sábado, 13 de outubro de 2012

Zalina Rolim: O Cão e os Pássaros



Nesta Semana da Criança postei, a cada dia, um texto diferente, em prosa e ou em verso, de autor brasileiro e ou estrangeiro. Encerro com este poema que encontrei no Livro das Crianças, de Zalina Rolim, editado em 1896. Mais uma curiosidade que pincei no Portal da Unicamp. Muita coisa mudou no ensino e na literatura infantojuvenil, neste último século. E estou sempre fuçando, procurando entender as mudanças.


O Cão e os Pássaros

FEROZ é um velho cão de guarda. A gente,
Que o vê de longe, teme-lhe os olhares,
E examina a grossura da corrente
Férrea, que o liga ao muro dos seus lares.

Ninguém lhe amima o dorso largo e forte;
Ninguém procura o seu olhar profundo;
Do seu caminho fogem, de tal sorte
Que ele se vê sozinho neste mundo.

O próprio dono evita-lhe os afagos,
Olha-o receoso, e se aproxima a custo.
Do velho cão nos grandes olhos vagos,
Paira a tristeza de um castigo injusto.

Não compreende o terror por ele aceso;
Quer mostrar-se bondoso, e a cauda agita,
Mas o rumor dos ferros, que o têm preso,
Mais pavor nos corações excita.

E ele, sentindo assomos de revolta,
Tenta quebrar os elos da cadeia...
Mas, pouco a pouco, a placidez lhe volta,
E o louco instinto, devagar, sopeia.

Inclina o corpo e estende-se por terra,
Preso ao terror, que a própria força inspira;
E, silencioso, úmidos olhos cerra,
Sem mais vislumbre de despeito ou ira.

Velando à porta do casebre, sonha...
O campo é todo verde; o céu fulgura,
E erra no espaço, trêfega e risonha,
A azado vento a derramar frescura.

Nova agonia o coração lhe aperta,
Nostálgico, aspirando o fim de tudo...
Nisto, um ligeiro frêmito o desperta,
E ele abre os olhos, cauteloso e mudo.

São passaritos. Ei-los! Não têm medo
Vêm partilhar com ele o magro almoço.
E, compassivo, espera imóvel, quedo,
Que eles se vão, para roer um osso.

E o velho cão de pavoroso aspecto,
Que nunca teve a graça de uns carinhos,
Sentindo o peito a transbordar de afeto,
Trêmulo escuta a voz dos passarinhos.


Em seu prefácio o entusiasmado professor Gabriel Prestes diz: NÃO é de crítica este prefácio. É apenas uma advertência sobre o valor pedagógico do precioso livro escolar que a distinta poetisa e professora d. Zalina Rolim oferece às nossas escolas e que o governo do Estado, por indicação do Conselho Superior, em boa hora resolveu publicar, satisfazendo todas as condições estéticas exigíveis em trabalho desta natureza. (...) A leitura de uma das poesias de que o livro se compõe, tomada ao acaso, dispensa-me de qualquer apreciação sobre o seu mérito literário, o que, aliás, me levaria muito além dos limites a que tenho de me restringir. (...) Basta-me, pois, dizer que, quanto à impressão, o livro de d. Zalina Rolim será um primor de nitidez e elegância, quanto à composição, um modelo de singeleza e espontaneidade. (...) O "Livro das Crianças" vai ser de inapreciável valor para o ensino de nossas escolas. É mais do que um simples livro de leitura, é um modelo sugestivo para o ensino da linguagem oral e escrita. (...) Se, em uma frase apenas fosse possível resumir este prefácio, eu diria que o valor deste trabalho vai além do que indica o seu título: não é apenas um "Livro das Crianças", é também um livro para crianças e, mais do que isso, é um livro para os bons mestres.

Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo (1869 - 1961). Professora alfabetizadora, transferiu-se com a família para São Paulo em 1893. Educadora, entre 1896 e 1897, exerceu o cargo de vice-inspetora, do Jardim da Infância anexo à Escola Normal Caetano de Campos, em São Paulo. Escreveu para diversas revistas femininas e jornais como A MensageiraO ItapetiningaCorreio Paulistano e A Província de São Paulo. Obras: O coração (1893); Livro das Crianças (1897); - Livro da saudade - organizado nesta data para publicação póstuma - (1903). Referência: Portal Unicamp.

Ilustração de Joba Tridente. 2012

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