, no Brasil, não é tão fácil, quanto parece, comprar e manter a companhia de um livro, mesmo que se queira. Não que seja ilegal, muito pelo contrário, há até quem o incentive, o problema está no preço nada convidativo. É claro, e também na falta de tradição à leitura (ou seria na alfabetização?).

Conheço muita gente que não entende como é que alguém pode “gostar de ler”, principalmente livros, quando pode “ouvir rádio e ver televisão”. Semana passada, comentando com um amigo sobre um livro que me interessava, como livre pensador, num mundo repleto de tradições contra ou a favor do homem pensante, ele tranquilamente confessou: “Não gosto de ler livros, é pura perda de tempo. Gosto é de ver a história de um livro de sucesso transformado em filme e passar dublado na televisão. Não gosto de ver filme no cinema porque a gente tem que ler as legendas. O filme é legal porque a gente consegue viajar na história. No livro não. Acho que um escritor, em vez de escrever, devia gravar a sua história em fita ou CD, pra gente ficar deitado e ouvindo, sem precisar ficar prestando muita atenção ou segurando o livro e virando as páginas.” Como será que alguém consegue imaginar em cima do que já está (re)imaginado e pronto num filme? Não sei. Ele não é o único, o primeiro ou o último, mas o seu discurso faz eco ao que se ouve, daqueles que temem a palavra. Daqueles que temem o tom das palavras naqueles que têm o dom da imaginação. 

Daí que pergunto, quanto vale a cultura? Cada livro comprado e bem cuidado pode funcionar como uma poupança cemiterial? Se isso virar moda, pelo tamanho do túmulo será possível saber o tamanho da biblioteca ou o grau cultural do morto? Ditaremos um novo (?) ditado: “Diga-me o tamanho da tua biblioteca e eu te direi o túmulo que terás!” E se um sujeito, digamos, um pré-morto, conseguir apenas um túmulo simples, de uma prefeitura pobre, poderá pleitear junto às autoridades competentes a realização de um chá-de-túmulo, para arrecadar fundos (e livros?) e providenciar melhorias na sepultura e assim, no pós-morte se rodear de todo conforto? Quem viver, verá! (ou será: quem ler, sepultar-se-á?).

*
Joba Tridente: Artigo (20.04.1998) e Foto (07.01.2014)


domingo, 28 de agosto de 2011

Joba Tridente: A Literatura e a Educação - 3


Dia desses, após a (re)leitura de Nefertiti, e os Mistérios Sagrados do Egito (1964), da escritora brasileira Chiang Sing (1924-2002), comecei a ler O Egípcio (1945), do escritor finlandês Mika Walkari (1908-1979). O Egípcio é um livro curioso e perturbador, profundamente crítico aos sistemas religiosos e políticos. Narra a saga de Sinuhe, médico do Faraó Akhenaton, em viagem pelo mundo antigo, buscando conhecimento medicinal, fortuna e oportunidade para exercer a profissão. Embora alguns diálogos tenham me parecido racistas, o que me chamou a atenção é a forma universal como Walkari trata da formação escolar de Sinuhe. Nas páginas iniciais da edição brasileira de 1985, publicada pela Editora Itatiaia, com tradução de José Geraldo Vieira, encontrei verdadeiras pérolas sobre educação escolar. Pela importância dos textos, que espero ser um incentivo à leitura do romance, selecionei sete belíssimos trechos:

