sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Mario Quintana: A Casa Fantasma

Aproveitando que no mês de setembro, além da primavera, e ou talvez por isso, o Brasil é tomado por feiras de livros e encontros literários, expondo a velha e a nova literatura para novos e velhos leitores, decidi (re)visitar alguns grandes escritores brasileiros e portugueses, cuja obra pode ser apreciada com prazer e considerações por crianças de qualquer idade. São poemas que remetem à infância, ao campo, aos jogos juvenis..., por vezes até melancólicos no seu saudosismo, mas sempre (e)ternos no registro lúdico de um tempo que já não há. Há muito!

O número de poemas será o de um a três, por autor, e as postagens sempre individuais (um por página) para melhor apreciação de cada obra.  Esta primeira edição contará com mais ou menos 30 escritores pinçados ao acaso em meus arquivos. Futuramente farei uma edição apenas com escritoras.

Com três poemas do mestre da simplicidade, o eterno Mario Quintana (1906-1994), encerro esta série que buscou regatar a memória afetiva e lúdica de alguns autores que praticaram sua bela poesia em língua portuguesa. Embora menosprezada pela Academia Brasileira de Letras, a obra universal do premiado Quintana deve ser apreciada sem moderação por qualquer público leitor. Se anteontem você viajou de trem no seu convidativo Poema Transitório! Se ontem conheceu Uma Historinha Mágica muito criativa! Hoje vai se emocionar com a imensa sensibilidade de Mário Quintana no seu pertinente poema A Casa Fantasma. O cinza afrontando o azul. O concreto cobrindo o verde. O desenvolvimento urbano massacrando o pertencimento humano. O clamor do poeta colocando o leitor diante da beleza do intangível.


                    

A Casa Fantasma
Mario Quintana
                                                    
A casa está morta?
Não: a casa é um fantasma,
um fantasma que sonha
com a sua porta de pesada aldrava,
com os seus intermináveis corredores
que saíam a explorar no escuro os mistérios da noite
e que as luas, por vezes,
enchiam de um lívido assombro...
Sim!
agora
a casa está sonhando
com o seu pátio de meninos pássaros.
A casa escuta... Meu Deus! a casa está louca, ela não
             [sabe
que em seu lugar se ergue um monstro de cimento e
             [aço:
há sempre uma cidade dentro de outra
e esse eterno desentendido entre o Espaço e o Tempo.
Casa que teimas em existir
a coitadinha da velha casa!
Eu também não consegui nunca afugentar meus
           [pássaros.

*
ilustração de Joba Tridente.2016


Mario de Miranda Quintana (Alegrete-RS: 30.07.1906 –Porto Alegre-RS: 05. 05.1994), jornalista, tradutor, poeta (maior) brasileiro. O “poeta das coisas simples”, o “prosador” do cotidiano, traduziu Marcel Proust, Virgínia Wolf, Giovanni Papini, Honoré Balzac, Voltaire, Graham Greene, Joseph Conrad, Guy de Maupassant, Aldous Huxley, Somerset Maugham, entre outros mestres da literatura universal. Amado por uma grande legião de fãs no Brasil e exterior, mas menosprezado pela Academia Brasileira de Letras, o premiado escritor lançou o seu primeiro livro de poesias, A Rua dos Cataventos, em 1940. Quintana trabalhou na Editora Globo e no jornal Correio do Povo. Para saber mais da sua fascinante biografia e extensa bibliografia, sugiro a leitura de Jornal de Poesia: Mario Quintana; Releituras: Mario Quintana; Antonio Miranda: Mario Quintana. Wikipédia: Mario Quintana.

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