sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Olavo Bilac: O Pássaro Cativo

Aproveitando que no mês de setembro, além da primavera, e ou talvez por isso, o Brasil é tomado por feiras de livros e encontros literários, expondo a velha e a nova literatura para novos e velhos leitores, decidi (re)visitar alguns grandes escritores brasileiros e portugueses, cuja obra pode ser apreciada com prazer e considerações por crianças de qualquer idade. São poemas que remetem à infância, ao campo, aos jogos juvenis..., por vezes até melancólicos no seu saudosismo, mas sempre (e)ternos no registro lúdico de um tempo que já não há. Há muito!

O número de poemas será o de um a três, por autor, e as postagens sempre individuais (um por página) para melhor apreciação de cada obra.  Esta primeira edição contará com mais ou menos 30 escritores pinçados ao acaso em meus arquivos. Futuramente farei uma edição apenas com escritoras.

Olavo Bilac (1865-1918) é um dos mais importantes escritores brasileiros. Grande parte de sua obra é dedicada ao universo infantojuvenil. Do seu livro Poesias Infantis (1904), resgato dois poemas. Hoje publico O Pássaro Cativo..., um pertinente libelo à liberdade. Amanhã você conhece o destino trágico de uma boneca.



O Pássaro Cativo
Olavo Bilac

Armas, num galho de árvore, o alçapão.
E, em breve, uma avezinha descuidada,
batendo as asas cai na escravidão.

Dás-lhe então, por esplendida morada,
     A gaiola dourada;
Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos, e tudo:
Por que é que, tendo tudo, há de ficar
    O passarinho mudo,
Arrepiado e triste, sem cantar?

É que, criança, os pássaros não falam.
Só gorjeando a sua dor exalam,
Sem que os homens os possam entender;
   Se os pássaros falassem,
talvez os teus ouvidos escutassem
Este cativo pássaro dizer:
        
   "Não quero o teu alpiste!
Gosto mais do alimento que procuro
Na mata livre em que a voar me viste.
Tenho agua fresca num recanto escuro.
   Da selva em que nasci;
Da mata entre os verdores,
   Tenho frutos e flores,
   Sem precisar de ti!
Não quero a tua esplêndida gaiola!
Pois nenhuma riqueza me consola
De haver perdido aquilo que perdi...
Prefiro o ninho humilde, construído
De folhas secas, plácido, e escondido.
Entre os galhos das árvores amigas...
   Solta-me ao vento e ao sol!
Com que direito a escravidão me obrigas?
Quero saudar as pompas do arrebol!
   Quero, ao cair da tarde,
Entoar minhas tristíssimas cantigas!
Por que me prendes? Solta-me, covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade!
Não me roubes a minha liberdade...
   Quero Voar! Voar!..."

Estas coisas o pássaro diria,
   Se pudesse falar.
E a tua alma, criança, tremeria,
   Vendo tanta aflição.
E a tua mão, tremendo, lhe abriria
   A porta da prisão...

   *
   ilustração de Joba Tridente.2016


Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (Rio de Janeiro-RJ: 16.12.1865 - Rio de Janeiro-RJ: 28.12.1918), jornalista, escritor (parnasiano) de prosa e verso e membro fundador da Academia Brasileira de Letras (1896), onde ocupou a cadeira 15, cujo patrono é o poeta Gonçalves Dias. Olavo Bilac, eleito Príncipe dos Poetas Brasileiros, pela revista Fon-Fon, em 1907, tinha grande apreço pela literatura dirigida aos jovens. Republicano e nacionalista o polemista escritor é autor do Hino à Bandeira e de Poesias (1888); Crônicas e novelas (1894); Sagres (1898); Crônicas e Novelas (1894); Alma Inquieta (1902); Via Láctea (1888); Sarças de Fogo (1888); O Caçador de Esmeraldas (1902); As Viagens (1902); Crítica e fantasia (1904); Poesias infantis (1904); Contos Pátrios (1904); Conferências literárias (1906); Tratado de versificação (1905); Dicionário de rimas (1913); Ironia e piedade (1916); A Defesa Nacional (1917); Tarde (1919). Para saber mais: Academia Brasileira de Letras; Wikipédia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...