(...) 4
Frequentei a escola de Oneh durante alguns anos. O meu melhor amigo era Thothmes que era um ano e pouco mais velho do que eu e que desde criançola aprendera a lutar e a domar cavalos. Seu pai comandava um esquadrão de carros de guerra e manejava um chicote trançado com fio de cobre; confiava em que o filho chegasse a ser um dia um oficial superior e por tal motivo desejava que ele aprendesse a ler. Mas não havia nada profético quanto ao nome depois ilustre de Thothmes, não obstante as ambições paternas, pois assim que o rapaz começou a frequentar a escola deixou de se incomodar com o arremesso de dardos e a condução de carros. Aprendeu os caracteres com muita facilidade e enquanto os demais alunos lutavam em comum, ele desenhava cenas na sua lousa; cenas de carros, de cavalos empinados, de soldado sem luta. Trazia argila para a escola e enquanto o suco levedado contava histórias pela boca de Oneh, ele modelava uma imagenzinha cômica do Devorador despedaçando com rudes mandíbulas um velhote calvo cujo dorso curvo e cujo ventre de tonel não podiam pertencer a ninguém senão a Oneh. Este, porém, não se zangava. Ninguém podia se zangar com Thothmes. Tinha um rosto largo e curto, pernas grossas de lavrador, mas os olhos possuíam um brilho jubiloso que empolgava e os pássaros e animais formados de argila por suas mãos habilidosas, nos deliciavam. Tomei-me de amizade por ele, inicialmente, por causa do seu feitio marcial; mas a amizade persistiu depois que cessou de mostrar quaisquer traços de ambição guerreira.

(...) 5
Aconteceu um prodígio durante a minha temporada escolar e aconteceu tão repentinamente que ainda considero tal hora como uma hora de revelação. Foi num bonito dia de amena primavera, quando o ar estava repleto de cantos de pássaros e as cegonhas recompunham seus velhos ninhos nos telhados dos casebres de barro. As águas haviam descido e novos rebentos verdes emergiam do chão. Em todos os jardins que tinham recebido sementes plantas brotavam. Era um dia que convidava à aventura, e era impossível permanecermos sentados quietos na velha varanda raquítica de Oneh onde os tijolos se desmantelavam ao menor contato. Eu estava riscando um desses símbolos perpétuos, letras a serem cortadas em pedra e traçando ao lado deles os sinais abreviados usados para serem escritos em cima de papel, quando de repente certa palavra esquecida de Oneh, determinado fulgor estranho dentro de mim, falou e deu vida àqueles caracteres.
Os desenhos se tornaram uma palavra, a palavra uma sílaba e a sílaba uma letra. Quando juntei desenhos a desenhos novas palavras irromperam - palavras vivas, inteiramente distintas dos símbolos. Qualquer rústico pode compreender um desenho; mas dois juntos só tem sentido para o literato. Creio que quem quer que haja aprendido a escrever e a ler sabe que é que estou querendo dizer. Para mim tal experiência se tornou mais fascinante do que arrebatar uma romã do cesto de um vendedor de frutas; mais doce do que uma tâmara seca; tão deliciosa como para o sedento um bom gole d'água.
De então em diante não precisei mais de instigação, mas me embebi nos ensinamentos de Oneh como a terra seca se embebe com o extravasar das águas do Nilo e depressa aprendi a escrever. Não tardou que começasse a ler o que os outros tinham escrito, e no terceiro ano de aula eu já sabia soletrar sozinho trechos de rolos esfarrapados, ler alto para os outros cabulas instrutivas e escreve-las.

 (...) 6
Então Thothmes e eu fomos apanhar as nossas lousas de escrita. O real cirurgião de crânios, olhando abstratamente para os ramos mais altos do sicomoro, ditou um pequeno poema de que ainda me lembro. Dizia assim:
Rejubila-te enquanto és jovem
Pois a velhice engole cinzas  
E qualquer corpo embalsamado  
Não ri na escuridão da tumba.
Tratei de caprichar, escrevendo primeiro em sinais comuns e depois em desenhos. Por fim escrevi as palavras "velhice”, "corpo" e "tumba" de todas as maneiras em que podiam ser escritas com referencia a sílabas e letras. Mostrei-lhe a minha lousa. Não achou nenhum erro e notei que meu pai se sentiu orgulhoso de mim.

(...) 7
Todavia eu era cego e surdo, e assim permaneci, até ao dia em que despertei deveras tal qual sucedera na infância quando desenhos, palavras e letras se transformaram irrompendo em vida. Mais uma vez os meus olhos se abriram e acordei como se emergisse de um sonho; o meu espírito se inundou de alegria porque perguntava a mim mesmo a respeito de tudo:
"Por que?" A formidável chave de todo o conhecimento verdadeiro é "Por que?" É mais poderosa do que o junco de Thoth, mais poderosa do que as inscrições na pedra. 

