sábado, 3 de setembro de 2016

Murillo Araujo: Sonho de Herói

Aproveitando que no mês de setembro, além da primavera, e ou talvez por isso, o Brasil é tomado por feiras de livros e encontros literários, expondo a velha e a nova literatura para novos e velhos leitores, decidi (re)visitar alguns grandes escritores brasileiros e portugueses, cuja obra pode ser apreciada com prazer e considerações por crianças de qualquer idade. São poemas que remetem à infância, ao campo, aos jogos juvenis..., por vezes até melancólicos no seu saudosismo, mas sempre (e)ternos no registro lúdico de um tempo que já não há. Há muito!

O número de poemas será o de um a três, por autor, e as postagens sempre individuais (um por página) para melhor apreciação de cada obra.  Esta primeira edição contará com mais ou menos 30 escritores pinçados ao acaso em meus arquivos. Futuramente farei uma edição apenas com escritoras.

Comecei com a tocante evocação da Infância, do escritor simbolista/modernista Murillo Araujo (1894 - 1980). Ontem lembrei a sua graciosa manifestação da Natureza em Humoresco Silvestre. Hoje ressalto a beleza de uma imaginação fértil em Sonho de Herói, do livro Poemas completos de Murilo Araújo (1960). O próximo autor será Augusto Meyer (1902-1970).



Sonho de Herói
Murillo Araujo

Com um galho de bambu verde
e dois ramos de palmeira
eu hei de fazer um dia meu cavalo – com asas!

Subirei nele, com o vento, lá bem alto,
de carreira,
por sobre o arvoredo e as casas.

Voarei, roçando o mato,
as copas em flor das árvores,
como se cruzasse o mar...
e até sobre o mar de fato
passarei nas nuvens pálidas
muito acima das montanhas, das cidades,
mais alto que a chuva, no ar!

E irei até as estrelas,
ilhas dos rios de além
ilhas de pedras divinas,
de ribeiras diamantinas
com palmas, conchas, coquinhos nas suas
praias de pérola e de ouro
onde nunca foi ninguém...

*
Ilustração de Joba Tridente - 2016



Murillo Araujo (Serro-MG: 26.10.1894 – Rio de Janeiro-RJ: 01.08.1980), advogado, jornalista, escritor e crítico literário. Um dos expoentes do modernismo, lançou o seu primeiro livro, Carrilhões, em 1917, cinco anos antes da Semana de Arte Moderna. Em poesia publicou: A galera (1920), Árias de muito longe (1921), A cidade de ouro (1927), A iluminação da vida (1927), A estrela azul (1940), As sete cores do céu (1941), A escadaria acesa (1941), O palhacinho quebrado, A luz perdida (1952), O candelabro eterno (1955) e, em prosa: A arte do poeta (1944), Ontem, ao luar (1951), Catulo da Paixão Cearense, Aconteceu em nossa terra (pequenos casos de grandes homens), Quadrantes do Modernismo Brasileiro (1958). Murillo traduziu o livro O inspetor geral, do escritor russo Nikolai Gogol (1809 - 1852). Fonte: Antonio Miranda e Murillo Araujo Vida e Obra.

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