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Joba Tridente: A Literatura e a Educação - 2


Dia desses, após a (re)leitura de Nefertiti, e os Mistérios Sagrados do Egito (1964), da escritora brasileira Chiang Sing (1924-2002), comecei a ler O Egípcio (1945), do escritor finlandês Mika Walkari (1908-1979). O Egípcio é um livro curioso e perturbador, profundamente crítico aos sistemas religiosos e políticos. Narra a saga de Sinuhe, médico do Faraó Akhenaton, em viagem pelo mundo antigo, buscando conhecimento medicinal, fortuna e oportunidade para exercer a profissão. Embora alguns diálogos tenham me parecido racistas, o que me chamou a atenção é a forma universal como Walkari trata da formação escolar de Sinuhe. Nas páginas iniciais da edição brasileira de 1985, publicada pela Editora Itatiaia, com tradução de José Geraldo Vieira, encontrei verdadeiras pérolas sobre educação escolar. Pela importância dos textos, que espero ser um incentivo à leitura do romance, selecionei sete belíssimos trechos:

(...) 3
Meu professor era o velho sacerdote Oneh que morava perto de nós e que dava aulas na sua varanda derrocada. Seus alunos eram filhos de artesões, mercadores, capatazes de docas e oficiais não comissionados cuja ambição se restringia a abrir uma carreira de escriba para os filhos. Oneh fora servente do Celestial MT do templo e era, por conseguinte bem capacitado para dar lições elementares de escrita a crianças que mais tarde teriam a seu cargo lojas de mercadorias, depósitos de cereais, cabeças de gado ou provisões para o exército. Havia centenas de escolinhas assim na grande idade de Tebas. A instrução não era cara; os alunos tinham apenas que sustentar o professor. O filho do vendedor de carvão se encarregava de lhe encher sempre o braseiro durante o inverno; o filho do tecelão fornecia-lhe tecidos; o filho do merceeiro não deixava que lhe faltassem cereais, e meu pai lhe tratava as muitas dores e pontadas e lhe dava ervas sedativas a serem tomadas com o vinho.
Dependendo tanto de nós, Oneh tinha por força que ser um inefável professor. Um garoto que adormecesse em cima da sua lousa jamais sofria puxões de orelhas; bastava que na manhã seguinte lhe trouxesse uma gulodice. As vezes o filho do cerealeiro trazia uma botija com cerveja. Em dias assim prestávamos atenção porque o velho Oneh ficava inspirado e nos contava estranhas histórias do outro mundo: da Celestial Mut, do Criador, de Ptah e de sexos de seus companheiros.
Ríamos, pensando que o havíamos distraído das nossas tarefas difíceis, principalmente de termos que escrever caracteres enfadonhos pelo resto do dia; foi bem mais tarde que averiguei que o velho Oneh era um professor bem mais sábio do que cuidávamos. Havia um propósito naquela sua mania de contar lendas a que a sua mente piedosa, ingênua, sabia dar vida. Através delas ficávamos sabendo as tradições do antigo Egito. Nelas nenhuma ação má ficava sem castigo. Cada coração humano era pesado ininterruptamente diante do alto trono de Osiris. Cada mortal cujas ações más fossem desvendadas sobre as balanças do deus de cabeça de Chacal era arremessado ao Devorador que era uma fusão de crocodilo e hipopótamo, mais aterrorizante do que qualquer deles isoladamente.
Falava também do sinistro Olho Voltado, o terrível barqueiro sem cuja ajuda ninguém conseguia chegar aos campos dos bem-aventurados; quando remava ia voltado para a popa, nunca para a proa como os barqueiros humanos do Nilo. Oneh nos fazia repetir de cor as frases que nos pudessem ser vantajosas e propícias. Ensinava-nos a copiá-las e a, em seguida, escreve-las de cor, corrigindo nossos erros com a gentil advertência de que o menor engano nos destruiria todos os ensejos de uma vida feliz no futuro.
Se acaso entregássemos ao Olho Voltado uma carta contendo um erro mesmo trivial seríamos forçados a vagar como sombras por toda a eternidade pelas margens daquelas águas sombrias; ou, pior ainda, nos engolfaríamos nos medonhos abismos dos reinos da morte.

domingo, 21 de agosto de 2011

Joba Tridente: A Literatura e a Educação - 1


Dia desses, após a (re)leitura de Nefertiti, e os Mistérios Sagrados do Egito (1964), da escritora brasileira Chiang Sing (1924-2002), comecei a ler O Egípcio (1945), do escritor finlandês Mika Walkari (1908-1979). O Egípcio é um livro curioso e perturbador, profundamente crítico aos sistemas religiosos e políticos. Narra a saga de Sinuhe, médico do Faraó Akhenaton, em viagem pelo mundo antigo, buscando conhecimento medicinal, fortuna e oportunidade para exercer a profissão. Embora alguns diálogos tenham me parecido racistas, o que me chamou a atenção é a forma universal como Walkari trata da formação escolar de Sinuhe. Nas páginas iniciais da edição brasileira de 1985, publicada pela Editora Itatiaia, com tradução de José Geraldo Vieira, encontrei verdadeiras pérolas sobre educação escolar. Pela importância dos textos, que espero ser um incentivo à leitura do romance, selecionei sete belíssimos trechos:

(...) 1
Depois da refeição, meu pai, com um feitio esquisito no semblante, depôs a sua enorme mão sobre a minha cabeça e acariciou com especial ternura os cachos dos meus cabelos nas minhas temporãs.
- Agora já estás com sete anos de idade, Sinuhe, e deves decidir o que queres ser.
- Um guerreiro! - disse eu imediatamente, e fiquei perplexo ante a expressão de desaponto do seu rosto afável.
Nos brinquedos e jogos de rua, os melhores eram os de imitação de guerra; além disso eu contemplara soldados lutarem e se exercitarem no uso de armas diante de tendas e vira carros vistosos de guerra passarem depressa com ruídos de rodas durante as manobras fora da cidade. Não podia haver nada mais nobre nem maior do que a carreira de um guerreiro. Além disso, um guerreiro não precisava aprender a ler, e foi o que me pareceu mais propício, porque meninos maiores costumavam falar sobre a dificuldade da arte de escrever e como os professores eram desalmados, puxando o cabelo dos alunos caso esses mesmo sem querer esmagassem uma lousa de greda ou quebrassem uma pena vermelha entre seus dedos inábeis.
Com certeza se meu pai não conseguira passar de um pobre médico, era por lhe faltarem dons de homem notável. Mas era consciencioso em seu trabalho e jamais fazia mal seus pacientes, e até, com o decorrer dos anos, tornara sábio por causa da muita experiência. Já sabia quanto eu era sensível e voluntarioso, de forma que não fez nenhum comentário à minha resolução.

(...) 2
Olhou para mim com ar de raciocínio.
- De fato um guerreiro não precisa escrever. Apenas, lutar. Se souber escrever poderá ser um oficial comandando os mais valentes aos quais mandará para frente de batalha. Todo aquele que sabe escrever está apto a comandar; mas um homem que não sabe escrever garatujas jamais terá nem mesmo cem indivíduos sob as suas ordens. Que prazer pode ter um homem em usar correntes de ouro e receber honrarias quando é o sujeito com a pena vermelha na mão que dá as ordens? Assim tem sido e assim será. Por conseguinte, meu rapaz, se desejas comandar homens e conduzi-los, aprende a escrever. Então os ajaezados de ouro se inclinarão diante de ti, e escravos te carregarão numa liteira para o campo de batalha.
- Teu pai Senmut é um homem bom. Sabe escrever e me tratou nos dias prósperos quando eu tinha vinho abundante e chegava a ver até crocodilos e hipopótamos onde absolutamente não havia nenhum. Um homem bom, conquanto seja apenas um médico e não saiba manobrar um arco. Sou-lhe grato.
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